A influência da mídia televisiva na maturação do adolescente

Resumo

O ser humano é uma criatura de muitas faces. Se por um lado seu lado psíquico é único e exclusivo de sua raça, por outro ele carrega características genéticas e biológicas semelhantes aos animais. A grande diferenciação está em sua capacidade de pensar, criar e sentir emoções.Este pensar é, por muitas vezes, guiado pelas perspectivas do inconsciente. A maneira como elaboramos nossas escolhas e como nos desenvolvemos ao longo de nossa jornada, é o objeto primordial dessa ciência chamada psicologia. Por outro lado, estes são estudos profundos e que abarcam o indivíduo como um ser biopsicosocial.

A cultura, portanto, é um dos importantes aspectos que devemos considerar quando desenvolvemos nossos estudos. E, considerando os tempos atuais, a mídia é uma importante parte da cultura vigente, elaborando e criando o novo ser humano.A partir dessa premissa, nosso trabalho visa estudar como é elaborado esse sujeito midiático, inserido em um novo sistema. Especialmente, nos interessa uma fase específica e pouco estudada de seu desenvolvimento: a adolescência. Assim, visamos estabelecer um panorama da situação do adolescente dentro da mídia de televisão, mais especificamente, e como estão sendo conduzidas as pesquisas dentro desse importante e interessante campo do saber.

Utilizamos, portanto, dentro de uma abordagem psicanalítica baseada em Winnicot e Freud, uma vasta pesquisa sobre o que está sendo ou não estudado dentro do tema apresentado acima. Constatou-se que muito pouco tem sido feito, mesmo se tratando de um tema que, a cada dia, cresce dentro de nossa sociedade. Gostaríamos, portanto, de apontar a importância de estudar essa fase do desenvolvimento e principalmente como a mídia, no nosso caso televisiva, poderia influenciar esse processo.

Palavras-chave: televisão; adolescência; mídia; adolescente.

Introdução

1.1. O que é a mídia e o sujeito da modernidade

A etimologia da palavra mídia, segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, refere-se a 'meios de comunicação de massa' ou tudo aquilo que serve de base para estabelecer uma comunicação entre o público e quem quer comunicar.
Fernando Oliveira nos traz a mídia como:

Mediação primeiramente como condição inerente ao “existir no mundo” e como “campo” de informação, de codificação e decodificação de mensagens, que opera tanto sob o princípio da regularidade e da ritualização, quanto sob o da “ruptura”. (OLIVEIRA, [s.d], p.27).

Antes do advento da mídia, a comunicação era basicamente realizada através da comunicação oral, principalmente no que concerne a textos religiosos. O conhecimento, portanto, estava sempre restrito ao monopólio da nobreza e do clero, os únicos a terem um livre acesso às informações. (WITTER, 1989, p. 3). Assim, segundo Pfrom Netto (apud WITTER, 1989, p. 5), os meios de comunicação de massa nunca tiveram uma função tão democratizante de acesso à informação, ao saber e ao entretenimento.

Maria Rita Kehl ([s.d], [s.p.]) coloca que o discurso da mídia, enquanto meio de comunicação de massa poderia, portanto, ser traduzido no discurso da publicidade especificamente, já que toda a tecnologia da mídia vem sendo desenvolvida a reboque da publicidade, principalmente a mídia eletrônica (televisão) e mídia impressa (revistas, jornais, etc).

Assim, a publicidade pode ser colocada como uma das “principais mídias difusoras dos valores do sistema global” (TRINDADE, 1999, p.81). O discurso publicitário também poderia ser definido como um discurso social, à medida que define, em termos de comportamentos aprováveis ou não, aquilo que a sociedade almeja, criando e definindo conceitos sociais e, porque não dizer, culturais. Por discurso publicitário entenderemos, aqui, “o fato de alguém enunciar algo a outrem, em determinado tempo e em determinado espaço”. (TRINDADE, 1999, p.82).

