Gravidez na Adolescência – Parte IV

Sexualidade Feminina: Para uma melhor compreensão dessa diversidade, AGUIRRE (1995) apresenta alguns aspectos da adolescência e da gravidez numa visão psicodinâmica do desenvolvimento da sexualidade feminina relatando que nos primórdios do século XX, Freud causou celeuma com suas idéias sobre a sexualidade infantil, partindo de observação de indivíduos adultos em análise.

Verificou as bases mais precoces do despertar sexual no desenvolvimento surpreendendo uma sociedade que valorizava a “consciência” do homem e a “pureza dos sentimentos infantis”. Esses estudos ampliaram o conceito de sexualidade para além da genitalidade mostrando como a sexualidade genital adulta normal deriva das fases mais precoces (pré-genitais) do desenvolvimento. A partir da puberdade começaria a subordinação das zonas erógenas à primazia da zona genital” (FREUD, 1905 apud AGUIRRE, 1995, p.29).

Freud considerou mais difícil compreender o psiquismo feminino. Ao longo de sua vida, foi revendo e ampliando seus estudos sobre a sexualidade feminina. Vários outros psicanalistas foram acrescentando expressivas contribuições, conforme ampla revisão da literatura sobre o tema feito pela também psicanalista Langer (1947/1981). A autora coloca que para Freud, a menina, tal como o menino, passa pelas fases oral e anal antes de atingir a fase fálica. Nesta última, com a descoberta da diferença anatômica entre os sexos, começa a diferenciar-se o caminho do desenvolvimento onde, até então, o objeto dos impulsos libidinosos era, para ambos os sexos, a mãe ou a pessoa substitutiva que cuida e atende. Menciona que nas teorias sexuais que as crianças criam sobre a vida sexual do adulto, a fecundação ocorre pela boca e a expulsão pelo ânus, e que “existe durante as primeiras etapas de desenvolvimento, um desejo bastante estranho para nossa consciência de adulto: o de fecundar a mãe e ser fecundado por ela, de dar-lhe um filho ou recebê-lo” (LANGER, 1947/1981, p.42). As fantasias de união com a mãe correspondem às fases de gratificação oral e anal. A partir da fase fálica, por volta do final do quarto ano de vida, a estrutura libidinal da menina deve sofrer modificações, inclusive a mudança do objeto amoroso. No curso normal de desenvolvimento, “a menina terá que se desligar de sua mãe para dirigir-se ao pai e criar assim um modelo infantil para sua eleição heterossexual posterior” (LANGER, 1947/1981, P.42-43). Se a menina aceita sua feminilidade (o que envolve também admitir sua falta de pênis), identificando-se com a mãe, pode conseguir o pai como objeto de amor, e o desejo de ter um filho liga-se então à união com o pai. Esta é a fase edípica, onde rivaliza com a mãe pelo amor do pai.

A autora acrescenta que uma relação conflituosa com a mãe nas fases pré-edípicas dificultará a necessária identificação com ela, bem como a resolução saudável do complexo de Édipo e, futuramente, esses conflitos poderão repetir-se na relação com o marido, se, no inconsciente, este for identificado com a imagem materna. Muitas jovens têm experiências sexuais antes de estar psicologicamente amadurecidas. Envergonham-se de suas inibições sexuais, as rejeitam e são vítimas da angústia e da depressão. Em alguns casos, essa pseudoliberdade sexual toma caráter obsessivo. A adolescente pratica inúmeras relações sexuais, é abandonada por seus namorados ou os abandona, considerando-se emancipada. Suas ações são características de um aprisionado por necessidades e fantasias inconscientes (DEUTSCH, 1977). A autora aponta que do casal gravídico torna-se difícil dizer quem é o sedutor e quem é o seduzido.

– Gravidez e adolescência Em relação à gravidez, Herzberg (1986) afirma que é um período de transição que faz parte do processo normal do desenvolvimento onde ocorre uma mudança de identidade e uma nova definição de papéis. Dentro do ciclo vital da mulher, a gravidez seria um período de crise normal de desenvolvimento e não deve ser interpretado como um momento catastrófico no contínuo do desenvolvimento humano, mas "como um momento crucial" onde as soluções encontradas poderão culminar em uma maior maturidade ou então a um grau de desintegração, desorganização e desajustamento da personalidade. Em sua pesquisa, Aguirre refere-se aos estudos de Paula (1992) que apresenta a gravidez como um meio da adolescente lidar com o conflito entre dependência e autonomia e, através da maternidade e do casamento, assumirá precocemente um status adulto. Para essa autora, a adolescente acreditaria estar assumindo uma posição de poder e autoridade na vida adulta opondo-se à submissão da figura de autoridade na família, os seus pais. Conclui que essa atitude é uma tentativa da adolescente contrapor-se à imagem do adolescente dependente e irresponsável construída pela sociedade adulta (AGUIRRE, 1995, p.17). Com relação às condições para assumir a paternidade e a maternidade Aberastury (1980, p.25-26) considera que “os que não aceitam o complexo de Édipo inicial, ao ter um filho não o viverão como próprio senão como pertencente a seus pais”. Nessa mesma linha de pensamento, Dolto (1989, citada em Aguirre, 1995) relata a dificuldade da resolução edipiana para a adolescente, muitas vezes não facilitada pelos pais, podendo ter como conseqüência a união da adolescente com um “cônjuge transferencial”, tendo o primeiro filho uma conotação semi-incestuosa em conseqüência da qual a mulher poderá considerar que o seu bebê pertença mais à sua família que a do cônjuge”. Langer (1981) afirma que a causa fundamental que leva uma mulher a engravidar, independente da idade e estado civil, se fundamenta no aspecto biológico, introduzindo a questão do instinto maternal como parte integrante da sexualidade feminina. Segundo a autora, o instinto maternal gratifica, através da sua realização, vários desejos da mulher.

