Psicanálise e o mundo net II – Sexo virtual ?

Abordaremos no presente artigo algumas considerações sobre um comportamento cada vez mais freqüente entre um grupo significativo de internautas, a busca de práticas sexuais chamadas de “virtuais”, sendo caracterizadas por excitabilidade acompanhada e estimulada mutuamente, via comunicação pela rede. Tem visibilidade esse fenômeno dentro do ambiente virtual, partindo de relações que se estabelecem na atualidade por um primeiro contato via internet, ou mesmo sendo um fim em si mesmo essa busca, existindo para isso muitos ciberespaços, onde essa prática é buscada pelos participantes. A maioria desses contatos são feitos via interesse afetivo-sexual de ambas as partes e não envolverão pagamento.
Toda e qualquer consideração feita nesse texto, procurará se abster de valorar a questão moralmente ou em termos de patologia. Como um fenômeno novo e crescente, nos parece que ainda carece de um entendimento amplo sobre ele.

Nossas considerações sobre o tema aqui, partirão da dúvida se podemos falar em 'sexo virtual' ou se estaríamos falando de onanismo na rede.

Ver-se-á que encontraremos no onanismo, aspectos do que em psicanálise está ligado ao conceito de auto-erotismo, definido no “Vocabulário da Psicanálise”(1) também como: “Em sentido lato, característica de um comportamento sexual em que o indivído obtém a satisfação recorrendo unicamente ao seu próprio corpo, sem objeto exterior; neste sentido fala-se de masturbação(onanismo) como comportamento auto-erótico…”

Alguns dos internautas que buscam a satisfação sexual via excitabilidade pelo contato na rede, não admitem esse comportamento como uma prática de masturbação, considerando como o que se convencionou chamar de “sexo virtual”, onde em muitos casos entram aspectos que envolvem afeto e expectativas de passagem para o presencial (ou atual como teóricos preferem hoje nomear). Na outra ponta encontraremos um grupo que busca essa prática como um fim em si mesmo.

Em um blog encontraremos, um interessante relato de uma mulher casada que se hospedou em um hotel durante todo um final de semana, ela e seu lap-top, para “manter relações sexuais com seu amante virtual”, descrevendo essa experiência como uma das melhores de sua vida. Em nenhum momento de seu relato vê-se a menor cogitação para um encontro presencial.

Vejamos uma descrição sobre esse tema, sexo virtual:

“Foi-se o tempo em que transar era sinônimo apenas de contato físico, penetração, beijos e carícias. Hoje em dia, o sexo se revolucionou e um simples acesso à Internet e uma webcam também podem oferecer os prazeres e sensações que rolariam na realidade entre quatro paredes. O chamado sexo virtual ou cybersexo é uma forma de masturbação muito comum em salas de bate-papo, comunidades na Internet ou mesmo em sites que proporcionam videoconferências com webcams, que a cada dia atraem mais adeptos e curiosos. ”. (A)

Em outro relato(B) a participante nos diz:

“Não me realizo sexualmente no meu casamento e também sei que meu marido continua procurando outras. A traição acontece enquanto não decido o que fazer com nossos muitos anos de convivência”.

Esse é outro aspecto também bastante encontrado, pessoas casadas, homens e mulheres, com dificuldade em romper com seus compromissos e que se encontram insatisfeitos sexualmente em suas relações de vínculo, buscando no sexo virtual uma maneira de manter seus contratos matrimoniais e ao mesmo tempo encontrando alguma satisfação para seu mundo erótico.

Em outra forma de olhar para a temática, encontraremos questões ligadas ao conceito de narcisismo em psicanálise. Necessário então dar uma visitada nessa conceituação.
Encontraremos ainda no “Vocabulário da Psicanálise” uma elucidação quanto ao emprego da conceituação de auto-erotismo associada a questões narcísicas:
“Deve-se notar, no entanto, que Havelock Ellis, distingue já no auto-erotismo a sua 'forma extrema', o narcisismo, <<tendência que a emoção sexual apresenta por vezes[…] para se absorver mais ou menos completamente na admiração de si mesmo>>”(1)

Veja que assim poderemos nos afastar um pouco da questão de não haver um outro presente na relação, poderá até existir, porém o que poderemos supor é que esse “outro” não existirá como algo em separado, como uma relação de objeto, servindo como apenas um estimulador. Sabemos que isso existirá também em relações presenciais, onde a questão narcísica se apresentará mesmo em relações presumidamente duais, inclusive naquilo que se configurará como o ato sexual.