Considerando Chauí (apud TRINDADE, 1999, p.84) o progresso, a evolução e o poder são considerados, na sociedade atual, como fundamentos sociais. Poder ter e comprar, muitas vezes, parece ser de maior importância do que a própria evolução do ser humano. Esses conceitos ficam enraizados com a publicidade, que os difunde mundo afora, de acordo com a necessidade de compra e venda do mundo considerado capitalista. Esse sistema reza, também, que um princípio de individuação depende única a exclusivamente daquilo que o indivíduo é capaz de fazer por si mesmo, sua evolução pessoal, êxito profissional e pessoal. Através de um “discurso competente”. Chauí ainda nos coloca que:

(…) todo mérito do êxito ou fracasso no seu processo de inserção social é depositado, por esse discurso, no indivíduo, sem que haja a problematizarão em relação à dinâmica do sistema e o processo histórico que determinam as exclusões sociais (CHAUÍ apud TRINDADE, 1999, p.84)

O discurso publicitário atinge este sujeito da modernidade de frente, provocando a fragmentação de seus papéis sociais e também o mesmo efeito fragmentado de seu sentido de temporalidade. Não há mais a preocupação com aquilo que poderá durar, ser eterno, é tudo rápido e consumível, sem reflexão. Haug (apud TRINDADE ,1999, p.86), salienta  os principais valores que a publicidade alimenta nesta nova sociedade. Entre elas podemos citar: valorização do novo, do prático, da sensualidade, da obsolescência programada dos objetos e os valores agregados dos mesmos objetos. Neste contexto, a publicidade é, ao menos tempo, um reflexo e um elemento que alimenta essa dinâmica de pensar do novo cidadão.   

De acordo com Trindade (1999, p.90), o sujeito procura a realização e a satisfação, racionalizar seus desejos em objetos de consumo e coisas que se possam comprar ou fazer. Os bens de consumo são o meio para suas conquistas em todos os âmbitos da vida, satisfazendo o ego e visando o sucesso, transformando suas necessidades em algo que lhes dê prazer. Assim, as representações estereotipadas criam necessidades de consumo, uma eterna relação deôntica (deve –ser) fazendo com o que o desejo de enquadrar-se seja ainda mais motivado.

A publicidade, segundo Sal Randazzo (apud MARCOVITCH, 1999, p.77) coloca as estruturas arquetípicas em favor do consumo e leva o sujeito a querer satisfazer, com bens de consumo, suas frustrações emocionais e desejos inconscientes. A construção da subjetividade, portanto de acordo com Marcovitch,

Está diretamente relacionada ao meio social e seus desejos inconscientes, comportamento consumista e a lógica do mercado permeiam, não somente o individuo, mas o todo social, moldando tanto os sonhos e os desejos de cada um como o comportamento em grupo socialmente aceito. (MARCOVITCH, 1999, p. 78)

A aspiração da publicidade em tornar-se um discurso universal, já que se trata de uma das principais mídias difusoras dos valores do sistema global, das sociedades mundializadas e das linguagens regionais e locais (TRINDADE, 1999, p.81), nos levará a considerá-la como o principal objeto de estudo desse trabalho. A televisão será o seu suporte.

Concordamos com Oliveira ([s.d.], p. 27) quando ele coloca que a sociedade, na qual este sujeito midiático está inserido, é constituinte de uma sociedade da tecnologia, de consumidores de informações e de mensagens. Sujeitos suscetíveis aos apelos publicitários que transformam objetos em quereres imprescindíveis e necessários, mesmo que assim não se destinem a ser. Ainda segundo o autor, não deixa de ser um ato de violência a imposição da representação das coisas enquanto sentido para o indivíduo, mais do que o valor em si dos objetos. A mídia é, assim, um centro de poder, capaz de criar e destruir heróis, vencedores e vítimas e definir crenças e condutas sociais.

Se por um lado a mídia produz essa violência com relação as construções do imaginário, por outro não tem o papel de espelhar a realidade, conforma salienta Von Filitzen (2002, p. 25). Ao contrário do que poderíamos supor, o papel da mídia também é o de entreter e divertir, usando a fantasia e a imaginação para elucidar a realidade de uma forma melhorada. Os sujeitos seriam, portanto, co-construtores da mídia por meio de suas escolhas, uma vez que ela procura alcançar o maior número de pessoas possível.

1.2. Influências da mídia no processo de individuação do sujeito

O deslumbre causado pelos aparelhos de televisão e pela mídia em geral é de conhecimento notório. Segundo pesquisas de Arnaldo (2002, p.439) crianças passam mais tempo em frente à televisão do que fazendo a lição de casa. Este deslumbre advém justamente do fato de que nem todos têm a oportunidade de operar uma câmera fotográfica ou um editor de vídeo, apesar as facilidades que já se apresentam hoje em dia, o que transforma a mídia em um fazedor de efeitos mágicos e prazerosos. (ARNALDO, 2002, p. 440).

