Saúde Mental: as influencias do trabalho no entendimento do comportamento do indivíduo

Resumo

Este artigo visa a problematizar questões acerca da psicologia do trabalho, discutindo as práticas profissionais do fazer do psicólogo, associando o prazer e o sofrimento dentro do contexto do trabalho e em seu cotidiano, mostrando concepções teóricas que embasam a psicologia do trabalho. Trata-se também de um estudo sobre as possibilidades das psicopatologias do trabalho, como as LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos / Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho), analisando os fatores etiológicos envolvidos e os modelos explicativos vigentes, discute-se também a proposta de uma abordagem integradora de fatores biopsicossociais envolvidos na gênese e evolução das LER/DORT. Mostraremos também a grande necessidade de profissionais psicólogos estarem desenvolvendo ações ligadas à saúde mental de trabalhadores, isso sugere que sejam psicólogos com estilo dinâmico de trabalho, que revele certo "apaixonamento" pelo mesmo, acreditem na sua atuação e apreciem suas atividades ligadas ao desenvolvimento de pessoas nas organizações de trabalho.

Palavras-Chave: Psicologia do trabalho; psicopatologia do trabalho; saúde mental.

Introdução

Atualmente, observa-se uma pressão constante contra a grande massa de trabalhadores existente em quase todo o mundo. Uma ameaça com objetivo certeiro faz com que milhares de pessoas sintam-se sobressaltadas, pois a única ferramenta de que dispõem sua força de trabalho, pode ser dispensada a qualquer momento. O desprezo assola o universo do trabalho e traz conseqüências drásticas para todos os que têm em seu trabalho sua única forma de sobrevivência. Contudo, a força de trabalho exigida precisa de especial qualificação, mesmo que seja, como antigamente, para apertar um simples botão. Assim, para a maior parte das atividades, exige-se um trabalhador complexo, que saiba muito mais além do que seria preciso para a execução de determinada tarefa.

O presente artigo tem como objetivo, mediante algumas avaliações teóricas esclarecer o entendimento da psicologia do trabalho, discutindo a forma como o trabalho está organizado em nossa sociedade, bem como as repercussões psíquicas provocadas pelo trabalho sem sentido. As condições e as exigências do mercado de trabalho na atualidade rotiminizam e amortecem o sentido da vida, potencializando as possibilidades de um significativo aumento nos problemas psicopatológicos como LER/DORt influenciados pelo trabalho que vêem deixando no corpo as marcas do sofrimento, que se manifestam nas mais variadas doenças classificadas como ocupacionais, além de atentar contra a saúde mental, pois o trabalho ainda com suas peculiaridades pode sim ser o principal agente que funciona como promoção de saúde do individuo. Não é raro encontrar pessoas que, por uma condição de sua psicodinâmica interna, possuem a propensão a trabalhar em excesso e a divertir-se muito pouco; outras, pelo contrário, passam os dias a divertirem-se; outras ainda não conseguem fazer nem uma coisa nem outra. Sabe-se hoje que tanto o trabalho, quanto a diversão em proporções satisfatórias são critérios para avaliar um funcionamento psíquico saudável. Assim, o mundo do trabalho pode auxiliar o homem em sua qualidade de vida, por outro lado patrocinado pelos que mantêm o controle do capital, da ferramenta diária que movimenta a escolha de prioridades, avassala o homem em todos os seus aspectos. Alguns são absorvidos, exigidos, sugados. Esse princípio de realidade adentra e fere o psiquismo humano, fazendo com que as pessoas sintam-se exigidas; o sentimento de impotência e de desvalorização, que leva as pessoas pouco resistentes a degenerar-se rapidamente.

