“Um por todos e todos por um”: O desafio da construção da identidade conjugal quando há dificuldades de diferenciação em relação às familias de origem

Resumo

O presente artigo tem como objetivo descrever as dificuldade do trabalho terapêutico na construção da identidade conjugal, quando não temos um casal, em função dos seus membros do, possuirem  apenas um  pequeno grau de diferenciação em relação as famílias de origem. Para tanto será explanado um caso prático, com o qual se pretende  explorar a experiência de terapia conjugal com tal problemática.

Palavras-chave:
casal, diferenciação, identidade conjugal.

Para dar início á discussão deste trabalho  se faz necessário esclarecer alguns conceitos, tais como conjugalidade, diferenciação da família de origem, fronteiras e identidade. Será dado inicio a explanação através dos conceitos de conjugalidade e de implicações para a sua realização. A construção da identidade conjugal é um processo que se inicia antes mesmo do casamento. Para que o indivíduo consiga unir-se ao outro e estabelecer uma relação íntima entre o seu eu, o tu e o nós torna-se essencial que sua identidade já esteja formada e que neste momento, ele possa conciliá-la com a identidade de outra pessoa (Erickson, 1998). A teoria boweniana afirma que o indivíduo com personalidade madura e saudável é aquele que consegue resolver seu apego emocional com a família de origem, podendo diferenciar-se da mesma. Ou seja, as pessoas que alcançam bons níveis de diferenciação são capazes de adotar posições definidas sobre as questões que a rodeiam, e permitem estar em contato íntimo com os outros, sem se deixar moldar por estes (Nichols & Schwartz, 1998). Todo o processo de construção da identidade, portanto, passa inevitavelmente pela formação da identidade adulta, que tem inicio no final da adolescência. É neste período que se observa como principais complicações o manejo do sustento financeiro, respeito às fronteiras e  a permissão para  que o indivíduo possa governar sua vida. O sujeito que não consegue diferenciar-se de seus pais demonstra ter pouca identidade autônoma e tende a estar fusionado com outras pessoas e com a própria família de origem. Assim, quanto menor a diferenciação do self antes do casamento, maior poderá ser a fusão ou a distância entre os cônjuges  (Carter & McGoldrick,1995). É muito comum que alguns jovens adultos não consigam entrar neste estágio de diferenciação, ficando em casa como eternos adolescentes, não progredindo nas questões  de desenvolvimento da independência e da identidade adulta. Embora muitas vezes fisicamente separados, ficam, simplesmente se debatendo em termos vocacionais e interpessoais,  gerando  um emaranhamento, ou seja, um padrão de superenvolvimento emocional entre os membros da família, que pode variar desde contatos telefônicos excessivamente freqüentes até a fusão simbiótica total. Em um caso extremo, o emaranhamento impede o desenvolvimento emocional e psicológico do indivíduo, promove interdependências patológicas e isola uma família da comunidade. Com isso o jovem tende a pular o processo desenvolvimental de independência através do casamento prematuro e de assumir responsabilidades por uma nova família (Carter & McGoldrick,1995). Para muitos, o casamento é a única maneira de se separar das suas famílias de origem, o que cria uma idéia de independência, ou corte emocional, que consiste na ruptura afetiva do vinculo com a família de origem. Trata-se, como é obvio, de uma interrupção apenas aparente da relação com os pais, que prossegue de forma sub-reptícia e conflitante, provocando conseqüências às vezes dramáticas (Loriedo & Strom, 2002). Sendo o  padrão de culpa, intrusividade e fronteiras difusas típicas de tais sistemas. Os individuo, os subsistemas e as famílias como um  todo é demarcada por fronteiras interpessoais. As fronteiras servem para proteger a autonomia da família e de seus subsistemas, lidando com a proximidade e com as hierarquias. As fronteiras interpessoais variam desde rígidas até difusas. As rígidas são explicitamente restritivas e permitem pouco contato com os subsistemas externos, o que resulta em distanciamento. Os indivíduos com os subsistemas distanciados são relativamente isolados e autônomos.  O que faz com que limitem  a proximidade, o afeto e proteção  em relação ao meio externo (Nichols & Schwartz, 1998).           

