“Que tu és como um Deus: Princípio e Fim”: Reflexões sobre a paixão e o desamparo

crédito:

Maria Vitoria Maia Prof. Adjunto da UFRJ, Doutora em Psicologia PUC-Rio, Mestre em Letras PUC-Rio, Psicanalista CPRJ, Psicopedagoga Uniceub-BSB/Ceperj

Fanatismo  –  Florbela Espanca 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida! 
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida! 
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim! 
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

***

Atrás da Porta  –  Chico Buarque e Francis Hime

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus,
juro que não acreditei,
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei.
E me arrastei, e te arranhei,
E me agarrei nos teus cabelos,
No teu peito, teu pijama,
Nos teus pés ao pé da cama.
Sem carinho, sem coberta,
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho.
Dei pra maldizer o nosso lar,
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço,
Te adorando pelo avesso,
Prá mostrar que inda sou tua,
Até provar que inda sou tua.

Como uma pessoa apaixonada percebe o outro?

Acredito que a poesia de Florbela Espanca descreva com detalhes esse olhar da paixão. Para a pessoa que ama o que existe é o outro, no qual ele se dilui e se funde. Seu “eu” inexiste e para ele somente existirá o que o outro quiser, sentir ou viver. O ser amado é intocável, inabalável e jamais estará errado ou terá defeitos, é totalmente idealizado e com ele, aquele que ama, está totalmente identificado.

Como Florbela nos metaforiza esse estado de alma e de espírito que acaba constituindo-se em uma forma de olhar o mundo? As figuras de linguagem por ela utilizadas são de uma intensidade que se coadunam com o termo paixão e com o título da poesia – Fanatismo -, a hipérbole vai sendo construída em gradação até o verso final, no qual o “Eu Lírico” declara ser o ser amado um” Deus, princípio e fim”.

Freud situa a questão da paixão como um desinvestimento libidinal narcísico do sujeito em si e um investimento dessa mesma libido, de forma maciça, no outro, ou no objeto amado, elevando-o, assim, ao nível de um ideal. Há, com a idealização, a produção de um fascínio e de uma atratibilidade irresistível do objeto amado por sobre aquele que ama.

Na poesia, esse estado de transbordamento da libido fica evidente quando o “Eu Lírico” descreve-se como “cego” por somente enxergar o ser amado; quando este coloca o ser amado como a única razão do seu viver e de este ser  toda a sua vida (escolha do tipo narcísica). Tal estado é descrito pela poetiza como um enlouquecimento, no qual tempo e espaço param de ter sentido, instaurando uma regressão a que Freud denomina de  estado de onipotência infantil. O terceto final do soneto florbeliano retrata bem esse estado:

“E, olhos postos em ti, digo de rastros:“Ah! Podem voar mundos, morrer astros”,Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…””

Freud (1921) caracteriza esse estado de paixão, em seu artigo “Psicologia de grupo e a análise do ego”, como um estado no qual o olhar da paixão reduz o eu a uma modéstia e uma despretensão cada vez mais acentuada e, conseqüentemente, o objeto se torna “cada vez mais sublime, precioso”, obtendo ao final a posse de “todo o auto-amor do ego”, tendo como decorrência natural, inclusive, o auto-sacrifício. Como bem enfatiza Freud, na paixão “o objeto, por assim dizer, consumiu o ego”. Desta forma, as funções do ideal do eu deixam de funcionar.

Para Freud (1921), o estar apaixonado é um estado diferente do estar amando (escolha do tipo anaclítica): o estar apaixonado inclui fascinação e servidão; no estar amando “o ego enriqueceu-se com as propriedades do objeto, introjetou o objeto em si próprio.”; no estar apaixonado, o ego “empobreceu-se, entregou-se ao objeto, substituiu seu constituinte mais importante pelo objeto.” (p.123)

Referente à paixão poderíamos dizer que há um investimento exclusivo no objeto, e isto corresponderia a uma idealização maciça neste, não deixando margem para que qualquer outro objeto tome o seu lugar . Por isso relacionarmos paixão com eu ideal e não com ideal do eu, porque caso a identificação fosse com o ideal do eu haveria uma idealização menor, menos absoluta, haveria lugar para o surgimento de outros ideais de eu, substitutos deste.

