Relação Terapêutica. Simples?

Para que uma relação possa realmente surtir efeito são necessários vários fatores. É algo que parece simples, contudo, é demasiadamente difícil de compreender. Devemos observar ouvir e buscar compreender o que o outro tem a nos dizer; quando as duas partes se compreendem reciprocamente está estabelecida à relação (Rogers, 1991).
A relação terapêutica é o veículo pelo qual se processa a psicoterapia. Das características pessoais do paciente e terapeuta, das reedições de vivências passadas que ambos trazem para a situação presente e da interação desses elementos com a relação atual, única e particular (Cordioli, 1998).

Para Freud, uma boa relação está pautada num vínculo afetivo entre paciente e terapeuta, sendo essa a primeira preocupação do terapeuta (Cordioli, 1998). Calligaris (2004) confirma tal posição quando relata que a mudança não é uma coisa imposta, pois, para que a mudança ocorra é preciso que a relação comece.

Alguns autores comportamentais se referem ao Carl Rogers e a Freud como expoentes terapeutas que atentaram muito antes para a função da relação cliente-terapeuta e seus efeitos sobre o processo terapêutico. Já a abordagem comportamental em psicoterapia ficou conhecida como uma proposta terapêutica que enfatizava prioritariamente as técnicas e a relação terapêutica que, por sua vez, teria um papel menor e inespecífico (Velasco; Cirino, 2002).

Para Conte e Brandão (1999), por muito tempo, a Terapia Comportamental desconsiderou a real importância da relação, sendo considerada apenas como uma instância, onde procedimentos e técnicas poderiam ser aplicados e testados.
Pretendia-se que as mudanças ocorridas por meio das técnicas se generalizassem para o ambiente natural do cliente. Em suma, considerou-se por muito tempo a relação terapêutica como secundária para o desenvolvimento da terapia e não a admitiu como influência (Meyer; Vermes, 2001).

Seguindo o raciocínio acima, o psicólogo necessitava apenas ter habilidades para planejar e executar um programa comportamental. As teorias sobre relação terapêutica não eram organizadas em postulados verificáveis e podiam ser desconsideradas (Braga; Vandenberghe, 2006).

Isso é compreensível pelo fato de que ao se originar de uma insatisfação com as alternativas da época e de uma fundamentação em princípios comportamentais testados e validados, procurou-se um caminho diferente e perseguiu-se a utopia de fazer a intervenção técnica como único fator de mudança. Com isso, só depois de se estabelecer como escola influente é que mais atenção veio a ser dada para a questão da relação terapêutica. Houve uma progressiva inserção da Terapia Comportamental no mercado de trabalho e isso a afastou do modelo rigoroso de pesquisa (Zamignani, 2000).

O interesse atual para o estudo da relação terapêutica e sua inserção no entendimento do processo terapêutico, reflete uma mudança na maneira como os behavioristas se voltam para as atividades aplicadas, pois o terapeuta não é mais visto como um liberador de reforços ou aplicador de procedimentos  e o cliente também não é mais visto como um conjunto de respostas (Delitti, 2005).

Atualmente a relação terapêutica tem sido tratada como o desempenho de um papel bastante importante, embora nem sempre primordial em diversas abordagens, incluindo a Terapia Comportamental. Para Delitti (2005) a relação é um dos aspectos mais importantes do processo terapêutico, além dos relatos verbais do cliente. Otero (2005, p. 344) também salienta: “a relação é espinha dorsal da psicoterapia […] se alicerça nas pessoas do terapeuta e do cliente”.

Percebe-se uma evolução na consideração da relação terapêutica como assunto de estudos e, para isso, é primordial retomarmos a história de pesquisas que a abordaram. Desde a década de 70, estudiosos da área, como Kanfer e Phillips, consideravam que os fatores de relacionamento eram muitas vezes determinantes na mudança de comportamentos, onde os comportamentos do terapeuta faziam parte do conjunto de variáveis que podiam aumentar ou diminuir a eficácia das técnicas comportamentais. (Delitti, 2005).

Pesquisadores como Raue e Goldfried (1994) e Rimm e Masters (1974) também realizaram estudos que encontraram como ponto-chave um sólido vínculo terapeuta-cliente que se torna estímulo reforçador para que o cliente se desenvolva, permaneça na terapia (adesão) e seja perseverante na execução de tarefas comportamentais (Conte; Brandão, 1999).

Entretanto, percebe-se que há diferenças quanto ao seu papel. Alguns autores têm apontado que o sucesso das tarefas comportamentais está diretamente ligado à qualidade da relação terapêutica que deve ser vista como uma interação de mútua influência entre terapeuta e cliente. Nela, a pessoa é privilegiada pelo trabalho de um profissional capacitado de utilizar técnicas e procedimentos específicos, ao mesmo tempo em que lança mão de habilidades sociais importantes (Meyer; Vermes, 2001).