Não é de se desprezar, portanto, a influência sobre as escolhas dos sujeitos já que essas escolhas dependem muito do que a mídia oferece. A discussão e a comunicação pública acontece pela mídia e é por meio dela que o sujeito obtém muito das suas idéias.  (VON FILITZEN, 2002, p.25).

Segundo Maria Rita Kehl ([s.d], p.129), a mídia poderia, ainda, ser considerada como uma técnica moderna de produção da subjetividade já que trabalha com o apelo sedutor ao público e a substituição do pensamento pela imagem pura e simples. O sujeito, portanto é criado pela mídia, é um:

(…) sujeito da cultura do narcisismo, adaptado às condições desejantes das sociedades de mercado independentemente de suas condições materiais particulares. (LASH apud KEHL, [s.d], p. 130)

Ainda de acordo com Maria Rita Kehl ([s.d], p. 130), a mídia precisa, para conquistar esse sujeito, apelar ao que Freud chamou de princípio do prazer, ou seja, a não diferença entre o querer e o obter. O superego deve, portanto, não se manifestar e todo o conteúdo paterno deve ser recalcado para que somente as representações de prazer tenham vez. Esse sujeito narcísico ainda pensa a si mesmo como algo pertencente ao presente, onde a narrativa da história não tem mais importância. A importância está em se consumir ainda mais, num futuro imediato que lhe promete mais e mais mercadorias e mais e mais prazer.

1.3. A televisão

A televisão, como meio de comunicação de massa, principalmente da publicidade, pode ser considerado como a segunda mídia mais utilizada no Brasil e também a de maior impacto social (WITTER, 1989, p.1). Tanto em quantidade de telespectadores, que vão desde os moradores das favelas até as famílias mais abastadas, como na qualidade de ser o meio que atinge, simultaneamente, a audição e a visão, aumentando seu poder sobre o indivíduo.(WITTER, 1989, p.20). Assim, podemos considerar que a atenção que um sujeito presta a uma televisão é superior, por exemplo, a atenção que prestaria a um aparelho de rádio ligado, já que esse somente poderia utiliza as ondas sonoras. Além disso, as mensagens apresentadas pela televisão são sempre cheias de dinamismo e rapidez, o que aumenta ainda mais sua concentração. (WITTER, 1989, p.21).

Estas mensagens apresentadas pela televisão enfatizam, de alguma maneira, os comportamentos sociais, pois passam valores e crenças para os sujeitos. (BELTRÃO apud WITTER, 1989, p.22). Assim, a mídia televisiva tem papel na formação de conceitos, idéias e padrões de comportamento (WITTER, 1989, p.22). Apesar de considerarmos isso, os sujeitos não estão passivos diante de seus aparelhos de TV. De alguma maneira eles interpretam o que vêem, mas também:

(…) realizam uma comunicação efetiva e ativa com seus pares – família, colegas de trabalho, clubes, igrejas, etc – na medida que comentam, discutem, reorganizam as idéias sobre os fatos, informações, dados, idéias e demais aspectos culturais recebidos pelo meio de comunicação de massa. (LULL, apud WITTER, 1989, p. 7).

1.4. O adolescente e a mídia televisiva

Segundo Fierro (1995, p.299), os adolescentes são considerados como produtos do grupo, família e mídia, já que se fala sobre uma concepção sócio-cultural de adolescência. A mídia, portanto, ajuda a construir essa identidade. É interessante observar que essa influência passou a ser mais significativa com a implementação da televisão como uma mídia de massa, ou seja, a partir do final dos anos 70, quando 90% dos lares brasileiros já possuíam TV em casa.
Segundo Freud (apud Sodré, 1987),

(…) o pensamento visual se aproxima mais dos processos inconscientes do que o pensamento verbal, e é mais antigo do que este, tanto do ponto de vista filogenético como ontogenético.

Assim, é de se supor que o que se passa nas novelas, por exemplo, é copiado por milhares de adolescentes, sedentos de fontes de inspiração cultural e de modelos de comportamento. Esta cultura deixou de ser passada pelos pais ou pela escola somente. Agora o jovem tem mais uma fonte inesgotável de comportamentos e ações, nas quais pode espelhar-se. Segundo os estudos de Murray e Kipax e Rushton (apud WITTER, 1989, p. 39), os comportamentos pró-sociais são baseados no aprendizado, ou seja, as pessoas aprendem observando o comportamento de outros, que servem como modelos a serem imitados. Assim, os comportamentos socialmente aceitos também são imitados através dos meios de comunicação, principalmente a televisão. (WITTER, 1989, p. 39).