O entendimento da psicologia do trabalho

Segundo Jacques (1999), que nos trás diversas contribuições acerca da Psicologia geral dizendo que se consolida nos objetivos de prever, controlar e manipular o comportamento humano. Para esta autora, é com esse objetivo que é chamada a contribuir no ambiente industrial, ganhando um significativo destaque no início do século XX.McCormick e Tiffin (1977) afirmam que os primeiros psicólogos que começaram a trabalhar em empresas, estavam particularmente interessados nos problemas da seleção de pessoal, mas os seus interesses também incluíam temas como publicidade e vendas, acidentes e avaliação de desempenho de funcionários. Não podemos deixar de relacionar o início do século XX com o advento das idéias conhecidas como tayloristas. Nesse contexto, os psicólogos foram chamados a colaborar com o intuito de encontrar as melhores pessoas para cada posto de trabalho, em especial, através do desenvolvimento dos testes psicológicos. Nesse sentido, os autores trabalham, em seu livro Psicologia Industrial, temas que destacam como os de maior contribuição da Psicologia ao trabalho: seleção e avaliação de pessoal, o contexto social e organizacional do trabalho, o cargo e a situação de trabalho, erro humano e acidentes, aspectos psicológicos do comportamento do consumidor, tudo isso somente veio a contribuir com a ampliação das possibilidades de atuação do psicólogo.Segundo Antunes (2001), aqui no Brasil as primeiras experiências sistemáticas de aplicação da Psicologia às questões do trabalho se deram na década de 20 do século XX, logo após o efeito cascata da bolsa de valores dos USA. Foram aí lançadas as bases para o desenvolvimento desse campo de atuação, cuja aceleração se deu principalmente a partir dos anos 30.

As aplicações de testes no Brasil, com o objetivo de selecionar pessoas para ofertas de emprego, se expandiram rapidamente, em especial nas empresas ferroviárias, o que mais tarde também se estenderiam para as empresas dos distritos industriais.É importante compreender esse desenvolvimento da Psicologia implica não somente a compreensão das vicissitudes dessa ciência, mas também as condições históricas em que isso se tornou possível. Assim, Antunes (2001) destaca que a Psicologia, no Brasil, se inseriu num panorama de preocupação com a maximização da produção, vindo para contribuir com conhecimentos e técnicas necessários à racionalização do trabalho e à "administração científica".Segundo Zanelli (2002), foi por volta de 1934, que a qualificação de profissionais preparados como especialistas em Psicologia aplicada, no Brasil, começou com a formação de psicotécnicos. Psicotécnico era o nome atribuído ao profissional que aplicava os conhecimentos da psicologia ao trabalho, porém, a psicologia aplicada nasceu da idéia de separação entre a construção experimental e a base conceitual. O caminho era de apenas uma via: do campo teórico para sua operacionalização num mundo que precisava ser organizado e melhorado. Segundo o autor, o determinismo da eficiência técnica ou da organização vista como máquina se combinou para produzir um campo fértil de expansão não-problemática.          

Deve-se levar em conta também que o reconhecimento, por Decreto-Lei, da Psicologia enquanto profissão coincidiu com o grande desenvolvimento do parque industrial brasileiro, denotando a exigência de profissionais aptos a trabalhar de forma adequada com os recursos humanos disponíveis.  

Segundo Freiras (2002), a partir da regulamentação, pode-se notar a separação de status para os objetos de estudos da Psicologia clínica e da Psicologia no contexto do trabalho. A primeira direcionaria seus estudos à elite, tendo como foco um campo individualizado e como objetivo "libertar" o indivíduo. Já a segunda teria a classe operária como seu objeto de estudo e, ao invés da idéia de liberdade às pessoas, trazia em si a marca da normatização e ajustamento. Desde, de seu surgimento, essa vertente da Psicologia esteve situada mais próximo da empresa do que do universo acadêmico. Tal fato contribui para explicar as dificuldades de formação de identidade, legitimação e reconhecimento que parecem acompanhar o psicólogo nas organizações até hoje.    Jacques (1999) afirma encontrar principalmente três perspectivas: Psicologia organizacional, Psicologia institucional e Psicologia do trabalho. Elas possuem diferentes filiações epistemológicas, teóricas, metodológicas e temáticas. Mesmo assim, a autora ressalta que podem coexistir em alguns espaços geográficos e darem sua contribuição. Em psicologia organizacional Jacques (1999) aponta como a mais identificada com as tarefas de recrutamento e seleção de pessoal, treinamento, avaliação de desempenho e outras rotinas típicas de uma área de recursos humanos.Bergamini (1982), diz que ela inclui uma série de práticas e conceitos com o objetivo de auxiliar as lideranças da empresa a compreender e lidar com o fator humano.

