‘Mitwelt’

Um dos três modelos de conduta do Dasein: Mitwelt

É o mundo das pessoas compondo a sociedade humana. Constitui o ser-com-outros. Esta categoria de conduta envolve outras pessoas de dois modos possíveis: (a) a forma dual, e (b) a forma plural.

(a) A forma dual – aqui há um objetivo: aumentar a experiência privada formando relações significativas com o outro, por meio da participação de sensações, sentimentos e pensamentos privados, no contexto de alguma emoção suscitada pela situação, ampliação, ou não, da racionalidade.

Estas relações recebem o nome de encontros. Eles envolvem uma consciência mútua. Servem para impedir os sentimentos de isolamento e solidão, pois cada participante compartilha as experiências do outro ganhando um novo autoconhecimento e um aumento de sua própria identidade.

Mais que um ajuste ou adaptação é uma relação bi-unívoca, onde cada pessoa muda como conseqüência de sua interação com a outra pessoa, e aquilo que cada par for entre si, não o será em nenhum outro pareamento A extensão em que alguém tenha êxito em criar estas relações pode variar em grau, mas o importante é a sua intenção.

A análise deste tipo de relação mostra que nela somos capazes de perceber aos demais como indivíduos completos e totais, unitários e integrados, como são em si mesmos. Não os percebemos como objetos úteis, ou ferramentas, como provedores de dinheiro, alimento ou segurança, ou seja, não os utilizamos.

Nesta relação-encontro não se adota uma atitude valorativa, nem judicativa, interferente, ou condenatória. Ao ter-se consciência não seletiva do outro, isenta de desejos, pode-se chegar a uma percepção mais clara e penetrante desse outro. Pensamos em nós mesmos não como pessoas separadas, mas realmente como um nós, isto é, como duas vidas entretecidas numa relação significativa e mutuamente satisfatória. Preocupamo-nos com o outro, consideramo-lo e lhe respondemos com afeto. Temos interesse por seus sentimentos, e pensamentos privados, sentem-se prazer em partilhar os nossos com ele, temos objetivos valiosos em comum. Exemplos destas relações íntimas e carinhosas podem ser vistos entre pais e filhos, entre amigos íntimos, entre amantes. Sem essas relações não somos humanos.

Esse tipo de percepção, e em conseqüência da relação com os demais, desinteressada, objetiva e holística, somente é possível quando não se necessita nada dela. Essas relações significativas, compartilhadas, são peculiarmente humanas, e são facilitadas pela linguagem e por comunicações não-verbais: abraços, gestos de aprovação, de simpatia, olhares com carinho e afeto, beijos etc.

Por analogia com as associações biológicas em a natureza, a relação descrita é o mutualismo, onde ambos os indivíduos são beneficiados na união, porém, no momento em que se fizer necessária a separação do par, esta se dará sem maiores prejuízos, tendo os dois membros sobrevivência garantida. Muito diferente é a simbiose entre dois seres. Em a natureza, o exemplo clássico é o dos liquens, associação entre fungos e algas primitivas, que habitando ambientes hostis, conseguem sobreviver. Claro que há vantagens recíprocas, porém não há opção para a separação, pois esta significaria a morte para ambas as espécies. A simbiose existencial entre seres humanos também acontece, e com muita freqüência. Dois indivíduos, mesmo que vivendo uma união destrutiva, não se separam, pois em suas fantasias, e, muitas vezes, na realidade mesmo, também não sobreviveriam à ausência do outro. Faltaria mencionar a relação de parasitismo onde apenas um membro do par é beneficiado (o parasita), enquanto o outro é prejudicado (o hospedeiro). No mutualismo humano enfatiza-se o compartilhar. Esse modo de perceber e de se relacionar é o que se entende por ser-com-outros ou forma-dual-de-ser.

(b) A forma plural – é possível que respondamos a outra pessoa da mesma forma que um outro me responda, do ponto de vista de sua utilidade ou da moda. Então os vemos e nos vêem como solução de minhas e de suas necessidades ou como fontes de ajuda.

A conseqüência lógica deste tipo de percepção-relação é que o que não guarda relação com minhas e suas necessidades, ou se passa por alto, ou aborrece, ou irrita, ou até pode gerar um sentimento de ameaça. Manipulamos o outro para nossa própria satisfação biológica ou psicológica. É fácil observar este tipo de relação a qual ocorre na violação e na relação sexual entre amantes, ou entre o ato sexual para meu exclusivo prazer, e o ato em que me importa e interessa o prazer do(a) companheiro(a) sexual.

Neste tipo de relação tratamos o outro do mesmo modo como tratamos o gado, os cavalos ou as abelhas, ou como nos relacionamos com taxistas, porteiros, seguranças etc. Em termos existenciais, quando percebemos e respondemos neste nível estamos mais no Umwelt do que no Mitwelt (como deveria ser). Nesta forma plural as pessoas estão competindo, servindo, explorando, usando, submetendo ao outro. Não há interesse pessoal nem consideração emocional com o outro.

A esta altura, quanto ao Mitwelt, caberia observar: mas, a maioria de nossas relações cotidianas é do tipo utilitário, ou plural, e não há como escapar disso. Ora, como fazer, então, com os critérios existenciais sobre a forma mais adequada de se construir uma relação dual?

O nó górdio da questão não é o de transformar todas as nossas relações humanas em forma ideal de ser-com-os-outros, mas em não se viver a vida somente no plano plural, mas em enriquecê-la com a maior quantidade possível de forma dual de relação, compartilhando nossa experiência, porque é a única forma de se combater com êxito a solidão e o isolamento.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

Comments are closed.