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Algumas Considerações sobre a Empatia

Empatia: poder de projetar a própria personalidade no objeto de contemplação (e assim compreendê-lo totalmente).
The Shorter Oxford English Dictionary.

A empatia que é um fenômeno tão importante para que um adulto compreenda a uma criança, exige que se considere ao outro como um igual, mas não em relação a conhecimento ou a maturidade, mas sim, em relação aos motivos que nos motivam a todos. Deste modo, uma reação empática significa tentar colocar-se no lugar do outro, de forma que nossos sentimentos possam nos revelar não só as suas emoções, mas também os seus motivos.

Existe um provérbio francês que uma "verdadeira" compreensão de outro ser humano, equivale a "desculpar" o que ele faz. Assim, quando ocorre a empatia, podemos dizer que "sentimo-nos" como a outra pessoa se sente. Em outras palavras e utilizando outro provérbio, é como "estar na pele do outro". Neste sentido, gostaríamos de recordar que Freud nos disse que existe uma afinidade de nosso inconsciente com o inconsciente de outra pessoa, possibilitando-nos a sua compreensão.

Sabemos que, do âmbito do intelecto não podemos explicar exatamente o que está envolvido no amor, no ódio, no ciúme ou mesmo na ansiedade, na depressão e na alegria. Contudo, se já experimentamos este estado de espírito, nos aproximaremos mais facilmente do que a outra pessoa está sentindo. Por exemplo, para compreendermos o que emociona profundamente nossos filhos, teremos que usar de nossa razão para entender o que estão querendo nos dizer, através de palavras e atitudes, enquanto o nosso inconsciente, através "da projeção no nosso objeto de contemplação", tentará localizá-los em relação às nossas próprias experiências internas, passadas e atuais.

Podemos com relativa freqüência observar no atendimento de adolescentes, os quais freqüentemente não conseguem identificar a origem verdadeira de sua raiva, e isso porque vivem sob o impacto de sentimentos psicológicos tão fortes que acabam por dominar toda a sua vida psíquica. Estamos acostumados a utilizar uma metáfora criada pessoalmente para ilustrar essa questão. Pensemos numa moeda comum, com "cara" e "coroa". Se de um lado temos a raiva, muitas vezes de outro temos a tristeza e a depressão. Quero aqui, dizer com isso, que muitas vezes deixamo-nos levar pelos comportamentos manifestos pelos pacientes, tornando-nos um tanto displicentes em relação a tudo aquilo que esta conduta pode estar defendendo. Aqui, apenas me permitindo uma pequena digressão, seria o caso daquele paciente que nos traz enormes dúvidas quanto á sua sexualidade, como me lembro de um ex-paciente meu que me dizia algo assim: eu não chego a uma conclusão, já experimentei com mulher e não gostei; com homens, eu adoro a fase da paquera, mas quando chega o momento da cama, eu detesto também. Na verdade o que sou eu? Qual é a minha, em termos de sexualidade? Entendo ter sido muito feliz com o manejo da técnica naquela ocasião, quando na verdade lhe perguntei: "Você me disse que com os homens tudo vai bem até o momento da paquera e, que as coisas complicam quando a coisa chega na cama. Como você imagina que, com os homens poderia ser legal quando chegasse a hora da cama?" Numa resposta quase imediata, me disse que se imaginava com um homem num quarto qualquer, com o homem deitado de barriga para cima e de calças e ele deitado sobre o peito desse homem, enquanto este lhe acariciava os cabelos. Essa cena a mim descrita me remeteu de imediato que poderia muito bem ser o retrato da cena de um pai e de um filho, este deitado no peito do pai e o pai lhe acariciando os cabelos. O detalhe do homem de calças parece que torna clara a exclusão de qualquer possibilidade sexual propriamente dita. Isso acabou por fazer todo o sentido, uma vez que por ocasião das entrevistas preliminares ao início de sua análise, havia me dito que há anos não falava mais com o pai porque haviam se desentendido.

Dessa forma, nos perguntamos como realmente fazia muito sentido as suas dúvidas manifestas em relação à sua opção sexual, uma vez que aqui se tinham problemas de origem identificatória, teríamos também o caso da "moeda", onde aparentemente odiava o pai, mas por outro lado, na sua fantasia, parecia nos confirmar o quanto ainda buscava por ele nos outros homens, enfim, muita água tinha a rolar por debaixo da ponte, antes mesmo de podermos chegar a uma discussão sobre a sua "opção sexual". Era muito evidente que a problemática deste paciente estava detida muito aquém dessa temática trazida como queixa manifesta.

