metodologia clínica no Campo Psi

Preferindo não apenas descrever, mas, principalmente, compreender, segundo Jaspers, assim sistematizamos a abordagem da psique do outro:

1º. Método explicativo – É também chamado de método científico-natural. Tem de ser aplicado em primeiro lugar; aqui se pretende correlacionar anomalias micro ou macroanatômicas e funcionais comprovadas do encéfalo, com quadros mentais específicos. Esse método relaciona causa e efeito, de modo necessário, segundo o modelo da física clássica newtoniana. Ou seja, toda vez que surgir uma causa, segue-se a ela, necessariamente, um mesmo efeito. Aqui se enquadram os organicistas que são materialistas radicais. Há uma questão problemática neste método: o estabelecimento preciso de uma causa anatômica cerebral e um efeito necessário mental. Para que se afirme a existência de uma doença mental, de modo rigoroso, seria preciso estabelecer conexões causais entre cérebro e mente, o que ainda está longe de ser obtido pelos estudiosos. Disso deriva que o diagnóstico etiológico – a causa da doença, senso estrito – não é possível de ser feito nas questões mentais. Mesmo assim, é de uso corrente a analogia que se faz no campo psi com a medicina geral. Fala-se de uma tal doença mental da mesma forma que, por exemplo, alguém tendo uma infecção nas meninges do SNC, está com uma doença chamada meningite. Ora, existe um hiato intransponível entre a Patologia orgânica e os Transtornos mentais, entre a doença e o doente, muito embora, elas tenham entre si correspondências inegáveis mas que são, ainda,  em grande parte desconhecidas por nós. As abordagens psicossomáticas, ou, no sentido vetorial inverso, sômato-psíquicas, estão enquadradas neste movimento de ação e reação.

2º. Método compreensivo – É quando procuramos assimilar a subjetividade do outro por meio de nossa intuição clínica, desenvolvida a partir da experiência diária como profissionais-de-ajuda que somos, e de nossa capacidade de empatia, isto é, de sentir com o outro, no lugar dele. Este método também é chamado de compreensivo-fenomenológico, onde buscamos nos despir de pré-julgamentos, pré-juízos ou teorias prévias sistematizadas que costumam se interpor entre nós e o examinando, turvando-nos a visão. Assim feito, estaremos sempre atentos à realidade singular de quem nos procura, e ao significado que ele dá às suas queixas, que são por nós apreendidas, e não apenas tomadas com uma simples descrição clínica de quadros já conhecidos.

A história de nosso cliente não está escrita em nenhum dos tratados clínicos. Temos de escrevê-la em um livro com as páginas ainda em branco, e construirmos uma teoria específica para cada um deles. Qualquer cliente é sempre inédito, inaugural e pioneiro no seu aqui e agora. Este é o respeito que  devemos oferecer na escuta de suas queixas. 

3º. Método interpretativo – É quando, numa última tentativa de abordagem, utilizamos uma teoria prévia para o entendimento clínico do Outro. É o método analítico-interpretativo. A interpretação significa: "explicar" segundo um modelo teórico pré-existente. O modelo, geralmente aceito, é o da  Psicologia Profunda, que admite a existência de um inconsciente dinâmico pré-determinando nossas emoções, pensamentos e condutas. A Psicopatologia Psicanalítica é fruto desse método. Esse Método Interpretativo não é a Hermenêutica criada por Heidegger. Enfatizamos que o método interpretativo somente deve ser usado depois que os demais meios possíveis de se captar a subjetividade do outro tenham sido totalmente esgotados.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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