Afirma que Deseja um filho porque deseja recuperar sua própria mãe e também porque lhe permite identificar-se com ela. Também deseja um filho para comprovar sua fertilidade. O desejo de um filho pode corresponder ao desejo infantil de presentear uma criança ao seu pai. O feto pode representar para o seu inconsciente o pênis desejado. Em seu desejo de maternidade influem causas mais conscientes ou racionais. Pode desejar um filho para reviver a sua própria infância nele ou para dar-lhe precisamente o que ela não teve. Pode desejar um filho por rivalidade com as demais mulheres ou para reter seu marido ou por necessidade de status ou para qualquer outra causa atual. (LANGER, 1981, p.198). Segundo Deutsch (1977), a gravidez precoce é um fenômeno resultante de atos compulsivos que resistem a qualquer interferência e, em muitos casos, é responsabilidade do ambiente social no qual surgiram certos conflitos emocionais e foram acted-out; a sociedade seria um agente provocador. De acordo com essa autora, o fenômeno é decorrente de imaturidade psíquica com certa disposição para reviver processos regressivos na adolescência e, principalmente, pela exigência do amadurecimento. Para tal realização está implicado o rompimento da ligação com a mãe; esse processo ocorre no estágio pré-edipiano e oral do desenvolvimento e, o anseio pela mãe, o sentimento de solidão após a separação, poderá exigir a revivescência da união mãe-filha. Essa fantasia poderá ser fortalecida por jogos sexualmente excitantes com rapazes que seriam representantes da mãe e o abraço do rapaz seria um substituto da reunião com ela. Assim, a fecundação seria a continuidade desta fantasia e a unidade mãe-filha seria conseguida pela gravidez e na relação com o bebê. No conjunto desses estudos, vários autores apontam o vínculo entre gravidez precoce e atuação**. Cassorla (1996) ressalta que o problema da gravidez na adolescência é extremamente complexo e aponta que pode constituir-se numa atuação. O autor defende que, na complexidade do processo adolescer, as múltiplas fantasias inconscientes relacionadas à maternidade se articularão de formas diferenciadas. Helene Deutsch (1977, p.107) investigando as experiências das jovens estudantes com a maternidade percebeu que estava lidando com um fenômeno específico. Verificou que “o que anteriormente podia ser visto apenas em casos individuais raros, agora tornou-se um acontecimento em massa” atribuindo a gravidez precoce à nova liberdade sexual ocorrida “em moças muito imaturas, com certa disposição em reviver processos regressivos na adolescência e, acima de tudo, pela exigência do amadurecimento para romper a ligação com a mãe”.

Aguirre (1995) concorda com a autora, assim como outras também de referencial psicanalítico (como Berger, 1987; Pines, 1988 e Romera, 1985) que consideram a gravidez na adolescência como atuação da dificuldade de separação da mãe apontando intensos sentimentos sádicos e agressivos em relação à própria mãe. Tais sentimentos estariam dificultando o processo normal de identificação e separação emocional com a mãe. Nessa questão, Romera (1985) aponta que a dificuldade da adolescente de elaborar o vínculo com a mãe e a impossibilidade de separar-se dela por temê-la, faz com que seja impulsionada a fazê-lo procurando novos objetos, mais satisfatórios, realizando, através da gravidez precoce, uma separação abortiva. Em seu estudo com 16 mães menores de 18 anos procurou compor a história de vida dessas adolescentes pertencentes a um baixo nível sócio-econômico e acrescenta que a gravidez atuada é uma possibilidade da adolescente sentir-se útil e atingir um status adulto pela constituição de uma família. Cassorla (1996, p.3) descreve fantasias inconscientes de adolescentes que engravidam geralmente sem o desejar conscientemente, assinalando aspectos da aquisição da identidade feminina e a importância da revivescência dos conflitos infantis na adolescência. Propõe que os ataques destrutivos, onipotentes, fantasiados, aos conteúdos do corpo da mãe e ao casal parental, possam deixar a menina insegura em relação aos seus próprios conteúdos internos, e “a gravidez seria a única forma concreta de constatar que não ocorreu a retaliação”. Em sua pesquisa, Aguirre (1995) observou uma problemática ampla de identidade. As adolescentes estudadas apresentaram uma grande indiferenciação entre si e a mãe e, essas mães, também pesquisadas no mesmo trabalho, pareceram sofrer do mesmo tipo de dificuldade. O problema da gravidez na adolescência, afirma Cassorla, é extremamente complexo e pode constituir-se numa atuação. Embora não seja descartada a concomitância de outras motivações inconscientes, é no grupo de atuação de fantasias inconscientes de simbiose, que foi encontrado o maior número de adolescentes grávidas. Neste grupo, foram percebidas revivescências de fantasias ligadas ao processo de seu desprendimento como bebês, da figura materna, às quais se referem ao nascimento psicológico, discriminação sujeito-objeto, processo de separação, individuação, etc.

