De volta aos porões da Loucura: uma visita a Barbacena

O presente artigo partiu da experiência interdisciplinar realizada pelos alunos da PUC Minas Arcos integrando as disciplinas de Psicopatologia Geral, História da Psicologia e o estágio em Saúde Mental. Os objetivos da Visita Técnica a Barbacena foram: 1º Possibilitar um encontro com a história das instituições psiquiátricas de Minas Gerais – contextos sociais e políticos; 2º abordar as repercussões da reforma psiquiátrica na humanização do tratamento do doente mental; 3º visualizar as novas propostas de assistência ao doente mental e 4º apresentar a instituição (Manicômio Judiciário – Jorge Vaz) responsável pelo doente mental que necessita de intervenção judicial. O relato que se segue é fruto do que hoje se vê em Barbacena e um recorte sombrio da história que insiste em ser desvendada.
Chegamos a Barbacena às 7 horas e fomos recebidos na FHEMIG pela psicóloga e pela enfermeira responsável, que fizeram as apresentações acerca da instituição, assim como o processo de mudança devido à Reforma Psiquiátrica. Criada em 1903 e com mais de um século de histórias a FHEMIG trabalha hoje de forma bem diferente. Com a composição do quadro multidisciplinar de funcionários os pacientes são assistidos por diversos ângulos da doença e inseridos da melhor forma no contexto social.

Com a exibição do filme “Em nome da razão” as cenas da realidade da fase inicial do hospital denunciam a curta divisória que existia entre a lucidez e a loucura, quando o paciente se encontrava enclausurado pelas grades do serviço manicomial. Na exclusão onde não há individualidade, no tratamento que não existia, na falta de carinho, de respeito, sem afeto, sem produzir sua sexualidade, a dimensão atemporal, o ócio absoluto… Só restava a loucura. O inferno conhecido como manicômio induz, produz o delírio. A fábrica de dinheiro que não cura, mas tortura seus internos. A morte que demora 10, 20 anos para acontecer. A violência física e psicológica, internos moralmente agredidos, tudo em nome da razão, da ciência. O vídeo apresentou o eu que é violado a todo o momento.

Durante a exibição, no espaço do auditório fomos visitados por alguns internos que na maioria pareciam alheios a situação, perambulavam sem destino pelo espaço interno do hospital. O contato com os pacientes foi restrito, preservando assim o bem-estar dos que ali se encontravam.

Algumas dúvidas foram sanadas logo no começo. Acho que a preocupação de todo leigo, que começa a discutir a doença mental, principalmente no ambiente hospitalar, é sobre as formas de tratamento utilizadas. Até mesmo para desconstruir o que é lido em livros a respeito das técnicas antigas de tratamento. O eletrochoque – “eletroconvulsoterapia” – foi abolido em 1999 da instituição, por exemplo.

O receio com os pacientes que permaneceram no pátio com nossa presença afoita para registrar tudo foi tão pouco que talvez a realidade local ainda não estivesse presente nos meus pensamentos.

Seguimos para o Departamento B e o Museu da Loucura. No trajeto ainda tomado de ansiedade e olhando a cidade, podia ver o desfecho da história da “cidade dos loucos” passarem por meus olhos.

No Hospital Regional, primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais – lendário Hospital Colônia de Barbacena preserva suas construções antigas e faz palco para a realidade de quem ainda vive nas suas dependências. Tivemos o contato com as oficinas terapêuticas e com os trabalhos manuais e de artesanato feito pelos usuários do hospital. A satisfação de ver gente nova era muito marcante no olhar de quem estava um pouco lúcido naquele momento, para muitos outros éramos apenas “mais gente”. Algumas pacientes conservam a vaidade de ser mulher, usam brincos, cordões, pulseiras, maquiagem, pareciam felizes em suas realidades. Para mim, estavam tão abandonados… De onde vinha o sorriso que tinham? O meu coração naquele momento estava apertado, queria tanto que fosse diferente, queria tanto ajudar e ao mesmo tempo tudo me parecia tão inútil, por que era passageiro e depois tudo seria como antes. Os sentimentos que agora recordo para escrever, me fazem sentir tão incapaz, com tanto medo de abraçar uma causa que nunca vou conseguir deixar como “eu acho” que seja a melhor.

Conversamos com uma paciente muito simpática que inclusive cantou para nós na despedida. Ela dizia estar morando ali desde os treze anos e que gostava da sua casa, que dividia com mais vinte pacientes. Uma vida inteira internada, fico me perguntando da família dessa senhora, das outras possibilidades que teria fora dali. Mas será que a sociedade realmente aceitaria alguém com uma história de vida assim? Será que muitas vezes a paciente já não se sentiu revoltada com sua situação? Talvez não, aquela é a vida que ela conhece, estar aqui fora podia ser tão angustiante para ela como foi para mim, estar ali dentro.

Ainda é confuso demais trabalhar a questão da individualidade do doente mental. Como estudante preciso perder a necessidade de pontuar os aspectos que para mim são fundamentais e aceitar o que dentro do possível poderia fazer para melhorar a vida daqueles internos, por exemplo.

No caminho para conhecer o Museu da Loucura, presenciei cenas de idosos deitados no chão sob o sol quente do dia ou então de alguns que tinham feito suas necessidades fisiológicas ali mesmo e continuavam sujos, sem ninguém para cuidar naquele momento.

Não sei se consigo digerir o fato de ser grande o número de internos e, talvez o número de funcionários não bastar para atender a todos. Sem dúvida de que muita coisa já mudou, mas ainda há de sobra o que fazer para tornar a vida melhor de quem foi abandonado pela família e de quem a sociedade já esqueceu.

