inconsciente [para Jung]

Como Freud, Jung usa o termo "inconsciente" tanto para descrever conteúdos mentais que são inacessíveis ao ego, como para delimitar um lugar psíquico com seu caráter, suas leis e funções próprios.

Jung não considerava o inconsciente exclusivamente como um repositório da experiência pessoal, reprimida e infantil, mas também como um lugar central da atividade psicológica que difere da expe­riência pessoal e era mais objetiva que ela, desde que se referia di­retamente às bases filogenéticas, instintivas, da raça humana. O pri­meiro, o inconsciente pessoal, era visto como fundando-se no segun­do, o inconsciente coletivo. Os conteúdos do inconsciente coletivo jamais estiveram na consciência e refletem processos arquetípicos. Tanto quanto o inconsciente é um conceito psico­lógico, seus conteúdos, como um todo, são de natureza psicológica, não importa que conexão suas raízes possam ter com o instinto. Imagens, símbolos e fantasias podem ser designados como a linguagem do inconsciente. O inconsciente coletivo opera independentemente do ego por causa de sua origem na estrutura herdada do cérebro. Suas manifestações aparecem na cultura como motivos univer­sais que possuem grau de atração próprio.

Foi apontado que essa distinção de Jung é um tanto aca­dêmica, pois os conteúdos do inconsciente coletivo exigem o envolvi­mento de elementos do inconsciente pessoal para sua manifestação no comportamento; os dois tipos de inconscientes são, portanto, in­divisíveis (Williams, 1963a). Por outro lado, o conceito do incons­ciente coletivo pode ser usado na análise para discriminá-lo da expe­riência pessoal, e se avaliarem suas conexões não-pessoais. O ego então pode se relacionar com estas de modo diferente (Hillman, 1975). O diálogo no âmbito da psicologia analítica se verifica entre uma perspectiva pessoal e a realidade de uma perspectiva não-pessoal.

Em termos de estrutura psíquica, concebem-se a anima ou o animus como ligando o ego com o inconsciente. A relação entre a consciên­cia e o inconsciente é expressa usualmente por Jung em termos de compensação.

A reflexão sobre o inconsciente conduz a uma consideração da razão por que algumas partes se tornam conscientes e algumas não. A conclusão tentada por Jung era de que: (a) o quantum de energia é variável e (b) a força do ego determina o que pode passar para a consciência. Com respeito ao ego, o fator crucial é sua capacidade de manter um diálogo e interagir com possibilidades reveladas pelo inconsciente. Se o ego é relativamente forte, ele per­mitirá a passagem seletiva de conteúdos inconscientes para a cons­ciência. Com o passar do tempo, tais conteúdos podem ser considerados intensificadores do desenvolvimento da personalidade de um modo único e individual. Pode-se verificar que existe uma diferença em ênfase entre Freud e Jung com relação ao inconsciente. A opinião de Jung é de que o inconsciente é, pri­mariamente ou potencialmente, criativo, funcionando a serviço do indivíduo e da espécie.

Até aqui mencionou-se que o inconsciente tem seu lugar na es­trutura psíquica, tem sua própria estrutura interna, sua linguagem e uma disposição geral da criatividade. Além disso, embora alguma decodificação possa ser necessária, Jung atribui ao inconsciente uma forma de conhecimento, até de pensamento. Pode-se expressar esse fato na linguagem da filosofia dizendo-se que contém a "causa final" de uma tendência psicológica ou linha de desenvolvimento psicoló­gica. Poderíamos julgar isso como a razão ou o propósito para alguma coisa acontecer, a "finalidade" para a qual acontece ou se realiza. Na consciência, uma causa final seria uma esperança, aspiração ou intenção. É difícil denominar as causas finais que operam no in­consciente, mas estas podem ser experimentadas pela pessoa como promovendo a expressão e o significado de sua vida individual.

Este aspecto do inconsciente encerra o chamado Ponto de Vista Teleológico. Dever-se-ia observar que Jung não está nem dizen­do que o inconsciente causa a ocorrência de coisas, nem que sua atuação e influência são necessariamente benéficas.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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