Interessante, aqui, tentarmos estabelecer o que seja idealização para Freud. No contexto do artigo no qual nos baseamos, idealização seria o objeto ser tratado da mesma maneira que tratamos nosso próprio “eu”. O processo de idealização é importante para a constituição do que mais tarde Freud irá denominar de supereu. Mas quando se está apaixonado algo dessa idealização transborda e “cega” o ideal de eu, aquela censura interna que, segundo Freud, nos mostra o dado de realidade no qual estamos submersos.

Na poesia de Florbela, essa cegueira do eu em relação ao outro e a perda do princípio da realidade que o ideal de ego instaura a partir da censura interna fica evidenciada na seguinte estrofe:

“Não vejo nada assim enlouquecida… Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida!”

O que importa para o “Eu Lírico”, aqui, é o outro e o olhar do outro, o corpo do outro e o desejo do outro, sentido como se fossem ele mesmo. Claramente a poetiza metaforiza esse processo de idealização da paixão, assim como a identificação com o eu ideal,  ao utilizar  o enlouquecimento como imagem. O mundo passa ser algo misterioso, onde  o outro possui o deciframento, e essa história não é de agora, como bem demarca esse mesmo “Eu Lírico”, é algo “tantas vezes lida”, ou seja, é algo que advém de uma pré-história desse “Eu Lírico”, advém de sua tenra infância, na qual o eu ideal estava sendo constituído a partir da sua identificação primária com a mãe e seu olhar. Na paixão se re-vive o estado narcísico primário e a sensação de completude.

O outro é esse espelho que nos informa: “eu te vejo assim”. O ser apaixonado se vê no outro, mas o que ele vê é algo misto entre o conhecido e o estranho.O eu ideal é sucedâneo desse olhar do outro/eu especular materno. É este olhar que nos constitui porque espelha-nos. Quando nos apaixonamos, o “ele” vira sinônimo de “mim” mesmo.

O ser apaixonado, ao colocar o ideal no outro, recupera essa sensação de completude, de onipotência  a partir do outro. Estranho deslocamento, posto que a onipotência não é mais dele e sim daquele que ele ama e a ele devota todo o seu amor.

A questão, assinalada por Pierra Auligneir, de Thânatos ser mais presente na paixão do que Eros é cabalmente aqui representada no verso final do terceto – “pois que tu és como um Deus: princípio e fim”. Assim, paixão estaria ligada à morte, à morte de um eu diferenciado ou constituído como tendo “vida” própria.

Mas quando o outro não mais quer se responsabilizar por esse “enlouquecimento”, o que advém?

“Eu te perco; estou triste”: o olhar do desamparo no perder de vista o objeto“Agora, que faço eu da vida sem você?Você não me ensinou a te esquecerVocê só me ensinou a te quererE te querendo eu vou tentando te encontrarVou me perdendoBuscando em outros braços seus abraçosPerdido no vazio de outros passosDo abismo em que você se retirou e me atirou e me deixou aqui sozinho” (Caetano Veloso / Fernando Mendes)  

Podemos, nesse instante, olhar a paixão sob outra ótica, a ótica da relação de objeto postulada por Winnicott e a questão do objeto subjetivo. Se virmos o ser apaixonado como um bebê em estado de narcisismo primário, totalmente identificado com o objeto de seu amor, tendo criado seu objeto para o seu prazer de forma totalmente onipotente, podemos tentar entender o ser apaixonado como estabelecendo uma relação de objeto com o outro, e sendo esse outro um objeto subjetivo para ele. Ou seja, para o ser apaixonado o outro não existe a não ser como extensão de si mesmo e, portanto, este outro é capaz de tudo ser e também tudo suprir, posto mágico e totalizante. Na paixão, o eu não pode usar o objeto porque o objeto está fundido com ele, não existe como um terceiro. Ele é subjetivamente concebido. O que existe é uma relação amado-amante, uma imagem na qual o jogador pula com a bola que este joga para cima, em um mesmo movimento.