O Museu da Loucura serve de elo entre a Instituição e a Sociedade e tem a expectativa de proporcionar a quebra do estigma contra o portador de sofrimento mental, despertando reflexões sobre as fronteiras entre a loucura e a razão. Os textos, fotografias e equipamentos cirúrgicos que compõem o acervo são denúncias de uma época em que a loucura era o passaporte da exclusão, do preconceito, dos maus tratos, desculpa para o abandono.

Em um dos cartazes segue o letreiro: “Causa mortis: Diarréia-Astenia Geral-Sífilis Cerebral-Anemia perniciosa e Aguda-Acesso de Excitação Maníaca-Cachexia Simples Post Diarréia Verminosa por Avitominose – Ancilostomíase – Frio – Tristeza – Abandono – Fome – Omissão – Ignorância – Repressão – Falta de Verbas – Exclusão – Preconceito – Miséria… Ninguém morre de Loucura”.

Frases como estas ilustram o cenário que compõe o Museu, ao mesmo tempo em que chocam, elas denunciam o passado sombrio que aquelas paredes trazem. É repugnante reconhecer as atitudes dos ditos “normais”, profissionais que se colocavam acima do Bem e do Mal, que detinham o poder inescrupulosamente.

A psicologia surge como a ciência que vem para entender o eu no íntimo, resgatando o que ainda não foi contaminado pela doença mental. Como profissão a psicologia também discuti até que ponto a medicina exercia esse poder de comando na vida dos internos das instituições psiquiátricas sem precisar ouvir para direcionar o caminho para o tratamento.

Seguindo o caminho por Barbacena chegamos ao Manicômio Judiciário em meio a uma tempestade, assim como o tempo que ora era de sol intenso, ora de chuvas pesadas, também os meus sentimentos se misturavam a tal ponto que não sabia definir entre o medo e a excitação. A visita ao Hospital Psiquiátrico de Custódia e Tratamento – Jorge Vaz, como agora é conhecido era o que mais me despertava curiosidade. Fomos atenciosamente recebidos pela psicóloga da instituição e um dos quatro advogados responsáveis pelos casos encaminhados.

Algumas orientações de como agir e um pouco da história nos foram passados antes de entrar definitivamente nas dependências do hospital. Logo de início, saímos pelos corredores das celas. O contato com os presos, as goteiras, os trovões do lado de fora, o cheiro, o tumulto de alunos. Tudo contribuía para que eu me sentisse vivendo num filme de terror.

Começamos por visitar a ala do isolamento, onde os presos mais agitados ou aqueles que querem um tempo de privacidade ficam. As celas são pequenas, sem muita ventilação e tudo fica extremamente pior somados ao medo. Alguns presos conversam, falam das belas visitantes, outros olham com um olhar que gela a alma. Definir exatamente todo o turbilhão de sentimentos que se fizeram presentes durante todo o tempo ali dentro é difícil demais.

Eu pensava quais seriam os crimes cometidos para que estivessem ali trancafiados, às vezes pareciam pessoas comuns, inocentes, procuravam falar a todo instante com a psicóloga ou com o advogado. Conosco, visitantes, respondiam de vez em quando os cumprimentos de boa tarde.

O que marcou estar ali foram os olhos dos internos, alguns insinuavam realmente inocência, alguns demência, parecendo estar alheios a qualquer realidade, outros ódio, muitos desejos. Olhares vazios, sem esperança, expectativas, movimentos estereotipados, estagnação total. O tempo passa, mas para alguns parece totalmente parado.

Segundo estatísticas do hospital, a permanência não costuma se estender durante anos. A recuperação é positiva, com poucos casos de reincidência. A psicóloga faz o acompanhamento direto com os pacientes e a relação entre ambos, mostrou boa comunicação e até certo afeto.

As celas têm cerca de doze presos cada, alguns demonstram lucidez, outros, doença total. Essa mistura não me agrada também, o contato com graus diferentes de patologia, a princípio me parece ser negativo, mas assim como nas penitenciárias comuns, o problema da lotação deve ser considerado para internações. Cabe ressaltar aqui outro questionamento: se separamos por patologias, não estaremos segregando?

Ao sairmos do interior do hospital, já nos despedindo, fomos abordados por um senhor que perguntou à psicóloga se ela não iria nos apresentar aos daquela cela. Feitas, então as apresentações, o senhor disse gostar de ler Freud e Jung, e prendeu nossa atenção falando sobre os autores e suas antigas experiências com psicólogos. Citou inclusive o caso de um psicólogo do hospital que cometeu suicídio e lhe disse que tinha um dom nato para a psicologia. Simpático, ficamos ouvindo por um bom tempo. Ao sair definitivamente do ambiente das celas, perguntei à psicóloga o crime que o senhor havia cometido. Ela calmamente me respondeu: “Estupro, ele tem um bom papo”.
 
Deixando a minha ingenuidade de lado, fico me questionando se aquele ambiente que me causou repúdio e fascínio não seria uma boa área de atuação e principalmente de aprendizagem. A leitura que a psicologia possibilita do hospital aponta para a necessidade de ouvir, investigar, ultrapassar o físico e chegar à mentalidade dos doentes.

Saí do Manicômio pensativa, viajando na possibilidade de futuras intervenções em ambientes de penitenciárias, que por si só já são excludentes, e somados à doença mental constitui o centro do preconceito.

Barbacena me aproximou mais de mim mesma, de quem eu sou realmente, dos meus defeitos e possibilidades. Apontou vários dos meus limites e me despertou mais para essa nova paixão que acaba de entrar na minha vida acadêmica: o mundo das doenças mentais e a desejada saúde mental.

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