incesto [para Jung]

Ao contrário de Freud, Jung não via o impulso de incesto sob uma perspectiva literal, muito embora não pudesse deixar de observar o modo concreto como as crianças o expressam. Entretanto, via a fantasia de incesto como uma complexa metáfora para um caminho de cres­cimento e desenvolvimento psicológicos. Suas idéias tanto aplicavam como ex­pandiam o trabalho do antropólogo/analista (Layard, 1945, 1959).

A opinião de Jung é de que, quando uma criança experimenta sentimentos ou fantasias incestuosos, pode ser considerada alguém tentando inconscientemente acrescentar experiências enriquecedoras à sua personalidade, mediante um contato emocional íntimo com o genitor. O aspecto sexual do impulso incestuoso conota que o encontro é profundo e significativo – os sentimentos sexuais não podem ser ignorados. O tabu do incesto, entretanto, impede uma expressão física e tem seu próprio propósito psicológico.

Quando um adulto regride de modo incestuoso, pode-se con­siderá-Io como tentando recarregar suas baterias, regenerar-se espiri­tual e psicologicamente. Portanto, a regressão tem de ser ava­liada como alguma coisa mais que uma defesa do ego. Para um adulto, a regressão incestuosa não precisa necessariamente dirigir-se para uma figura ou uma imagem em particular, embora muitas vezes seja assim (como em uma "paixão"). O estado em que uma pessoa se encontra também assinala tal regressão: serena, flutuante, sonhadora. Este é o estado da rêverie mística ou criativa que aqueles que estudam os processos dos artistas observaram.

Da abstenção temporária do comportamento egóico adulto advém um novo e restaurador encontro com o mundo interno e com os fun­damentos do ser. Para uma criança (ou para um adulto incestuosa­mente fixado em uma pessoa), o elemento sexual é o registro sim­bólico de tal estado e sua recompensa. Refletindo simbolicamente, as duas pessoas que se estariam engajando no ato sexual representam diferentes partes da psique que ainda não estão integradas. A rela­ção sexual assinala tal integração e o bebê que poderia resultar sim­boliza crescimento e regeneração.

Às vezes a regressão incestuosa se torna uma busca por um tipo diferente de unicidade – poder e controle sobre os outros. Jung sublinhava que era vital emergir do estado de fusão com um genitor. Isso é tanto uma tarefa de desenvolvimento comum como, para um adulto, um confronto necessário com as realidades adultas. Por sorte, existem desvantagens no estado de unicidade; este pode ser percebido como perigosamente devorador e interminável.

Jung desenvolveu essas idéias sobre o incesto do ponto de vista de um homem, em termos de envolvimento incestuoso com a mãe ou regressão a ela. Não há razão por que o modelo não possa ser aplicado ao relacionamento da filha com o pai. Para uma me­nina, isso implica que ela tem de experimentar uma profunda conexão de colorido erótico com seu pai. Para a mulher adulta, sua experiência pode assumir a forma de um tipo de regressão ao pai. Mas, que acontece se essa relação simbolicamente erotizada deixa de se verificar? Então um pai, de qualquer forma, não pode iniciar sua filha em uma psicologia mais profunda, pois ela estará por demais distante dele para que o relacionamento entre eles tenha um efeito profundo sobre ela.

O pai não poderia ser mais diferente da filha; ele é homem e de outra geração. Isso lhe dá um potencial para estimular uma expansão e um aprofundamento da personalidade dela. Porém, ele também é parte da mesma família como a filha; e isso o torna "seguro" no que concerne a uma atuação física. Contudo, o elo familiar e amoroso estimula um investimento emocional na ma­turação de sua filha enquanto a união pai/filha é proibida.

Casos de incestos reais resultam quando a natureza simbólica dessas interações é ignorada, talvez devido a nostalgias e desejos incestuosos não resolvidos da parte do pai. Igualmente prejudicial para o desenvolvimento psicossexual da criança é uma retração ou indiferença erótica da parte do genitor. Isso talvez seja um proble­ma maior para as meninas que para os meninos. A mãe terá expe­rimentado e se acostumou com um contato físico íntimo com seus filhos, bem como com excitação. O pai pode ter esse tipo de experiência com uma filha, mas controlando-se demais e repri­mindo o erotismo – manifestando escárnio pela sexualidade dela ou estabelecendo fronteiras por demais rígidas. Também pode inter­vir uma inibição cultural maior, isto é, os homens podem ser impedi­dos de terem expressão emocional.

O tabu do incesto recebeu de Jung um valor e uma função es­pecificamente psicológicos. Isso além do reconhecimento de seu papel na manutenção de uma sociedade sadia – os relacionamentos conjugais têm de se realizar fora da família de origem para que a cultura não se estagne ou regrida. Mas seria um erro ver o tabu do incesto como uma proibição induzida pela cultura ou superego contra um impulso de incesto "natural". O impulso de incesto e o tabu do incesto são naturais um para o outro. Responder apenas ao tabu, mas ignorar o impulso podem perfeitamente sugerir-nos uma compulsão à consciência, baseada em frustração, que será es­púria, seca, intelectual. Por outro lado, agir pelo impulso e ignorar o tabu levam a uma valorização do prazer imediato e da exploração da vulnerabilidade da criança pelo genitor. Entretanto, em casos de incesto, a criança pode estar capitalizando sobre seu relacionamento mais que especial com uma figura poderosa.

Poderíamos acrescentar que uma função do tabu do incesto é forçar um indivíduo a considerar com quem ele pode ou não se acasalar. Portanto, deverá considerar um companheiro potencial como um indivíduo. A escolha de momento é limitada, e fica real­çada (e isso procede mesmo em um sistema de casamentos arranja­dos). O tabu do incesto, concebido dessa forma, é o fundamento da relação Eu-Tu (R. Stein, 1974).

Na análise, sentimentos de atração sexual entre analista e paciente ocorrem em muitíssimos casos. As idéias de Jung sobre os aspectos psicológicos da fantasia de incesto podem ser usa­das junto com a compreensão da dinâmica edipiana para ressaltar os aspectos simbólicos dos sentimentos, acarretando uma diminuição da possibilidade de uma atuação perniciosa. Porém, o objetivo não é meramente ajudar a obediência do analista à regra da abstinência. Isso porque, guardadas naquilo que poderia parecer uma sexualiza­ção infantil de um estado da mente, podem estar as sementes de um importante desenvolvimento psicológico.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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