Vazio existencial

Cada época tem a sua neurose e cada época requer um tipo de psicoterapia peculiar. Atualmente, não observamos mais na clínica, com muita   freqüência, as formas clássicas de neurose, mas principalmente, um novo tipo delas, em cuja sintomatologia predominam a ausência de interesse e a falta de iniciativa. Não se trata, pois, tanto de uma sintomatologia clínica manifesta, quanto de uma perturbação da motivação. A neurose atual caracteriza-se pelo enfraquecimento da motivação. Frankl assinala que ela se baseia em um sentimento insondável do absurdo. Pode-se igualmente afirmar que, atualmente, as neuroses não aparecem como no tempo de Freud.

Esse sentimento de absurdo anda quase sempre associado a um sentimento de vazio – a que Frankl denominou o "vazio existencial". Pelos vá­rios indícios que se multiplicam, esse vazio existencial expande-se cada vez mais. Sua presença é, além disso, comprovada tanto pelos psicanalistas puros como pelos marxistas. Tanto assim que em um encontro internacional dos seguidores de Freud, os participantes concordaram, logo de início, que cada vez mais se defrontavam com pacientes cujos distúrbios decorriam essencialmente de um sentimento de absurdo total. Alguns colegas chegaram mesmo a dizer que tinham a impressão de que em bom número de casos "intermináveis", o tratamento psicanalítico transfor­mava-se em si próprio, por falta de coisa melhor, no único sentido da vida.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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