Psicologia e Análise do Comportamento Aplicada ao Trânsito: um pouco mais sobre controle de estímulos e repertório comportamental para atuar sobre eles!

A psicologia, classificada e conhecida como ciência preocupada com o comportamento humano (em sua totalidade), com o homem e suas relações, fornece enquanto maneira / possibilidade de interpretar estes fenômenos, diversas abordagens psicológicas oriundas de diferentes filosofias, dentre as quais está disponível a análise do comportamento humano, abordagem de investigação conceitual, empírica e aplicada do comportamento, mais precisamente, a ciência do comportamento, cujo a raiz filosófica está vinculada ao Behaviorismo Radical do americano B.F. Skinner (1953).

O conceito-chave do pensamento de Skinner, portanto, da análise do comportamento e do Behaviorismo Radical é o de comportamento operante, que ele acrescentou à noção de comportamento reflexo, formulada pelo cientista russo Ivan Pavlov. Os dois conceitos estão essencialmente ligados à fisiologia do organismo, seja animal ou humano. Enquanto o comportamento reflexo é (singelamente) uma reação eliciada por um estímulo (como por exemplo, retrair a pupila dos olhos à luz, soar ao correr em uma esteira, e assim por diante), o comportamento operante é um mecanismo fruto de modelagem, do controle de estímulos e da relação entre sujeitos e o meio a sua volta, onde uma determinada resposta de um indivíduo é modificada por suas conseqüências, até que este fique condicionado, ou seja, passe a associar futuras necessidades de ações a dadas contingências, como por exemplo, o caso do rato faminto que, na famosa experiência com a caixa de
Skinner, “percebe” que o “acionar” de uma alavanca levará ao recebimento de comida, e que, portanto, ele tenderá a repetir o movimento futuramente, cada vez que quiser saciar sua fome, ou ainda, o condutor de veículo que aprende a se comportar frente aos estímulos e contingências do trânsito.

Para Skinner (1953) e seu modelo de seleção pelas conseqüências, não só as características anatômicas e fisiológicas, mas também as comportamentais passam por sucessivos crivos de uma seleção baseada nos contatos com dos organismos vivos com o seu ambiente. Neste crivo, alguns comportamentos são eliminados, por inadequados, e outros são mantidos, por eficazes em garantir a adaptação e sobrevivência. Isso também se aplica ao trânsito, porém, tratando-se de um ambiente hostil que coloca em risco a vida dos seres – humanos, nem sempre haverá uma segunda chance para modelagem e eliminação de comportamentos indesejáveis, em um acidente fatal, por exemplo, as conseqüências inadequadas de um comportamento podem levar ao óbito.

Outro conceito chave, especialmente para compreensão do comportamento no trânsito é a discriminação de estímulos, compreendido por Bock, Furtado e Teixeira(1999) como quando uma resposta se mantém na presença de um ou mais determinado(s) estímulo(s), mas sofre certo grau de extinção na presença de outros. Isto é, um estímulo antecedente à resposta adquire a possibilidade de ser conhecido como discriminativo da situação reforçadora. Sempre que ele for apresentado e a resposta emitida, haverá reforço. Exemplo: Motorista de ônibus para no semáforo, pois o sinal está vermelho, ou seja, o semáforo vermelho se tornou um estímulo discriminativo para emissão do comportamento de "parar" ser reforçada, ou ainda, pelas palavras de Sério, Andery, Gióia, e Micheletto (2002), onde tal processo é compreendido quando envolve experiência com, pelo menos, uma classe de respostas e dois conjuntos de estímulos: aqueles que deverão assumir uma função de antecedentes para essa classe de respostas e aqueles que deverão assumir uma função de não antecedentes / deltas (ou grosseiramente “neutros”). Como resultado do procedimento de discriminação, simultânea ou sucessiva, o sujeito passa a responder diferencialmente a diferentes classes de estímulos: diante da classe de estímulos que chamamos de antecedentes o responder ocorre, diante da classe de estímulos que chamamos de Delta o responder não ocorre.

Sob os conceitos da Análise do Comportamento, a exemplo do comportamento operante e discriminação de estímulos, tentarei nesta coluna, promover algumas reflexões acerca das variáveis que afetam a relação entre estímulos x repertório comportamental x comportamento de condutores de veículos no trânsito.

Segundo informações do site público e governamental de educação no trânsito (http://www.educacaotransito.pr.gov.br), um carro numa batida a 65 Km/h fazem com que seus passageiros sofram um impacto equivalente a 820 Kg (imaginem os motoqueiros ou pedestres fora da proteção da lataria de um veículo!), o que já justifica a preocupação não apenas de engenheiros do trânsito, mas também dos profissionais das ciências humanas e sociais, como neste artigo: a psicologia (análise do comportamento).

