Arquitetura, Urbanismo e Análise do Comportamento: uma possibilidade

Introdução

A Análise Funcional é a "essência" da Análise do Comportamento. Ela serve para identificar relações funcionais entre os comportamentos dos indivíduos e suas conseqüências. A Análise do Comportamento é uma ciência natural que estuda o comportamento de organismo vivos e íntegros. Baseia-se na premissa fundamental de que todo comportamento produz conseqüências no ambiente e essas conseqüências aumentam ou diminuem a probabilidade do comportamento ocorrer novamente. Uma das possibilidades de utilização da Análise do Comportamento que existe é na Arquitetura e Urbanismo afinal de contas um dos aspectos levados em consideração na construção de espaços é o comportamento humano.

Desenvolvimento

É evidente nos manifestos dos mestres [arquitetos e urbanistas] modernistas, mesmo que lhes lancemos um olhar rápido, que o desejo de criar ambientes acessíveis, bem qualificados, repletos de "oportunidades" para uma vida "enriquecedora" está profundamente arraigado na filosofia arquitetônica.  Por exemplo, se chego à Praça Bela e nela existem bancos confortáveis para sentar, uma iluminação segura á noite, um belo jardim para ser visto e árvores para diminuir a incidência de iluminação e nível de calor a probabilidade de passar a freqüentar esse ambiente provavelmente será maior do que outra praça que não possui esses equipamentos. O meu comportamento de visitar a Praça Bela gerou conseqüências: acesso a bancos confortáveis, uma iluminação segura á noite, um belo jardim para ser visto e árvores suficientes para diminuir a incidência de iluminação e nível de calor.  Que arquiteto não desejaria projetar praças que gerassem conseqüências que aumentariam a probabilidade dos usuários freqüentá-la freqüentemente? Qual o prefeito que não gostaria de construir espaços de lazer em sua cidade que todos gostam de freqüentar e utilizar?   No entanto parece que a Arquitetura e o Urbanismo não conseguiram ainda formular uma metodologia unificada para construir ambientes físicos reforçadores para os seres humanos. Se acreditarmos nos críticos da profissão, no entanto, há um verdadeiro abismo entre as intenções expressas pelos arquitetos e aquilo que realmente conseguem. Os arquitetos são mais inclinados a perguntar: "Por que as pessoas são tão teimosas ou equivocadas ao ponto de não usarem do modo certo – ou mesmo apenas usarem, não os abandonando -, os lugares e espaços que projetamos?" Uma pergunta ingênua que somente reflete a falta de entendimento da maioria dos Arquitetos e Urbanistas a respeito da natureza e determinantes das interações que existem entre os organismos e os ambientes físicos. A Análise Funcional do comportamento – que ocorre através da descrição do contexto em que um comportamento ocorre, do comportamento emitido por um organismo e das conseqüências que o comportamento gera nesse contexto – possibilita a modificação eficaz deste através da alteração do contexto e/ou das suas conseqüências.No exemplo da Praça Bela podemos dizer que o contexto é a praça, o comportamento é a freqüência de visitação da mesma e as conseqüências que aumentam a taxa de visitação são: o acesso a bancos confortáveis, iluminação segura á noite, um belo jardim para ser visto e árvores suficientes para diminuir a incidência de iluminação e nível de calor. No exemplo acima, percebemos que descrevendo o contexto, o comportamento e suas conseqüências e estabelecendo as relações entre essas dimensões entendemos por que a Praça Bela provavelmente é a mais visitada de sua cidade. Uma praça que carece de equipamentos de uso coletivos modernos e confortáveis não vai deixar de ser uma praça, mas talvez não atraia tantas pessoas como a Praça Bela.  Fazemos uma Análise Funcional para modificar comportamento ou pelo menos para entender por que ele ocorre já que depende do contexto de ocorrência e das conseqüências. Um arquiteto, engenheiro ou prefeito poderia perfeitamente fazer uma pesquisa com uma amostra de moradores de uma cidade para verificar qual é a praça mais freqüentada por eles perguntando o que os moradores mais fazem na mesma e pensam dela. Teria um retrato de uma praça "ideal" e adequaria todas as praças da cidade para terem perfil semelhante á referida praça. Mas não sejamos ingênuos, pois poucas pessoas gostam de freqüentar praças nos dias de hoje. A violência, a TV, o computador, a Internet, jogos virtuais, a poluição e o conforto do lar estão diminuindo profundamente a freqüência de visitação a praças e outros espaços urbanos coletivos de lazer. O que fazer então? Como utilizar a Análise Funcional para aumentar a freqüência de visitação a esses locais, por exemplo? Como motivar um público a ir para locais públicos que geralmente não vai, ou nunca freqüentaram? Podemos partir de outra direção: pesquisaríamos o que atrairia o usuário a uma praça "ideal" – ou espaço urbano de uso coletivo semelhante – ao invés de perguntarmos o que o atrai a uma praça que existe afinal nada ou quase nada nas praças de uma cidade pode atrair a amostra pesquisada. Poderíamos em seguida construir essa praça e verificar se o que os moradores afirmaram é verdade. Poderíamos modificar a tipologia e a quantidade de equipamentos de uso coletivo testando durante semanas ou meses que tipos de equipamento mais atraem os usuários, poderíamos mensurar a freqüência de visitação da praça e utilização dos seus equipamentos com o uso de observação objetiva e sistematizada, poderíamos fazer pesquisa de satisfação e usar outras metodologias de estudo de caso como, por exemplo, a utilização de óculos 3D para que amostras de usuários possam visualizar como ficará a praça. No exemplo acima, diferentemente do primeiro, não estaríamos usando a Análise Funcional somente para entender o que atrai o usuário a uma determinada praça, mas para fazer com que o usuário passe a freqüentar ou pelo menos freqüente mais uma praça. Enfim, estaríamos aplicando a Análise do Comportamento, uma ciência que traz soluções práticas para uma vida humana melhor.                    

