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Psicanálise: Uma leitura dos sistemas de Sigmund Freud, Melanie Klein, Donald Woods Winnicott e Wilfred Ruprecht Bion

Neste trabalho pretendo comentar os sistemas psicanalíticos de Freud, Klein, Winnicott e Bion, bem como relacionar historicamente as obras dos referidos autores. Para tanto, numa leitura contínua sem divisões, explanarei sobre os sistemas e simultaneamente relacionando-os, de acordo com a história e as respectivas obras. Dentro desta proposta, inicio obedecendo a disposição cronológica, com Freud, seguindo para Melanie Klein e depois para os contemporâneos Winnicott e Bion.

De acordo com Laplanche e Pontalis (2001), a Psicanálise é uma disciplina, fundada por Freud (1856-1939), na qual se distinguem três níveis, a saber:

I. Por meio de um método investigativo, contemplado pela disciplina freudiana e denominado de associação livre, evidenciam-se o significado inconsciente das palavras, das ações, dos sonhos, fantasias e delírios de um sujeito;

II. Outro método, agora psicoterapêutico, baseado na investigação do item anterior e especificado pela interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo;

III. Um conjunto de teorias psicológicas e psicopatológicas, no qual são sistematizados os dados introduzidos pelo método psicanalítico de investigação e de tratamento.

Após o desenvolvimento dos arcabouços teóricos criados por Freud muitos teóricos o seguiram; ora para repensá-los, ora para questionar os seus fundamentos e aspectos ontológicos e epistemológicos de sua ciência.

Numa breve análise, evidencia-se que qualquer que seja o sistema empregado por Klein, Winnicott ou Bion, todos utilizaram os métodos psicanalíticos observados por Freud como premissas; digo isto porque toda a Psicanálise e todos os psicanalistas estão de algum modo, conectados com a herança freudiana. Apesar do eixo compreensivo desses paradigmas serem multifacetado, saliento que na análise o paciente mostra-se para o analista e que o acontecimento presente neste encontro pode ser decifrado por este analista; essa explanação dependerá de suas teorias, do seu vértice, e de sua condição de estar continente àquela demanda.

Primeiramente, pontuarei alguns alicerces do sistema freudiano, o qual nos ensina que o sujeito não é livre; ele está marcado por uma força regressiva que o direciona psiquicamente para o passado. Esta força se dá por intermédio de sintomas e da estrutura dialética entre o consciente e o inconsciente. Freud constrói este pensamento inspirando em Kant (para citar uma das fontes do autor), o qual anunciava a existência de uma estrutura prévia ordenadora dos sentidos e sem a qual não se nomearia a subjetividade.

Em referência a essa “fonte regressiva que aponta para o passado”, Freud em 1896, num anexo a uma das cartas enviada à Wilhelm Fliess, seu grande amigo, detalhou o pensamento sobre as neuroses de defesa, no qual traçou uma comparação entre a histeria e a neurose obsessiva, trazendo a afirmação de que há entre elas diversas coisas em comum. Sobre este tema, o autor discorreu mais profundamente em seu texto “Notas sobre um caso de Neurose Obsessiva – O Homem dos Ratos”, em 1909.

Focalizando mais nos fundamentos da histeria e da neurose obsessiva, o autor escreve à Fliess que: “… tais manifestações são aberrações patológicas de estados afetivos psíquicos normais do conflito na histeria e da auto-recriminação na neurose obsessiva. O aparecimento de tais sintomas está sujeito às mesmas causas precipitantes de seus protótipos afetivos, desde que a causa satisfaça a duas outras pré-condições: que seja de natureza sexual e que ocorra no período precedente à maturidade sexual”.

Prosseguindo, afirmou ainda que “… existe uma tendência normal à defesa… essa tendência, ligada às condições mais fundamentais do mecanismo psíquico, não pode ser empregada contra as percepções, pois estas têm o poder de se impor à atenção; ela só entra em jogo contra as lembranças e os pensamentos… uma precondição de se ficar livre das neuroses de defesas é que não ocorra nenhuma irritação sexual substancial antes da puberdade, embora seja verdade que o efeito de tal experiência precisa ser ampliado pela disposição hereditária… em minha opinião, deve haver uma fonte independente de liberação de desprazer na vida sexual; desde que essa fonte esteja presente, ela pode ativar as sensações de repugnância, reforçar a moralidade e assim por diante”.