É importante salientar que a mídia não veicula apenas uma única concepção de adolescência. Transmite, sim, os comportamentos dos subgrupos e das chamadas tribos. Cada qual tem seu próprio lugar na mídia e constrói seus próprios ídolos. Pode-se tomar como exemplo uma crença tipicamente difundida entre os adolescentes dos anos 50 e 60: a virgindade como preceito de boa conduta. Naqueles tempos, a jovem que não fosse virgem era considerada excluída socialmente e não participaria das atividades de um grupo adolescente considerado normal podendo, até mesmo, sofrer conseqüências graves, como ser expulsa de casa ou da escola. Pois bem, hoje em pleno século XXI, a garota que, por preceito ou não, mantém-se virgem é que é motivo de vergonha. Numa reportagem publicada na Revista da MTV, voltada ao público adolescente, a virgem é sim motivo de vergonha e de preocupação até mesmo para os pais, que podem acreditar que essa garota tenha algum tipo de problema. Os filmes para o público adolescente de hoje ressaltam o comportamento de que ser virgem é ruim e vergonhoso, e que a jovem deve “livrar-se” desse “problema” o quanto antes. Este é apenas um exemplo de como os comportamentos são passados pela mídia de uma maneira vendida, pronta, como se comportamentos pudessem ser escolhidos como um milkshake numa lanchonete.

Porém, a velha discussão “comportamentos influenciam a mídia ou vice-versa” ainda não será resolvida, e no caso dos adolescentes, que são seres à procura de conduta, a situação fica ainda mais confusa. Não se pode afirmar, com certeza, se essa mídia apenas copia um padrão social e o mostra, ou se conduz esse padrão para onde bem entende. O que se pode verificar, com um certo grau de certeza, é que comportamentos são reforçados de alguma maneira, por aquilo que é vinculado pelas revistas e pela TV de um modo geral.

Não existem, portanto, pesquisas que comprovem em que grau isso acontece. Os estudos que são realizados geralmente utilizam as crianças como sujeitos e verificam os comportamentos delas frente a essas exposições à mídia. (WITTER, 1989, p.60). Segundo Ozella ([s.d], p. 23), pode-se afirmar que “as informações veiculadas afetam em algum grau a visão de mundo e de si mesmo que o jovem constrói”.

De alguma maneira o que vestir, o que usar e como se comportar está implícito em programas específicos para este público como Malhação, soap opera exibida diariamente pela Rede Globo de Televisão, e tantos outros que surgem e desaparecem como raios. Isso porque, de acordo com o mercado publicitário, este é o nicho de mercado mais difícil de ser fidelizado, dado à rapidez consumista que afeta o jovem nesta fase. Os comerciais e toda propaganda dirigida têm de ser rapidamente reposta e reconstituída pra que o público mantenha-se, o maior tempo possível, fiel a uma marca ou a um produto específico.

A construção de um ídolo, para o adolescente, também é de suma importância, já que define comportamentos que poderão ser ou não aceitos dentro de seus respectivos grupos. A subjetividade desse jovem também muda conforme o tipo de cultura e de situação social na qual ele está inserido, mas a conduta de possuir um ídolo continua sendo importante como modelo para o jovem. Assim, no Brasil dos anos 60 havia Roberto Carlos como um ídolo da Jovem Guarda e de milhares jovens que copiavam seu estilo, seu cabelo, seus carros e motos. Hoje, num mundo cada vez mais globalizado, pode-se citar a jovem cantora Britney Spears. Copiam-se suas roupas, sua maneira de dançar e suas músicas, como uma referencia do que poderíamos supor ser uma construção da própria mídia. De fato é mais fácil identificarmos os movimentos dos anos anteriores do que os de hoje, já que a oferta de modelos e estilos é cada vez maior. Em última instancia, podemos supor que se trata do mesmo fenômeno de idealização e busca de padrões de comportamento e modelos de conduta.

Vale também salientar, nesta pesquisa, a importância, nos dias de hoje, de uma nova mídia: a internet. Os jovens são, sem sombra de dúvidas, os maiores consumidores de internet do mundo e estão, agora sim e de alguma maneira, sendo fidelizados para o futuro. Porém, ainda teremos dificuldades em definir seus padrões dada a escassez de pesquisas sobre o tema.

