O corpo na psicologia!

Sabemos que o corpo é o primeiro lugar onde experimentamos tudo. Ao sermos gerados pelo ventre materno, nosso corpo entra em contato com o sagrado, com a vida. Ao nascermos, saímos desse lugar privilegiado e entramos em contato com o mundo. Nós vamos crescendo e cada emoção, pensamento, estímulos ambientais, e outras demais experiências humanas atravessam o nosso corpo.

O corpo antigamente era visto como algo sagrado, que fazia parte da demanda especial da natureza, ele era visto como algo formado de energias, elementos, era a moradia dos deuses, mas com o passar das épocas o corpo foi sendo esquecido, até que há pouco tempo o corpo renasce e ganha novos olhares. Através de René Descartes o corpo passou a ser visto como uma máquina que servia à mente, e esse olhar falho influenciou a ciência e a forma de contato com o corpo das novas sociedades, e esse olhar foi se estendendo até o momento de hoje. Depois das revoluções científicas o homem tem se perdido cada vez mais do si-mesmo, parece ter se esquecido quem ele é e negado cada vez mais suas raízes, distorcendo sentimentos, emoções e afetos.

O que antes se dramatizava por um lugar sagrado, o corpo, acabou sendo mostrado como algo sem importância. Atualmente as pessoas têm usado cada vez mais seus corpos como máquinas vazias e desprovido de emoções e de vida. O nosso corpo paga por isso, ele exige atenção. Pois, experienciamos tudo através dele, e assim nos constituímos e nos construímos como seres humanos. Em pleno século XXI, as pessoas ganharam em inteligência racional e perderam em questões emocionais, deixando de lado a experiência do corpo como um ser que sente e sofre. Mas o corpo não fica parado, ele gera doenças como símbolo de processos psicológicos profundos e inconscientes, isso para tentar avisar que ele quer ser ouvido. Percebendo isto, cientistas começaram a voltar os olhares ao corpo que era sofrido e mal amado. Entre eles se destacam Wilhelm Reich e Carl Gustav Jung, embora existam outros pensadores e pesquisadores do assunto.

Reich trouxe a proposta de que o corpo é parte essencial da formação e vivência humana, não como máquina, mas como algo energeticamente pulsante, algo vivo. Para ele o corpo é o próprio inconsciente, percebendo isso ele pode ver que as defesas do inconsciente se dão também nas manifestações físicas que desenvolvemos ao longo da vida, para estas defesas ele deu o nome de couraças, elas são as defesas neurofisiológicas naturais, formadas através dos bloqueios energéticos do corpo que ocorrem através das falhas nas fases do desenvolvimento infantil mal vivenciadas. Essas fases para a psicanálise são os estágios psicossexuais, que são basicamente locais do corpo onde concentram-se a energia psíquica em determinados estágios da vida infantil. Esses núcleos energéticos são a base que possibilita o auto-erotismo (o prazer estimulado por nós mesmos através de certas zonas erógenas do corpo), e ainda são locais de possíveis bloqueios energéticos contra os perigos da vida como defesa psíquica a criança gera uma fixação em uma das fases. Para Freud todos nós passamos por esses estágios associados às zonas erógenas e eles são oral, anal, fálico, de latência e o genital.