Portanto, numa humilde tentativa de explicar a base do pensamento de Freud, eu diria que:

• Tanto as nossas angústias quanto os nossos objetivos não estão para frente e sim atrás, isto é, qualquer imagem que fazemos do nosso futuro é baseada no passado;

• O sintoma é inevitável;

• Este sintoma tem por natureza uma dimensão real existencial, algo que o sujeito viveu;

• O sintoma é o retorno do reprimido.

Na leitura do capítulo “Freud e o outro sonho” do livro de Ab’Sáber, T. (2005) destaco: “…talvez ainda nos achemos indefesos, mas não mais desamparadamente paralisados; pelo menos podemos reagir… porque essa situação não é nova[…] possui um protótipo infantil, de que, na realidade, é somente continuação[…] já uma vez antes nos encontramos em estado semelhante de desamparo: como crianças de tenra idade em relação a nossos pais…”.

No coração de um sintoma existe sempre a defesa que, de acordo com Freud (1909), é a negação do sexual. É evidente que esse aspecto terá impliações na prática clínica, portanto na psicoterapia será entendido como resistência.
Para o fundador da psicanálise, tanto o neurótico quanto o psicótico têm a mesma fonte de repressão, porém o que vai diferenciá-los será a construção da estrutura de suas defesas.

Num segundo momento, conduzirei o leitor a fazer um breve passeio aos pressupostos delineados por Melanie Klein (1882-1960). A chegada de Klein ao espaço da psicanálise agrega um novo aspecto ao pensamento psicanalítico: a análise de crianças, que, até então, era negada por Freud, pois este pressupunha não ser possível o processo da associação livre pelas crianças, portanto, dificilmente seriam analisadas.

Quando Klein, pela primeira vez, leu um texto de Freud sentiu-se identificada e impressionada. Por diversas vezes, tentou contato pessoal com o autor, mas Freud a evitou devido às diferenças teóricas entre Klein e a sua filha, Anna Freud, e, assim, nunca manteve um contato pessoal com o seu inspirador.

Melanie Klein fez sua análise pessoal com Ferenczi que colaborou muito em sua obra, incentivando-a. Seu livro “O desenvolvimento de uma criança” (1916), concedeu-lhe o título de membro da sociedade psicanalítica da Hungria; porém o contexto cultural que despontou sua obra foi o da Inglaterra, na qual fixou residência em 1925 e atuou como psicanalista até a sua morte, em 1960 aos 78 anos. Foi neste país que, Melanie Klein, se consagrou no meio científico fundando uma nova escola psicanalítica.

Klein trás o conceito do brincar como um instrumento de análise, fazendo uma analogia entre o brinquedo e o sonho, postulando que ao brincar a criança expressa de uma maneira simbólica as suas fantasias inconscientes, fazendo uma comparação com o sonhar. Desse modo, podemos afirmar que Melanie Klein criou uma metodologia própria de psicanálise para crianças, introduzindo a compreensão do simbólico contido nos jogos e brinquedos. Teoriza sobre a capacidade das crianças elaborarem transferências e defende a eficácia e a possibilidade de uma psicanálise infantil.

Melanie Klein parte do pressuposto que a criança nasce com porções de pulsão de vida e de morte e que é preciso dar um destino simbólico para a presença dessa pulsão de morte. Ela defendeu a existência de um ego incipiente, já no recém nascido; também postulou que a pulsão de morte é algo inato e presente desde o início da vida, pulsão esta traduzida por ataques invejosos e sádico-destrutivos contra o seio da própria mãe, derivando-se daí a terrível angústia do aniquilamento. Para contra-atacar tais angústias Klein (1932) afirma em sua obra que o rudimentar ativa mecanismos primários de defesa tais como: negação onipotente, dissociação, identificação projetiva, introjeção e idealização. De acordo com a autora, a mente é um universo de objetos internos que estão relacionados entre si, por intermédio das fantasias inconscientes, constituindo-se a realidade psíquica do indivíduo. Além dos objetos totais, a mente também idealiza objetos parciais que são frutos de uma constante dissociação entre os objetos, numa alusão ao seio bom versos o seio mau, idealizações versus persecutoriedades e, também, a dissociação entre as pulsões de vida contra de morte.