Segundo pesquisas de Murray e Kippax (apud WITTER, 1989, p. 27), o espectador adolescente de televisão, especificamente, passa a encarar as pessoas e o mundo ao seu redor de acordo com aquilo que vê e ouve na televisão. Ainda assim, por outro lado, são capazes de discernir entre a realidade social e aquela apresentada pela TV (SENDJAJA, 1989; MARZOOK, 1989 apud WITTER, 1989, p. 56). Pesquisas também indicam o importante papel que esta mídia apresenta diante dos adolescentes brasileiros, que costumam ficar entre 3 e 5 horas na frente da TV (COUTINHO apud WITTER, 1989, p. 61). Penteado (apud WITTER, 1989, p. 61) nos traz que os adolescentes, influenciados pelas informações traduzidas pela televisão, ainda acreditam que ela instrui, diverte e distrai, além de informar sobre o mundo. Assim, a TV é reconhecida como uma atividade de lazer passivo, que entra no lugar de outras atividades essenciais aos adolescentes, como atividades físicas, sociais, pessoais e profissionais (WITTER, 1989, p. 67).

1.5.Amadurecimento do adolescente

Segundo Fierro (apud COLL, PALÁCIOS e MARCHESI, 1995, p.300), o desenvolvimento da personalidade do adolescente deve-se, em muito, à estruturação de suas relações sociais. Esta é a fase em que os espaços onde essas relações passam a acontecer se abrem para além do mundo própria da família, que antes pertencia à criança, e que é diminuída. A emancipação familiar produz uma tensão natural entre pais e filhos, principalmente na fase da puberdade e esta relação familiar tende a se tornar mais distante e mais rígida.

Ainda de acordo com o Fierro (apud COLL, PALÁCIOS e MARCHESI, 1995, p. 300), o grupo de companheiros passa a ter uma importância maior neste período. Tende a se tornar homogêneo até indissolúvel com relações e situações privilegiadas uns com os outros. Mesmo nesta etapa, o adolescente ainda procura pelo afeto dos pais e esta relação ainda é mais importante do que sua relação com seu grupo, afetivamente falando. Por esse motivo, encontram contradições entre os valores da família e do grupo, gerando conflitos de interesses que refletem na necessidade de redefinir seu papel dentro da sua família.

Esta também é a fase onde o adolescente consolida suas capacidades, seus dons específicos, conseguindo identificar os conceitos de realidade, sociedade, adaptação e ajustes que vão perdurar por toda a sua vida. Trata-se de um equilíbrio frágil entre ser dependente e independente, seguro ou inseguro e uma série de outros valores internos. É uma adaptação complicada pois passa pelo crivo do mundo doa adultos que, ao mesmo tempo que exige um comportamento maduro, não confia nele como um sujeito completo. Aos jovens são, portanto, atribuídos estereótipos que circulam da disposição para gestos generosos e entrega a causas nobres, até o adolescente rebelde e transgressor. Nesta fase, também se desenvolvem as noções de consciência e de raciocínio moral (FIERRO apud COLL, PALÁCIOS e MARCHESI, 1995, p. 302).

Os estereótipos, porém, dependem diretamente do tipo de cultura na qual este adolescente está inserido. A cultura ocidental, por exemplo, prega que seu adolescente aprenda a ser competitivo, ativo e capacitado para escolher uma profissão e estruturar uma família em um curto espaço de tempo entre a infância e a idade adulta. Ele, por outro lado, ainda traz manifestações de dependência e insegurança e ainda quer manter-se dessa maneira. Nesta cultura, portanto, é notório o fato da adolescência ser inevitavelmente conflituosa, e que esse adolescente se revolte contra o sistema de coisas. Este fato demonstra a importância da influencia da cultura na formação deste adolescente e nas suas relações com o mundo (MUSSEN,1975, p. 86).

1.6. Mídia e o processo de amadurecimento do adolescente

Se a cultura é mote importante para o desenvolvimento do tipo de adolescente que será criado na sociedade, (ROCHA, 2003, p.25) podemos concluir que a mídia tem um papel importante nesta tarefa. Um tipo de adolescência que a cultura apregoa é também o tipo de adolescência que aparecerá na mídia como sendo natural e saudável. A publicidade segue estes padrões de identificação, fazendo com que seus produtos sejam interessantes para um grupo e, com isso, conseguindo conquistar seus adeptos. Desta maneira, podemos perceber que certos produtos só serão aceitos em determinados grupos de adolescentes, enquanto outros produtos só servem para outro grupo. Porém, de maneira geral, todos precisam da mídia como parte de sua fonte de informações.

