Teoria do Duplo Vínculo

Um projeto de pesquisa, dirigido por Gregory Bateson a partir de 1952, no Departamento de Sociologia e An­tropologia da Universidade de Stanford, em Paio Alto, Califórnia, levou à descrição, em 1956, do vínculo duplo. Esse estudo, “Toward a theory of schizophre­nia” com cerca de 20 páginas, foi assinado por quatro nomes: G. Bateson, Don D. Jackson, J. Haley e J. H. Weakland.
Uma breve ilustração clínica, proposta pelos au­tores.

A mãe de um jovem esquizofrênico foi ao hospi­tal visitar seu filho, que estava em franca recuperação após um episódio psicótico agudo. O doente pareceu feliz por reencontrar a mãe. Acolheu-a com esponta­neidade e colocou o braço ao redor de seus ombros. A mãe fez imediatamente um movimento de recuo. O doente retirou o braço. Disse-lhe a mãe: "Você não gosta mais de mim?" O doente ruborizou-se e ela acrescentou: "Querido, você não deve deixar-se inco­modar e assustar tão facilmente por seus sentimen­tos." O doente não ficou um minuto a mais com a mãe e, pouco depois, agitou-se, agrediu um enfermeiro e precisou receber tratamento.

Essa rápida seqüência, suas conseqüências significativas e seu clima geral mostram a intensidade das inter-relações dos protagonistas habituais de tais situa­ções: o doente, a mãe e também a instituição. Esses intercâmbios só se tornam visíveis aos olhos de um observador atento, diretamente participante. Mesclam mensagens complexas em suas estruturas verbal e com­portamental e em seus níveis lógicos, evidentes ou mais abstratos.
A questão do contexto relacional em que se inse­re o esquizofrênico acha-se assim formulada: "Como nascem os sintomas?"

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O contexto teórico em que teve lugar "Toward a the­ory of schizophrenia" foi preparado por 20 anos de trabalho do antropólogo Gregory Bateson em campos muito diversificados. Em 1956, já lhe devíamos diferentes descobertas conceituais: a cismogênese na antropologia, com as idéias de simetria e complemen­taridade (1935), os conceitos de dêutero-aprendiza­gem e de hierarquia das aquisições, com o enfoque sistêmico dos fatos da cultura e da tipologia psicoló­gica (1942), o desenvolvimento e emprego da teoria da comunicação, oriunda da cibernética, no domí­nio da arte (1944), da psiquiatria (1951), do humor (1953), do jogo nos animais e do imaginário (1955).

Bateson publicou três livros: Naven (1936), Commu­nication, em colaboração com o psiquiatra J. Ruesch (1951), e Steps to an Ecology of Mind (1972), que foi uma coletânea de artigos e conferências selecionados.

A teoria da dêutero-aprendizagem, em cujo aper­feiçoamento Bateson se empenhou até seus últimos trabalhos, particularmente na etologia animal, facilita a compreensão do alcance geral do vínculo duplo, conceito que integra as leis lógicas de Russell e a hie­rarquia das formas de aprendizagem.

O animal aprende simuItaneamente (1) a tarefa proposta para seu condicionamento e (2) o contexto e o modo dessa aquisição. Assim, aprende e aprende a aprender, isto é, a aprender um contexto em que se adquirem informações definidas. Adquire-se um hábito aperceptivo, com "pontuação", definição e previsão de uma série de acontecimentos. Já em 1942, escreveu Bateson: "Podemos supor que a neurose ex­perimental é aquilo que ocorre quando o sujeito não consegue efetuar essa assimilação".

Desde os primeiros anos da década de 1950, Ba­teson passou a utilizar concepções cibernéticas e sis­têmicas definidas. A propósito da comunicação huma­na, confrontou-a com os trabalhos dos lógicos e dos matemáticos, em particular Whitehead e Russell. Co­mo ocorreu ao longo de toda sua vida, Bateson encon­trou nessa área material para sua reflexão. Em 1949, foi convidado a trabalhar em um hospital psiquiátrico de San Francisco ao lado do psiquiatra J. Ruesch, na qualidade de etnólogo. Seus estudos sobre a codifi­cação da informação e sobre a codificação lógica es­tabeleceram o conhecimento básico das aplicações da teoria dos sistemas à psicopatologia (1951). Ba­teson assinalou o fato de que a comunicação verbal humana pode implicar e implica sempre níveis diferenciados múltiplos e o fato adicional de que as men­sagens criadas pelas linguagens paraverbais interferem na emissão das mensagens. A metamensagem é um elemento essencial da definição do sentido – em par­ticular, relacional – da mensagem. Os paradoxos e as dificuldades na comunicação nascem dessa complexi­dade intrínseca, na medida em que as leis lógicas de categorização são postas em dúvida, particularmente a seguinte: "Existe uma descontinuidade entre uma classe e seus membros." A classe não pode ser mem­bro dela mesma e um membro da classe não pode ser a própria classe (Russell).