Conforme a teoria Boweniana, muitos casais vêem no rompimento emocional (ou seja, padrão familiar caracterizado por extremo desligamento e distância, a ponto de não haver absolutamente nenhum envolvimento) uma possibilidade de se  diferenciarem se da família de origem. Tal padrão pode ocorrer de forma enraivecida e súbita, com extrema amargura e projeção, de forma  gradual ao longo dos anos e das gerações, sem causa aparente. Este tipo de comportamento contribui para um padrão de vazio e vulnerabilidade nos membros que  o utilizam (Nichols & Schwartz, 1998).        

Bowen (1978) ressalta que quanto maior for o padrão de funcionamento de rompimento emocional, mais os cônjuges passarão a representar não apenas quem eles são, mas também pai, mãe, irmãos, etc. Entretanto, este funcionamento irá sobrecarregar o casal. Se o cônjuge for à relação mais significativa do casal, a tendência é de que eles tenham uma relação muito frágil. Com isso, qualquer manifestação mesmo que mínima de rejeição irá gerar excessivos sinais de diferença e conflitos. O padrão do corte emocional, muitas vezes, tem graves conseqüências sobre o casamento. Quanto mais um parceiro distancia-se de sua família, mais o processo emocional no interior do casamento tende a se intensificar. Além disso, um individuo que usou o corte emocional em relação à própria família de origem tenderá a utilizar-se de novo dele em relação ao próprio parceiro visando  controlar o próprio envolvimento emocional (Loriedo & Strom, 2002). A situação ideal, que raramente ocorre, é aquela na qual os parceiros tornam-se independentes de suas famílias de origem antes do casamento e ao mesmo tempo mantêm laços estreitos e carinhosos com as mesmas. Nesse caso, o casamento servirá para que toda a família compartilhe e celebre a mudança de status do novo casal .

Sejam quais forem os padrões de dificuldade com a família ampliada (conflito, emaranhamento, distância ou rompimento), a falta de resolução destes conflitos é o maior problema da fase do ciclo da vida denominada construção do novo casal (Carter & McGoldrick,1995). Segundo Bowen (1991), a passagem da família de origem para a família adquirida oferece a cada um a oportunidade de crescer, adquirir a condição de se individualizar e pertencer. Não se trata de um processo completo de separação, porque cada parceiro deve conseguir pertencer à nova família sem perder o vínculo com a família de origem. Estas questões são fundamentais durante a avaliação da construção da identidade conjugal, já que não se pode compreender um casal separado de seu contexto e de suas raízes familiares. Além disto, a intimidade conjugal vai sendo formada na medida em que se consegue estabelecer limites claros entre o espaço do casal e sua família de origem, bem como entre os espaços dedicados à profissão, ao lazer e à individualidade de cada um. McGoldrick (1996) afirma que a formação do casal é um dos momentos mais críticos na formação e estruturação da família, e que este processo se inicia na escolha do parceiro, estando relacionados um conjunto de valores pessoais, familiares e sociais. Este é o momento crucial, podendo estar aí muito da origem dos conflitos familiares. Uma relação conjugal não é apenas a soma de duas personalidades, pois  propõe um novo nível de organização. Na formação de uma unidade familiar estão em jogo duas unidades sociais distintas:   as famílias de origem de cada um dos cônjuges, que são determinantes nas crenças e expectativas de cada parceiro, e que  estão influenciando e, obviamente, sendo influenciado pelo próprio sistema.Conforme Willi (1995), o desenvolvimento pessoal de cada um implica redefinir continuamente a distribuição de papéis, regras, funções e poder. Para que uma relação seja funcional é importante que estas regras não sejam totalmente rígidas, nem modificáveis por um dos dois membros sem consultar o outro. Esta não é uma tarefa fácil, já que são poucos os casais que conseguem distribuir as funções de modo paritário ou negociar as regras que fazem parte do contrato do casamento. Isto significa que a união com outra pessoa requer uma série de ajustes entre os cônjuges até que estes consigam elaborar um mundo comum, compartilhando situações e idéias, negociando tarefas, modificando papéis e assumindo novas funções (Erickson ,1998). Todos estes ajustes maritais e valores permeiam os modos de conceber o casamento e condicionam o que se considera ser marido e ser mulher. A partir disto, os casais desenvolvem uma construção de realidade compartilhada, na qual os valores, mitos, idéias e expectativas para o futuro podem ser modelados reciprocamente, reforçados ou modificados ao longo do tempo. Desta forma, o casal vai aos poucos construindo sua identidade conjugal e começa a elaborar seus construtos em função um do outro (Willi, 2002) .Willi (1995) afirma que na vida cotidiana, os parceiros contam um ao outro o que fizeram ou viram durante o dia.