Do outro lado, há autores que consideram o relacionamento que ocorre na terapia o principal mecanismo de mudança do cliente e não um meio para facilitar outros aspectos importantes do processo de mudança:

[…] Quando terapeutas comportamentais falam a respeito da relação terapêutica e reconhecem a sua importância, eles tipicamente se referem a tais fatores como “efeitos não-específicos”, “o uso de um ‘bom relacionamento’ como base para se obter cooperação durante o tratamento” […]”. (Kohlenberg; Tsai, 2001, p. 203).
 
Para alguns autores o foco é a relação como foco de mudança e não como um meio para outros procedimentos (Meyer; Vermes, 2001). Todas as psicoterapias reconhecem a necessidade de uma relação de boa qualidade para que haja as intervenções terapêuticas, contudo, os modelos variam na forma de valorizar a relação terapêutica como agente de mudança.

A partir da diferenciação de seus papéis, a relação terapêutica pode ser considerada como um estofo para o sucesso de técnicas e procedimentos ou como um instrumento primordial para a mudança – onde o foco está na própria relação terapêutica; há, ainda, a explicitação de estratégias e termos de regras gerais para promover mudanças no comportamento do cliente (Kohlenberg; Tsai, 2001).

Todavia, a posição de alguns terapeutas contemporâneos sobre as técnicas e relação terapêutica é de que a relação não é a única ou um meio separado da intervenção. Técnicas, como treino em relaxamento e tratamentos baseados em exposição serão sempre uma parte importante do arsenal do terapeuta, mas essas serão conduzidas no contexto da relação humana (Meyer; Vermes, 2001).

Por fim, há muito que se estudar sobre a relação terapêutica. Embora pareça simples dizer que a relação com seu cliente esteja “boa”, interações permeiam tal complexidade. Convido você, leitor, a embarcar nessa teia de influências recíprocas, como pontua Skinner (2000).

Referências
 
BRAGA, G.L.B.; VANDENBERGHE, L.M.A. Abrangência e função da relação terapêutica na terapia comportamental. Estud. psicol. (Campinas), v.23, n.3, p.307-314, 2006.

CALLIGARIS, C. Cartas a um jovem terapeuta – reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos. São Paulo: Elsevier, 2004.
 
CONTE, F.C.S.; BRANDÃO, M.Z.S. Psicoterapia analítica funcional: a relação terapêutica e a análise comportamental clínica. In: KERBAUY R.R.; WIELENSKA, R. C. (Org.). Sobre comportamento e cognição, v. 4. Santo André: ESETec Editores Associados, p. 134-148, 1999.
 
Cordioli, A.V. Como atuam as psicoterapias. In: CORDIOLI, A.V. (Org.). Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre: Artes Médicas, p. 35-46, 1998.
 
DELITTI, A.M.C. A relação terapêutica na terapia comportamental. In: GUILHARDI, H. (Org.). Sobre Comportamento e Cognição. Santo André: ESETec Editores Associados, v. 15, 2005.
 
Kohlenberg, R.; TSAI, M. Psicoterapia Analítica Funcional. Santo André: ESETec Editores Associados, 2001.
 
MEYER, S.B.; VERMES, J.S. Relação Terapêutica. In: Rangé, B.P. (Org.). Psicoterapias Cognitivas e Comportamentais: um Diálogo com a Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2001.
 
OTERO, V.R.G. Intervenções psicoterápicas: algumas variáveis controladoras. In: Guilhardi, H.J.; AGUIRRE, N.C. (Org.). Sobre comportamento e cognição. Santo André: ESETec Editores Associados, v. 16, p. 340-345, 2005.
 
ROGERS, C. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
 
Raue, P.J.; Goldfried, M.R. The Therapeutic Alliance in Cognitive-behavior Therapy. In: Horvath, A.O.; Greenberg, L. (Org.) The Working Alliance: Theory, Research, and Practice. Nova York, EUA: John Wiley & Sons, Inc, p. 131-152, 1994.
 
Rimm, D.C.; Masters, J.C. Behavior therapy: Techniques and empirical findings. New York: Academic Press, 1974.
 
SKINNER, B.F. Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
 
VELASCO, S.M.; CIRINO, S.D. A relação terapêutica como foco da análise na prática clínica comportamental. In: TEIXEIRA, A.M.S.; MACHADO, A.M.; ASSUNÇÃO, M.R.B.; CASTANHEIRA, S.S. (Org.). Ciência do Comportamento: Conhecer e avançar. Santo André: ESETec Editores Associados, v.1, p. 31-38, 2002.
 
ZAMIGNANI, D.R. O caso clínico e a pessoa do terapeuta. In: Kerbauy, R.R. (Org.). Sobre Comportamento e Cognição. Santo André: ESETec Editores Associados, v. 5, p. 234-243, 2000.

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