‘Dasein’ versus ‘Sosein’

É sabido que os psicopatas sem sentimento (frios de ânimo, amorais, sociopatas, moral insanity), ou, eufemisticamente, como querem as Classificações, os portadores de transtornos de personalidade, jamais procuram tratamento psicológico, já que eles não são doentes e, muito menos, têm sintomas. Os psicanalistas clássicos costumam diagnosticá-los como portadores de neurose de caráter, um tipo de neurose sem sintoma. Entretanto, algumas vezes, psicopatas nos procuram, porque na busca de maior poder, querem se conhecer melhor. Para o analista sinteto-existencial esta é uma situação particularmente preocupante.

O grande limite da psicoterapia aparece quando ela entra em confronto com a Individualidade peculiar originária do homem, vale dizer, o Sosein, a Essência ou o Ser-assim, que é inalterável. Enquanto que "eu, no exercício de minha liberdade, enfrento-me com meu ser-assim com certa sensação de que talvez possa dar conta dele, alterando-o, a psicoterapia, que se dirige ao outro, deve contar com certa inalterabilidade" (Jaspers). Cada um de nós tem um algo de caráter próprio, como sendo de essência permanente, algo inato. É dificílimo precisar-se, em termos científicos, o que seja, em última instância, no que consiste o inato em cada caso. Ainda que a genética humana venha apresentando feitos extraordinários, quando aplicada à personalidade, com sua razão, caráter, temperamento e conduta (comportamento + consciência), a correlação gene/meme torna-se insuficiente para dar alguma explicação sobre suas origens. Todavia, a experiência clínica do cotidiano mostra-nos que muitas vezes encontramos no outro uma resistência insuperável, um ser-assim que se identifica com o próprio transtorno que nos desafia. Toda psicoterapia se mostra inútil quando tem de opor-se ao ser-assim, e deve mostrar-se honesta em reconhecer este fato. Assim, arriscamos dizer que os mais perigosos psicopatas, os frios de ânimo, são pessoas que, ao que tudo indica, "nascem" sem sentimentos. Ora, sem afeto não se constrói uma escala de valores – sejam eles: éticos, estéticos, lógicos ou religiosos – ora, se não há ética, não haverá regra moral. O Sosein destes indivíduos não forma superego, não demonstra sentimentos quer em relações aos outros, quer em relação a si mesmo. Não há remorso, pois, há total ausência de culpa.

Nesta condição humana, como ficaria a autenticidade existencial?

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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