Ocorre o eclipse do mundo e inaugura-se, como vimos, um outro tempo, o da comunicação passional. Efetua-se o que Assoun (1999) denomina de fenômeno de deslumbramento erótico.

O desejo do ser apaixonado é ser atendido em todas as suas necessidades, igual ao bebê; é ter “suas necessidades adaptadas e reconhecidas”. Cabe ao outro perceber, antes dele, o que deve ser feito!

Jan Abram (2002) introduz o conceito de “objeto sobrevivente” como o objeto necessário de ser construído pelo sujeito para que possa alcançar o status de poder olhar para a vida de forma criativa e objetiva, ou seja, para que possa usar o objeto e ter em si objetos objetivamente percebidos. O interessante nesse conceito de Abram para o estudo da paixão é exatamente a questão de que, quando o objeto subjetivo é abruptamente passado para objeto objetivamente percebido,  o sujeito acaba por possuir em si não o objeto sobrevivente, e sim, um objeto não sobrevivente, que sobrepuja o objeto sobrevivente não desenvolvido.

A questão que aqui se coloca é quando, nesse processo fusional que se estabelece entre o ser apaixonado e o objeto da paixão, há a quebra desse estado de onipotência, dependência e submissão, porque acreditamos que, nesse momento de quebra da ilusão e na passagem abrupta para a desilusão (ou realidade) se constitua o desamparo, mascarado e ocultado pela onipotência  e perfeição narcísica posta pelo eu no  objeto. É como se o objeto da paixão falhasse com o apaixonado para além de sua capacidade de absorver essa falha. Assim, o objeto que antes sombreava o eu, ofusca-o com sua realidade e singularidade, se introduz intrusivamente em um momento ainda não propício para tanto. O que resta ao ser apaixonado, que se vê diante do outro que não mais o quer, é o objeto não sobrevivente. O objeto introduz, no espaço da paixão, a questão da crueldade e do desamparo. O que não era visto, passa a sê-lo.

Como na paixão o outro é somente uma imagem especular, identificado com o eu ideal do ser apaixonado, sendo assim, onipotente e absoluto, sem falhas, este outro sustenta uma fantasia de completude e de sentimento oceânico, tal qual Freud descreve esse narcisismo original em seu artigo de 1914, “Introdução ao narcisismo”, assim como em “O mal- estar na civilização” (1930).

“No auge do sentimento de amor, a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer. Contra todas as provas de seus sentidos, um homem que se ache enamorado declara que ‘eu’ e ‘tu’são um só, e está preparado para se conduzir como se isso constituísse um fato”(p.75)  

A perda dessa idéia de completude traz, para o cenário, o drama do desamparo. Quando correspondido, esse sentimento de apaixonamento traz consigo a idéia de ser completo com e a partir do outro; quando rompido ou desiludido, o que surge é o fantasma do abandono, a fragilidade do eu e  a evidência da dependência do ser amado em relação ao objeto passional: é a vivência perene de estar só, de solidão. “Deste modo, a paixão amorosa pode ser contraposta ao desamparo porque ela representaria ilusoriamente a felicidade ou o tudo, quanto o desamparo seria metáfora da catástrofe traumática ou do nada” (Lejarraga,1998:165) Assim, a desolação advém com a perda do objeto passional.

