individuação

Uma pessoa tornar-se si mesma, inteira, indivisível e distinta de outras pessoas ou da psicologia coletiva (embora também em relação com estas).

Este é o conceito chave da contribuição de Jung para as teorias do desenvolvimento da personalidade. Como tal, está inextricavel­mente entrelaçado com outros, sobretudo self, ego e arquétipo, como também com a síntese de elementos conscientes e inconscientes. Um modo simplificado de expressar o relaciona­mento dos conceitos mais importantes envolvidos seria: o ego está para a integração (vista socialmente como adaptação) como o self está para a individuação (auto-experiência e auto-reali­zação). Enquanto a consciência aumenta com a análise das defesas (por exemplo, projeção da sombra), o processo de individua­ção é uma circumambulação do self como o centro da perso­nalidade que, com isso, vai sendo unificada. Em outras palavras, a pessoa se torna consciente no que tange a ela ser tanto um ser hu­mano único como, ao mesmo tempo, não mais que um homem ou uma mulher comum.

Devido a esse paradoxo inerente, as definições abundam, tanto por toda a obra de Jung como também nas dos "pós-junguianos" (Samuels, 1985a). O termo "individuação" foi adotado por Jung através do filósofo Schopenhauer, porém reporta-se a Gerard Dom, um alquimista do século XVI. Ambos falam do principium indivi­duationis. Jung aplicou o princípio à psicologia. Em PsychoIogicaI Types, publicado em 1921, porém em composição desde 1913, en­contramos a definição pela primeira vez publicada. Os atributos enfatizados são: (1) o objetivo do pro­cesso é o desenvolvimento da personalidade; (2) pressupõe e inclui relacionamentos coletivos, isto é, não ocorre em um estado de isolamento; (3) a individuação envolve um grau de oposição a nor­mas sociais que não têm uma validade absoluta: "Quanto mais a vida de um homem é moldada pela norma coletiva, maior é sua imora­lidade individual".

O aspecto unificador da individuação é enfatizado por sua eti­mologia. "Uso o termo 'individuação' para denotar o processo pelo qual uma pessoa se torna 'in-dividual', isto é, uma unidade indivi­sível ou um 'todo'". Os fenômenos descritos por Jung em uma variedade de contextos estão sempre ligados à sua própria experiência pessoal, seu trabalho com pacientes e suas pes­quisas, especialmente da alquimia e das mentes dos alquimistas. As definições ou descrições da individuação, portanto, variam de ênfase de acordo com a fonte da qual Jung estivesse mais próximo na ocasião.

Um livro mais recente refere-se à dificul­dade que aparentemente persistia na distinção entre a integração e a individuação: "cada vez mais noto que o processo de individuação é confundido com o advento do ego à consciência e que o ego é, em conseqüência, identificado com o seIf, o que naturalmente produz um distúrbio incorrigível. A individuação fica sendo então apenas egocentrismo e auto-erotismo… A individuação não exclui do mun­do, mas aproxima o mundo para o indivíduo". É claro que é tão importante descrever quais são as manifestações da individuação, como dizer quais não são (as referências ao auto-erotismo, isto é, o narcisismo). Além disso, "individualismo significa enfatizar de­liberadamente e dar proeminência a alguma suposta particularidade, mais que a considerações e obrigações coletivas. Porém, a individua­ção significa precisamente o preenchimento melhor e mais completo de qualidades coletivas". Ou então: "O objetivo da individuação é nada menos que despir o seIf dos falsos invólucros da persona, por um lado, e do poder suges­tivo de imagens primordiais, pelo outro".

Sabemos que Jung começou a pintar mandalas em torno de 1916, durante um período tempestuoso de sua vida, não muito tempo depois do rompimento com Freud. Um capítulo inteiro de suas Obras Completas é chamado "A Study in the Process of Individuation" e é baseado em um estudo de caso clínico em que as pinturas do paciente desem­penhavam um papel proeminente. Não surpreende que, com a in­troversão de Jung e a ênfase daquele período inicial no material in­trapsíquico, possa ter-se verificado a impressão de que a experiência do mundo psíquico interno estava assumindo precedência sobre re­lacionamentos interpessoais durante o processo. Jung depois ilustra a individuação de Cristo em "Transformation Symbolism in the Mass", e isto, junto com declarações no sentido de que a indivi­duação não era para todo mundo, pode ter levado à noção de que se estava lidando com um conceito elitista.

Jung pode involuntariamente ter contribuído para esse equívoco afirmando que o processo é uma ocorrência relativamente rara. Muito embora o processo possa ser demonstrado com mais facilidade me­diante escolha de exemplos dramáticos, freqüentemente ocorre em circunstâncias moderadas. A transformação que ocorre pode resultar tanto de um evento natural (por exemplo, nascimento ou morte) como, às vezes, de um processo técnico. O procedimento dialético da análise oferece, em nossos dias e em nossa época, um exemplo proeminente do último tipo, no qual o analista já não se torna mais o agente, mas um participante amigo no processo. Nesse caso, o trabalho apropriado com a transferência pode ser de capital impor­tância.

