Identidade Coletiva

Para compreender a identidade coletiva faz-se necessário entender a noção de identidade individual que lhe empresta grande parte de seus conceitos. De acordo com Ciampa (1994) a primeira noção de identidade é: diferença é igualdade. Aonde se vai diferenciando e igualando conforme os vários grupos sociais de que se parte: brasileiro, igual a outros brasileiros, diferente dos estrangeiros. Mas é verdade que a identidade de um indivíduo é constituída pelos diversos grupos de que faz parte, porém seria errôneo pensar que os substantivos com os quais as pessoas se descrevem expressam ou indicam uma substância que nos tornaria um sujeito imutável, idêntico a si-mesmo.
Ao ser concebida a criança se encontra em um mundo já constituído e sobre ela lançam-se as expectativas da sociedade, porém o homem, enquanto ser ativo, apropria-se da realidade social, atribuindo um sentido pessoal às significações sociais. Dadas às condições objetivas, as expectativas da sociedade, bem como as expectativas internalizadas pelo próprio homem, a identidade vai sendo construída num constante processo de vir a ser. Essa plasticidade, ou possibilidades, é que faz com que o homem não crie apenas o mundo, mas crie sentido para o mundo em que vive, traçando caminhos, mudando sua rota, alterando sua "pré-destinação" pelas ações que realiza junto com outros homens. Por isso, deve ser visto como "se fazendo" e não "feito" e "acabado". É essa subjetividade constituída por um universo de significados que transforma o "ser" em humano (CIAMPA, 1994).

O desobediente desobedece, ao dizer assim, está pressupondo antes da ação, do fazer, uma identidade de desobediente. Um grupo existe através das relações que estabelecem seus membros entre si e como meio onde vivem. Constata-se talvez uma obviedade: nós somos nossas ações, nós fazemos pela prática (anão ser por gozação, você chamaria “trabalhador” alguém que não trabalhasse?). É essa obviedade que expõe um complicadíssimo problema teórico, pois até então a identidade era tida como um “dado” a ser pesquisado, como um produto preexistente a ser conhecido, deixando de lado a questão fundamental de saber como se dá esse dado, como se produz esse produto. Mesmo assim, o ponto de partida poderá ser a própria representação, considerando-a também como o processo de produção, de tal forma que a identidade passe a ser entendida como o próprio processo de identificação (CIAMPA, 1994).

O autor complementa que, é na medida em que é pressuposta a identificação da criança como filho (e dos adultos em questão como pais) que os comportamentos vão ocorrer, caracterizando a relação paterno-filial. Não é suficiente uma representação prévia, essa identidade pressuposta, para ser mantida tem que ser "re-posta" a cada momento, mostrando seu caráter dinâmico. Contudo, a identidade sendo metamorfose aparece como não metamorfose, pelo trabalho de "re-posição". Uma vez que a identidade pressuposta é reposta, ela é vista como dada, e não como se dando num contínuo processo de identificação. É como se uma vez identificada à pessoa, a produção de sua identidade se esgotasse com o produto. Na linguagem corrente dizemos “eu sou filho”; dificilmente alguém dirá “estou sendo filho”.

