pensamento dirigido e de fantasia

Termos introduzidos por Jung para descrever diferentes formas da atividade mental e os diferentes modos como a psique se expressa. O pensa­mento dirigido envolve o uso consciente da linguagem e de conceitos. Está baseado na realidade ou erigido com referência a ela. Na essência, o pensamento dirigido é comunicativo, um pensar para fora, para outros, por outros. É a linguagem do intelecto, da exposição científica (embora, talvez, não da descoberta científica) e do senso comum. O pensamento de fantasia, por outro lado, emprega imagens, ou de forma simples ou compondo um tema, emoções e intuições. As regras da lógica e da física não se aplicam, nem preceitos morais. Pode-se dizer que tal pensa­mento é metafórico, simbólico, imaginativo. Jung assinalava que o pensamento de fantasia pode ser consciente, mas é normalmente pré-consciente ou inconsciente em seu funcionamento.

O pensamento de fantasia e o dirigido podem ser comparados, respectivamente, aos processos primário e secundário de Freud. A atividade de processo primário é inconsciente; imagens simples podem condensar grandes áreas de conflito ou se referir a outros elementos; categorias de tempo-espaço são ignoradas. De forma crucial, o pro­cesso primário é uma expressão da atividade dos instintos (e, daí, amoral, e não imoral); é caracterizado por desejos e governado pelo princípio do prazer. O processo secundário é governado pelo prin­cípio da realidade, é lógico e verbal; forma a base do pensamento e é a expressão do ego. De fato, o próprio ego não pode funcionar sem repressão da atividade do processo primário; portanto, o pro­cesso primário e o secundário são antitéticos. Embora certos tipos de atividade criativa possam conter uma mistura dos dois, existe uma oposição fundamental.

Para Jung, não há motivo por que um pensamento de fantasia devesse inevitavelmente ameaçar o ego; sua posição era de que o ego se beneficia de um tal contato. Entretanto, uma fantasia descon­trolada é parte de estados de inflação ou  possessão. O pen­samento dirigido e o de fantasia coexistiriam como duas perspectivas em separado e iguais – embora o último seja mais enraizado, pode­-se dizer, nas camadas arquetípicas da psique.

Essa postura eqüitativa aproxima as idéias de Jung daquilo que ora conhecemos sobre o funcionamento dos dois hemisférios cere­brais, cuja interação é básica para o funcionamento mental humano.

O hemisfério cerebral esquerdo é o lugar da atividade cerebral ligada à capa­cidade lingüística, à lógica, à ação dirigida para o objetivo, e obedece às leis do tempo e do espaço; pode ser caracterizado como analítico, racional e detalhado em suas operações.

O hemisfério cerebral di­reito é o lugar das emoções, sentimentos, fantasias, uma sensação geral de onde o indivíduo está em relação a tudo o mais, e uma visão de conjunto sintético capaz de captar uma situação complexa nele vin­culada (contrastando com a abordagem mais ponto a ponto do he­misfério esquerdo).

A função transcendente foi descrita em termos de uma intercomunicação entre os hemisférios – fisiolo­gicamente, o corpus callosum (Rossi, 1977).

Os sonhos podem ser considerados expressões típicas de pensamento de fantasia ou de funcionamento do hemisfério direito – embora elementos de uma perspectiva lógica apareçam de vez em quando nos sonhos. Diz-se que às vezes a interpretação do sonho introduz o pensamento dirigido, porém uma apreciação mais acurada seria que a interpretação é realmente uma combinação de pensamento dirigido e pensamento de fantasia, pois nela está envolvida a imaginação.

Jung via a mitologia como a expressão do pensamento de fan­tasia e comentava que o esforço e a atenção que damos à ciência e à tecnologia, hoje, os gregos davam ao desenvolvimento de seus mitos. O mito é um meio de expressar uma visão metafórica dos mundos pessoal e físico e, portanto, não pode ser avaliado mediante o pen­samento dirigido. Poucos psicólogos analíticos concordariam com o julgamento anacrônico de Jung do pensamento dos "primitivos" como um pensamento primariamente de fantasia. Entretanto, sua observação de que o pensamento de fantasia pode ser nitidamente visto na atividade das crianças ainda é válida (embora aí, também, a lógica desempenhe seu papel).

O uso da palavra "pensamento", por Jung, conforme aqui des­crito, realmente oferece problemas. Ele usa a palavra de forma di­ferente, por exemplo, em sua tipologia. Quando escreve sobre o pensamento dirigido e o de fantasia, estaria fazendo algo mais do que simplesmente particularizar uma diferença entre consciência e o inconsciente? Outro ponto seria de que a noção de pensamento de fantasia realmente corrobora o fato de que o inconsciente tem sua própria estrutura, linguagem e lógica (psico-Iógica); com isso, qualquer tentativa de elevar o racionalismo a um status dema­siadamente alto fica moderada. De modo semelhante, a vinculação de Jung de pensamento dirigido e de fantasia serve como admoestação àqueles que quisessem abrir mão por completo do pensamento racional, acusando os "inte­lectuais" de serem esquizóides ou "cerebrais".

Há pouca dúvida de que uma preferência pessoal, baseada em um tipo psicológico, desempenha um papel na determinação de qual tipo de pensamento ocorre com mais naturalidade a uma pessoa. Durante a tenra infância e a infância, exigências familiares e sociais podem provocar a ocorrência de distorções.

Como isso normalmente se apresenta clinicamente em um relato de pensamento de fantasia, tendo sido proibido no lar, é provável que um fator cultural também esteja atuando. Realmente, a sociedade ocidental se inclinou a usar e valorizar o pensamento dirigido mais que o pensamento de fantasia.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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