Concluindo-se esta brevíssima leitura do legado de Melanie Klein e suas preciosas contribuições à psicanálise, não há como deixar de citar seus arcabouços sobre a posição esquizoparanóide e a posição depressiva.

A primeira permeia os quatro primeiros meses de vida do bebê, mas esta poderá ser revista no transcorrer da infância e da fase adulta, particularmente nos estados paranóicos e esquizofrênicos. Esta posição tem como característica essencial a coexistência das pulsões agressivas, desde o início, com as pulsões libidinais e são individualmente intensas; na qual o objeto é parcial, sobretudo o seio materno, e clivado em dois (o bom e o mau); a angústia é intensa, seu caráter é persecutório e derivado do objeto mau; há uma ansiedade aniquiladora primitiva que gera fantasias e elas dão sentido à pulsão, dando-se gênese a estruturação emocional infantil sendo articulada pelas fantasias primitivas e, a última característica seria que, o estágio original do ser humano é a experiência psicótica. A criança teria a identificação projetiva para lidar com a pulsão de morte na qual o objeto é identificado pelos seus próprios sentimentos, ela usa o objeto como uma embalagem de todos os males que a acometem, atacando o objeto que a ataca e este ataque torna-se a fantasia onipresente que dá um destino à sua pulsão de morte. A experiência com o objeto afasta o mau e isola o bem.

No outro pólo desse eixo, a posição depressiva, estabelece-se, após os quatro meses de idade, mas será superada no decorrer do primeiro ano de vida da criança. Entretanto, poderá surgir novamente durante a infância e mesmo quando adulto, sobretudo no luto e nos estágios depressivos. Esta posição tem como característica fundamental aquela criança que passa a ser capacitada a entender à mãe como objeto total e a possibilidade da clivagem entre o bom e o mau tornam-se mais serena.

Nesse terceiro momento do texto, refletirei sobre outra lavra psicanalítica da escola inglesa, que foi o médico pediatra e psicanalista Donald Woods Winnicott (1896-1971). Nascido em um lar muito bem estruturado, tanto economicamente quanto afetivamente. Winnicott trouxe contribuições importantes para o repertório conceitual da psicanálise, como os postulados das funções de espaço potencial, do fenômeno e dos objetos transicionais, além do conceito de verdadeiro e falso self.
Winnicott renovou o legado de Freud via conceitos criados e elaborados durante sua experiência, de 40 anos, na atividade clínica com crianças e adolescentes. Foi analisado durante dez anos por James Strachey, tradutor das obras de Freud, do alemão para o inglês, e depois retomou a análise com Joan Rivière; sua supervisão psicanalítica foi realizada por Melanie Klein.

Trabalhando em hospitais, Winnicott sentia a pressão resultante de um elevado número de atendimentos a crianças, experiência que o motivou a buscar metodologias que pudessem aperfeiçoar os resultados em seus atendimentos. Por exemplo, utilizava o jogo do rabisco com as crianças nas consultas psicoterapêuticas, como uma forma de expressão do seu mundo emocional por meio do desenho; entregava algum objeto para a criança utilizar e/ou destruir ou utilizava espátulas de madeira como expressão lúdica e criativa. Sua experiência foi construída em instituições públicas, seu trabalho dá gênese e possibilidade a uma Psicanálise fora do espaço do profissional liberal, remetendo o pensamento psicanalítico para o aspecto social e público.

O ambiente era visto como um condicionante ao desenvolvimento do ser, Winnicott (2000) teorizou que existe uma tendência natural à saúde, alegando que a maioria das doenças físicas é derivada das invasões provenientes do ambiente ou a deficiências ambientais, negando o absolutismo do desenvolvimento emocional; a tendência ao saudável é um a priori existencial humano, qual seja o resultado a responsabilidade está no ambiente.

Este autor sempre teve preferências ao atendimento de pacientes psicóticos, borderlines e adolescentes com conduta anti-social. De acordo com seus postulados, o desenvolvimento emocional da criança segue-se em três fases.
O inicial dar-se-ia com a integração e a personalização com o bebê, nascendo dentro de um estado não integrado e numa condição de dependência absoluta, a normalidade deste desenvolvimento levará o bebê à aquisição de um esquema corporal integrado chamado “psique-soma”, a personalização e o sentimento de que a pessoa habita o próprio corpo.

