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A Psicanálise e o Tratamento das Depressões – parte III

Conforme havíamos comentado na parte II desse trabalho, aqui nós estaremos nos ocupando prioritariamente das questões referentes à perda do objeto e da questão do desejo em psicanálise.
Nessa terceira parte do tratamento psicanalítico das depressões, conforme adiantamos, vamos procurar nos ocupar da perda do objeto libidinal, assim como da questão do desejo.

Penso ser quase que improvável que aqueles que se ocupem da psicanálise e, sobretudo da psicanálise de crianças, não tenham em algum momento de sua formação entrado em contato com a obra de René Spitz: "O primeiro ano de vida da criança". Valendo-se de uma amostragem de bebês de 6 a 12 meses, Spitz observou que os mesmos, quando eram separados de suas mães, com as quais haviam mantido uma boa relação, desenvolviam uma série de alterações de conduta, além de orgânicas. Transformavam-se em bebês chorões, aparecendo em seguida o retraimento. Ficavam como que prostrados não mantendo nenhum interesse na vida que os circundava. Essa conduta de retraimento, costumava persistir por uns três meses, durante os quais era possível ser notada uma perda de peso considerável, apresentavam episódios de insônia, atraso no crescimento muito em função de uma desordem na produção do hormônio do crescimento(GH), além de uma grande tendência ao desenvolvimento de doenças infecciosas.

Depois desse período, costumavam apresentar uma rigidez quanto à expressão facial. Notou-se que os bebês ficavam estendidos, com os olhos muito abertos e inexpressivos, demonstrando encontrar-se totalmente isolados do ambiente. Segundo Spitz, todas as crianças que apresentavam esse tipo de quadro, haviam sido separadas de suas mães entre o sexto e o oitavo mês. Segundo esse autor: "A sintomatologia das crianças separadas de suas mães, possui uma semelhança surpreendente com os sintomas da depressão adulta". Existiria, portanto a tendência a entender a perda do objeto amoroso, como muito relevante no desenvolvimento do processo depressivo.

Spitz ainda se refere como explicação do quadro: "na ausência do objeto libidinal, ambas as pulsões ficam privadas de seu alvo… Então as pulsões ficam no ar. Se seguirmos o destino da pulsão agressiva, vamos ver que o bebê transforma em rechaço em uma agressão contra si mesmo, sendo o único objeto que lhe resta". Encontramos em Spitz uma tentativa de não incorrer no que ele considera um erro em Melanie Klein, ou seja a de atribuir ao bebê uma organização de seu superego similar ao do adulto, explicando a depressão em base dos sentimentos de culpa. Spitz tenta, então, sair da ordem de significações em que transcorre para o bebê a perda de objeto, valendo-se da teoria das pulsões.

J. Bowlby e colaboradores destacaram em diversas publicações que a criança, em função da perda do objeto libidinal, passa pelas fases de: protesto, desesperança e retraimento. Entendemos que a "depressão anaclítica" do bebê é diferente pelo luto pela morte de um ser querido no adulto, até pela complexidade dos psiquismos envolvidos, contudo, entendemos também que ambos os fenômenos conservam elementos em comum.

Logo após ver-se separdo de sua mãe, o lactente se mostra hiperativo, chora e quando já dispõe da linguagem chama-a desesperadamente. Assim, o adulto diante de um luto também se agita, chora, enfim, embora reconhecendo que o objeto já não está, renega este conhecimento. Nesta etapa, a perda do objeto põe em marcha, mecanismos que tendem a reencontrá-lo. Entre esses mecanismos, o pranto possui um lugar especial. O pranto não é simplesmente a expressão de um estado afetivo doloroso, senão que podemos interpretá-lo também como um chamado, uma mensagem dentro de uma estrutura intersubjetiva. Pensamos que podemos dizer então, que o pranto dentro do ritual da dor, cumpre o sentido de um ato mágico.

Parece-me importante observarmos que o pranto continuará presente até que advenha a fase da desesperança tendo desaparecido toda a motivação e caracterizando-se a inibição psicomotora. Sabemos que quando esta assume seu grau máximo, pode dar lugar ao estupor melancólico.

Devemos ter claro que, no adulto, a inibição pela perda do objeto não é a simples ausência da motivação em aproximar-se a esse objeto, uma vez que se assim fosse, notaríamos a conservação da atividade em relação aos outros objetos libidinais. Porém, o mais notável da inibição depressiva, é que a mesma não se restringe ao objeto perdido, senão que se estende a todos os demais objetos. Mas, qual a explicação para este fato?

Podemos notar que isso se deve a que o desejo com respeito ao objeto perdido preenche todo o universo mental do sujeito, o qual não pode senão girar em torno dele. Assim sendo, o sujeito está fixado a esse desejo e, simultaneamente, o sente como irrealizável, resultando na intensa carga de anseio, referida anteriormente.

Mas, e quanto ao desejo?

Devemos recordar que o desejo não é doloroso, nem prazeroso em si e que adquire tal caráter na medida em que se antecipe ou divise sua possibilidade ou a sua impossibilidade de realização. Assim, algo que está no futuro – a experiência em que o desejo realiza – retroage sobre o momento presente do desejar e lhe outorga o caráter de prazeroso. Da mesma forma quando existe a antecipação da não realização do desejo, ocasionando o caráter doloroso desse desejar.*

    * Fazemos constar que cabe a Lacan o grande mérito de haver retomado em psicanálise a velha problemática filosófica do tempo, para destacar a incidência dos diferentes tempos em um momeno dado.

Entendemos que poder-se-á concluir esse trabalho, realizando uma síntese que nos parece essencial: podemos dizer que a inibição, referente à depressão, pode ser definida por três características principais:

a)se mantém um desejo.

b) o desejo se antecipa como irrealizável.

c) há fixação desse desejo, acarretando a impossibilidade de que se passe a outro(s).

É sobremaneira importante podermos notar que as duas condições iniciais, não bastariam para que se produzisse a inibição, sendo que a terceira é essencial para que a mesma se produza.

Dessa forma, poderemos concluir que a inibição depressiva é resultante da convergência de duas variáveis, ou seja, de que haja ou não a expectativa de recuperar o objeto perdido, além do grau de fixação, isto é, da possibilidade-impossibilidade de se passar para um outro objeto libidinal.

Concluindo: a inibição depressiva é uma conseqüência de uma particular vicissitude do desejo,a qual determina o retardo ou a quase anulação que sofrem a ideação, a percepção, a motilidade e as manifestações afetivas.

Ocorreu-me um exemplo do qual me vali em minha atividade acadêmica: não há nada pior que se possa fazer com alguém que esteja profundamente deprimido, do que comprar-lhe entradas para o teatro ou mesmo para um show. Isso só fará com que o seu mal estar piore, na medida em que se deparando com o convite, acabará inexoravelmente, tendo que se deparar com a sua impossibilidade de fazer frente a ele. Temos portanto que dar tempo ao tempo e trabalhar dentro do que o tempo do paciente nos permite, caso contrário estaremos "convidando-o" a realizar algo para o qual não se encontra preparado.


Bibliografia:

"Luto e Melancolia" = S. Freud = Obras Completas

"O Discurso Melancólico" = Marie-Claude Lambotte

"El primer año de vida del niño = René Spitz

Acesso à Plataforma

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