O estudo das formas lúdicas de comunicação ­teatralização, blefe, ameaça lúdica, birra – ou o es­tudo dos rituais, cerimônias e sacramentos mostram a utilização do comportamento nas relações naturais, sejam elas animais ou humanas. Os "signos brutos in­dicativos do humor" (prazer, cólera, apaziguamento no encontro) são corrigidos pelos signos "marcadores de contexto": "Isto é uma brincadeira", ou "Isto se transformou em uma luta." A regulação e complexifica­ção da relação e da troca passam por essa matização no plano comportamental. Nesse objetivo se acha in­troduzida, simuItaneamente, uma forma de negação.

A impossibilidade da expressão comportamental es­trita da negação implica um paradoxo – "um quadro paradoxal, comparável ao paradoxo de Epimênides", como esclarece Bateson. As leis lógicas da categori­zação são questionadas. Por outro lado, sem tais am­bigüidades, "a vida não seria mais que uma troca in­terminável de mensagens estilizadas, um jogo repleto de regras rígidas, monótono e desprovido de surpresa e de humor". Sem elas, existiriam a criação e a arte?

Eis-nos aqui, subitamente, próximos da psicopa­tologia. Os domínios do sonho, do sintoma ou do de­lírio nos arrastam para uma comunicação bruta onde os marcadores da mensagem acham-se ausentes ou al­terados. A angústia transforma o corpo. A alucinação modifica o real. O triunfo do pensamento analógico destrói a capacidade de diferenciação e comunicação precisas, fundamentadas na distinção das mensagens e dos contextos das mensagens, que é um trabalho específico da linguagem verbal.

Pode-se observar essa deterioração da relação ao nível das interações entre o esquizofrênico e seu am­biente familiar. Tal foi a hipótese nascida das observa­ções clínicas de Bateson e de seu grupo de pesquisa.

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Em 1955, Bateson publicou a observação que se se­gue.

Ele acompanhou um jovem esquizofrênico, já hospitalizado por cinco anos, em uma visita a sua mãe. A casa estava vazia quando chegaram. Bateson sentiu uma impressão marcante de ordem artificial, tanto no interior da casa quanto no jardim. Deixou o doente e foi dar um passeio sozinho, perguntando-se como po­deria obter êxito em entrar em relação com aquela mulher. Finalmente, decidiu oferecer-lhe flores e escolheu um ramalhete de gladíolos. Ao retornar, en­controu a mulher em casa, estendeu-lhe o ramo de flores e esclareceu que desejara oferecer-lhe "uma coi­sa simultaneamente bela e um tanto desarrumada". A mãe do esquizofrênico retrucou: "Não são flores desarrumadas; cada vez que uma delas mur­cha, basta cortá-Ia". Bateson sentiu, além da alusão ao corte com a tesoura, a mensagem implícita, "Não se desculpe", quando, na verdade, não tivera intenção alguma de desculpar-se. Sua mensagem fora recebida, mas, ao mesmo tempo, modificada: "Assim, ela ha­via modificado a marca do tipo de mensagem de que se tratava, e isso, penso eu, era o que fazia cons­tantemente".

Esse breve mergulho na situação esquizofrênica mostra a confusão entre os planos verbais e comporta­mentais da comunicação. A mais precisa das mensa­gens verbais pode ser ambígua, em função do tom adotado ou mesmo das palavras escolhidas, que po­dem ser, por exemplo, analogicamente agressivas.

Convém assinalarmos que, nesse caso, Bateson não poderia queixar-se da surpreendente resposta da mãe do esquizofrênico, pois, em grande medida, ele a ha­via induzido. No plano real dessa situação difícil, ela havia escolhido um comportamento-estímulo e um comentário verbal que estavam muito próximos de uma provocação. A mulher poderia legitimamente perceber a oferta de um ramo "um tanto desarruma­do" como uma alusão crítica a seus valores de perfei­ta ordem e asseio, em uma agressão bem escondida… sob as flores.

Essas manipulações recíprocas foram o tema do artigo de 1956.

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Nesse artigo, os "ingredientes" do vínculo duplo fo­ram apresentados de maneira muito precisa. Basta ­e é necessário – que retracemos ponto por ponto a descrição inicial de Bateson, Don Jackson, Haley e Weakland.

1. Trata-se de relações entre duas ou mais pes­soas. Os autores designaram uma delas como a "víti­ma", a bem da facilidade de descrição. Se, por um lado, a mãe é amiúde mostrada como aquela que in­flige o vínculo duplo, o pai e os outros parentes po­dem igualmente intervir.