O segundo estágio do bebê é o da adaptação à realidade, no qual a mãe exerce um papel ímpar em ajudar a criança a sair da subjetividade total e a atentar para a realidade nova em que está surgindo, com o objetivo da criança “chamar” aquilo que está a sua disposição.

A terceira fase, a chamada crueldade primitiva, Winnicott anuncia que o bebê portava uma agressividade de aspectos positivos, na qual ela sustenta a esperança que sua mãe compreenda, ame e sobreviva aos seus ataques.
No início da década de 50, Winnicott apresenta seus estudos referentes aos fenômenos e objetos transicionais, demonstrando a passagem do subjetivo mundo interno e imaginário do bebê para o objetivo e real mundo externo, criando-se nessa passagem um espaço virtual denominado de espaço transicional, ou eventualmente chamado por ele de espaço da criatividade.

Destaco alguns aspectos técnicos, entre muitos, da obra winnicottiana: se houver falhas ambientais precoces e repetitivas ocorrerá o congelamento da situação de fracasso, que poderão ser novamente vivenciadas e descongeladas no setting analítico via regressão útil; a possibilidade de o analista desenvolver um “ódio na contratransferência” com a coragem de dizer uma verdade; o uso do analista como objeto transicional e a maneira como o paciente poderá utilizá-lo, inovando os conceitos de transferência e da interpretação; a analogia vivenciada entre analista e analisado e a mãe com o filho; a consciência do analista em auxiliar o paciente no trânsito entre os processos de dependência absoluta, dependência relativa e o rumo à independência.

Por último, cabe-me explanar sobre o indiano Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979). Nasceu na Índia, apesar de pais ingleses, pois sua família estava no oriente a mando do governo britânico para seu pai realizar um trabalho de engenharia da irrigação. Bion viveu na Índia os seus sete primeiros anos; ao completar esta idade, foi encaminhado sozinho para Londres a fim de iniciar seus estudos.
Ouso pensar que Bion foi um pesquisador que teve um papel de integração, pois com criatividade integrou várias idéias psicanalíticas freudianas e kleinianas, sem perder a veia criativa fundante de sua obra.

A obra de Bion pode-se dividir em quatro décadas: a de 40 experimentos com grupos; a de 50 inspirou-se no funcionamento psicótico, baseado na obra kleiniana, e trabalhando com muita atividade com pacientes em posição psicótica; na década posterior, a de 60, Bion consagra-se aprofundando nos atendimentos à pacientes psicóticos.

Uma das principais características da obra bioniana é a criação de um método da compreensão do psiquismo via uma releitura da Psicanálise. Deu ênfase ao uso de metáforas para facilitar a comunicação do analista com o paciente porque acreditava que a linguagem verbal poderia ser falha.

No eixo no qual Bion integra Freud e Klein de forma brilhante, ele explora idiossincrasias de dois fundamentos do funcionamento mental: a compreensão da realidade é feita por intermédio do princípio do prazer e do desprazer e uma compreensão ampliada do complexo de Édipo. Em suas sessões analíticas utilizava de uma forma ampliada a teoria dos sonhos de Freud por meio do trabalho onírico de vigília na sessão e do uso de vários mitos.

Da obra de Klein, que já é uma expansão sobre a de Freud, Bion aprofunda a compreensão da posição esquizoparanóide e depressiva. Caso fossemos pinçar as contribuições mais importantes de Bion para a teoria analítica, por meio da própria observação do autor à psicanálise, citaríamos: a teoria do pensamento e dos instintos (manifestações emocionais e relações interpessoais), a teoria do continente e do contido (o seio do bebê com genitais) e sua “metateoria” (homem com a priore mental).

O autor posiciona-se teoricamente diferentemente de Winnicott, entretanto há uma região em comum entre os dois; trata-se da sustentação dos dados primitivos do paciente.