Ao analisar o trânsito sob a vertente da análise do comportamento, tomei a liberdade de me organizar em dois itens: A) Possibilidades de Estímulos (O que deveria evocar adequados comportamentos); B) Repertório comportamental mínimo (treino e modelagem para se comportar adequadamente sobre a gama do primeiro item);

A) Possibilidade de Estímulos: 65 sinalizações de regulamentação, 88 sinalizações de advertência, MILHARES de placas de identificações divididas por regiões (orientação de destino, serviços auxiliares, educação, atrativos turísticos e afins), centenas de outdoors e propagandas, sinalizações verticais, horizontais, transversais, auxiliares, semafóricas, gestuais, visuais, sonoras, simultâneas ou singulares, sinalizando obras, desvios, obrigações, direitos, presença de pedestres, presença de veículos, presença de animais, mudanças climáticas (Sol, chuva, névoa, neblina, granizo, vento, raios, dentre outros), cores, e assim sucessivamente. A considerável presença dos itens citados, somente confirma que há anos, o homem acumulou ao arcabouço conceitual do trânsito, estímulos de diversas naturezas, justificativas e intuitos para melhor comportamento de condutores enquanto usuários de veículos em vias urbanas e rurais.

B) Repertório Comportamental Mínimo: Conhecimento sobre hidráulica, legislação, direção defensiva, logística, mecânica, primeiros socorros, equilíbrio em suas funções psíquicas, bem como a atenção (difusa, concentrada, cristalizada, discriminativa), vigilha, memória, raciocínio, motricidade, e assim por diante.

Certamente, nem todo usuário sai da escola de motorista capacitado com um repertório comportamental mínimo para “enfrentar”, discriminar ou comportar-se operantemente a gama de estímulos descritos no item A. Muitos acidentes de transito podem ser explicados por falha na relação entre estes dois itens, para ilustrar a discussão, trouxe do site governamental (http://www.educacaotransito.pr.gov.br) algumas curiosidades:

– Mais de 30 mil pessoas morrem no trânsito todos os anos. São mais de 80 pessoas por dia ou 1 a cada 18 min.

– Uma em cada 5 lesões aconteceu porque pessoas dentro do veículo bateram-se umas contra as outras.

– Corpo humano tem pouca resistência ao impacto. Um pedestre atropelado por um automóvel trafegando a 30Km/h tem 95% de chance de sobreviver; a 40Km/h tem 85%; a 50Km/h tem 55% e a 60Km/h tem 30% de chance de sobreviver.

– Para cada pessoa que morre no trânsito, duas ficam inválidas e sete ficam com seqüelas.

– Que 35% da população do país se locomove a pé, 32% utilizam o transporte público, 28% locomovem-se de carro, 3% de bicicleta e 2% utilizam a motocicleta.

São números e fatos suficientes para mostrar que o preparo comportamental não está dando conta da quantidade de estímulos presentes. Se pensarmos em educação no trânsito, certamente teremos que rever como isso tem sido implementado e conduzido por profissionais da área. Ensinar é para Skinner (1968) simplesmente o arranjo de contingências de reforçamento e não puramente o acumulo de estímulos no ambiente a mercês do adequado comportamento alheio.

Poderíamos avançar avassaladoramente ao pensar na presença do psicólogo no trânsito, em especial ao psicólogo adepto da abordagem comportamental, cujo referencial teórico abarca conceitos eficientes na prática educacional, a exemplo de avançar além da tradicional prática de prestação de serviços com testagens psicotécnicas e participar da organização de estímulos neste ambiente, da implementação de estratégias de prevenção de condutas de risco, da prática educacional de condutores de veículos, preparando adequadas contingências de reforçamento e assim por diante.

Skinner (1983) baseado em seus experimentos e fundamentação teórica do Behaviorsmo Radical já dizia: seja inato ou adquirido, o comportamento permanecerá sendo selecionado por suas conseqüências, neste sentido, negligenciar que o controle do comportamento está em maior proporção posterior à resposta de um organismo e não no seu antecedente é o mesmo que reforçar a falha na relação dos itens A x B desta coluna.

Educar pessoas para o trânsito seja dentro ou fora dos veículos, certamente não é sinônimo em termos “comportamentais” de construir estímulos desvinculados de repertórios comportamentais. O foco não é ou não deveria ser a quantidade de estímulos, mas a qualidade em sua confecção e função nos repertórios comportamentais de quem as utiliza.

Bibliografia

Bock, A.M.B., Furtado, O. e Teixeira, M.L.T. (1999). Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São Paulo: Saraiva, pg 54.

Sério, A.P., Andery, M.A., Gióia, P.S. e Micheletto, N. (2002). Controle de estímulos e comportamento operante: uma nova introdução. São Paulo: Editora Educ, pg 13.

Skinner, B.F. (1953 / 2000). Ciência e Comportamento Humano, São Paulo: Martins Fontes.

Skinner, B.F. (1968). The Tecnologyof Teaching, pg 5.

Skinner, B.F. (1983). Enjoy Old Age, Pg 155.

About Eduardo Alencar

Psicólogo comportamental do Cais/USP (2009), pós graduado em Psicologia Comportamental e cognitiva pela USP, com formação técnica em administração de empresas, extensão universitária em OBM e em Acompanhamento Terapêutico pelo Núcleo Paradigma, especializ
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