2. Essa experiência se repete ao longo da exis­tência da vítima, que conta, portanto, com sua in­tervenção.

3. Emite-se uma injunção primária negativa, combinada com uma ameaça. Pode tratar-se de uma das seguintes fórmulas: "Não faça isto ou aquilo, caso contrário eu o punirei", ou ainda "Se você não fizer isso, eu o punirei". Os autores enfatizaram o caráter punitivo dessa aprendizagem (mais sanções do que re­compensas). Como exemplo de punição, apontaram a expressão do ódio ou da cólera, ou ainda "essa espé­cie de abandono que decorre da expressão, por parte dos pais, de sua profunda confusão".

4. O quarto ingrediente é uma injunção secundá­ria em conflito com a primeira. Atentos à importância atribuída ao conceito dos tipos lógicos, descobrimo-Ia situada em um nível de abstração mais elevado do que a primeira. Trata-se de uma forma de generalização, categorização ou classificação. Como a primeira, ela se faz acompanhar pela presença de uma punição ou de sinais ameaçadores à sobrevivência, que a reforçam.

E muitas vezes difícil descrever essa segunda injunção, freqüentemente transmitida através de uma forma pa­raverbal, como a modulação da voz, os gestos ou a postura. De uma maneira ou de outra, ela nega a pri­meira. Os autores apresentaram exemplos dessas men­sagens mais ou menos implícitas: "Não considere isso como uma punição",

"Não me encare como responsá­vel por sua punição", ou "Não leve em conta minhas proibições". Assim, alude-se a uma categoria mais geral do que o próprio acontecimento. Quando os pais intervêm simultaneamente, podem desempenhar papéis opostos, cada qual exprimindo, por sua vez, uma das mensagens, e assim criando a interferência.

5. Um ingrediente de importância capital é o bloqueio da relação: a injunção negativa terciária, que proíbe à vítima qualquer escapatória. Para a criança, é impossível fugir da relação vital que representam os adultos que a cercam. Por vezes, o bloqueio é substi­tuído pela ambigüidade.

6. Um último aspecto é igualmente fundamental, em particular no estudo de situações relacionais con­cretas. O esboço da aplicação de um vínculo duplo sob a forma de apenas um dos ingredientes acima pode ser suficiente. Esse sinal, que evoca a manobra em curso, desencadeia na vítima o essencial da reação emocional. Em um doente mental, as alucinações po­dem passar a substituir os personagens reais.

Os autores enfatizaram três pontos que marcam a situação:
– a relação em questão é essencial, o que confe­re um valor vital à compreensão correta da mensagem;
– o protagonista que aplica o vínculo duplo emi­te duas espécies de mensagens contraditórias;
– a vítima se acha incapacitada de metacomuni­car-se, de comentar ou de pedir esclarecimen­tos quanto às mensagens recebidas.

Na realidade clínica, levando-se em conta parti­cularmente o ponto 6, é necessário ter em mente essa idéia da complexidade global da situação de vínculo duplo, a fim de evitar a simplificação do modelo, que o faz perder sua qualidade viva. Convém notarmos também que os aspectos negativos das mensagens den­sificam o clima paradoxal ou mesmo superparadoxal, através da simultaneidade das mensagens contraditó­rias emitidas. A elucidação destas no próprio encadea­mento da relação é impossível. Outros elementos agravam essas confusões latentes ou manifestas: de um lado, a ambigüidade das mensagens comporta­mentais de rejeição ou de afastamento e, de outro, a incerteza relacionaI própria do emprego de verbos a que poderíamos chamar negativos, tais como mentir, negar, recusar etc., ou ainda que tenham valor afeti­vo evidente ou por analogia, como cortar, punir, destruir etc.

Portanto, dois postulados serviram como pon­to de partida para essas pesquisas: (1) tal situação po­de desempenhar um papel significativo na etiologia e nos sintomas clínicos da esquizofrenia; (2) ela se cons­titui no cerne da relação familiar, bem antes do apa­recimento da doença.

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Quando um sujeito se vê confrontado com essas in­junções paradoxais, quando a revolta lhe é impossível e quando uma resposta lhe é exigida, o modo mais direto de reação consiste na expressão metafórica, ou seja, em uma resposta que preserve um sentido pessoal, mas que, simultaneamente, possa ser interpretada de maneiras múltiplas, resposta essa tão paradoxal quan­to a injunção paradoxal. Os sintomas dos esquizofrê­nicos e as formas clínicas de esquizofrenia são, da mesma forma, modos diferentes de respostas analógi­cas ambíguas e de respostas sem resposta.

