Afinal, o que é "Emo"?

Durante uma confraternização de amigos no final do ano passado, uma colega relatou ao grupo sobre algumas cenas familiares, pois estava preocupada com as atitudes “suspeitas” do filho adolescente: “Ele se veste com roupas extravagantes, pinta os olhos e está deixando uma franja gigantesca. O pai dele está preocupado com as atitudes dele!”. E acrescentou: “Eu perguntei para ele porque estava usando aquelas roupas, as mudanças… e ele me falou que é ‘Emo’. Afinal, o que é ‘Emo’?

O termo Emo foi criado na década de 80 por meio de artigos de fanzines e revistas especializadas sobre o rock alternativo. Na época, algumas bandas de punk rock começaram a cantar letras introspectivas e sentimentais, relatando sobre suas emoções. Para imprimirem uma representação dessa nova sonoridade, imediatamente, os jornalistas e fanzineiros apelidaram essas bandas como “emotional hardcore”.

A originalidade criada pelas bandas estava justamente nas temáticas das letras incorporadas na musicalidade radical do punk rock. Assim, se antes as letras buscavam objetivamente corroer os pilares das instituições sociais, essas bandas inverteram o foco e encontraram nas reflexões subjetivas o amparo para suas inquietações juvenis.

As bandas precursoras (Rites of Spring, Embrace, etc.), consideradas pelos críticos musicais como pertencentes ao estilo “emotional hardcore”, não aceitavam o apelido. Na verdade, representavam o termo de forma pejorativa. No entanto, após a massificação do termo, atualmente, muitas bandas se definem como pertencentes ao movimento Emo.

No Brasil, essa tribo urbana teve seu destaque na mídia por volta do ano de 2003. Grupos de rock como Dance of Days, NX Zero e Gloria, foram despejadas de maneira massiva nos meios de comunicação, contribuindo para a divulgação da sonoridade e proliferação de grupos de jovens que se identificavam com as letras dessas bandas.

Extremamente “emotivos” e esbaldando dramatizações no comportamento, esse grupo vem capturando um olhar preconceituoso da opinião pública e de outras tribos urbanas.

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O Programa Domingo Legal, da emissora SBT, realizou uma reportagem sobre o fenômeno grupal na capital paulista. Numa reportagem apresentada no ano de 2006, os jovens narram sobre o cotidiano de suas vidas: a moda, as músicas, os relacionamentos amorosos, a sexualidade, os preconceitos sofridos e os anseios do grupo.

Durante a gravação, o repórter Rodolfo (vestido como um dos membros do grupo) foi ameaçado e agredido por tribos rivais em pleno centro de São Paulo. Outro fato observado é que essa tribo não é bem-vinda em determinados pontos de encontro de jovens e, quando aparecem nesses locais, sofrem perseguições e preconceitos diversos.

Programa Domingo Legal:
1- http://www.youtube.com/watch?v=_Q-loTnM-_U
2- http://www.youtube.com/watch?v=AcPbjcwJ92Q
3- http://www.youtube.com/watch?v=pPk01sC4i1M

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Vivemos num mundo onde a relação do sujeito consigo mesmo, com seu corpo e com sua sexualidade, estão diretamente relacionadas com os processos de expansão do mercado e das redes de comunicação. Concebida enquanto fato sócio-cultural, a tribo urbana denominada Emo, configura-se como uma forma de expressão juvenil ancorada nos processos constitutivos da cultura global informatizada.

A necessidade desses jovens significarem a si mesmos no território urbano, construindo sentidos para suas existências por meio da estilização cultural de suas vestimentas e da sexualidade, revelam o pleno exercício de práticas sexuais, vínculos amorosos e formas de relacionamento na contemporaneidade.

Percebe-se que o discurso apresentado por esse grupo juvenil e as manifestações hostis por parte de seus rivais urbanos e a população leiga, demonstra um contexto social de infinitas experimentações simbólicas que se entrelaçam culturalmente numa sociedade globalizada.

Por que um grupo de jovens pode ser tão odiado, já que são adeptos da paz, da aceitação da homossexualidade entre seus membros, das manifestações públicas de carinho e, ainda, extremamente sensíveis à rejeição amorosa? Não seriam esses os atributos esperados para os cidadãos de uma sociedade solidária?

Bauman (2007) menciona que estamos substituindo a solidariedade social pela auto-responsabilidade individual. Na ausência de conforto existencial proporcionado por uma vida comunitária, aparentemente vivemos num mundo de interesses individuais imediatos, incentivando a competitividade e aumentando a sensação de insegurança. Para o pensador, as cidades se transformaram em verdadeiros campos de batalha, onde os poderes globais se chocam com identidades locais, abandonadas pela desintegração da solidariedade social.

A violência exacerbada por parte de outros grupos juvenis rivais dos Emo´s, denota claramente, o conflito tribal urbano dentro de uma cínica realidade social intolerante com as diferenças. Os Emo´s, justamente por apresentarem essa variabilidade de características provindas de outros grupos urbanos e receberem acusações de que são forjadores de “modas”, tornam-se um interessante campo de pesquisa psicossocial para a compreensão dos efeitos midiáticos e os mecanismos ideológicos contribuintes para esse fenômeno sócio-cultural juvenil.

O tema merece ser explorado, principalmente para compreendermos as manifestações discursivas da atual juventude brasileira. Afinal, quando o mundo adulto se espanta com as manifestações juvenis, questiona-se se realmente os jovens são os responsáveis pela ruína de todos os aparatos educacionais, valores morais e os fracassos de um mundo que antes era considerado sólido.

Quanto à pergunta inicial, a própria mãe inconformada se consolou; “[…] isso passa! Coisas de adolescentes!”, disse.

Bibliografia

BAUMAN, Z. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

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