No virtual, a imagem que o outro fornece sobre si mesmo é idealizada pelo próprio sujeito e por seu receptor, isso é algo bem perceptível pelo relato encontrado em vários sites onde os participantes falam livremente sobre o assunto. Muitos usarão a web cam em um claro movimento de prazer ligado ao exibir-se e/ou ao observar, outros ainda, terão preferência pela ausência de imagens e prazer ligado a construção de fantasias sobre sua própria imagem e a imagem do outro, que estará lá do outro lado da tela, em voz ou texto escrito.

“Mostrar-me é o meu refúgio, de uma maneira paradoxal. Uma câmera que me leva ao mundo consegue ao mesmo tempo me deixar isolada dele, restrita aos meus desejos”. (B)

Solidão, incapacidade de estabeler uma conexão com as relações reais, intolerância a frustração, impossibilidade de abandonar compromissos ou simplesmente nova forma de prazer do homem inserido no ciberespaço e na cibercultura? E quando as relações virtuais substituem a necessidade de uma relação onde os corpos se façam presentes? Há nisso contemporainedade ou uma forma de escape? Essas são algumas das inúmeras questões que o tema pode e deve levantar.
Enquanto psicanalistas ou psicoterapeutas, encontraremos cada vez mais esse tema, em suas incontáveis variações, deitado ali no divã, buscando construir alguma certeza ou convicção sobre ele. Será sexo virtual traição ou não? Como cada casal entenderá isso?

Para os psicanalistas acho que se apresenta uma grande questão teórica: haverá no sexo virtual uma relação de objeto ou ela será exclusivamente narcísica? Pergunta de difícil resposta por enquanto, mas que cada vez mais suscitará que se construa saber em torno dela.

A psicóloga Rosely Sayão responde a uma questão a ela encaminhada em um site(C) onde busca dar esclarecimentos sobre assuntos referentes a sexualidade.

Colocaremos o relato encaminhado e publicado e parte da resposta dada.

“Ola, Rosely. Não sou uma garotinha, mas estou viciada em sexo virtual. Desde que conheci um homem na Internet, há mais de um ano, ficamos nos encontrando e fazendo sexo virtual. E eu gosto muito, fico excitada de verdade: estou viciada nele, e ele em mim. Somos os dois casados. Às vezes penso que estou doente, outras vezes me considero carente, mas não quero parar e nem ele. Vivemos nos encontrando, quase todos os dias, e falamos de carinhos e sexo como se estivéssemos mesmo fazendo. Penso em acabar com isso, mas não consigo. Você acha anormal minha atitude? Vivo imaginando o que acontecerá se meu marido descobrir, porque é um segredo que guardo comigo”.

Trecho da resposta que nos interessa aqui destacar:

“Todo mundo quer saber, hoje em dia, se fazer sexo virtual pode ou não ser considerada uma prática sexual normal. E quem tem a resposta? Por enquanto, ninguém. Aliás, é difícil afirmar a normalidade de qualquer prática sexual, pois isso depende da época, do grupo social, da cultura, dos costumes, etc.
Considerando isso, se vivemos na era da Internet, é muito complicado dizer que o sexo virtual não é normal”.

No site de relacionamentos do Google, o Orkut, encontraremos várias comunidades que discutem a questão do sexo virtual, sendo que a mais numerosa tinha 69.471 até o momento em que foi feita a pesquisa para este texto. Perto de outros números de outras comunidades desse site, esse número nem se apresenta significativo, porém se levarmos em conta que esses perfis desejam ser identificados como adeptos do sexo virtual, sejam eles fakes(perfil não identificável) ou não, nos parece algo a ser visto com alguma relevância.

