Harry Stack Sullivan (seus precursores) – parte I

Sigmund Freud e Harry Stack Sullivan são, a meu ver, as duas grandes figuras da Psicologia Profunda. Divergem, porém, fundamentalmente em suas orientações. Freud elaborou uma teoria intrapsíquica. A doutrina de Sullivan é de natureza inter-humana. Quanto ao núcleo de sua psicologia inter-humana, Sullivan teve alguns precursores, que passo a citar.

Precursores de Sullivan

1. William James, 1891

William James, nascido em 1842, em Nova Iorque, estudou na Universidade de Harvard em Cambridge, Massachusetts, tornando-se médico e obtendo mais tarde, em 1870, a cadeira de anatomia e fisiologia na mesma Universidade. Em 1889, trocou a cadeira pela de psicologia. Em 1897, deixou também esta, para assumir, por fim, a cátedra de filosofia. James faleceu em 1910. De sua autoria foram publicadas algumas obras célebres. Ainda hoje, James está um passo à frente, entre seus pares, sob muitos aspectos, o que vale particularmente para seu livro Principles of Psychology, editado em 1891. Dessa obra extraímos alguns dados.

Qualquer um de nós existe não só para si mesmo, mas também para a sociedade. Todos possuem, além de um ego psíquico individual, um ego social chamado, por James, social self, o qual abrange tudo quanto o indivíduo pensa, quer e faz na convivência pública social. A sociedade confere a todo indivíduo um padrão de vida, diferente da forma existencial da individualidade própria. Já que a sociedade não constitui uma unidade uniforme, mas se compõe de vários grupos, cada um de nós possui não um único, mas muitos social selves. Cada indivíduo tem tantos social selves quantos são os grupos a que pertence. E mesmo em uma única pessoa, os social selves podem ser muito diferentes, de acordo com as circunstâncias. É possível, por exemplo, que o mesmo indivíduo apresente em determinado ambiente um social self pronunciadamente religioso e em outro um social self irreligioso. Compare-se a vida durante uma viagem de férias abaixo do Equador, com o correspondente social self das férias, e a vida cotidiana do trabalho acima do Equador, com o correspondente social self do trabalho. Os vários social selves, no entanto, formam uma unidade, porque a sociedade, não obstante todos os grupos em que se subdivide, é uma unidade. Sobre o que pode acontecer, no caso de a sociedade perder sua unidade, lê-se pouco em James.

2. Emile Durkheim, 1893

Emile Durkheim, 1858-1917, sociólogo francês de renome, foi professor na Sorbonne, em Paris. De sua autoria aparecem várias publicações, que ainda hoje são estudadas. Um de seus livros, que tem como título De la division du travail social, publicado em 1893, talvez seja o mais representativo de sua obra.

Independentemente de James, Durkheim afirma que qualquer um possui, além da existência estritamente própria e individual, uma existência diferente, chamada existência social. Em conseqüência da sociedade não ser uma unidade, a existência social fragmenta-se em um certo número de "consciências" sociais – idéia idêntica à de James, apresentada dois anos antes.

3. Georg Simmel, 1908

Georg Simmel, 1858-1918, estudou filosofia em Berlim. Desde 1914, passou para Estrasburgo. É o fundador da sociologia como ciência autônoma na Alemanha. A influência das suas publicações perdura até hoje. Tiramos de sua Soziologie, de 1908, essa indicação.

O que caracteriza nossa existência é a socialização, no sentido do social self de James e da consciência social de Durkheim. Simmel acha que a socialização se realiza de múltiplas formas, de acordo com os vários grupos a que cada qual pertence: os grupos da família, da cidade, da região, do trabalho, do sindicato. Em tempos passados, as várias organizações formavam uma unidade no indivíduo, já que os grupos da sociedade constituíam uma unidade: a unidade da sociedade proporcionava unidade ao indivíduo. A mobilidade moderna dos indivíduos acabou com a unidade da sociedade. Alterou-se, ao mesmo tempo, a unidade individual. Doravante, o indivíduo vive a vida de várias pessoas separadas, correspondentes aos grupos isolados em volta de si. Tornou-se uma pluralidade. Caracteriza-se pela pleonexia, termo criado por Simmel, de pleon e echein, palavras gregas que significam, respectivamente, mais e ter. Simmel aponta também os perigos decorrentes dessa situação. Quem se compõe de muitos corre o risco de ser atormentado pelos conflitos que surgem entre eles.

4. Pitirim Sorokin, 1920, 1925, 1947

Pitirim Alexandrowitch Sorokin, filho de um cinzelador de ícones, nasceu em 1889, na região russa de Archangelsk. Estudou em Leningrado, participou da revolução e tornou-se secretário de Kerenskij, em 1917. Pouco depois caiu em desgraça. Escapou da execução e foi exilado da Rússia em 1922. Sorokin refugiou-se na Tchecoslováquia. Em 1923, emigrou para os USA. Em 1930, foi nomeado catedrático de sociologia na Universidade de Harvard. Intelectualmente muito produtivo, publicou uma série de estudos notáveis, muito pouco estudados até agora.