A identidade é analisada levando em conta a visão de metamorfose, de transformação, onde está em constante mudança. Entretanto, ela se apresenta a cada momento estática, disfarçando sua dinâmica real de permanentes transformações. Ciampa (1994) afirma que esse processo de re-posição muitas vezes confunde a questão do “movimento” da identidade. A re-posição é vista como algo ‘dado’ e não como um ‘se dando’, num contínuo processo de identificação, devido ao fato de que as diferenças, a cada re-posição muitas vezes são pouco perceptíveis. O personagem pode ser o mesmo: aluno, mas não o mesmo aluno. Como a sucessão é rápida, às vezes as mudanças não são reconhecidas. Mudanças pequenas dão a impressão de não-movimento, necessitam de um acúmulo de quantidade para que a percepção capte as transformações ocorridas. São acrescidos à vida cotidiana a cada dia, novos acontecimentos e significados, tornando o homem e o mundo "qualitativamente" diferentes. Quando a mudança é mais visível, diz-se que esta ocorreu “de repente”, mas na verdade não existe “de repente”, e sim um acúmulo de elementos até o momento em que algo se torna distinto na forma como era percebido. Na relação do indivíduo com outros homens “as identidades” vão sendo re-postas e cada re-posição não é a mesma, as condições objetivas são outras, outros significados vão sendo dados e internalizados mesmo que imperceptíveis, pois como matéria estamos em constante transformação. Estas possibilidades permitem ao homem a construção da sua singularidade, da sua identidade e de seu vir-a-ser (CIAMPA, 1994).O autor coloca que nessa articulação entre atividade e consciência define-se a mesmidade. Este elemento caracteriza também a identidade enquanto movimento e possibilidades, pois se dá pelo ato de refletir o que temos sido e podemos ser. Trata-se de uma postura do homem em dispor-se a saber mais, de refletir o conhecimento, recusando-se a reconhecê-lo como realidade absoluta. Em contrapartida, se dá a mesmice que pode ser descrita como simples re-posição de papéis, sem a mediação da reflexão. Dentro dessa perspectiva é conveniente ressaltar que a identidade é um fenômeno social, logo não é possível dissociar o estudo da identidade singular, do estudo da sociedade. É do contexto histórico e social em que o homem vive que decorrem suas determinações e, conseqüentemente, emergem as possibilidades ou impossibilidades, os modos e as alternativas de identidade.De acordo com Baptista (2003) a proposta de Ciampa se aplica não só ao estudo dos indivíduos, mas também ao estudo de grupos (denominados então de identidades coletivas). De forma similar à identidade individual, acontece à identidade que é uma construção histórica tendo como base um conjunto de valores compartilhados que se dá a partir da relação dialética entre indivíduos e/ou grupos que organizam sua vida cotidiana em torno de atividades semelhantes que ocorre em um determinado espaço geográfico.

A identidade coletiva vai se constituindo ao longo do tempo e dá o sentido de continuidade aos indivíduos, que adotam papéis, normas e valores válidos para todos os componentes do grupo, o que reafirma constantemente, através da memória, a realidade objetiva e subjetiva. A memória está sempre presente nessas possibilidades tanto de afirmação quanto de transformação. Pollak (1992) afirma que a memória é um elemento que compõe o sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, pois é um fator importantíssimo do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa de um grupo em sua reconstrução de si, ou seja, a memória está diretamente relacionada com os investimentos que um grupo deve fazer ao longo do tempo, todo o trabalho necessário para dar a cada membro de um grupo o sentimento de unidade. Batista (2005) complementa que a construção da identidade ou identidades vão se moldando quando um determinado grupo se apropria de seus valores, manifestações perpetuando-os na sua história, passando de geração a geração, aonde a ligação entre memória e identidade é tão profunda que o imaginário histórico-cultural se alimenta destes para se auto-sustentar e se reconhecer como expressão particular de um determinado povo.


Bibliografia:

BAPTISTA, Marisa Todescan Dias da Silva. (2003) As relações entre identidade, memória e pesquisa da história da psicologia. Memorandum, 4, 33-39.
Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos04/baptista02.htm
 
BATISTA, Cláudio Magalhães. Memória e identidade: Aspectos relevantes para o turismo cultural. Caderno Virtual de Turismo. Vol. 5 n.3. 2005
Disponível em: www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/ojs/include/getdoc.php?id=285&article=96&mode=pdf 

CIAMPA, Antonio da Costa (1994). Identidade. In Silvia T. M. Lane & Wanderley Codo. (Orgs). Psicologia Social: o homem em movimento. (pp. 58- 75), 13 ed. São Paulo: Brasiliense.
 
POLLAK, Michael.Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.5. n.10. 1992. p. 200-212.

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