As informações que aparecem na mídia afetam, em diferentes graus, o tipo de visão que um adolescente tem de si mesmo e dos outros, porém o adolescente não estará passivo diante desses conteúdos transmitidos. (OZELLA, 2003, p.23).

Assim, o adolescente vive um mundo de fantasia que a televisão vende de forma barata e acessível. Identifica-se com os comportamento e protagonistas e projeta neles seus desejos e inseguranças. Ali, é possível encontrar os modelos que tanto são necessários nessa época do desenvolvimento de suas vidas e, de alguma maneira, ensinam os comportamentos sociais adequados ao mundo dos adultos.

Método

2.1. Material

O trabalho foi desenvolvido através de 48 referências encontradas na base de dados do CAPES, onde estão reunidos os trabalhos científicos desenvolvidos em cursos de pós-graduação stricto sensu das instituições de pós-graduação do país. Sendo assim, todas as produções desenvolvidas por cursos de mestrado e doutorado, tornam-se públicas através do acesso de qualquer computador ligado a internet, sendo que o acesso é livre.  A pesquisa foi realizada através das seguintes combinações de palavras-chaves: “adolescente / televisão” e “adolescência /televisão”.

2.2. Procedimento

Após a leitura dos resumos dos referenciais levantados na base de dados do CAPES, foram feitos os registros na planilha para cada variável estudada.

Em relação ao ano de publicação, tabulou-se a freqüência que denotaria a curva de produtividade no intervalo temporal estudado, sendo este de 9 anos. No aspecto “nível de formação” foram tabuladas as freqüências observadas em cada um dos níveis: Mestrado e Doutorado, divididos por ano. Quanto ao aspecto instituição em que foram desenvolvidos, tabularam-se as instituições por nome, considerando posteriormente somente aquelas com valores mais representativos; aquelas que possuíram apenas 1 (uma) ocorrência foram agrupadas em uma categoria denominada “demais instituições” (Universidade Passo Fundo, Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Osvaldo Cruz, Universidade Católica de Brasília,  Universidade Federal de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Metodista de São Paulo, Universidade Federal do Espírito Santo, Universidade Júlio de Mesquita Filho/Araraquara, Universidade Júlio de Mesquita Filho/ Franca, Universidade Federal de Santa Maria, Fundação Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal de São Carlos, Fundação Universidade Federal do Piauí, Faculdades de Ciências médicas da Santa Casa, Universidade de Brasília,  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Universidade Federal da Paraíba/João Pessoa, Faculdade de comunicação social Cáspero Líbero, Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Paulista).

Para o aspecto curso, foram tabulados os cursos de pós-graduação nos quais a tese/dissertação fora desenvolvido.

Resultados e Discussão

Como relatado anteriormente o número total de referenciais analisados nesta pesquisa foi 48, num período de 9 anos. O que resulta numa média anual de 8.7% trabalhos por ano.

Como objetivo inicial, a pesquisa buscou identificar o período de maior produção de trabalhos que tenha relações com televisão/ adolescente, sendo que para isso foi feita a análise dos 48 referenciais, considerando-se a data de publicação, durante o período de 1996 a 2004, simultaneamente com classificação em relação ao nível de formação de Mestrado ou Doutorado.

Os dados quantificados indicam que a maior parte da produção cientifica sobre o tema televisão/adolescência encontra-se desenvolvida nos trabalhos de Mestrado, ocorrendo em 79.2% dos resumos analisados. Já no doutorado o desenvolvimento de trabalhos nesta área é bem menor, estando presente em 20.8% dos casos, o que pode ser visualizado na tabela 1.

No mestrado a concentração de pesquisas sobre televisão/adolescência ocorre no ano de 2003 (N= 10) . Já no Doutorado há uma maior concentração no ano de 1996 (N = 4). No ano de 2004 não foram produzidos trabalhos que estejam relacionados com o tema adolescente – adolescência/televisão, em nenhum dos níveis (Doutorado/Mestrado).