A fase oral – A boca, a língua e os lábios são as principais fontes de prazer, e de conhecimento do mundo da criança, pode-se reparar isso ao observar um bebê que leva tudo à boca, morde, suga, essas são as necessidades básicas da vida nesse período. Se as necessidades forem satisfeitas a pessoa pode vir a ser um bom cantor, uma pessoa de boa fala e expressão. Se não for bem resolvida a pessoa pode desenvolver verborréia, alcoolismo, entre outros.
A fase anal – O ânus é a principal fonte de prazer, nessa época a criança esta aprendendo a controlar as fezes e urina, sendo assim sua atenção se centra no funcionamento anal. Nesse período as fezes representam o que ela produz, é algo que ela própria faz e passa a ser o que oferece ao mundo, é algo de muita importância na percepção infantil.
O controle dos esfíncteres se bem passado possibilita ao individuo ter controle sobre a vida material, ser justo, controlado emocionalmente. Caso essa etapa psicossexual seja mal vivenciada a pessoa pode vir a desenvolver certos comportamentos como, prisão de ventre, avareza, excesso de preocupação com limpeza e organização, incontinência urinária, entre outros.
A fase fálica – Os órgãos genitais são a principal fonte de prazer, esse momento recebeu o nome de fálica porque o pênis é o principal objeto de desejo infantil em ambos os sexos. A palavra fálica vem de falo e significa pênis. O falo em si é algo imaginário, representa o poder. Nessa época a criança fica curiosa sobre o relacionamento entre a mãe e o pai, tem a vontade de saber como nascemos, quer entender o que acontece entre seu pai e sua mãe quando ela não está presente, e ainda tem a curiosidade em ver o órgão genital dos amigos.
A fase de latência – Após essas 3 fases a criança interrompe o seu desenvolvimento psicossexual, pois, nesse período é o momento onde ganhamos barreiras psíquicas que impedem a manifestação da libido (energia psíquica que emana das pulsões sexuais), essas defesas se mostrariam como moralidade, repugnância e vergonha. Assim a criança poderá se dirigir para o mundo exterior, pois, sua energia psicológica é projetada para fora. Nesse momento a criança vivencia os aspectos sociais e culturais conhecendo possíveis papeis de atuação pessoal, descobrindo suas habilidades tais como leitura, escrita, entre outros. É uma época onde meninos e meninas se separam.
A fase genital – É o início da vida adulta, é marcada pela mudança na orientação do desejo sexual, porque agora o desejo não está mais em nós, mas sim no outro. Para a psicanálise é a fase em que nós começamos a projetar nos outros o amor próprio.
Através das formulações de Freud, foi possível para Reich entender os processos de movimentação e paralisação da libido no corpo. Essas defesas psíquicas propostas por Reich são, em resumo, as defesas musculares de nosso corpo, utilizadas de acordo com as necessidades de sobrevivência. Através desta descoberta ele pode ver que existem agrupamentos centrais desses conjuntos de defesas psicológicas que se organizam em função das fases psicossexuais, e os bloqueios dela por sua vez determinariam a tipologia do corpo, as emoções conscientes, os comportamentos, o funcionamento psicológico e energético do corpo. Para este conjunto de achados clínicos ele deu o nome de caráter, que seria essa junção de várias características de defesa do organismo. Já Jung pensou um pouco diferente, pois, ele não partilhava dos mesmos conceitos teóricos. Para ele a energia psíquica não era apenas sexual, a energia sexual era apenas mais uma das diversas energias psicológicas.

Daí temos uma grande diferença. Jung dizia que o corpo expressa os conteúdos inconscientes, e os conteúdos inconscientes são formados pelos arquétipos. Eles (os arquétipos) são as bases da organização psicológica da psique humana, e atraem os conteúdos energéticos tais como imagens, emoções, idéias que giram em torno do mesmo elemento básico. Mas os arquétipos são os conteúdos mais profundos da nossa psique, e estes não podem ser expressados completamente, pois são muito complexos. Eles sempre serão representados por imagens arquetípicas. Essa manifestação se dá nos mitos criados pela humanidade. Em resumo podemos dizer que, Jung acreditava que o corpo expressava essas imagens do inconsciente coletivo. Partindo do princípio de que o corpo é algo que expressa os padrões de vida e a experiência humana, fica claro o papel da “psicologia do corpo”, que é (re)integrar o corpo e a mente como uma unidade de funcionamento emocional unificada da pessoa, retirando os desequilíbrios e harmonizando o tônus muscular, a pele, a postura e rigidez. Trazendo para o indivíduo a possibilidade de obter uma nova perspectiva de vida.

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