Se retornarmos a Freud (1930), em seu artigo “Mal estar na civilização”, veremos que ele nos adverte quanto ao sofrimento que o amor traz para o ser humano, pois quando este é correspondido está presente de forma latente, mas quando não correspondido ou quando perdido, estamos mais desamparados e infelizes ainda:

Os versos buarquianos demonstram o que até agora tentamos desenvolver como conseqüência da perda do objeto amado  de forma abrupta. A crueldade do objeto, imposta ao eu, traz a ele sofrimento; o objeto agora não está mais fundido ao eu, não quer mais se permitir ser visto dessa forma, diz “não” quando o eu quer ouvir, como sempre, “sim”. Dessa forma o desespero se encena e atua como um exacerbado direito desse eu ferido e narcísico, tal qual um bebê que grita e esperneia quando não é atendido em seus desejos de forma plena. A solidão do “Eu Lírico” fica evidente nos verbos utilizados como expressão desse desamparo sofrido “na pele”  – surge,para além do desamparo, o estranhamento do objeto passional, ele não é mais o mesmo e este eu tentará fazê-lo retornar a sê-lo, já que, onipotentemente, acredita ter esse poder mágico.

Analisando as metáforas, temos:

A crueldade do objeto ao se impor ao eu de forma descolada deste, levando-o ao susto, ao desespero e ao estranhamento deste outro, que antes era ele próprio:

“Quando olhaste bem nos olhos meusE o teu olhar era de adeus, juro que não acrediteiEu te estranhei,me debruceiSobre o teu corpo e duvidei.”Os atos que decorrem dessa descoberta abrupta são atos de desespero, que demarcam o absoluto desamparo no qual o “Eu Lírico” se encontra frente à perda de seus ideais, ou do eu ideal projetado no outro: “E me arrastei, e te arranhei,E me agarrei nos teus cabelos, No teu peito, teu pijama,Nos teus pés ao pé da cama. Sem carinho, sem cobertaNo tapete atrás da portaReclamei baixinho.”

O desamparo que surge, na perda do objeto passional, advém da consciência repentina que o eu toma de si mesmo, um si-mesmo que já havia se perdido, mesmo que desde sempre ele soubera estar se perdendo. Antes do desamparo, do teatro de dores que o ser seduzido e abandonado expõe a partir e através de seu corpo e de seus atos em direção ao objeto perdido, há a angústia de já ter passado por uma perda igual muito antes desta.

O histórico do termo desamparo advém do “Projeto para uma teoria científica”, no qual Freud (1895) situa o desamparo como uma necessidade da criança frente à sua incapacidade de realizar por si mesma uma ação especifica necessária para conter a irrupção de tensões advindas das suas necessidades, obrigando-a a uma abertura dependente ao mundo adulto. Aqui se situa a importância do outro, do adulto como alguém decisivo para  a criança se “sentir amada por seus pais”
Essa questão de ser amado como algo necessário e vital para o ser humano será retomado por Freud em “Inibição , sintoma e angústia”, quando ele sustentará  que “sentir-se amado pelo “ser superior” representa, no inconsciente, a proteção contra todas as ameaças. Correlativamente, a perda do amor ou a separação do ser o protetor corresponde ao maior dos perigos: o de ser abandonado a sua própria sorte ante m um desamparo sem esperança” ( In: Pereira, 1999:137).
Em seu  artigo “Totem e tabu”, Freud (1921)  não mais mostrará o desamparo humano como uma impotência real diante de suas necessidades e sim diante de uma impossibilidade de defesa frente ao desejo do outro, da violência de um outro, mais forte.

Assim, passamos do desamparo real e físico ao desamparo psíquico diante do outro onipotente. Desamparo do eu, frágil ou fragilizado, diante de um outro, forte, ou visto como se assim o fosse. Retomamos o esquema do amante-amado discutida em relação ao olhar da paixão frente ao objeto passional.