Em relação ao ano de publicação, com percentual de 20.8%  tem-se o ano de 2003 como o mais produtivo em pesquisas do tema televisão/adolescência, seguido do ano de 2002 com 18.7%, anos de 1996 com 16.6%, ano de 2001 com 14.6%, ano de 1999 com 10.4%, 2000 com 8.3%, ano de 1998 com 6.2%, ano de 1997 com 4.2% e por fim o ano de 2004 onde não consta nenhum trabalho publicado.

Foi possível constatar a partir destes dados refere-se que o interesse pelo tema televisão/adolescência  teve uma instabilidade durante os anos analisados.

Tabela 1: Distribuição da produção cientifica por nível de formação e publicações agrupadas por período de 5 anos

Nível

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

F

P %

Mestrado

4

1

3

4

3

7

6

10

38

79.2

Dou torado

4

1

0

1

1

0

3

0

10

20.8

Total

8

2

3

5

4

7

9

10

48

100.0

Em segundo lugar procuramos avaliar a autoria dos trabalhos analisados, em relação ao gênero.  E pudemos constatar que a maior contribuição de pesquisas no tema em discussão foi realizada por autores do sexo feminino com 81.2% contra 18.8% do sexo masculino, o que pode ser visto na tabela número 2.

Pode-se notar que o sexo feminino produziu mais trabalhos relacionados ao tema televisão/adolescência em todos os anos.

Tabela 2: Distribuição da autoria segundo sexo dos autores

Ano

Feminino

masculino

F

%

F

%

1996

6

75.0

2

25.0

1997

1

50.0

1

50.0

1998

2

66.7

1

33.3

1999

3

60.0

2

40.0

2000

4

100.0

2001

4

57.1

3

42.9

2002

9

100.0

2003

10

100.0

2004

Total

39

81.2

9

18.8

Como terceiro objetivo, buscou-se conhecer o desempenho individual de cada Universidade vinculada ao banco de teses da CAPES, tendo assim dados analisados quantitativamente e apresentados na tabela de número 3.
   
Tabela 3 : Instituição de origem

Instituição

Freqüência

Porcentagem

Fundação Universidade de Pernambuco

2

4.1

USP

10

20.8

Universidade Federal de Minas Gerais

4

8.3

Universidade Federal Fluminense

2

4.1

Universidade Federal de Santa Catarina

2

4.1

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

3

6.3

Universidade Federal do rio Grande do Sul

3

6.3

Outras (22 instituições)

22

46.0

Total

48

100

O podemos notar através da tabela 3 é que trabalhos relacionados ao tema televisão/adolescência tem tido maior destaque nas Universidade estaduais, tendo como destaque a USP com maior número de trabalhos desenvolvidos, totalizando 10, o que corresponde a 20.8%;seguido pela Universidade Federal de Minas Gerais totalizando 4 trabalhos com 8.3%, com 3 trabalhos e 6.3% segue juntas Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Universidade Federal do rio Grande do Sul; com 4.1% e dois trabalho realizados estão Fundação Universidade de Pernambuco, Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal de Santa Catarina; e por fim Universidades denominadas como outras totalizam 44.9% do total com 49 trabalhos sendo que cada Universidade incluída nesse item tem apenas 1 trabalho publicado o que representa 2% do total.

Por fim, a tabela 4, esta dividida segundo os cursos nos quais as produções analisadas foram defendidas. A área mais representada foi a de Educação com 9 trabalhos o que totaliza 18.7% , em seguida comunicação social com 4 trabalhos e 8.3% do total, com 3 trabalhos seguem juntas saúde publica, medicina (pediatria), comunicação e enfermagem com 6.2% cada uma, com dois trabalhos  comunicação e informação, ciências da comunicação, psicologia, saúde coletiva e ciência e tecnologia de alimentos com 4.2% cada, os demais cursos seguem com apenas um trabalho defendido o que totaliza 2.1% cada.

Tabela 4: Cursos nos quais as dissertações ou teses foram defendidas.

