Sentimentos sensoriais

Para Max Scheler nos encontramos na vida psíquica com fenômenos que se consideram mais próximos à corporalidade que outros. Esta idéia se acha implícita nos conceitos de pessoa profunda e de somatopsique de Kleist. Mas nestes conceitos é necessário introduzir algumas distinções. Todos os atos psíquicos que se dão no homem se acham ligados à sua corporalidade. O pensar com intensidade traduz-se em uma contração mínima da face, reveladora da atenção empregada, e é considerado mais distante da corporalidade que o estar cansado, por exemplo. Os processos psíquicos próximos à corporalidade servem ao instinto de conservação.

O principal exemplo de sentimentos sensoriais é a dor. Em primeiro lugar, apresenta-se como localizado em uma parte do corpo. Em segundo lugar, tem certo caráter de sinal, para indicar-nos que algo está ocorrendo ali. A fome e a sede, que também podem incluir-se aqui, têm o mesmo caráter como sensação localizada na boca do estômago ou na cavidade oral, e nos advertem de que algo nos falta. Em terceiro lugar têm um caráter atual, vale dizer, existem em um momento determinado; depois de satisfeitos, passam; podemos ter deles uma lembrança, mas não se prolongam em nossa vida; eles duram o quanto dura a percepção mesma.

Há um trânsito entre os sentimentos e as sensações, às vezes, de difícil identificação. Nós distinguimos bem o que é uma sensação pura de tato, por exemplo, do que é um sentimento de prazer.  A análise destas duas experiências psíquicas nos mostra que são qualitativamente distintas, compreendendo muito bem que devem descrever-se em duas epígrafes diferentes, como são sentimentos, por um lado, e sensações, por outro. Mas há outros fenômenos nos quais, esta distinção não aparece tão clara, de modo que parece que participam das qualidades da sensação, por um lado, e das qualidades do sentimento, por outro. A mesma experiência dolorosa, todas as experiências cenestésicas, nos podem servir de exemplo. Na dor, umas vezes nos parece que é uma sensação, mas ao mesmo tempo é um sentimento; a mesma linguagem nos diz: produz dor a ausência de um amigo, isto é, este uso da palavra dor, na vida dos sentimentos, nos demonstra como há uma zona de transição entre ambos, a qual foi chamada de sentimentos sensoriais.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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