O perigo de um envolvimento intenso com o mundo interno e suas imagens fascinantes é que ele pode acarretar uma preocupação narcisista. Outro perigo seria considerar todas as manifestações, in­clusive atividades anti-sociais e mesmo colapsos psicóticos, como re­sultados justificáveis de um processo de individuação. Desde que a transferência na análise desempenha um papel decisivo, há que acres­centar que a individuação é, na linguagem da alquimia, um trabalho contra a natureza (opus contra naturam). Quer dizer, o incesto ou libido de consangüinidade não pode obter concessões. Por outro lado, não deve ser desprezado, porque é a força de um impulso es­sencial.

No que concerne à metodologia, a individuação não pode ser induzida pelo analista nem, naturalmente, exigida. A análise sim­plesmente cria um ambiente de facilitação para o processo: a indi­viduação não é o resultado de uma técnica correta. Contudo, signi­fica que o analista deve ter mais que apenas intuições a respeito da individuação (e/ou da falta dela) a partir de sua experiência pessoal, a fim de ter uma mente aberta para o possível significado, para o paciente, de suas produções inconscientes que se estendem desde sin­tomas físicos até sonhos, visões ou pinturas. Certamente se pode falar de uma psicopatologia da individuação, o que Jung claramente faz. Os perigos normais durante a individuação são a inflação (hipomania), de um lado, e a depressão, do outro. Surtos esquizofrênicos também são conhecidos.

Jung refere-se a idéias psicóticas que, ao contrário de conteúdos neuróticos, não podem ser integradas. Man­têm-se inacessíveis e podem assoberbar o ego; sua natureza é ins­tável. É concebível que o centro da personalidade (o self) seja ex­presso por idéias e imagens que, neste sentido, são "psicóticas". A individuação é considerada uma questão inevitável e o analista pouco mais pode fazer que assistir com toda a paciência e simpatia que é capaz de reunir. O resultado, em todo caso, é incerto. A indivi­duação não é senão um objetivo em potencial, cuja idealização é mais fácil que sua realização.

Mandalas e sonhos sugerem o simbolismo do self sempre onde aparecem em centro e um círculo (normalmente em um quadrado). E os símbolos do self, muitos dos quais estão registrados e ilustrados na obra de Jung, ocorrem sempre onde o processo de individuação "se torna o objeto de escrutínio consciente, ou onde, como na psicose, o inconsciente coletivo povoa a mente consciente com figuras arquetípicas". Os símbolos do self às vezes são idênticos à deidade (tanto oriental como ocidental) e exis­tem sobretons "religiosos" para alguns conteúdos psicóticos, embora a distinção possa ser sutil. Em certo ponto, Jung respondia à ques­tão feita a ele, replicando: "lndividuação é a vida em Deus, como a psicologia da mandala mostra claramente".

Análise e casamento são exemplos específicos de situações de natureza interpessoal que se prestam ao trabalho de individuação. Ambos requerem devotamento e são árduas jornadas. Alguns ana­listas consideram o tipo psicológico de cada parceiro de importância capital. Sem dúvida existem outros relaciona­mentos interpessoais que, combinados com uma observação mais ou menos consciente de eventos intrafísicos, poderiam facilitar a indi­viduação. O mais importante desenvolvimento teórico desde que Jung afirmou que a individuação fazia parte da segunda metade da vida foi a extensão do termo que passou a abranger também o co­meço da vida (Fordham, 1969).

Uma pergunta, sem resposta ainda, é saber se a integração deve, necessariamente, preceder a individuação. Obviamente, as chances são melhores para o ego que é forte (integrado) bastante para resistir à individuação quando esta irrompe subitamente, ao invés de se in­troduzir calmamente na personalidade. Grandes artistas, cuja auto-­realização dificilmente pode ser posta em dúvida (por exemplo, Mozart, van Gogh, Gauguin), às vezes parecem ter preservado uma formação de caráter infantil e/ou traços psicóticos infantis. Eram individuados? Em termos de perfeição de seus talentos que se tor­naram amalgamados com suas personalidades, a resposta é sim; em termos de completude e relacionamentos pessoais, provavelmente não.

Finalmente, há uma pergunta relativa à individuação que con­cerne a toda análise profunda, e à sociedade como um todo: fará al­guma diferença para o resto da humanidade se um número infinite­simalmente pequeno empreende essa árdua jornada? Jung responde positivamente que o analista não está trabalhando somente para o paciente, mas também para o bem de sua própria alma, e acrescenta que "por pequena e invisível que possa ser a contribuição, ela, con­tudo, é um magnum opus". As questões decisivas da psicoterapia não são um assunto de interesse privado; representam uma responsabilidade maior".

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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