Cursos

Total

%

Educação

9

18.7

Comunicação social

4

8.3

Saúde publica

3

6.2

Medicina (pediatria)

3

6.2

Comunicação

3

6.2

Enfermagem

3

6.2

Comunicação e Informação

2

4.2

Ciências da comunicação

2

4.2

Psicologia

2

4.2

Saúde coletiva

2

4.2

Ciência e tecnologia de alimentos

2

4.2

Nutrição

1

2.1

Tocoginecologia

1

2.1

Ciências sociais

1

2.1

Estudos literários

1

2.1

Ciências do movimento humano

1

2.1

Nutrição humana aplicada

1

2.1

Sociologia

1

2.1

Comunicação e semiótica

1

2.1

Lingüística e letras

1

2.1

Odontologia

1

2.1

Comunicação e mercado

1

2.1

Psicobiologia

1

2.1

Serviço Social

1

2.1

Total

48

100.1

Conclusão

O que pudemos perceber, depois de analisar o panorama apresentado, é que este é um assunto que contempla várias facetas. De fato, podemos avaliar os resultados das pesquisas de maneiras diferentes, sob diferentes pontos de vista, sejam mercadológicos, sociais, humanos e psíquicos, sendo que este último é o que realmente nos interessa.

Primeiramente, o conceito de mídia é deveras amplo sendo difícil focalizar a nossa atenção em um único meio, sem pesquisar o restante. Nos concentramos, neste estudo, na televisão como um dos meios mais difundidos do Brasil, e até mesmo do planeta, e que leva suas informações para os mais diferentes tipos de público e de especificidades. De fato, a mesma informação chega a pessoas diferentes e é entendida de diferentes maneiras. A mídia não deve, portanto, ser cada vez mais pesquisada como um objeto de suma importância pra o estabelecimento do mundo intrapsiquíco de cada um dos seres humanos.
   
Neste trabalho abarcamos, principalmente, uma fase específica do desenvolvimento: a adolescência. E constatamos com pesar que se trata de uma das fases menos estudadas dentro do conhecimento da psicologia. De fato, o pequeno número de pesquisas a respeito da relação adolescente e TV, nos coloca uma questão do quanto ainda é necessário estudar esta faceta humana e o quanto de informações ela ainda pode nos dar. De fato, a adolescência, por ser considerada um período de rebeldia, é considerada de difícil compreensão e marginalizada, o que nos faz desperceber um excelente objeto de estudo do humano.

No caso específico da televisão é ainda pior. O total de pesquisas encontradas, 49, nos dá uma noção clara do quanto ainda temos a aprender e a pesquisar dentro deste universo. A mídia tem um poder cada vez maior de modificação do ser humano, de seus hábitos e comportamentos, e não merece ser desconhecida pelo estudo da psicologia. Ela também faz parte do papel de espelho que a cultura e a sociedade apresentam e tem uma parcela grande de responsabilidade na formação do ser humano. Quando pensamos então num período em que os indivíduos precisam de modelos, ela se torna ainda mais importante e mais definidora de ideais e idéias.        
Ainda falando de mídia, percebemos que uma mídia em especial tem precisado de atenção: a internet. Relativamente novo este meio de comunicação tem sido cada vez mais importante no mundo adolescente, quiçá de todo ser humano que procura ficar conectado com o mundo e com aquilo que acontece a seu redor. Será que poderíamos afirmar, com absoluta segurança, que se trata de mais uma tribo urbana? Ou será que poderíamos pensar que os mesmo modelos tradicionais de adolescência poderiam ser transplantados para o chamado mundo virtual? Quantas vertentes e quando caminhos diferenciados a internet conseguiu proporcionar? Quais ou malefícios de trocar uma vida real por uma vida real e até que ponto isso pode ou não acontecer. A internet, afinal, gera novos comportamentos ou somente mantém aqueles que já são notórios dos adolescentes? Esta nova mídia, entretanto, pode até mesmo não significar mudanças para os estudos dos comportamentos dos adolescentes. Ainda existem os grupos, ainda que virtuais e espalhados pelo mundo. Esta nova ferramenta pode apenas ter ampliado, de maneira bastante significativa, as fronteiras que eram impostas aos jovens. Por esse motivo e pela sede de novos conhecimentos que os jovens passaram a ser seus maiores usuários. Num mundo onde o medo e a violência imperam, a internet tornou-se uma maneira segura de conhecer pessoas, viajar, sair do lugar comum, comunicar-se e realizar desejos.

De fato, até mesmo com a televisão seria possível fazer estas perguntas, já que os adolescentes passam tantas horas em frente a ela, vivendo um mundo que parece completamente fantasioso a princípio. A TV entretém ou subjuga a inteligência de nossos jovens? Ela serve realmente como um modelo de comportamento? Até que ponto os jovens sabem fazer esta distinção, entre a realidade de uma tela de TV e a realidade de suas vidas? Estas e outras perguntam ainda precisam ser respondidas por mais pesquisas dentro deste âmbito.

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