Em seu livro Society, Culture and Personality, de 1947, também Sorokin chama a atenção para a dissenção existente no indivíduo que pertence a grupos diferentes; principalmente, quando se trata de grupos antagônicos. Sorokin esclarece que, em tal caso, o indivíduo não gozará de tranqüilidade, paz ou felicidade. Pode ser comparado a uma bola empurrada em direções contrárias. O indivíduo torna-se vítima de conflitos decorrentes dessa ambivalência. Sorokin acha que são justamente esses os conflitos que Freud descreve, embora, no seu entender, com palavras pouco apropriadas.

Com essa referência ao conflito neurótico, Sorokin avança bem mais longe do que James, Durkheim e Simmel. Suas palavras, porém, datam de 1947, quando já pertencem ao domínio público as idéias não só dos três autores citados, mas também, e de modo especial, as de Sullivan e do psicólogo social George Herbert Mead. Essas idéias e teorias tinham sido estudadas atentamente por Sorokin, como se depreende de suas publicações. Contudo, coloco Sorokin entre os precursores, pois a essência de seus pensamentos já se encontra em sua obra The Sociology of Revolution, de 1925, onde se esclarece também que esta obra, redigida na Tchecoslováquia, em 1923, é uma reelaboração do livro russo Sistema Soziologii, do próprio Sorokin, publicado em Leningrado, em 1920.

5. George Herbert Mead, 1927, 1934

George Herbert Mead, nascido em 1863 no Estado de Massachusetts, USA, estudou na Universidade de Harvard, onde foi discípulo de William James que, certamente, o esclareceu sobre sua teoria dos social selves. Após uma permanência de três anos na Europa, tornou-se, em 1891, assistente e, alguns anos mais tarde, professor catedrático de filosofia na Universidade de Chicago. Tornou-se conhecido por seus esforços e diligências em favor da psicologia social, pouco cultivada naquela época. Mead faleceu em 1931. De seu livro póstumo Mind, Self and Society, editado em 1934, que reproduz a matéria do curso universitário, dado por ele em 1927, extraímos algumas anotações.

Depois de uma conversa, mais ainda, depois de uma discussão polêmica, mas também após uma festa agitada e excitante, um ou outro participante pode afirmar que não se reconheceu a si mesmo. Mead interpreta tal afirmação literalmente. A pessoa não era aquela que costuma ser no decorrer do dia. Mead afirma que tal possibilidade realmente existe, porque com um indivíduo somos de um jeito e com outro nos comportamos de maneira diferente. Não somos o mesmo em contato com a esposa ou com o marido, o chefe, o cobrador de algo, o psicólogo. Cada um se compõe, no dia-a-dia e sem o perceber, de uma multiplicidade; somos todos uma personalidade múltipla. Mead assegura, que não surgirão dificuldades enquanto a sociedade permanecer um todo coeso, juntando-nos, por isso, em uma unidade.

Até aqui o raciocínio é mais ou menos idêntico ao de James, de quem Mead, com toda certeza, adotou várias idéias, embora explique com maior clareza, Mas, principalmente, acrescenta uma idéia que deve ser considerada de máxima importância para a psicologia profunda: se a sociedade se desagregar e, conseqüentemente, deixar de garantir a unidade do indivíduo, será possível que, em circunstâncias especiais, o indivíduo se desintegre de tal maneira, que terá que largar um ou mais – digamos um só – dos seus social selves característicos. Apresentará, nesse caso, uma perda de memória, uma amnésia, com respeito a esse social self. Em termos psicanalíticos: esse self social torna-se nele inconsciente a partir daquele momento.

Segue daí uma conclusão importante: o inconsciente, no sentido freudiano de um antiego, é a conseqüência da desagregação da sociedade em grupos separados e antagônicos.

Para facilitar a seqüência das idéias, Mead inventou um termo técnico, hoje pertencente ao domínio público. Comparemos a sociedade, propõe ele, a um jogo de basebol. Durante o jogo, cada jogador é determinado pelo time. O time o faz jogar. O jogador individual é o próprio time, quando realmente joga com empenho e "se deixa absorver" pelo jogo. Na sociedade, o time chama-se: the generalized other. É esse o termo técnico, literalmente traduzido por "o outro generalizado", que significa: aquela aglomeração de todas as pessoas à nossa volta, que nos proporcionam um social self geral. Com o termo social self, chegamos de novo à terminologia de James. Não convém, contudo, menosprezar a diferença que existe entre os termos. A diferença é até essencial.

É verdade que o social self de James se traduz, em Mead, por generalized other. O self social, porém, chama-se um self, isto é, algo próprio do indivíduo, uma forma do sujeito. O generalized other de Mead, ao contrário, encontra-se em volta de nós. O termo de Mead indica que a pessoa social se encontra não dentro, mas sim fora de nós. Quando participamos de uma equipe, de um grupo ou da sociedade, esquecemos nosso sujeito; omitimo-lo, por assim dizer. Cada um se esquece como sujeito, em todo grupo que o aceita. Ele é esse grupo. Dessa maneira cada um é o generalized other de todos os grupos juntos. A diferença entre o social self de James e o generalized other de Mead é de orientação psicológica, condicionada por dois séculos de índole diferente. O social self muito subjetivista pertence ao século XIX; o generalized other de Mead pertence ao século XX, ao tempo atual que renunciou ao sujeito isolado, fora do mundo, como algo quase irreal para nós. Parece-me de grande utilidade tentar definir ainda o generalized other, esse homem moderno que somos, da maneira que segue: O generalized other é aquela sociedade condensada em uma única pessoa, a ser encontrada na cidade, na rua, em casas e edifícios – e não no sujeito – que faz o indivíduo pensar, querer e agir em todos os inúmeros momentos em que o mesmo pertence à sociedade ou a uma parte dela.