Voltar o olhar para o fenômeno relacionamentos virtuais tem merecido já alguns investimentos por parte de inúmeros pesquisadores, como está na introdução do interessante trabalho apresentado no link D:

“Segundo os entrevistados, é possível, contudo, identificar algumas características subjetivas comuns aos pacientes usuários da Internet. São elas: o prazer derivado do uso da Rede como um novo espaço de vida, o sentimento de onipotência originado na experiência online, as relações estabelecidas com seus corpos e os excessos vividos no espaço virtual. Finalmente, o exame destas características e dos resultados de outras pesquisas gera uma interessante convergência que fornece pontos de partida para uma reflexão teórica sobre a subjetividade contemporânea”.(D)

Nessa tese apresentada por essas pesquisadoras encontramos algo que caminha em direção ao que desejamos sublinhar aqui nesse texto.

“É possível, não obstante, identificar outra característica que parece ser específica dos estudos da psicologia clínica sobre a Rede. Esta se refere à existência maciça e quase exclusiva de material proveniente de pesquisas a respeito dos impactos subjetivos da difusão da Rede. Praticamente não há, neste recente campo de investigação, trabalhos provenientes da prática clínica; ou seja, enquanto diferentes pesquisadores tomam a Internet como objeto de estudo, pouco se sabe sobre os pontos de vista dos psicoterapeutas a esse respeito”.

Desde fenômenos de momentos grupais dentro de ambientes do ciberespaço até ao chamado sexo virtual, muito teremos como novas áreas de pesquisa e entendimento sobre a subjetividade contemporânea e suas novas ou velhas formas reeditadas de relacionamentos. E na clínica, como isso tem aparecido e sido tratado?

Nos parece que circunscrever o fenômeno do sexo virtual a uma simples leitura como pornografia em rede, perversão ou narcisismo, seja um reducionismo da questão, talvez imbuído por toda uma normatização da sexualidade humana, como outra forma de banir para o limite marginal tudo que foge à regra sobre a normalidade em termos da sexualidade que é abordada como dual, heterossexual, genital e agora também como presencial. Nos parece que, com exceção das perversões que se encontram no presencial e colocadas na rede, que também tenderiam a ser agrupadas de outras maneiras no chamado mundo real, o sexo entre duas pessoas utilizando a comunicação via rede, poderá ser visto como uma variação que vem em conjunto com várias outras variações que se misturam cada dia mais à realidade off-line de muitos indivíduos.

Há quem acredite que sua evolução atingirá limites impensáveis para os nossos dias e até arriscam algumas previsões.

“Por volta de 2016, segundo os futurólogos, novas tecnologias permitirão fazer sexo virtual quase igual ao real. Julia Heiman, diretora do Instituto Kinsey para Pesquisa sobre Sexo, Gênero e Reprodução, da Universidade de Indiana, nos EUA, diz que no ano em questão será possível realizar experiências multisensuais de sexo virtual.

“Até lá existirão ferramentas eróticas capazes de criar um companheiro (a) para sexo virtual com dimensões e qualidades adequadas”, ela afirma”.

Hoje mesmo, na atualidade, já encontraremos algumas ferramentas tecnológicas que apontarão para esse possível futuro, segundo alguns pesquisadores da área.

“Mais raro no Brasil, mas muito encontrado na Europa, é o sexo virtual baseado em realidade virtual, onde se usam capacetes, datagloves(luvas de dados), e outros objetos que permitem uma conexão entre o corpo do usuário e ao microcomputador. O sujeito fica imerso numa realidade virtual, e cada vez que “toca” ou é “tocado” em uma parte do corpo, recebe estímulos vibratórios do aparelho”(1)

Negar uma tendência em relação ao aparecimento dessa modalidade de prazer é talvez se negar a ver a sexualidade do sujeito psíquico perdido ainda em um mundo modificado pela tecnologia que criou.