A correspondência, a escuta e a troca entre o casal vai fortalecendo ainda mais a relação e torna-se essencial para a higiene psíquica pessoal. Porém, os indivíduos formam seus construtos a partir de experiências pessoais e já que nenhuma pessoa possui vivências exatamente iguais a da outra, os construtos podem ter significados diversos para cada um. Sendo assim, os espaços individuais e conjugais de cada pessoa, podem basicamente ser divididos em dois: no primeiro  adecua-se o construto pessoal ao do parceiro, desta forma obtém se dele o máximo de aprovação e segurança, porém corre-se o risco de seus construtos não serem mais seus. No segundo  aceita-se que o parceiro dada as  sua experiências anteriores diferentes, construa seu mundo de maneira diferente da sua. Portanto, pode-se distinguir os construtos um do outro, com a vantagem de poder conservar  seu mundo, mas com a desvantagem de ser menos aprovado e tranqüilizado, pelo outro (Willi,1995). Um outro aspecto fundamental na construção da identidade conjugal diz respeito à coesão, na qual há um sentimento de reciprocidade, vínculo e valorização do parceiro; por outro lado, não se pode confundi-la com fusão. Muitos casais acreditam que podem somente fazer coisas juntas, de maneira fusionada, demonstrando uma personalidade dependente e até infantil (Carter & McGoldrick, 1995). O grau de fusão determina o grau de interdependência entre os pares. Quanto maior for o grau de indiferenciação, menos espaço caberá a cada um fora da relação e maior será a exigência da presença de outro, com vistas a manter seu próprio funcionamento em níveis aceitáveis. Quanto maior a dependência, menor a tolerância de cada um em relação à diversidade de outro e maior a ansiedade quando surgem diferenças inevitáveis (Loriedo & Strom, 2002).Dado o exposto é possível perceber o quanto é complexo trabalhar com casais não diferenciados. A não realização deste processo implicará, cedo ou tarde, em crises pessoais ou matrimoniais. Para ilustrar este tipo de trabalho, será explanados um caso clínico e suas implicações em função da indiferenciação de seus indivíduos em relação a suas famílias de origem.

O caso:  “Um por todos e todos por um”

Danilo tem 30 anos é professor, vem de uma família pobre de pais separados onde sofreu agressões físicas quando criança e recebeu muito pouco afeto. Em função deste padrão familiar, para Danilo a relação entre familias deve ser distanciada, pouco afetiva e baseada na independência e autonomia. Maria tem o segundo grau completo e trabalha com os pais na farmácia da família. Seus pais e irmãs são muito ligados, compartilham todos os problemas e decisões. O casal procurou tratamento em função dos pais de Maria estarem interferindo muito na relação, tendo essa influência piorado desde o nascimento da primeira filha. Danilo relata que neste momento não consegue mais suportar as interferências dos sogros na vida de sua família. E, como última alternativa, o casal procurou a terapia para solucionar o problema ou então separarem-se.Segundo Nichols (1998), subsistemas aglutinados apresentam um sentido elevado de apoio mútuo, mas às custas de abdicar da sua independência e da autonomia, assim como ocorre no caso de Maria. Como agravante, ela tem um histórico de depressão desde a infância, toma  medicação; porém faz terapia individual há anos. Maria e Danilo se conheceram há aproximadamente nove anos atrás na igreja que frequentavam. Namoraram por algum tempo e estão casados há sete anos. O casal relata perceber que, desde seu casamento, os pais de Maria têm por hábito decidir tudo o que diz respeito a eles,coordenando cerimônia, roupas, lua de mel, móveis da casa, onde investir o dinheiro e até mesmo as questões sexuais do casal. Segundo Walsh (2002), nenhum casal inicia uma relação do zero, pois cada indivíduo tem um sistema de crenças e de expectativas em relação ao casamento, baseado na experiência da família de origem e de outras experiências matrimoniais, de acordo com determinada cultura e sociedade. Por este motivo, para Maria a intromissão de sua família no casamento era algo normal e esperado. O que faz pensar que se o casal estivesse fortalecido no seu relacionamento e construído sua identidade conjugal, seria mais fácil lidar e aceitar novos papéis – de pais – e, conseqüentemente, separar as fronteiras entre os espaços conjugais e parentais (Willi ,1985). Porem não foi o que ocorreu entre a Maria e o Danilo.         