Bion salienta três instintos humanos: de vida, os epistemofílicos e os de morte.
Segundo Bion, o pensamento humano é epistemologicamente anterior ao pensador, isto é, antes da criança tornar-se um ser cognoscente, seu cérebro já nasce com pré-concepções que guiarão seu comportamento estimulado pelas pressões ambientais. Isto quer dizer, que o bebê nasce com um pré-pensamento inato sobre o seio de sua mãe, o qual o fará procurá-lo para a sua sobrevivência. O ato do pensar inaugurar-se-á quando esse bebê perceber a frustração de não encontrar o seio desejado, mas sim o seio real; esta distância entre o seio aspirado e o real inaugura a instância do pensar de forma simbólica. Essa simbologia, segundo o autor, é oriunda da “função mental alfa” que funciona como catalisadora dos estímulos sensoriais externos e dos internos, fundando-se o ontológico do ser.

Bion tinha interesses epistemológicos, trazia um pensamento psicanalítico sobre a psicanálise, perguntava sobre o que é a psicanálise e como ela funciona e esses questionamentos auxiliaram-no a se aproximar de experiências limites, como por exemplo, o trabalho com os psicóticos.
Nesse sentido, aprofundando suas pesquisas, Bion afirmava que o psicótico faz a transferência em análise, contudo, uma transferência com qualidade específica, algo como a produção de sentido do psicótico. Na produção da psicose, as modalidades de produção de sentido que podem conviver com o indivíduo, que oscila entre o psicótico e o não psicótico; perde parte de si para ter acesso ao valor do sentido real; o ego tendo acesso à realidade, ou então, funcionando com um excesso de identificação projetiva.

Para o autor, há uma lógica do sujeito e o resultado desta é que o ambiente e o sujeito não estão separados, o si mesmo está espalhado pelo mundo. Segundo Winnicott, o processo seria assim: com o si mesmo espalhado, o outro irá “juntar” estas partes e a reintegração estará concretizada; no entanto para Bion, no caso dos psicóticos: o si mesmo continuará espalhado. Bion apresenta o conceito de fragmentação da personalidade, os lugares de percepção do psicótico estão fora do lugar, p.ex., quando o sujeito fala que está ouvindo vozes, sendo perseguido, etc. Existe uma diferença entre o campo simbólico e campo que produz o símbolo, os pensamentos estão lá, o que não está lá é o pensador; a questão é levar o pensador aos seus pensamentos.

O psicótico submete o ego ao id e perde o contato com a realidade; quando dorme não realiza as suas funções psíquicas no sonho, diria que o psicótico é um sonho aberto. Sem desejo, sem memória para estar com o real do outro, este seria, talvez, o padrão ouro do pensamento de Bion.

Bion foi um psiquiatra, psicanalista e um pioneiro, em trabalhos com grupos, no qual desenvolveu grandes pesquisas sobre a formação e os fenômenos grupais.
Seu primeiro livro, “Experiências com Grupos” de 1961, deu gênese ao que atualmente chama-se de terapia grupal.

Os conceitos desenvolvidos em suas pesquisas tornaram-se relevantes para a compreensão de grupos de trabalho, da dinâmica interpessoal de seus membros e dos fenômenos emocionais provenientes deles, seu trabalho influenciou gerações futuras de pesquisadores em diferentes áreas do conhecimento.

A teoria dos grupos de Bion alicerça-se no fato que existe, segundo ele, um grupo de trabalho ou grupo refinado e os grupos de base, ou mentalidade grupal ou grupos de pressupostos básicos.

Por grupo de trabalho define-se a reunião de pessoas para a realização de uma tarefa específica, na qual se consegue manter um nível elaborado de comportamento dos membros guiado pela cooperação. Cada um dos integrantes contribui com o grupo de acordo com suas capacidades individuais e em conseqüência consegue-se um bom espírito de grupo, isto é: existência de um propósito comum, reconhecimento comum dos limites de cada membro, diferenciação entre os subgrupos internos, valorização dos membros individuais por suas contribuições a equipe, liberdade no movimento dos membros individuais dentro do grupo e capacidade do grupo enfrentar frustração. Um grupo encontra-se em trabalho terapêutico quando ele adquire essa noção de espírito grupal.
No decorrer de suas pesquisas, Bion percebeu nos grupos, nos quais ele foi observando na sua experiência clínica, que não se comportavam de uma forma diferente dos grupos de trabalho. Eles pareciam mobilizados por forças estranhas, que levavam seus integrantes a agirem de forma distinta à que era esperada deles, na realização dos objetivos em torno dos quais eles próprios concordaram em reunir-se; este fenômeno ele denominou inicialmente como mentalidade de grupos.