A Psicologia organizacional compreende os estudos sobre tomada de decisão, motivação, clima organizacional, liderança, comunicação interpessoal, desenvolvimento de recursos humanos, entre outros.Sampaio, (apud Freiras 2002), observa que o surgimento da Psicologia organizacional não se dá a partir de uma ruptura com a industrial, mas representa uma ampliação da mesma. Para o autor, é mantida a lógica da preocupação com a produtividade das empresas. Zanelli (2002) afirma que a Psicologia organizacional é uma área que se insere no campo relativo ao trabalho e possui vínculo com as tarefas administrativas de uma empresa. Para o autor, suas metas podem extrapolar a visão tradicional de ajustamento dos indivíduos ao trabalho e a busca de eficiência máxima.Trata-se de priorizar o desenvolvimento da pessoa, por meio de mudanças planejadas e participativas, nas quais o homem possa adquirir maior controle de seu ambiente. O crescimento individual a que se pretende deve conduzi-lo a apreender sua inserção nas relações do grupo com a estrutura organizativa e com a sociedade. O autor salienta que, face ao crescimento do mercado e das demandas de consumo, é uma realidade a necessidade de aumento da produtividade, mas que isso pode ser pensado em conjunto com as necessidades ecológicas e de qualidade de vida. Zanelli (2002, p.35)Guirado (1986) ressalta que o nome Psicologia institucional inclui uma variedade de formas de atuação, e não está, portanto, apenas restrita ao trabalho, mas pode também ser apropriada em tais espaços. Essas formas estão, além de apenas incluir a intervenção, em uma instituição (escola, hospital, empresa, comunidade, etc.); possui em comum a ênfase à instituição como um todo ao considerá-la objeto de intervenção. Além disso, para a Psicologia institucional, os sujeitos são percebidos como constituídos e constitutivos das relações institucionais. Essa concepção privilegia a posição do sujeito na estrutura, e não suas capacidades individuais.

Assim, os conflitos são considerados expressões dessa articulação de posições e não sintoma de um indivíduo que está na instituição.Bleger (1984), psicanalista argentino, é um dos autores que se destaca nessa corrente com sua abordagem da psico-higiene e Psicologia institucional. Para o autor, o psicólogo deve atuar na promoção de saúde (psico-higiene) e, para isso, deve passar do enfoque individual ao social. Seu objetivo deve ser o de conseguir a melhor organização e as condições que tendem a promover a saúde dos integrantes da instituição através de uma intervenção sobretudo inter-grupal. Ele destaca que o psicólogo não deve ser o profissional da alienação, submissão ou desumanização. O ser humano, sua saúde e sua integração constituem seu objetivo de trabalho.Em Dejours e Abdoucheli (1994) destacam que a intersubjetividade aparece no centro do trabalho, e que este é determinado pelas relações sociais que ocorrem. O trabalhador nunca poderá ser considerado um indivíduo isolado, pois está em relação com pares, hierarquia e subordinados. Apesar de a organização do trabalho ser basicamente técnica, ela passa por uma integração humana que a modifica e que lhe dará sua forma concreta. Para fins deste estudo, sobre saúde mental, tomamos a referência de Dejours, Dessors e Desriaux (1993, p. 101).a saúde mental não é, seguramente, a ausência de angústia, nem o conforto constante e uniforme.

A saúde é a existência da esperança, das metas, dos objetivos que podem ser elaborados. É quando há o desejo. O que faz as pessoas viverem é o desejo, e não só as satisfações. O verdadeiro perigo é quando o desejo não é mais possível Dejours, C.; Abdoucheli, E., (1994), para esses autores, o trabalhador não é passivo diante das pressões organizacionais. O sujeito pensa sua relação com o trabalho, produz interpretações acerca de sua situação e as socializa através de atos intersubjetivos, reage, se organiza e age sobre o próprio processo de trabalho e traz uma contribuição à construção e evolução das relações sociais no trabalho. O trabalho é um operador fundamental na própria construção do sujeito. Ele é um mediador privilegiado entre o inconsciente e o campo social e entre a ordem singular e a ordem coletiva e para a construção da saúde mental

