A gratidão

Quero começar pelo senso comum. Muitas pessoas só se sentem capazes de agradecer por comparação a quem tem menos ou não tem nada, por comparação a moribundos, miseráveis, destituídos, ou a quem perdeu. É muito freqüente ouvirmos sermões do tipo: “Agradeça por ter um corpo perfeito; por ter uma casa, alimento, saúde, por ser parte de uma minoria privilegiada…”. É a alegria pela comparação com as desgraças dos outros. Na verdade, uma forma vulgar e bem baixa de gratidão. Uma gratidão passiva, fruto de espíritos mais invejosos do que virtuosos. Precisam da miséria, da derrota ou da infelicidade alheia para ser felizes. É a alegria por saber que se tem o que o outro não possui. Emerge somente por comparação, por meio de um olhar invejoso e competitivo. É uma forma infeliz de gratidão. Tem o mal do outro como condição.

A gratidão, antes de ser um consolo ou um sentimento de dívida, pode ser um ato. O ato simples de usufruir do que se tem e do que se pode. Ser grato, em seu sentido mais virtuoso, é dar valor ao que se tem. E para isso é preciso ter olhos para o que já existe e é capaz de produzir prazer.

Muitos pacientes nos chegam, em desespero, relatando que suas vidas estão em ruínas, aos pedaços. Os primeiros passos, muitas vezes, obviamente, são os de recolher cacos e tentar aproveitar o que sobrou. Esta tentativa, por mais estranho que pareça, é um movimento de gratidão. E ela, se possível, na melhor das hipóteses, deve se dar sem a comparação com uma miséria alheia maior.

Há quem tenha sido condicionado a se sentir feliz somente por comparação com os outros. Ou seja, ser feliz é ser ou ter mais que o outro, é ostentar superioridade. É uma felicidade social, de coluna social. Para quem foi assim condicionado, fica mesmo muito difícil ser feliz sozinho (no seu bom sentido), no seu cantinho, sem se preocupar demais com os outros. Segundo Russell:

“O homem sensato não deixa de sentir prazer com o que tem pelo fato de alguém ter mais ou melhor. A inveja, na realidade, é uma forma de vício, em parte moral, em parte intelectual, que consiste em não ver as coisas em si mesmas, mas somente em relação com outras. (…) Quem deseja a glória, poderá invejar Napoleão. Mas Napoleão invejou César. César invejava Alexandre e Alexandre, provavelmente, invejava Hércules, que nunca existiu. Não se pode, por conseguinte, combater a inveja só por meio da conquista da glória, pois haverá sempre, na história ou na lenda, algum personagem cujos feitos tenham sido mais gloriosos. Pode-se combatê-la, sim, pelo gozo dos prazeres que se nos oferecem, pelo trabalho que tivermos de realizar e evitando comparações com aqueles que imaginamos, talvez sem razão, mais ditosos do que nós.” (2001, p. 84)

A melhor forma de se fazer isso é o usufruto íntimo e discreto do que se tem à disposição, e não do que se teria. É saber gozar em nossa própria simplicidade e intimidade, em um possível mundo não somente feito e construído como uma vitrine. Explico melhor: é olhar menos para a vida ou o sucesso dos outros. É poder habitar um mundo menos permeado por inveja. Um mundo onde a privacidade seja um elemento chave para o desenvolvimento pessoal e o prazer. A sugestão é de Sade: o quarto (a alcova) é o espaço privilegiado para o crime. É na privacidade que a possibilidade de prazer e gozo pode ser diversa e rica.

A gratidão, neste sentido, é as vezes até meio anti-social. Por que é o prazer pelo que é simples e somente nosso. Somente nosso porque ninguém mais dá valor. Ou melhor, ninguém mais sabe o valor que aquilo tem. Não é somente uma virtude da memória, mas também da intimidade.

Quanto mais privacidade, mais há excentricidade produtiva e menos excentricidade reativa. É poder ser diferente simplesmente pelo gozo que a diferença possibilita, sem rebeldia, satisfação ou provocação a ninguém. É o prazer afirmado em segredo, em usufruto íntimo.

