BJERRE, Poul (1876-1964)

Personagem complexo, paradoxal e surpre­endente, Bjerre nasceu em Gõteborg (Sué­cia), em uma família de negociantes. Termi­nou seu curso de medicina em 1903 e quatro anos depois assumiu em Estocolmo o consul­tório do seu mestre e amigo Otto Wetterstran­d, que o iniciou na hipnose e na sugestão. Trabalharia ali até sua aposentadoria em 1947.

Em 1905, casou-se com a mãe da primeira mulher de seu irmão mais novo, uma cantora 17 anos mais velha que ele. Depois, desco­briu a psicanálise, sobre a qual pronunciou, em 1909, uma conferência em Helsinque, ao mesmo tempo em que preparava um artigo sobre um caso de "Cura radical da paranóia crônica", que esperava apresentar a Freud. O encontro de ambos em Viena, em janeiro de 1911, foi decepcionante. Se, para Bjerre, Freud foi o homem que lhe "causou a maior decepção de toda a vida", este não ficou atrás, descrevendo Bjerre como "taciturno, afetado e desprovido de humor" e "contando com ele para propagar as suas teorias"… No mês de setembro seguinte, entretanto, Bjerre partici­pou em Weimar do III Congresso Internacio­nal de Psicanálise, e apresentou a Freud, Lou Andréas Salomé, sua amante do momento. O artigo sobre a paranóia, embora criticado, seria publicado em 1912 no Anuário de psi­canálise. O congresso de Munique em 1913 reforçou o distanciamento, quando Bjerre se dedicou a uma crítica do método psicanalíti­co. Em janeiro de 1914, a ruptura se consu­mou. Dez anos depois, haveria ainda algumas disputas epistolares, por ocasião da publica­ção por Bjerre de "A psicanálise", antologia em que reproduzia sem autorização diversos tex­tos de Freud, misturados – suprema insolên­cia! – a textos de Jung e de Adler. A página psicanalítica parecia virada.

Em 1925, Bjerre perdeu a esposa, há mui­to tempo paralítica e que ele cercava de atenções. Suas atividades prosseguiram em diversas direções: a clientela, a escrita, a escultura pela qual se apaixonou… Sua obra principal, Drömmens Naturliga System (O sistema natural dos sonhos), foi publicada em 1933 e a partir de então, ocupou-se com a edição dos oito volumes de suas obras comple­tas, que iria até 1944. Apresentava-se também no rádio, em programas de difusão da psicolo­gia, o que não era bem visto por seus colegas.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Bjer­re militou pela paz. Em 1933, pronunciou diante de uma platéia de médicos uma confe­rência intitulada "HitIer Psicoterapeuta" (!), que seria publicada na revista Higéia. Estava em contato com Jung e Matthias Göring, que dirigia o Instituto alemão de pesquisas psicoló­gicas e de psicoterapia, e criou na Suécia, em 1941, um instituto nos mesmos moldes.

Nomeado em 1953 professor honorário da Faculdade de Estocolmo, Bjerre teria uma morte suave, onze anos depois, em Varstavi ("Altar dos sacrifícios"), propriedade que construíra nas margens do lago Malmsjön. Assim desapareceu aquele que foi qualifica­do tanto de "iniciador" quanto de "grande responsável pelo desconhecimento" da psi­canálise na Suécia.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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