Cuidado (Sorge) & Amor (Liebe)

A postura da psicossíntese fenomenológico-existencial pode ser adotada em qualquer linha de trabalho psicoterápico. As escolas de psicologia profunda utilizam-se da teoria que valida a existência de um inconsciente dinâmico. Àquelas que aceitam a proposta de Freud de haver uma instância judicativa e censora, que ele chamou de superego, fica clara a delimitação ética para o existencialista. O superego íntegro, por definição, comporta a regra moral estabelecida pelo discurso ético da cultura na qual o seu possuidor está imerso.

Mas, se ficarmos somente com os referenciais éticos da análise do Dasein, corre-se o risco de, em nome da busca da autenticidade do analisando, estarmos incorrendo em uma aliança imoral com o cliente. Ainda que para Heidegger a autenticidade só aconteça junto ao Sorge, isto é, ao cuidado, à preocupação, à inquietação (tradução preferida por López Ibor), junto ao outro, e, ainda que acrescentado como o fez Binswanger, da dimensão do amor (Liebe), para o encontro da autenticidade, estaremos andando em areia movediça. Nem sempre em nome do "cuidado-com-o-outro", e do "amor-pelo-outro", estaremos sendo inapelavelmente éticos.

É evidente que o analista não irá impor sua moral ao seu analisando, mas deve ser evidente, também, que, quando os rumos de um processo psicoterapêutico estejam se distanciando da visão-de-mundo do analista, este tem de interromper imediatamente o processo. E se, porventura, o analisando já tenha transgredido na sua conduta diante da sociedade, deve o analista procurar o conselho de ética de sua profissão para considerar os aspectos legais e jurídicos da questão.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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