BOTTARD, Marguerite (1822-1906)

Marguerite Bottard era a "Bobotte" ou a "Mamãe Bottard", enfermeira-chefe de Charcot, uma das raras cujo nome e rosto chegaram até nós, na massa desse pessoal "anônimo" mas sobre o qual repousava, efe­tivamente, todo o funcionamento da ins­tituição hospitalar.

Nascida a 29 de janeiro de 1822 em Charny (Côte-d'Or), tinha apenas 19 anos quando, a 12 de janeiro de 1841, entrou para a Salpê­trière como "auxiliar de serviços gerais", no serviço de Trélat pai. Ligada depois aos serviços de Falret, de Legrand du Saulle, de Charcot a partir de 1862, e enfim de Raymond em 1893, teve uma carreira de mais de 60 anos no mesmo hospital, cujas portas ela ficava, às vezes, dois ou três anos sem atravessar.

A 12 de janeiro de 1891, Peyron, diretor da Assistência Pública, organizou no grande anfiteatro da Salpêtrière uma "festa leiga" para celebrar os 50 anos de função de Mar­guerite Bottard. Bourneville, no Progrès Mé­dical, nos deixou em duas páginas inteiras o relato completo da cerimônia: a platéia era numerosa e seleta, a sessão se abriu com a Marselhesa, interpretada pela fanfarra das crianças de Bicêtre, a heroína foi condecora­da com as Palmas Acadêmicas. A festa era simpática, mas talvez não desprovida de segundas intenções: de fato, naquela época, Bourneville combatia vigorosamente o pes­soal religioso dos hospitais, e "Mamãe Bot­tard" constituía – involuntariamente – um excelente agente de propaganda. O artigo de Bourneville, aliás, era transparente ao concluir: "Essa cerimônia verdadeiramente imponente terá a mais feliz influência na reforma da laicização dos estabelecimentos hospitalares e do ensino profissional dos en­fermeiros e enfermeiras."

Em 1898, o ministro Louis Barthou, "compadecendo-se dos humildes", concedeu a Legião de Honra à Senhorita Bottard, que trabalharia ainda mais três anos. "Admitida no repouso" a 31 de julho de 1901 (já tinha 79 anos), pôde enfim aposentar-se na própria Salpêtrière, pois gozava do pied de lit (direito a alojamento e alimentação, concedido outrora por Mazarino aos funcio­nários do Hospital Geral que tivessem mais de 20 anos de serviço). Morreria de câncer de mama a 14 de novembro de 1906, entre as "Repousantes" da divisão Hemey.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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