A mentalidade de grupos é "a expressão unânime da vontade do grupo, à qual o indivíduo contribui por maneiras das quais ele não se dá conta, influenciando-o desagradavelmente sempre que ele pensa ou se comporta de um modo que varie de acordo com os pressupostos básicos"; ela funcionaria de forma parecida ao inconsciente para o indivíduo.

Em suas pesquisas ele destaca diversas situações nas quais o grupo parece estar mobilizado pela mentalidade de grupo, como p. ex., conversas banais, ausência de crítica, situações "sobrecarregadas de emoções" que podem exercer influências sobre o indivíduo e a irracionalidade do grupo.

Um dos termos que Bion utiliza para postular a mentalidade dos grupos é "padrão de comportamento".

A teoria dos três pressupostos básicos de Bion possui suas raízes na teoria freudiana, que tenta explicar os fenômenos grupais a partir da libido. O teórico fundamenta, para sustentar a hipótese psicanalítica, que os fenômenos grupais possuem como gênese um investimento afetivo sobre um objeto que não pode ser alcançado, seguido pela identificação com os possíveis inimigos. Entretanto, vale salientar que os trabalhos de Bion possuem um enfoque diferente ao do pai da psicanálise, como já citado no corpo desse texto. Os três pressupostos foram chamados pelo autor de: dependência, acasalamento e luta-fuga.
Um dos primeiros fenômenos observados por Bion (1975) foi a percepção de uma grande necessidade que os membros dos grupos têm na busca de um líder, que seria capaz de satisfazer as expectativas de cada um dos integrantes, segundo ele: "O grupo é bastante incapaz de enfrentar as emoções dentro dele, sem acreditar que possui alguma espécie de Deus que é inteiramente responsável por tudo o que acontece".

Este pressuposto básico da dependência, no qual há uma crença em algo externo a si que faria um papel de pai protetor ao grupo que assume um contra papel de imaturo; este objeto pode ser uma pessoa, uma crença ou a história do grupo como um todo. Esse papel pode variar de lugar, mas sempre desestabilizará o grupo.

O segundo pressuposto básico identificado por Bion é o grupo de acasalamento que foi inicialmente observado em pares que conversavam assuntos diversos, sem que o grupo se importasse com eles ou chamasse a sua atenção, simplesmente os aceitava. Seriam com subgrupos invisíveis que adquirem forma e forças próprias.
O terceiro pressuposto básico é o de luta-fuga, no qual os membros do grupo discutem sobre pessoas ausentes, fazem debates infrutíferos, fogem de assuntos grupais. Eles acreditam que o bem estar individual é menos relevante que a continuidade do grupo, por isso ignora os temas que os atrapalham.
Bion acredita que a intervenção nos grupos, influenciados pela mentalidade do próprio aglomerado, cria-se por meio da prática clínica. O psicoterapeuta de grupo vai interpretando as manifestações da mentalidade grupal à medida que elas se manifestam no setting, evitando assumir o papel de líder, o qual é aspirado pelo grupo e é influenciado por um padrão de comportamento. Ele deve lidar com sentimentos desagradáveis, muitas vezes agressivos, que emergem no contexto grupal.

Referências bibliográficas:

AB’SÁBER, A. M. O Sonhar Restaurado: Formas do Sonhar em Bion, Winnicott e Freud – São Paulo: Ed. 34, 2005

BION, W. O Aprender com a Experiência – Rio de Janeiro: Imago, 1991

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FREUD S. “Duas Histórias Clínicas (O pequeno Hans e o Homem dos Ratos)” (1909). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, volume X. Rio de Janeiro: Imago, 1969

GRINBERG, L., TABAK E., SOR D. Introdução à Obra de Bion – Rio de Janeiro: Imago, 1973

HERRMANN F. O que é Psicanálise – São Paulo: Vórtice, 1999

KLEIN M. A psicanálise de crianças – Rio de Janeiro: Imago, 1997

LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise/Laplanche e Pontalis – São Paulo: Martins Fontes, 2001

MASSON, J. M. A Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess – 1887-1904 – Rio de Janeiro: Imago, 1986

WINNICOTT D. W. Da pediatria à Psicanálise: obras escolhidas – Rio de Janeiro: Imago, 2000

ZIMERMAN D. E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática – Porto Alegre: Artmed, 1999

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