Quando se perde de vista o ser amado , o ser amante perde-se em  si mesmo, nascendo a dor como núcleo deste ser, antes completo, agora incompleto, terrificado e desamparado. Assoun (1999) enfatiza o trauma escópico que o eclipsar do outro constitui e re-encena como  revivescência de um outro eclipse, o materno, quando esta, não mais seduzida pelo bebê, desvia seu olhar deste. “Nesta ocasião o infans fica sem voz, medusado pela dor, entre o silêncio, espasmo do soluço, por isso percebemos a instauração do terremoto corporal no qual ele "realiza" a ausência do outro” (p. 63).
Assoun (1999) correlaciona esse trauma e drama escópico de origem com o drama encenado pelo amante que perde o amado, em que perder de vista o objeto passional é perder-se de igual forma ou da pior forma possível

O caráter doloroso do olhar é retomado por Pereira (1999) na metáfora “olhar da cobra” para falar desse mesmo processo de sedução/hipnose que sofre o  eu diante do outro mais forte. O “olhar da cobra” é visto como um olhar que aniquila o  eu enquanto sujeito e o mantém preso em um contrato de vida/morte, já que esse olhar é sempre um convite a um salto no abismo, por suscitar um pedido de entrega do eu ao outro em pura perda, para sempre. O “olhar da cobra”, aqui, se torna apavorante por ser um convite à própria morte do sujeito, principalmente se este for abandonado enquanto estiver hipnotizado por este outro especular e onipotentemente visto como  “parte de mim mesmo”, sem o qual não se saberia viver.

Assoun (1999) completa essa questão do olhar mortífero da paixão e da existência, nesse olhar, do desamparo anunciado e previsto quando explicita o espetáculo da sedução e as conseqüências de sua retirada abrupta quando o eu é capturado pelo olhar do outro, sedutor : “O drama intenso da sedução procede de que o "vidente" é aspirado no e por um "visível" que lhe arranca os olhos: impossível olhar isso e recuperar seu olhar, repatriá-lo no olho.”. (p. 76)

Não há saída para o ser aprisionado no olhar da paixão, ou se há alguma, esta pressupõe a retomada do sentimento de pertencimento de si mesmo por parte do eu, a recuperação de si enquanto um ser desejante não somente do outro como se ele mesmo fosse, mas , e principalmente , como um ser desejante por outras coisas que não seja somente esse outro tantalizante.
Mas se o ser apaixonado foi abandonado antes de o processo de apaixonamento ter acabado ou se transformado em amor ou em esquecimento, fica a este ser a opção de vivenciar a morte da paixão. Vivência dolorosa e mortífera na maioria das vezes.

O prenúncio do fim desde o princípio: o aspecto mortal da paixão

Desce mais fundo, desce apenas
Ao mundo da perpétua solidão,
Mundo não mundo, mas o que não é mundo,Escuridão interior, privaçãoE destituição  de toda a propriedadeRessecamento do mundo dos sentidos,Evasão do mundo da fantasiaInoperância do mundo do espírito;Esse é o único caminho, o outroÉ o mesmo, não em movimentoMas de movimento abstêmio, enquanto o mundo se moveEm apetência, sobre seus metálicos caminhosDe tempo passado e tempo futuro.

                                                                           (T.S. Eliot Quatro Sonetos)  

Pierra Auligneir (In: Lejarraga, 1998) enfatiza a dessimetria das relações passionais. Freud reafirma que no apaixonamento há a manutenção e o superinvestimento do objeto pelo eu, e que este é um movimento similar a uma hipnose. Há um poder que o objeto amado tem sobre o amante , havendo também o desamparo e a submissão de quem se apaixona como algo subtendido.
Quando o ser amado perde  o objeto passional surge, para o ser amante e desamparado, algo do estranho, estranhamento que o acompanha desde o início do processo de apaixonamento : revive-se algo já vivido , a sensação de onipotência e a idealização do objeto amado primeiro (a mãe).