Na sua pesquisa, o autor observou outras fantasias inconscientes, tais como: fantasias de auto-agressão; de enfrentamento da família de origem e da própria sociedade; pedido de ajuda do ambiente; tentativa de utilizar suas pulsões de vida de forma criativa. Para ele, na complexidade do processo adolescer, as múltiplas fantasias inconscientes relacionadas à maternidade se articularão de formas diferenciadas. Essa atuação, além de constituir-se numa defesa contra a percepção de núcleos primitivos revividos, tem por funções: chantagear o pai do bebê; atacar e vingar-se de seus pais que, em sua fantasia ou na realidade, não lhe dão amor ou a tratam como a uma criança (nesse sentido, Cassorla refere-se principalmente aos pais internalizados); testar seu corpo e feminilidade, em seus limites, para poder sentir-se mulher, enfrentando de alguma forma sua falta de auto-estima; tentativa de reencontrar a simbiose primitiva, agora se identificando com o bebezinho que vai gestar. Em relação às gestações não planejadas conscientemente, o autor destaca o desejo “normal”, intenso, de ser mãe, apesar das adolescentes terem a consciência de que deveriam ou poderiam adiar essa gravidez. Nesses casos, as jovens se apaixonam rapidamente e, em suas fantasias conscientes ou inconscientes, seu principal objetivo na vida é poderem fertilizar e tornarem-se mães. Dessa forma, engravidam facilmente, não usam métodos anticoncepcionais ou eles falham. Ao se depararem com o fato da gravidez ficam confusas, porém predominantemente felizes e dão à luz revelando-se boas mães; abandonam suas outras atividades, como o estudo; nem sempre o pai assume o bebê, e, apesar disso e de outros conflitos, a força de vida tornará o sofrimento suportável. Também apontando a gravidez precoce como uma atuação, Aguirre (1995) estuda 40 gestantes de 12 a 16 anos de idade que freqüentavam o serviço de assistência pré-natal de três hospitais públicos da cidade de São Paulo. Observou a tendência marcante de agir preferencialmente a pensar, por falta de condições psíquicas para sustentar a angústia.

A autora focaliza a vivência da gravidez pelas adolescentes identificando possíveis motivações inconscientes e os recursos internos para lidar com a situação atual. Utiliza o teste Rorschach, de referencial psicanalítico e entrevistas semi-dirigidas com as gestantes e com 9 mães dessas gestantes e 4 pais dos bebês. A autora aponta que a gestação, em 90% dos casos não-intencional, é vivida com intensa angústia e poderosos bloqueios afetivos, não tendo a gestante maturidade psíquica para estabelecer um relacionamento de casal ou desenvolver um vínculo saudável com o bebê. O feto não seria percebido como uma criança, fruto da relação com o parceiro, mas como extensão de si própria. A autora considera que a ocorrência da gestação parece derivar de conflitos inconscientes próprios da adolescência normal, convertidos em atuações para evitar etapas dolorosas da transformação de criança em mulher adulta. Como Cassorla (1991), depreende uma problemática de identidade ligada a um relacionamento ambivalente e/ou simbiótico da adolescente com a própria mãe. A gravidez seria, então, uma forma de agir no mundo, de contra-atacar seu meio, de reproduzir e, assim, sentir-se útil e atingir status, garantindo, dessa maneira, formar uma família, resgatar uma estrutura idealizada, com o objetivo de compensar a catástrofe da estrutura real da infância (ROMERA, 1985; AGUIRRE, 1995).

** Segundo Laplanche e Pontalis, o conceito de atuação (acting-out) define-se como: “as ações que apresentam, quase sempre, um caráter impulsivo, relativte em ruptura com o sistema de motivações habituais do sujeito, relativamente isolável no decurso das suas atividades, e que toma,muitas vezes uma forma auto ou hetero-agressiva. Para o psicanalista, o aparecimento do acting-out é a marca da emergência do recalcado”.

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