Mas para que a Análise do Comportamento possa realmente ser utilizada na Arquitetura e Urbanismo alguns dilemas que confrontam essas áreas devem ser quebrados. O primeiro é que a profissão da Arquitetura tem sido lenta em responder às relações em transformação entre os profissionais arquitetos e os clientes; o segundo é que muitos arquitetos sustentam a crença ingênua de que o ambiente físico é o principal determinante do comportamento; e o terceiro é que a Arquitetura é, de um modo amplo, uma disciplina a-teórica. Inicialmente deve-se considerara que é um erro acreditar que todas as pessoas percebem e utilizam um ambiente construído ou natural da mesma forma. As pessoas têm histórias de vida diferentes, aprenderam a se relacionar com seu meio físico de forma diferente, percebem o ambiente de forma diferente, logo, utilizaram o ambiente de forma diferente, guardando expectativas diferentes em relação a ele.  As pessoas que vão para a Praça Bela namorar não se comportam da mesma forma que as pessoas que vão para praticar algum tipo de esporte, lazer ou recreação. As primeiras provavelmente desejarão encontrar na Praça Bela ambientes mais reservados e confortáveis, ou seja, propícios ao contato físico e distante dos olhares alheios. Já o público que freqüenta o mesmo local com intenções desportivas desejará, provavelmente, que o mesmo tenha espaços abertos, iluminados e projetados para facilitar a movimentação corporal, talvez até mesmo desejem um local onde possam ser facilmente vistos para mostrarem seus corpos esculpidos.  Acreditar que os casais de namorados vão simplesmente deixar de ter interesse em namorar em espaços que não oferecem ambientes propícios ao namoro quando, por exemplo, adentrarem uma praça que não foi projetada para suprir esse objetivo é uma ingenuidade. O que provavelmente irá acontecer é que haverá um conflito de interesses nesse ambiente. O namoro ocorrerá na sua forma mais concreta, mas não será tão interessante se o espaço fosse projetado para suprir as demandas de privacidade que concernem o momento, logo os interesses destes usuários não serão supridos em sua totalidade. Quando os interesses dos usuários não são supridos pode acontecer dois fenômenos: ou o público deixa de freqüentar o espaço correlato – e este perde sua função original – ou o modifica – e isso muitas vezes gera problemas entre quem constrói e quem utiliza. Praças danificadas ou subutilizadas e conjuntos habitacionais desabitados ou alterados precoce e profundamente são exemplos mais comuns do resultado da inabilidade que alguns projetistas têm em planejar ambientes que supram as demandas humanas gerando gastos excedentes e conflitos com o poder público.  Muitas vezes ocorre que uma solução apropriada para um grupo particular de pessoas seja criada para um grupo particular de moradores, que tem diferentes conjuntos de necessidades, valores e atitudes com respeito à habitação e ao uso do espaço. Os facilitadores do comportamento podem ser arquitetônicos por natureza, mas do mesmo modo podem ser de ordem administrativa, financeira, ou de alguma outra ordem. A crença no determinismo arquitetônico para o comportamento humano provavelmente resulta da falta de pesquisas empíricas na Arquitetura e no Urbanismo. Mesmo a filosofia arquitetônica tem-se caracterizado pela sensibilidade pessoal de seus líderes, mais que pela preocupação acerca da fundamentação teórica da projetação e pela análise das questões que vêm confrontando a profissão. Os determinantes dos comportamentos de interação do homem com seu meio ambiente físico são muito complexos, envolvem determinantes filogenéticos, ontogenéticos e culturais. Na verdade não existe por que acreditar que um bom projeto deva desestimular o interesse das pessoas de personalizar seus ambientes de habitação e de trabalho, por exemplo, porém isso deve acontecer do modo mais harmônico possível para não gerar atritos entre os usuários e projetistas e impedir o surgimento de gastos que seriam anulados em um bom projeto. O medo da ciência tem mantido à distância importantes questões acerca da natureza da arquitetura e da natureza da projeção arquitetônica. Conseqüentemente, os arquitetos continuam a favorecer abordagens casuais e assistemáticas em suas observações e análises. Com freqüência crescente, as informações geradas desse modo são impróprias para as situações às quais são aplicadas. Um fenômeno complexo como a relação entre espaços e ambientes construídos sugere uma ciência complexa capaz o suficiente de analisá-lo.Uma solução poderia provir da utilização da Análise do Comportamento para a construção de projetos baseados em observações sistemáticas e análises pautadas em uma sólida teoria.   A projeção deve ser um processo consciente de si. Deve ser capaz de atender as necessidades humanas destoando o mínimo delas. A Análise do Comportamento é uma ciência natural que é aplicada utilizando-se os seguintes passos básicos: coleta de dados (principalmente através da observação), análise dos dados, planejamento da intervenção baseado nos dados, intervenção na situação-problema, avaliação da intervenção baseada nos seus resultados, reconsideração da intervenção se necessário. O rigor metodológico do trabalho dos Analistas do Comportamento se explica devido o compromisso dessa ciência de estudar, prever e controlar o comportamento humano procurando identificar o máximo possível de variáveis que determinam o comportamento ou grupo de comportamentos estudados.

Bibliografia  

MOREIRA, Márcio Borges; MEDEIROS, Carlos Augusto de. Princípios básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.

BAUM, Willian M. Compreender o behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul, 1999.

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