Ao longo de seis anos de casamento, este tipo de comportamento intrusivo se manteve igual, até o nascimento da primeira filha do casal (Laura) momento em que os pais de Maris passaram a interferir ainda mais em suas vidas. Eles desautorizavam os pais perante a criança, questionavam a capacidade de exercerem o papel de pai e de mãe da Laura.         

Em virtude das intromissões, Danilo havia ficado muito incomodado, irritado com os sogros ao ponto de gerar brigas constantes e até mesmo cogitar a separação. Maria dizia concordar com o marido, em relação aos pais porém acredita que o marido deveria tolera-los mais.         

Segundo Ackerman (1987), os conflitos na relação do casal aparecem quando as regras que estão no contrato marital, não estão mais em concordância. Foi o que ocorreu com  Danilo e Maria. Para eles este tipo de comportamento era aceitável,  porém com o passar do tempo Danilo não entrou mais em concordância com a esposa, acabando por considerar tal padrão comportamental inadmissível.          

Danilo relata que a gota final se deu quando o casal decidiu fazer uma viagem, para curtir a filha, e mesmo tendo sido combinado que iriam apenas os três, toda a família de Maria foi. Não suportando mais a situação, o marido brigou com  todos inclusive a esposa, ficando um tempo sem conversarem.         

Segundo Whitaker (1990), quando ocorre conflito entre as famílias de origem do casal, em geral são os conflitos mais devastadores, em meio aos quais o casal acaba com freqüência sofrendo danos graves, sem estar, muitas vezes, diretamente interessados nas razões do conflito. É neste contexto que o casal chega a terapia. O primeiro impacto foi perceber que se tratava de um casal de opostos, pois Danilo é um homem muito extrovertido, brincalhão e cativante. Maria é uma mulher séria, calada, cabisbaixa, que quando fala com sua voz tremula,  não olha nos olhos. Ao longo do tratamento eles passaram por muitas dificuldades, pois Danilo, colocava toda a sua revolta em Maria, trazendo todo tempo que não percebia quem era sua mulher, e sim que ela e sua família eram um só ser, intrusivo, mandão e sufocante.Com o encaminhamento de Danilo para a terapia individual, tendo em vista que Maria já fazia, ele tornou-se  um pouco mais  complacente e ponderado. Foi neste momento que se deu inicio  a um longo e árduo processo de diferenciação do casal em relação à família de origem de Maria. Em famílias enredadas, as intervenções do terapeuta destinam-se  a fortalecer as fronteiras entre os subsistemas e aumentar a independência dos indivíduos (Nichols, 1998). Houveram grandes dificuldades para estabelecer fronteiras, hierarquias e limites a fim de realmente conseguir um trabalho de casal, pois até então era  como se estivesse  sendo feito um tratamento com dois adolescentes. Segundo Loriedo & Strom (2002), a presença de comportamentos adolescentes dos cônjuges deixa supor que o desligamento com a família de origem verifica-se somente na aparência. As passagens para as outras fases do ciclo vital podem ser consideradas incompletas na medida em que elementos relativos às fases passadas do ciclo da vida ainda permanecem não-resolvidos. Willi (1985) acrescenta que não se pode sair de um extremo para o outro. Isto significa que o casal deve possuir os limites intra e extra diádicos de forma clara e flexível o suficiente para acompanhar a evolução e as mudanças do ciclo de vida familiar, entretanto com a não realização do processo de diferenciação, torna-se quase impossível estabelecer uma identidade adulta e, claro, uma  conjugalidade. Foram  feitos  muitos esforços, para que o casal não iniciasse  um processo de corte emocional com a família de origem de Maria,  inevitavelmente isso ocorreu. Vale lembrar que Danilo, já havia experenciado um padrão de distanciamento e corte emocional com sua família de origem, o que fez com que acabasse por incentivar Maria a fazer o mesmo com sua família , pois como visto na revisão bibliográfica uma vez estabelecido o padrão de corte emocional, o mesmo tende a ser repetido em outras relações.

