Algumas considerações acerca da construção do conhecimento

Embora seja implícito ao ser humano tentar explicar os mais diversos mistérios da humanidade, nem sempre o conhecimento é seu produto final, ou seja, corre o risco de não passar de especulação.
A busca tal qual a produção do conhecimento implica em várias vertentes, desde aquelas concernentes à bioética até às específicas de cada área.

Portanto, para a construção do conhecimento, antes de tudo, é importante atentarmos para conceitos que perpassam e constroem o que o homem é, principalmente àqueles responsáveis para seu constructo enquanto Ser bio-psico-sócio-espiritual e “ecológico”, como as concepções de mito e verdade.

Mito e verdade são definições que se tornam difusas mediante o senso comum, um prejuízo que se estende ao campo do conhecimento propriamente dito ao qual as bases teóricas fazem referência. Segundo Lévi-Strauss, “o pensamento mítico é um pensamento sensível e concreto, um pensamento onde imagens são coisas e onde coisas são idéias, onde a palavra dá existência ou morte às coisas”. (CHAUÍ, 1994)

Basicamente, podemos considerar que o mito após reunir vivências e experiências, narrativas e relatos, tem a função de explicar, organizar e compensar o homem a cerca das coisas que lhe trazem interrogações sobre si mesmo e sobre o sentido de sua existência, sua razão de ser. Assim, o mito decifra o secreto.

Quanto à verdade, sua definição é mais complexa. Se formos tomar por base o ser humano, em geral, dispõe de sua concepção de verdade, daí sua individualidade, ainda que passível de falhas, “erros ou ilusões”: – Ou vemos a unidade do gênero e esquecemos a diversidade das culturas e dos indivíduos ou vice-versa.

Filosoficamente falando, a verdade é composta de especificadores concernentes ao indivíduo, ao conjunto e ao empírico, que de forma complexa devem levar em consideração a subjetividade e valores culturais, constituindo uma abordagem ética do homem como ser dotado de inteligência, sem desprezar o contexto no qual está inserido. Portanto, é necessário contextualizar todos os dados. Pascal dizia, já no século XVII: “Não se podem conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo sem conhecer as partes”. (MORIN, 2000)

A busca do conhecimento é um processo árduo e vai sendo construído a partir da realidade, gênese dos diversos âmbitos de interpretações a cerca da verdade, as tendências filosóficas como o dogmatismo, ceticismo, realismo, idealismo, positivismo, etc. E se, “o saber, tem que ter sabor” (ALVES, 2003), certamente o homem não hesitará em apropriar-se do conhecimento, seja analítica ou sinteticamente, para obter suas aspirações quanto ao ideal de tornar sua existência significativa. Irá buscar seu desenvolvimento intelectual, adquirindo um patrimônio cultural.

O conhecimento em si engloba todos estes fatores. O mito funciona para explicar algo incompreensível ao tempo que traz consigo sempre um fundo de verdade. A verdade parte do pressuposto da necessidade do empirismo e decorre da interpretação crítica dos fatos, vivências e contexto sócio-histórico-cultural. Desta forma, não há verdade absoluta, mas sua construção. Tampouco, uma realidade absoluta, mas as diversas realidades extrínsecas ao ser humano. Estes muitos fatores, existenciais, de cunho filosófico, científico ou mesmo advindos da psicologia do senso comum, fazem do conhecimento deveras complexo. E o pensamento humano e sua estrutura mental fazem parte da complexidade humana. Conforme Morin (1980, p. 14): “Como o homem, um ser complexo, o pensamento também assim se apresenta”. ERL

Referências:

ALVES, Rubem. Livro sem fim. 2 Ed. Ed. Loyola:2003;

CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. Ática. São Paulo: 1994;

LUCKESI, Cipriano. PASSOS, Elizete. Introdução à Filosofia: aprendendo a aprender. Cortez. São Paulo: 2000;

MORIN, Edgar. O paradigma perdido: a natureza humana. 4. ed. Publicações Europa-América. Portugal: 1973.

MORIN, Edgar. O método II – A vida da vida. 2. ed. Publicações Europa-América: 1980

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000.

WILBER, Ken. O olho e o espírito. Cultrise. São Paulo: 1997.

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