Analisando a insatisfação criada pelas instituições sociais as quais o sujeito psíquico busca se adequar, pensamos que a internet veio de certa maneira, como um potencial aliviador de tensões, como nos será apontado pela seguinte constatação:

“Não há porque amenizar a realidade da Internet, principalmente para profissionais interessados nas relações estabelecidas na rede. Um dado que impressiona o observador é o grande número de homens e mulheres casados, presentes nesse espaço, à procura de aventura ou mesmo de um amante fixo”(1)

Por outro lado existem correntes que abordam a questão do sexo virtual quase que como uma patologia, dando alertas como os que estão contidos no site do wikipédia que o aborda como um simples ato de masturbação.

“O sexo virtual, quando vivido de forma habitual, pode acarretar como conseqüência a destruição de relacionamentos afectivos, pois o parceiro poderá encarar isso legitimamente como uma forma de traição sentimental e sexual.

Outra conseqüência é a tendência de que os relacionamentos afectivos e sexuais fechem-se em um Mundo Virtual, constituindo por isso em um novo desvio da sexualidade.

A gravidade da situação não é a coisa em si, mas a compulsão ou obsessão que pode dominar uma pessoa, tornando esta nova forma de excitação com a única válida na vivência da própria sexualidade. É aí que começam os transtornos psicológicos, a materialização de um conflito sexual latente ou oculto”.(E)

E os psicanalistas o que terão a falar sobre esse assunto. O que pode a psicanálise a partir de seus constructos que abordam de maneira tão complexa a questão da sexualidade e psiquismo, construir de conhecimento a respeito desse homem cibercultural? Com certeza que suas análises sobre as relações de vínculo, poderão abordar de maneira muito pertinente muitas das variáveis envolvidas nessa nova forma do homem buscar prazer e muitas vezes afeto, em toda a extensão desse conceito, quer seja como conceito técnico da psicanalise em sua visão de energia, quer seja pelo senso comum, ligando-o ao que se convencionou chamar de “amor”.

O que nos parecerá claro, é que esse é um tema que busca hoje um olhar sobre ele, e podemos supor, que falar sobre sexo ainda permaneça como um objeto de estudo menos valorizado, mais cercado de uma certa ação resistencial. Há ainda, embora de maneira muito menos “vitoriana”, toda uma normalidade sexual da onde partiremos para fazer qualquer estudo sobre suas variações, vide o que foi feito durante tanto tempo com a homossexualidade. Dessa forma, ficará simples catalogar o sexo virtual como mais um desvio da atividade sexual entendida como normal, porém não nos parece que seja uma atividade para a psicanálise, normatizar a sexualidade humana, ao contrário disso. Freud construiu seus achados teóricos com questionamentos oriundos justamente da forma como se via, em sua época, a questão das relações humanas, seus vínculos e suas buscas pelo “princípio de prazer” em contraposição aos seus impedimentos, muito marcados pela cultura, alguns vistos como necessários a formação dela e outros como um exagero de exigências.

Se como disse Sayão a “normalidade” posta para as práticas sexuais devam ser sempre datadas, a questão desse sujeito inserido na cibercultura e obviamente levando para ela a sexualidade propriamente dita e não somente seus aspectos deslocados ou sublimados, esta deverá ser vista também, pela ótica da pesquisa.

“Entre os usos considerados excêntricos ou incomuns da internet figuram o sexo virtual – o cybervoyerismo – e a pedofilia. Ainda não é claro se podemos caracterizar o cybervoyerismo e o cybersexo enquanto patologias, daí a preferência pela classificação destes usos como excêntricos. Já a pedofilia se constitui numa patologia* (CID 10 F65.4), e aqui será tratada enquanto tal. Lembramos que o cybervoyerismo e o sexo virtual podem, eventualmente, tornar-se patologias, se associadas ao uso patológico(abusivo) da Internet”. (1)* grifo nosso

Tomado nesse aspecto, não diferirá da questão sexual fora da discussão sobre seu uso na net ou estará agregada a questão da compulsão pelo uso da internet? Pensamos ser essa outra variável importante para analisar esse tema. Propomos pensar o comportamento compulsivo, aqui nesse caso, aliando duas vertentes: a do sexo e a do uso da internet, mas sendo de qualquer maneira uma tendência à compulsão inscrita no sujeito e recolocada no uso da internet, descarregando(no sentido mesmo de carga) na questão sexual.