Com o corte emocional, obviamente, veio a fusão do casal e com isso problemas de comunicação. Segundo Carter & McGoldrick (1995) os homens muitas vezes expressam a sua fusão mantendo uma posição distante pseudodiferenciada, e  as mulheres, mantendo uma pseudo-intimidade,que é na verdade desistir de si mesma.Com Maria e Danilo a premissa não foi diferente, pois ela passou a fazer  fortes cobranças de atenção total a Danilo, justificando sua atitude no fato de ter abdicado de sua família por causa dele.É neste momento que Danilo descobre que tem uma outra família por parte do avô materno;ele entra em contato com esta família, e passa a reconstituir parte de sua história, na qual seu avô paterno, havia engravidado sua avó (empregada da residência de seus pais), com medo de perder a criança para a família do pai do bebê, ela foge para outra cidade e nunca mais o vê.Passado algum tempo este avô paterno constitui uma outra família, sendo esta que Danilo, vem a conhecer. Após  este fato ele passou a voltar-se totalmente a  esta nova família , o que fez com que Maria ficasse muito enciumada. Fogarty (1976) ressalta que um dilema básico na união é a confusão entre intimidade e fusão ou seja achar que a intimidade tem como conseqüência o distanciamento de si mesmo. Cônjuges que se valem da fusão tentam desafiar a natural condição incompleta das pessoas e dos sistemas, como se alguém pudesse tornar-se completo fundindo-se em um. Sendo exatamente isso o que ocorreu com Danilo e Maria, ou seja, a dificuldade em manterem seus espaços individuais, sem abdicarem do espaço de casal e de família.     

Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo casamento contemporâneo está justamente no aspecto, da criação de laços significativos, que possam produzir projetos compartilhados que fazem parte da conjugalidade, sem deixar de manter autonomia, ou seja, investir em projetos individuais, abrindo espaços para o eu. Tanto os homens como as mulheres salientaram a importância da individualidade na vida a dois ao mesmo tempo em que valorizavam a importância de compartilhar e dividir. Mesmo esta não sendo uma tarefa nada fácil de se desempenhar (Féres-Carneiro, 2001).Junto com todos estes obstáculos,  fez-se  todo um trabalho na tentativa de reparar o corte emocional, o que aos poucos foi auxiliando o processo de construção da conjugalidade do casal. Durante este processo foram obtidas muitas conquistas como por exemplo: o casal conseguiu fazer a festa da filha sem a ajuda da família materna, conseguiram passar as festas de fim de ano apenas os três, apropriaram-se dos papeis de pai e mãe, começaram a  se organizar financeiramente de forma autônoma. Maria largou o emprego com a família e conseguiu trabalhar por conta própria. O casal comprou um carro sem a consulta nem o auxílio financeiro da família dela. Eles resgataram hábitos de quando eram namorados, como pedir feedback dos encontros e das atitudes do outro. Estabeleceram um dia  para o casal, exercitaram o espaço de diálogo, passaram a respeitar o tempo de cada um , reaprenderam a  avaliar o momento mais tranqüilo e calmo para   iniciar uma conversa. Enfim realmente obtiveram-se progressos significativos em relação ao casal que havia chego na terapia meses antes. Hoje faz 1 ano e 8 meses que o casal está em tratamento e, embora tenham tido todas estas melhoras ainda se encontram no processo de construção da conjugalidade e de elaboração de estratégias para lidar com a filha, e com o  estabelecimento de  limites. Ou seja ainda estão na busca de equilíbrio entre a necessidade de criar laços significativos, entre eles, e alcançarem suas autonomias individuais. Sem que uma ação tenha que extinguir a outra.           