Assim, a paixão, no seu encontro com o objeto amoroso, é sempre um re-encontro, mas há também algo do estranho nela presente, porque quando se rompe a ilusão, a fulminação descrita por Assoun, que o tempo passional constrói na fusão de dois corpos/seres, surge o outro real, cruel, alheio e desconhecido – logo, estranho, apesar de ser-lhe familiarQuando este outro passa a ser visto como diferenciado, não devolve ao eu, ainda totalmente identificado com este outro , a imagem especular habitualmente vista pelo eu sobre ele mesmo:  quem lhe surge é um estranho, a cena do dueto e da visão única e plena dá lugar à cena do sem voz (afonia) e da dor do olhar.

O que havia era um diálogo de surdos, um monólogo a duas vozes. Quando uma voz emudece porque se vai, a outra fica ecoando no vazio. O apaixonado pagou em sua pessoa , fisicamente, para sustentar este amor sem limites. Assoun (1999) constrói uma linda imagem desse descompasso a dois ao estudar a questão da voz da paixão. Diz-nos: A paixão se inscreve e se vive, com a mesma intensidade, mas segundo duas modalidades fortemente contrastadas , como se a letra e o ato não “rimassem”. (p.160)

“Letra e ato não rimam”, nunca “rimaram” no apaixonamento, são descompassos. Interessante vermos aqui a atualidade não somente de Freud, mas do olhar de Winnicott quanto à relação de objeto e o uso do objeto. No apaixonamento não há o uso do objeto, há uma relação de objeto, não há um objeto objetivamente percebido e sim um objeto subjetivamente concebido. Concebido pelo bebê, diria Winnicott; diríamos nós, em relação ao ser amando, idealizado por este. Quando há a intrusão, para Winnicott, há a quebra da ilusão, há o descompasso acima dito, “letra e ato não rimam” de uma forma tal que cabe ao bebê duas soluções : em uma ele pode se fechar em si mesmo e depois tentar dar conta dessa intrusão fora do tempo dele; na outra ele se fecharia tanto em si mesmo que talvez jamais quisesse achar-se mais uma vez. Se pensarmos sobre o ser apaixonado, que se vê abandonado pelo objeto passional, poderemos entender que a perda desse objeto, tão intensamente investido, pode representar para ele algo muito além do suportável, posto que havia um investimento exclusivo nesse objeto. Como, de uma hora para outra, haver um outro investimento ou uma diversificação deste? Há o colapso do eu, a sensação de desamparo fica insuportável. Daí advém o caráter de morte da paixão rompida antes do tempo, antes do tempo certo de ela poder tomar outro rumo ou destino. Resta ao ser amado, diante do vazio que o objeto passional deixa, a dor  e a necessidade de “desencaixar-se” daquilo que antes era parte dele, ou ele assim o via.

O aspecto mortal do apaixonamento advém não do confronto do ser impotente com a ausência ou a falta mas, como nos alerta Pereira (1999), pela entrega deste ser (…) ao encanto de um olhar que promete satisfazê-lo de modo absoluto (Pereira, 1999: 167).

Recorro mais uma vez à arte para descrever esse momento de perda do objeto, momento de dor e de desespero, que nem sempre sabemos lidar com ele.Fica aqui a voz e o olhar da paixão perdida segundo Inês Pedrosa (2003), escritora portuguesa que nos fala , de forma poética, aquilo que teoricamente, há quase 65 anos atrás, Freud (1930) já nos avisava : que a pior dor é a dor da perda do objeto amoroso e o pior desamparo também.“Eu só queria ver de que material era feito o teu amor por mim. Precisava de escangalhar o teu coração para o fazer encaixar no meu. E agora tenho que o desencaixar outra vez para sair deste limbo. Mas não sei como. Sem o teu coração não consigo amar – não me abandones outra vez. Logo eu, que amava o mundo inteiro, não é ? Amar em abstracto é muito mais ágil do que amar em concreto”( Inês Pedrosa, 2003:39)(grifo nosso)  

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