Poderemos pensar também que existirão sujeitos para os quais o uso da internet para satisfação sexual tenha um caráter temporário e não exclusivo, dentre essas possibilidades poderemos supor:

. afastamento temporário de casais;
. busca de contatos e desenvolvimento de interesses afetivos por sujeitos separados geograficamente;
. modalidade de paquera e início de relacionamento que visa o presencial;
. adolescentes em primeiras experimentações;
. casais com impedimentos, como prática alternativa.

Sabemos que poderão existir outras possibilidades que poderiam ser catalogadas nesses iténs.

Pensamos ainda que, para muitos, a questão do anonimato possibilitado pela rede facilitará que lidem com seus bloqueios em relação ao tema sexo.

“O sexo quando tratado presencialmente, é um tema ainda repleto de tabus, e normalmente abordado com certa cautela. Mas o que acontece quando ninguém nos vê, e podemos controlar nossa presença junto aos outros, com um clique no mouse do computador?”(1)

A atividade sexual embora seja em nossos tempos exercida com maior freqüência e menos limitadores repressivos(?) não perdeu ainda o caráter de tema tabu, é quase sempre encarada como uma segunda linha em abordagens que objetivam entender o sujeito psíquico e sua realidade. Acreditemos ou não nisso, algumas linhas de pesquisa apontam para uma grande dificuldade que casais ainda hoje, encontram para falar de sua vida sexual e suas necessidades de prazer, o que acarretará, via de regra, uma insatisfação nesse campo tão importante do equilíbrio psíquico e seu decorrente conceito de felicidade, podendo aí criar o caminho para a busca do sexo virtual.

Outro aspecto relevante será que sendo a Internet também um novo meio de comunicação, alguns internautas procuram através da rede uma nova forma de conhecer pessoas e desenvolver afeto, seja na direção amorosa de casal, seja na direção do afeto das afinidades e vínculos de amizade, dentro dessa perspectiva, em algum momento, a questão da excitabilidade sexual poderá aparecer de maneira espontânea e não procurada.

“Presente cada vez mais em nossas vidas, a internet é um veículo de conhecimento, pesquisa, amizades virtuais, reencontro de velhos amigos, conhecimentos novos. O Orkut amplia a rede de relacionamentos e o MSN possibilita a conversa em tempo real e até mesmo com imagens”(2)

É sem dúvida para todos que já foram “pescados pela rede” uma ferramenta para “estreitar laços, diminuir distâncias, estabelecer contatos, confirmar relacionamentos”.(2)

Talvez possamos pensar que uma noção de patologia possa ter sua referência na recusa em passar do virtual para o presencial, tendo como uma único vetor dessa procura a excitação com ausência de corpos em contato direto, mesmo assim devemos deixar apenas em suspeita tal enfoque sobre o tema, não podendo afirmar nada nessa direção, apenas contextualizar como aquilo que hoje entenderemos como relação. Isto levando-se em conta a impossibilidade de se pensar que sujeitos psíquicos dotados de um corpo preparado para ser estimulado e dar e receber prazer, possam se contentar com um contato com um outro apenas imaginado, sendo isso suficiente. Essa questão vista pela vertente do afeto, estará longe de ser nova para nós, poderemos pensar naquele magnífico filme “Nunca te vi e sempre te amei”, um clássico com visão de futuro onde a relação virtual se sustenta por toda uma vida através de correspondência que atravessa oceano, continentes e guerra. Outro filme mais atual que traz essa questão, também muito belo, é o “A Casa do Lago”, onde as personagens estão separadas por dois anos de diferença. Os adeptos dos relacionamentos on-line têm nesses dois filmes grande fonte de inspiração e acolhimento. O que se vê com força de vida nos dois filmes, é o desejo angustiado dos pares em estabelecer uma conexão no real, em geografia, tempo e corpos. Talvez isso fale de Eros em sua magnitude, no seu desejo de encontrar o objeto para descarregar a libido, estabelecer vínculo sensorial, ainda tão fundamental para nossa gratificação. Onde entrará