Apenas algumas palavras sobre o "Não Sei":

Notemos que os pais muitas vezes acabam por ficar irritados quando um filho lhes responde com um não-sei, sobre algo que tenham feito, ou mesmo a uma atitude que tenham tomado. Primeiro tendem a achar que estão se esquivando de dar a resposta correta, além de não se conformarem que, uma vez sendo seus filhos, nem seu próprio inconsciente poderia ser-lhes desconhecido, assim como quando andaram pela primeira vez, etc.

A criança, por sua vez sente que desagrada aos pais com essa resposta insatisfatória, e acaba por ficar num estado muitas vezes de verdadeira perplexidade, uma vez que ainda não é capaz de discernir que existe sempre mais de um ponto de vista. Não podem imaginar-se corretas, sendo que desagradam aos pais simultaneamente, não podendo assim coexistir duas "verdades" ao mesmo tempo. Com muita freqüência o não sei não é apenas um modo de fugir da questão, mas sim a expressão correta diante da perplexidade da criança. É muito provável que, inicialmente ela sabia o que fez e porque fez, mas segundo a maneira pela qual a inquirimos, demonstrando a nossa desaprovação, ela acaba por ficar confusa, ficando, a partir daí, bloqueada.

Parece-me que aqui estamos diante de uma excelente oportunidade para fazer uma "ponte" com a situação analítica, ou no geral, psicoterápica. Quando praticamos as supervisões clínicas, tem-se amiúde a oportunidade de observarmos que os supervisionandos muitas vezes fazem algumas perguntas aos seus analisandos, como quem lhes estivesse "dando uma dura", o que equivaleria a uma interpretação,mas num matiz superegóico. Como um exemplo que me ocorre neste momento em que escrevo, recordo de uma supervisão que eu dava onde o analista, depois de ouvir que seu analisando tinha mantido relações sexuais com uma nova parceira, sem a utilização de preservativo, lhe dissera algo mais ou menos assim: "Mas você não sabe que o uso de preservativo é absolutamente indispensável?". Dentro de um aspecto mais regressivo, poderemos esperar quase com certeza que esse mesmo paciente vá acabar por se omitir diante dessa temática em relação ao seu analista e, cá entre nós, que ninguém nos escute!!!, com toda a razão em fazê-lo, diante de uma experiência prévia, onde o analista teria sido tudo, menos analista com o seu analisando.

Uma outra lembrança que me acudiu ao espírito nesse momento foi aquela relatada por analistas ingleses, seguidores de uma orientação kleiniana, onde estando aqui em São Paulo, nos contaram uma experiência de uma paciente que, salvo melhor juízo, teria sido uma paciente da própria Melanie Klein. A paciente chega ao seu horário habitual para a sessão, vinda diretamente do enterro de sua mãe, e como se mostrava muito desalentada, parece que a própria M. Klein ter-lhe-ia dito: "Olha, não se deite no divã, sente-se aqui comigo no sofá, que hoje vamos conversar como duas amigas". Na sessão seguinte a essa, a paciente chega ao seu horário habitual e se deita normalmente no divã. Começa a sua fala dizendo algo assim: "Puxa, na sessão passada eu senti tanta falta da 'minha analista'". Deixo essa reflexão, para que se possa pensar sobre ela, assim como uma visão empática, pode vir a ser "míope".

Retomando, se sempre ou quase sempre que uma criança fala a sua verdade, ou seja como ela interpretou determinada situação pela qual passou, e sente a conseqüente ou, melhor dizendo, a inconseqüente desaprovação por parte dos pais, é muito difícil que ela não acabe cedendo à sedução de enfeitar os fatos, distorcê-los inclusive, para que os seus pais não se sintam tão desagradados. Assim sendo, estaríamos aqui, diante daquilo, que pode ser chamado de "o aprendizado da mentira", mentira esta que se insere numa esfera puramente defensiva, no entanto, não nos esqueçamos que se defesas existem, são para ser utilizadas, até que se prove o contrário, ou, que apareçam modalidades de conduta menos conflituosas entre pais e filhos. Penso que, guardadas as devidas proporções, poderíamos estender essas reflexões sobre o "aprendizado da mentira", para além de pais e filhos, analistas e analisandos, chefes e funcionários, governantes e governados, enfim em todas aquelas situações onde nos defrontamos o poder envolvido numa relação.

Marx já nos dizia que para cada instrumento de controle do Estado, o povo deveria e poderia criar instrumentos de contra-controle. Penso que as metáforas que cabem nessa colocação, nos são muito bem vindas para complementar a nossa reflexão sobre a questão da empatia.

Uma citação:

"As crianças precisam mais de modelos do que de críticos".

Joseph Joubert, Pensées, 1842.

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