projeção

A abordagem da projeção, de Jung, faz-se sobre uma base psicanalítica. Pode-se considerar a projeção como normal ou patológica e como uma defesa contra a ansiedade. Emoções difí­ceis e partes inaceitáveis da personalidade podem ser colocadas em uma pessoa ou objeto externo ao sujeito. O conteúdo problemático é por esse meio controlado e o indivíduo sente uma libertação (provisória) e um sentimento de bem-estar.

Alternativamente, aspectos da personalidade percebidos como bons e valiosos podem ser projetados de modo a protegê-los das devasta­ções do resto da personalidade, fantasiadas como más ou destrutivas. Em termos de experiência, uma pessoa sente alguma coisa a respeito de uma outra pessoa (ou instituição ou grupo) que ela considera aplicável àquela pessoa; mais tarde pode compreender que não se trata disso. Um observador imparcial, um analista, talvez, pode en­tender isso bem mais cedo. O resultado geral da projeção, além de um nível ótimo, é um empobrecimento da personalidade. Níveis normais de projeção na tenra infância são considerados patológicos em um adulto.

Na Psicologia Analítica também se enfatizou a proje­ção como o meio pelo qual os conteúdos do mundo interno se tornam disponíveis à consciência do ego. A hipótese é de que um encontro entre o ego e tais conteúdos inconscientes tem de algu­ma forma um valor. O mundo externo das pessoas e coisas serve ao mundo interno ao fornecer a matéria-prima a ser utilizada pela projeção. Pode-se ver isso com maior clareza quando o que é projetado também é representativo de uma parte da psique. As projeções de anima e animus são "levadas" por mulheres e homens reais; sem o portador não haveria encontro. De modo semelhante, o encontro com a sombra freqüentemente ocorre na projeção. Por definição, a sombra é o repositório daquilo que é inaceitável para a consciência. Está, portanto, propícia para a pro­jeção.

Contudo, para que alguma coisa valiosa seja obtida, é necessário que se realize alguma reintegração ou recuperação daquilo que é projetado. Jung sugeria que, por conveniência de compreensão, esse processo fosse dividido em cinco fases:

(1) A pessoa se convence de que o que vê na outra é reali­dade objetiva.

(2) Começa a ocorrer um reconhecimento gradativo a partir de uma diferenciação entre o outro como "realmente" é e a imagem projetada. A expansão de tal conscientização pode ser facilitada por sonhos ou, do mesmo modo, por eventos.

(3) Faz-se algum tipo de avaliação ou julgamento sobre a dis­crepância.

(4) Chega-se a uma conclusão de que o que se percebia era errôneo ou ilusório. (Jung argumentava que isso era até onde a psi­canálise ia).

(5) Uma busca consciente das fontes e da origem da projeção é empreendida. Inclui determinantes pessoais como também coletivos da projeção.

Jung notou o papel da projeção na empatia, embora avaliando o da introjeção como um papel maior. Pode ser necessária uma projeção para atrair o objeto para a órbita do sujeito; porém, será uma introjeção do objeto que facilitará a resposta empática. Existe um paralelismo contemporâneo com a definição de empatia, de Kohut, como uma "introspecção vicária". Na teoria de Kohut, pro­jeção e introjeção recebem mais ou menos o mesmo peso.

Debate semelhante nasce da insistência de Jung em que uma função da projeção é efetuar uma separação entre sujeito e objeto, acarretando um isolamento do sujeito. A ênfase kleiniana sobre o controle defensivo do objeto mediante uma identificação projetiva realça a eliminação de qualquer tipo de separação que pudesse existir.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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