Thanatos nisso tudo? Talvez seja a questão que ainda não saibamos responder. Aonde poderá entrar, desorganizando e buscando a impulsão que levará esse sujeito até ao objeto externo de catéxis, o corpo pele, sensorial, sexual e genital. Ao envelope humano do qual nos fala Didier Anzieu em sua obra “O Eu Pele”(3) e que nos colocará frente ao que propõe como as nove funções do Eu-Pele: Manutenção; Continência; Pára-excitação; Individuação; Intersensorialidade; Sustentação da excitação sexual; Recarga libidinal; Inscrição de traços e Autodestruição.

Talvez seja importante aqui para o nosso estudo principalmente o aspecto da Intersensorialidade onde Anzieu afirma que: “A carência desta função responde a angústia de fragmentação do corpo, mais precisamente a de desmantelamento(Meltzer, 1975), isto é, de um funcionamento independente, anárquico, dos diversos órgãos dos sentidos”, essa função está diretamente ligada ao uso do tátil pelo aparelho psíquico e deverá estar ligado ao ponto seguinte que é o de Sustentação da excitação sexual onde a falta poderá também transformar então o Eu-Pele em um envelope de angústia. No interdito de tocar, descrito por Anzieu, talvez encontremos uma grande colaboração para entender quando se vê como proteção essa angústia de impedir o encontro do objeto naquilo que ele trará enquanto tátil.

“Todo interdito é uma interface que separa duas regiões do espaço psíquico dotadas de qualidades psíquicas diferentes. O interdito do tocar separa a região do familiar, região protegida e protetora, e a região do estranho, inquietante, perigoso”.(3)

Quais serão então as particularidades e características que hoje sustentaremos enquanto premissas para o encontro humano? O que poderemos dizer daquilo que “afeta” o sujeito enquanto um ser em busca de colocar seus vínculos relativos a seu mundo externo?

Propomos pensar a questão do sexo virtual então, dentro de quase todas as considerações que teríamos para análise da atividade sexual convencional. Podendo haver então na existência desse fenômeno tanto uma modalidade auto-erótica narcisista, quanto uma nova forma de estabeler uma relação de prazer.

Pensamos estar colocada a questão e fica o convite para as discordâncias, acréscimos, exemplos, considerações e tudo mais que se mostre necessário para que possamos voltar o olhar e construir saber sobre um tema que hoje envolve e preocupa alguns psicoterapeutas em suas atuações e outros muitos sujeitos psíquicos que procuram na Internet uma fonte de prazer e/ou vínculos de parceria.

Bibliografia:

1 – “O Cibervoyerismo e o sexo virtual” in “Psicologia e Informática – O ser humano diante das novas tecnologias” – Ivelise Fortim de Campos e Paulo Annunziata Lopes

2 – “Relacionamento e Contato: A Internet como Figura” – Rosana Zanella – Psicologia e Informática -Produções do III Psicoinfoe III Jornada do NPPI

3 – “O Eu Pele” – Didier Anzieu

Links:

A – http://www.180graus.com/home/materia.asp?id=88398

B – http://vip.abril.com.br/nova_vip/puraverdade/ed_246.shtml

C – http://sexo.uol.com.br/sexoadulto/sexoeaquestao/sq14092000.jhtm

D – Impactos da internet sobre pacientes: a visão de psicoterapeutas – Carla Faria Leitão; Ana Maria Nicolaci-da-Costa
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722005000300012

E – http://pt.wikipedia.org/wiki/Sexo_virtual

D -Depoimentos:
http://www.psicosite.psc.br/resultados_opina_enq5.html

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".
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