primitivos

Jung escreveu: "Viajando para a África, para encontrar um posto de observação. psíquica fora da esfera do europeu, inconscientemente queria encontrar aquela parte de minha personalidade que se tornara invisível sob a influência e pressão de ser europeu. Essa parte está em oposição inconsciente comigo mesmo, e, de fato, tento reprimi-Ia. De acordo com sua natureza, ela deseja tornar-me inconsciente (afogar-me) de modo a me matar; porém, meu objetivo é, através de um discernimento, torná-Ia mais cons­ciente, para que possamos achar um modus vivendi comum".

Sua preocupação com o mundo dos chamados "primitivos", seu trabalho de campo entre eles, sua fascinação com seus ritos e ceri­mônias, observações sobre sua psicologia, avaliação de seus medos, do seu pensamento analógico, a seriedade que dispensavam aos fe­nômenos da alma, o respeito que mostravam pelo símbolo, tudo isso forneceu informações para as afirmações de Jung sobre os resí­duos psicológicos de primitivismo no homem moderno. Porém, esses elementos devem ser vistos de diferentes ângulos. O primeiro é a partir do próprio homem. Era, como a citação inicial afirma, um experimento obrigado pela própria natureza psíquica de Jung, uma indução de seu próprio inconsciente. Não era um enfoque intencional mais que suas pinturas ou esculturas, sua fantasia ativa, seqüências de sonhos ou diálogos entre as personalidades nº.1 e nº.2. Muito pelo contrário, eram experiências de sua própria interioridade motivada por alguma coisa que ele não sabia explicar, salvo nos termos mais genéricos. Ia para a África não para encontrar africanos nativos ou povos tribais, mas para, mediante observação, encontrar uma contraparte de pessoa nativa, desimpedida, tribal, às vezes selvagem, dentro de si. O segundo ângulo, também é uma perspectiva originária da orientação subjetiva de Jung. Muito embora nunca tenha sido afir­mado categoricamente, seu interesse nos chamados primitivos era sua primeira tentativa de encontrar uma verificação de suas observações psicológicas a respeito da projeção coletiva. A tentativa posterior, mais erudita e sofisticada, foi a Alquimia. Sua preocupação com o estudo dos primitivos era uma extrapolação de recuo no tempo para encontrar as origens coletivas de fenômenos que estava observando em seu estudo do inconsciente no homem moderno. A terceira perspectiva conduzia-o para um conflito metodológi­co com cientistas e médicos de seu tempo. Era uma pesquisa que concedia à subjetividade o mesmo status daquele concedido à obje­tividade na ciência moderna.

A quarta é que isso propiciava um encontro em carne e osso do coletivo, enquanto, em oposição ao homem individuado. Sua hi­pótese sobre o estilo de pensamento dos primitivos era de que eles raciocinavam por meio de projeção, porque suas mentes eram orientadas coletivamente.

Em virtude da inadequação de seu trabalho de campo para os padrões antropológicos e daquilo que parecia sua superconfiança em poucas fontes, e também porque boa parte de sua pesquisa era con­duzida por meio do diálogo, alguns cientistas sociais de sua época, e desde então, a desconsideraram. Ele também foi criticado por aqueles que o viam como explorador de povos nativos e subestiman­do o valor e a dignidade deles. Deliberadamente não fazia isso; so­mente quando se procuram traços de exploração conforme definida de um ponto de vista consciente e político, é que é, de algum modo, suspeito.

A definição, por Jung, de "primitivos" era baseada nas teorias de Lévy-Brühl. Entretanto, embora confiasse em Lévy-Brühl como referencial teórico, não era a única influência. De leitura, viagem, diálogo e introspecção, as idéias de Jung sobre "o primitivo". Vieram a formar uma imagem de um ser liminar, e aqui temos um dos mais completos retratos de suas próprias imagens. Portanto, um exame de seu estudo dos assim chamados primitivos deve integrar qualquer conhecimento abrangente de seu trabalho clínico, ou de outra natu­reza, ou uma verificação acurada do mesmo. A imagem psicológica do primitivo coincide com sua conceitualização da consciência emergente em um indivíduo.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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