Cita-se a observação de um esquizofrênico que ficou irritado com o atraso de seu terapeuta a uma sessão marcada: "Tive um amigo que fez o motor do barco falhar. O nome dele era Sam. E o barco quase afundou". Em esquizofrenês, o doente disse mais ou menos o seguinte ao terapeuta: "Você chegou atra­sado e me deixou angustiado – você, que se diz meu amigo – sem levar em conta o risco que corre nossa relação. No entanto, não foi você que fez isso, pois você não se chama Sam, e não foi comigo, porque eu também disse que isso não teve nenhuma conseqüên­cia real". Outras traduções seriam igualmente possíveis.

O esquizofrênico se identifica como um indiví­duo não identificável. Suprime não apenas o sentido das palavras e das frases nas trocas, mas também os si­nais comportamentais que indicam em que contexto afetivo se situam essas mensagens. Pode até mesmo retirar-se por completo da relação, negando sua pró­pria
presença.

Assim, encontramos nesse estudo da comunica­ção esquizofrênica as três grandes formas clínicas do grupo das esquizofrenias. Na forma paranóide, solici­ta-se o imaginário privado, com imagens, mitos e pala­vras que chegam até a criar uma ruptura com o imagi­nário coletivo, apesar de manter o vínculo inicial com ele. Na forma hebefrênica, a resposta afetiva a outrem é feita sob a forma da ambivalência, mesclando-se a intensidade relacional com a frieza e a hipersensibili­dade com a habitual indiferença. Por fim, a terceira forma – catatônica – coloca o distúrbio das relações no nível comportamental: um rosto que não reage ao contato, o retraimento e o mau humor patológico, a rigidez cérea etc.

Essas observações semiológicas ocorreram na descrição inicial dos efeitos do duplo vínculo. Mais tarde, foram aperfeiçoadas.

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E fácil observar a manipulação constante da distância relacional nas famílias em que há um esquizofrênico. Basta mergulhar no vaivém destas condutas de aproxi­mação e de afastamento.

A mãe apresenta um comportamento afetivo positivo, uma oferta ou uma aproximação; a criança responde, reduzindo assim a distância. A mãe exibe então, por um movimento de recuo, seu temor de uma relação excessivamente íntima. Ao mesmo tem­po, destrói o sentido de sua mensagem, seja negando o próprio afastamento, seja questionando o gesto da criança em relação a ela e o sentido que poderia ter.

Uma manipulação eficaz consiste em pôr em dú­vida a experiência íntima da criança: "Agora, vá dei­tar-se; você está muito cansado". A mãe confunde os sinais de sua própria fadiga por detrás de uma defi­nição da vivência da criança, em nome do afeto que lhe dedica.

Esse tipo de mensagem comporta muitos outros exemplos: "Você realmente não pensa assim". "Você deveria amar sua mãe", "Você deveria ser mais espon­tâneo", "Você me entende, não é?", "Você não deve­ria sentir vergonha" etc. A ambigüidade de tais men­sagens depende, é claro, do tom, do contexto, da re­jeição dos comentários etc., ou seja, depende enfim da introdução de diversas negações e de negações, des­confirmações e desqualificações em mensagens de aparência simples.

Os autores assim precisaram sua concepção: "A criança cresce na impossibilidade de comunicar algo sobre a comunicação, o que tem como resultado a incapacidade de determinar o que as pessoas querem realmente dizer e a incapacidade de exprimir o que ela própria quer dizer". O pai desempenha um papel complementar, seja diretamente, seja através de sua anulação, assim como fazem os outros membros da família.

As razões exatas de tal atitude materna são aleatórias e individualizáveis em cada passo: "Talvez seja o fato de que ter um filho cria nela uma ansiedade diante de si mesma ou de suas relações com a família; ou o fato de ser importante para ela, que a criança seja menino ou menina ou, que nasça no dia do aniversá­rio de um de seus próprios parentes ou ainda, que te­nha a mesma situação parental que ela teve na família ou, que a preocupe por outras razões relacionadas com seus próprios problemas emocionais". Múltiplos contextos maternos e familiares e incontáveis deter­minantes particulares podem dar origem – ou existên­cia patogênica – ao modelo sistêmico do vínculo du­plo. Trata-se de uma situação que diz respeito não apenas à relação filho-mãe, como também, mais ain­da, à relação indivíduo-grupo familiar. Assim, não menos patogênico é o pai ausente ou mantido à mar­gem, incapaz de "intervir na relação mãe-filho e de apoiar a criança face às contradições utilizadas".

Uma vez irrompida a psicose, esses modos de re­lação se mantêm, sem dúvida, mais fixos do que antes.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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