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O Desejo, a Psicanálise e a Literatura

Quando se fala da literatura em diálogo com a psicanálise, geralmente o cruzamento que se faz nesta relação é sobre a possibilidade de interpretação analítica do texto literário e o uso da literatura no interesse da teoria psicanalítica assim como disse Villari, “buscando através do texto literário aquilo que não alcançamos dizer como psicanalistas”. (2000, p.6). Mas esta relação vai muito além de um confronto de disciplinas já constituídas em que nenhuma consente em abandonar-se. Recorre-se a R. Barthes para mostrar que “a interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém.” E meu objetivo neste artigo é levantar hipóteses de que “objeto novo” seria este criado entre a fronteira da literatura e a psicanálise. O que se revela de mais imediato nesta interação é o desejo; “A incógnita do escrito literário era desvendada por uma leitura orientada psicanaliticamente. Afirmava-se até mesmo que este tipo de abordagem apontaria o desejo no texto.” (VILLARI, p.4). É o que chamam de “inconsciente” do texto literário. O interessante é que o desejo que o escritor teve de escrever irá se projetar no leitor, não para escrever como o autor lido, mas para  escrever a partir dele mesmo. “A leitura é condutora do desejo de escrever (…) o que desejamos é apenas o desejo que o escritor teve de escrever: desejamos o desejo que o autor teve do leitor enquanto escrevia, desejamos o ame-me que está em toda escritura.” (VILLARI, p.5).

E como este fenômeno acontece em nível do inconsciente, é possível fazer ao adulto a mesma relação que Bettelheim fez com a criança quando diz que “Os processos infantis inconscientes só se tornam claros para a criança através de imagens que falam diretamente a seu inconsciente.” (1980, p.40). Ele se referia a eficácia do uso dos contos de fadas na clinica infantil. Embora o adulto já tenha formado a capacidade de abstrair,  eu acredito que “esta comunicação diretamente ao consciente” continue acontecendo ao longo da vida na medida em que não sabemos nomear o desejo real e precisamos de símbolos para representar esta falta. Lacan nos diz que “não nos é dado aceder ao real – que se nos apresenta como impossível – a não ser através do simbólico e do imaginário.” (VILLARI, p.6).  Sendo assim o suprimento desta lacuna pode ser alcançado, em parte, pela literatura, tanto lida, quanto escrita. Freud, numa carta a Fliess diz que se trata de “encontrar as palavras para muita coisa que permanece muda em mim”. Não tem como explicar ou racionalizar o que se encontra no nível do inconsciente pois o inconsciente é “um saber que não se sabe e por isso se repete se atualiza na relação.” (COSTA, 2001, p.15). Por isso, considera-se boa literatura a que mais deixa possibilidades de interpretação.

O bom texto é o que não se fecha em sentido, um exemplo clássico é o conto Dom Casmurro; a incógnita implícita da infidelidade expõe ao leitor a sua própria ambivalência e o final será permeado pelo desejo de cada um. Se tomarmos como exemplo Guimarães Rosa ou Clarice Lispector, ver-se-á que eles foram fundo no âmago humano sem explicá-los racionalmente. Eles apenas usaram imagens literárias através da descrição de cenas e da criação dos personagens que fazem a comunicação com o inconsciente de cada um “cutucando” assim o desejo.
           
Já que a literatura é uma tentativa inconsciente de buscar uma nomeação para o desejo ela acaba desempenhando um papel organizador “a criação literária busca em primeiro lugar recriar a partir do caos, dando forma ao que não tem forma. E o que é um texto literário senão uma organização, uma espécie de nomeação muito pessoal de uma realidade muitas vezes caótica e sem sentido.” (CECÍLIA, 1996, p.6) Isto talvez explique porque se fala que as maiores criações no campo literário se deram num momento de grande perda ou desilusão amorosa do seu autor. A falta de um representante para seu desejo naquele momento o impele a buscar outro significante que tampone aquele vazio, afinal, o desejo não cessa de desejar e escrever pode atender satisfatoriamente a esta necessidade. “O sujeito está condenado a desejar por que é impossível a ele mesmo, entre significantes e marcado pela linguagem, preencher o vazio fundamental da coisa. Advindo da coisa, em suplência ao seu vazio insuperável, o desejo só pode existir enquanto falta-a-ser: o sujeito, alienado por que marcado pela divisão que o constitui, tem na sua condição própria buscar de forma incessante e sem repouso uma realização que sempre se mostra provisória e fugaz.” (BRANCO, 1955, p.60) Como Ana Costa bem colocou “(…) a linguagem é no fundo contorno  da falta de um significante.” (p.33).

A literatura produz muito mais do que o simples registro da linguagem e neste ponto Ana Costa levanta uma discussão interessante de “como é possível a transmissão da experiência e do saber que ela constitui, se este saber passa pelo corpo e pelo inconsciente, pessoais e intransferíveis de cada um?” (p.68) Levando em consideração a idéia de que a escrita aciona o desejo do leitor de escrever, podemos pensar que  na verdade esta transmissão contém apenas o germe que aciona a singularidade que passa pelo corpo e inconsciente de cada um. “A construção (…)  possui um caráter de necessariedade: seja na história do indivíduo, seja nas coletividades. O necessário aqui é o que provoca a compulsão de repetição (no lugar do que Lacan aborda como não para de se escrever), responsável pela busca da construção de um representante que possa se tornar suporte simbólico para amparar os laços discursivos.” (COSTA, p.159).  Esta necessidade, então, vai se traduzir por meio de organizações literárias como os mitos, as novelas e as verdades históricas. A narrativa de ficção alude à verdade do sujeito ainda que este não tenha consciência disso, os contos de fadas e mitos contados e recontados no decorrer dos tempos, escondem arquétipos que ao serem revelados, desnudam a alma humana. E no final das contas extraindo-se a essência de qualquer categoria da escrita estará revelada a tentativa da expressão do desejo. Para ilustrar esta afirmação lembro de um trecho do conto da Cinderela em que para escolher a princesa o príncipe tem que achar a moça que calce exatamente o número do sapatinho perdido, ou seja, ele tem a  ilusão de que o outro irá completá-lo. Para que isto aconteça sua “metade” tem que satisfazer ao seu ideal de eu no formato daquele sapato, quando isso acontece, a satisfação será completa. Mas nunca acontecerá e estaremos sempre a buscar e a expressar este desejo de diversas maneiras e a literatura é uma das mais bonitas e instigantes.


Bibliografia

Marzagão, Lucio Roberto. Psicanálise e literatura – seis contos da era de Freud. Belo Horizonte: Ophicina de arte e prosa, 2001.

Costa, Ana. Corpo e escrita – relações entre memória e transmissão da experiência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

Branco, G. Castelo. O olhar e o amor: Antologia de Lacan. Rio de janeiro: Nau,1995.

Villari, Rafael Andrés. Relações possíveis e impossíveis entre a literatura e a psicanálise in  Revista Psicologia Ciência e Profissão, 2000, 20 (2) p.2-7

Carvalho, Ana Cecília. O processo de criação na produção literária in Revista Psicologia e Arte, Belo Horizonte, p.4-9 ,1996.

Fialho, Francisco A. Pereira. Complexo de Cinderela in Revista Psicologia Brasil, São Paulo, p.12-16, 2004.

Bettelheim, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e terra, 6ºed., 1980

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