A intimidade, curtir nosso cantinho, sem olhar para os lados, é um caminho suave de felicidade. É tocar nosso barquinho num ponto isolado e esquecido do oceano e poder, de preferência, compartilhar isso com alguém, ou seja: amando. Gratidão, mas gratidão compartilhada, como tudo o que é do amor. Poder dividir esta alegria a mais, que é a gratidão, é o próprio ato de agradecer. E isto também é uma das formas do amor. Para Comte-Sponville:

“A gratidão é dom, a gratidão é partilha, a gratidão é amor: é uma alegria que acompanha a idéia de sua causa, como diria Spinoza, quando essa causa é a generosidade do outro, ou sua coragem, ou seu amor. Alegria retribuída: amor retribuído.” (2000, p. 147)

Sendo que até aqui somente falei de um tipo de gratidão: a gratidão para com a vida. A gratidão para com os outros seria o segundo tipo.

O segundo caso diz respeito mais precisamente ao reconhecimento de que não somos sujeitos absolutos de nossa própria condição. Ser grato é reconhecer que outras pessoas também participaram na produção de nossa aventurança. Trata-se de uma certa humildade que obriga a reconhecer o outro como parte de nossa alegria. É poder dedicar, compartilhar a graça recebida. Reconhecer o que nos foi dado. Ainda, segundo Comte-Sponville:

“Agradecer é dar; ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é a nossa. Essa felicidade é a nossa. O egoísta pode regozijar-se em receber. Mas seu regozijo é seu bem, que ele guarda só para si. Ou, se o mostra, é mais para fazer invejosos do que felizes: ele exibe seu prazer, mas é o prazer dele. Já esqueceu que outros têm algo a ver com isso. Que importância têm os outros? Por isso o egoísta é ingrato: não porque não goste de receber, mas porque não gosta de reconhecer o que deve a outrem, e a gratidão é esse reconhecimento, porque não gosta de retribuir, e a gratidão, de fato, retribui com o agradecimento, porque não gosta de partilhar, porque não gosta de dar. (…) O egoísta é incapaz disso, pois só conhece suas próprias satisfações, sua própria felicidade, pelas quais zela como um avaro por seu cofre. A ingratidão não é incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuir – sob a forma de alegria, sob a forma de amor – um pouco da alegria recebida ou sentida.” (2000, p.146)

E um erro muito comum, neste caso, é esperar gratidão. É fazer algo pelo outro já, de antemão, esperando que no futuro haja reconhecimento. Fazer, de graça, por amor, esperando gratidão ou retribuição, é tolice. Neste sentido, deve-se fazer sem esperar nada em troca. Isto simplesmente porque a gratidão do outro não depende de nós.

Por outro lado, sentir-se grato, às raias de um sentimento constante de dívida impagável, também pode não ser muito saudável. A gratidão é sempre boa na medida da alegria que a acompanha. E a angústia de uma dívida constante carece de alegria. Já vi casos em que a gratidão mais expressava sofrimento do que alegria. A pessoa se sentia, na verdade, mais devedora do que grata. Embora se expressasse sempre com a palavra “gratidão”. Sim, quando somos gratos, podemos assim dizer: “devo muito a você, a fulano ou sicrano”, porém, em muitos casos, não é possível que todos sejam “pagos”, que todas estas dívidas sejam saldados. Não é o caso de pagar, mas de comemorar juntos a alegria da graça obtida.

Há graças ou “dívidas” que são, por definição, impagáveis. A dívida que temos para com nossos pais, por exemplo. Principalmente se a graça é considerada grande e o papel deles fundamental. Ou se os sacrifícios dos pais, como muito comumente ocorre, foram notáveis. Entretanto, se eles amam os filhos, basta a ar da graça destes. Não tem preço e não se paga.

Porém, já vi filhos que carregavam culpa, como se quisessem pagar. Foi o caso de um amigo. Carregava um pesado e martirizante sentimento de dívida para com os pais. Eu também tenho um sentimento de dívida. Mas sinto que a minha felicidade é a melhor forma de retribui-los. Neste caso o “calote” é mais saudável. Empreendimento para saldar uma dívida impossível é suicídio. E é este mesmo, em muitas situações, o destino de muitos eternos culpados e obtusamente gratos: enterram-se em culpas eternas em relação ao que “devem” ou “deveriam” aos pais.

Como bem finaliza Comte-Sponville, a gratidão “se rejubila com o que deve”.

Referências

Comte-Sponville, A. (2000). Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes.

Comte-Sponville, A. (2004). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.

Russell, B. (2001). A conquista da felicidade. Lisboa: Guimarães Editores.

Comments are closed.