Ou com palavras que realçam melhor a significação da psicologia profunda: O generalized other é a forma habitual de qualquer existência pessoal, a qual se encontra ali, isto é, na sociedade, e que constitui uma unidade, mas só enquanto a sociedade for uma unidade. Se a unidade da sociedade se perde, o generalized other se retrai para uma parte dessa sociedade. Daí em diante, tudo que estiver fora dessa parte estará perdido para o indivíduo. O que assim se perdeu chama-se: o inconsciente. Este, nessa suposição, já não é mais domínio de uma existência subjetiva desconhecida, mas uma parte da sociedade que se tornou inacessível para alguns, continuando, porém, visível e acessível para outros.

Quero esclarecer ainda mais essa descrição do inconsciente, pois reveste-se de importância singular para a psicologia profunda, como já foi dito. Para essa finalidade transmito, em parte com minhas palavras, as idéias dos autores H. Gerth e C. Wright Mills, extraídas de sua obra de 1954, intitulada: Character and Social Structure.

O generalized other, acentuam os autores, para ninguém representa a sociedade inteira – seria em demasia – mas sempre um pequeno número de pessoas: aquelas que desempenharam, ou ainda desempenham, um papel significativo na vida do sujeito, a serem denominadas com o termo: significant others. O pai é um significant other, Do mesmo modo, a mãe, os avós, os irmãos, professores. O cônjuge é um significant other. O médico de família, o sacerdote, o autor de um livro, todos juntos, não passam de um pequeno grupo de significant others, que são condensados pelo indivíduo no generalized other. Se na vida do indivíduo, o laço, que conserva os significant others concretos em união com o generalized other abstrato (mas real), permanecer firme, também o indivíduo – que, pela definição, é literalmente o generalized other – será uma unidade firme e estável. Isso quer dizer que estará livre da inconsciência. O inconsciente, pois, na nova teoria, é o fato de um social self eclipsado; ou, na terminologia de Mead, a descrição de um significant other. O indivíduo teve que suspender ou despedir um significant other, dar-lhe sumiço, por assim dizer, pelo fato deste ter-se transformado em um elemento irreconciliável, em relação ao generalized other que ficou. Foi assim que surgiu seu inconsciente. O significant other eliminado é seu inconsciente.

O inconsciente, conforme essa explicação, é uma qualidade da sociedade e não do indivíduo. Só no caso da sociedade, que para Mead é o pequeno grupo de significant others, se desagregar, em virtude do antagonismo criado entre dois deles, no mínimo, o inconsciente se torna uma realidade. Tal fato revela-se na vida em geral, no ambiente cotidiano, no qual o indivíduo se move, dando a entender que, nesse ambiente, um determinado setor de significação não existe (mais) para ele. Foi com tais manifestações que Ana O. apareceu no consultório de Breuer. Apresentava sintomas de viver em um mundo em que, para ela, auto-afirmação e sexualidade não (ainda não) existiam. A privação – seu inconsciente – encontrava-se ao redor dela. Encontrava-se, por exemplo, em Breuer, a quem transformou no protagonista de uma gravidez imaginária. Ana O. eliminara – como tantas outras jovens daquela época – o significant other da auto-afirmação e da sexualidade, quem quer que fosse ou tivesse sido esse significant other . Ou, então, apagara de sua vida a linha divisória de um certo número de significant others, até mesmo o que dizia respeito ao aspecto sexual e agressivo desses others, já que tal linha não necessita coincidir com a limitação de uma pessoa só.

Observação

Quando o antagonismo entre o generalized other de alguém e um de seus significant others se torna tão grande que é impossível manter ambos em um mesmo padrão de vida, restam ao interessado, ao que parece, apenas duas possibilidades:

1. Pode eliminar o significant other antagônico, como Ana O. o fez, e talvez venha a consultar um psicoterapeuta, em virtude do inconsciente que assim criou, isto é, por causa de uma carência demasiadamente grande e perturbadora na vida real de cada dia.

2. Também é possível que elimine tanto o significant other como o generalized other restante. O resultado será uma situação de inconsciência total, denominada: situação neurótica crepuscular. Acontecia de fato, hoje é raro, que eram internados, em clínicas psiquiátricas, pacientes neuróticos em um estado neurótico crepuscular (estado alterado de consciência), que podia durar horas, dias, semanas, meses, e, uma vez ou outra, até anos, não deixando lembrança alguma em caso de cura.

Nota: A parte II deste artigo encontra-se na Seção de Colunistas.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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