Em relação à Maria, suas mudanças são nítidas. Hoje se tem uma mulher muito mais falante, de voz firme e olhar profundo, que  trabalha por conta vendendo perfumes, dando  também aulas de inglês para crianças, e ainda sonha em fazer faculdade de psicologia. Quanto a sua família de origem, o casal hoje mantém uma relação de convivência pacifica. Maria tem conseguido relacionar-se com os pais, sem gerar conflito e estabelecendo limites. Obviamente esta ainda é uma tarefa  que necessita de monitoramento constante, mas tem sido executada com muito êxito. Danilo também já consegue conviver e impor limites, na família de Maria, sem sentir-se temeroso, nem irritado. Com relação a sua família de origem dela , como foi dito houve a reviravolta na qual descobriu e procurou conhecer, uma outra família de seu avô materno. Isto lhe trouxe muita satisfação e despertou o sentimento de pertença que antes não tivera com sua própria família, e que anteriormente achava ter com a família de  Maria. Diante de tanto progresso espera-se que o casal possa seguir seus caminhos valendo-se da adaptabilidade, tolerância e da clareza na comunicação, elementos que poderão auxiliar o casal a lidar com eventos difíceis e com possíveis crises que possam ocorrer, negociando agendas e construindo ou re-construindo estes espaços que estão faltando (Walsh, 2002).

Conclusão       

Após a apresentação e discussão do caso clínico, percebe-se o quanto o convívio a dois é uma tarefa a ser aprendida e construída no decorrer das etapas do ciclo vital familiar. Pois os aspectos referentes a conjugalidade e à individualidade irão surgir com intensidades diferentes em cada etapa de vida.        

Outro aspecto interessante que este caso ilustra é a importância das fases de ciclo vital, e as conseqüências da vivência incompleta do processo de diferenciação em relação à família de origem. Estas reflexões indicam a seriedade e complexidade do trabalho terapêutico com casais não diferenciados e fusionados. Em particular o melhor fruto deste caso é a desmistificação da idéia de que terapia de casal serve para separar ou para juntar,e sim que a terapia de casal tem o intuito de melhorar as relações, sem a pretensão de estabelecer uma união ou uma separação.  Nesta situação em especial pode se perceber a força de uma relação de amor e o esforço para que ocorre se  transformações a fim de reconstruir uma relação, mesmo que isso implicasse em feridas individuais bastante profundas.

A complexidade do processo de diferenciação, da construção da conjugalidade, da identidade, das hierarquias e fronteiras esteve totalmente presente neste caso demonstrado a importância do olhar sistêmico e da disponibilidade deste casal em abrir coisas tão difíceis em prol de manter um casamento de amor e respeito.

Nesta caminhada terapêutica, existiram várias pedras, espinhos e obstáculos, mas a forma como o casal lidou com tais situações fortaleceu ainda mais o vínculo conjugal. Proporcionando a reflexão sobre vários aspectos de suas vidas, auxiliando o processo de diferenciação e a construção de uma conjugalidade. Uma outra faceta essencial neste caso foi que os cônjuges estiveram atentos e conectados com seus sentimentos não permitindo a estagnação de sua vida conjugal. Este movimento também contribuiu para que o sucesso terapêutico fosse potencializado.

Por tanto é de total valia a explanação deste caso; pois é bastante raro conseguir trabalhar com processo de diferenciação em relação à família de origem, enquanto casal, sem que isso provoque uma separação. Em virtude disto, trata se de um privilegio  participar da construção de tal faceta.  Espera-se que  este artigo possa  criar uma ótica diferenciada de tal problemática, auxiliando assim na construção da identidade profissional e, claro, pessoal dos terapeutas, visando a reflexão, sobre o referencial teórico sistêmico e  sua prática.

Referências

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