Problemas psicopatológicos como LER/DOR influenciados pelo trabalho           

Dejours (2000) vem afirmado que as mais recentes pesquisas feitas acerca de psicopatologias do trabalho têm apontado para duas condições; a primeira é que em certas circunstâncias o trabalho é um operador de saúde e prazer; a segunda é que em outras ocasiões o trabalho age como gerador de doenças.  Ballone (2002) afirma que a forma como o indivíduo percebe os fatos depende grandemente de seu psiquismo, de seu ego, do sistema de valores que cada um tem em si e, até mesmo, da sua hereditariedade. Acontecimentos felizes podem produzir estresse, embora, com maior freqüência, este ocorra diante de eventos mais negativos, dolorosos e desagradáveis da vida pessoal, afetiva, social e trabalhista. Assim, uma mesma situação pode ser percebida de modo totalmente diferente entre dois indivíduos e significar Fator Estressante para um e não para outro. Um deles poderá perceber uma determinada situação como um desafio excitante, enquanto o outro pode percebê-la como ameaça à vida. Dejours e Abdouchely (1994) apresentam diversas conseqüências manifestadas nos indivíduos ansiosos e estressados. Essas conseqüências emergem sob a forma de qualquer tipo de doença psicossomática. Além disso, do ponto de vista emocional o estresse está intimamente relacionado à Depressão, à Síndrome do Pânico, aos Transtornos da Ansiedade e às Fobias, além de uma vasta lista de sintomas que acompanham o indivíduo estressado. Para os autores, a Síndrome do Pânico é um quadro caracterizado por crises ou ataques recorrentes de pânico e normalmente indicam a existência de motivos intrapsíquicos importantes geradores de grande ansiedade. Os ataques de pânico se caracterizam por crises de medo agudo e intenso, extremo desconforto e sintomas vegetativos.

De um modo mais específico, esse quadro de “agorafobia” manifesta-se também no ambiente de trabalho produzindo uma grave sensação de insegurança e temor.  Porém vale ressaltar um dos principais problemas que também podem influenciar no bom funcionamento psicológico dos indivíduos que são as lesões por esforços repetitivos (LER) ou distúrbios osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT) são um conjunto de doenças que afetam músculos, tendões, nervos e vasos dos membros superiores (dedos, mãos, punhos, antebraços, braços, ombro, pescoço e coluna vertebral) e inferiores (joelho e tornozelo, principalmente) e que têm relação direta com as exigências das tarefas, ambientes físicos e com a organização do trabalho. Verthein & Minayo-Gomes (2000) reportam discordâncias referentes à caracterização desses distúrbios. Vários são os termos utilizados, dependendo do aspecto clínico que se quer enfatizar e do modelo que sequer adotar para lidar com o problema. Ramazzini, (1992) descrevem o sofrimento físico e mental dos escribas e notários acometidos por esses distúrbios.

Nas últimas décadas, com as transformações no processo de produção, a reestruturação produtiva (automação do processo de produção), as elevadas exigências de produção, a competitividade exacerbada, as mudanças na gestão do trabalho e as novas políticas de gestão de pessoal, o que antes se restringia aos artesãos, escribas e digitadores, se estende a diversas categorias profissionais.  Para Dwyer (2000), vivemos a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial, onde se trabalha cada vez menos com a matéria prima e cada vez mais com a informação e o processamento de dados. Em decorrência desses fatores, alguns países, como o Japão, Austrália, Canadá, Estados Unidos da América e o Brasil, enfrentam uma alta incidência desses distúrbios, assumindo um caráter epidêmico. Sato et al. (1993) argumenta que os traumas psicológicos, a culpa e a baixa auto-estima são conseqüências desta doença e não pilares de uma personalidade naturalmente predisposta a adoecer.  Estudos realizados por Araújo et al. (1998) constatam que aspectos relativos à personalidade, tais como perfeccionismo, elevado senso de responsabilidade, busca excessiva de reconhecimento (aumentando a produção e acelerando o ritmo de trabalho), submissão às exigências de produção e de qualidade, podem contribuir para o desenvolvimento desses distúrbios. Todavia, estes fatores isolados não geram a doença, o que reafirma a necessidade de integrá-los aos demais aspectos determinantes das LER/DORT.

A perspectiva sociologizante diz respeito aos trabalhos que atribuem aos contextos socioeconômico e cultural um papel preponderante na determinação da gênese das LER/DORT. Nesta visão destacam-se, principalmente, duas correntes de pesquisa, os discursos da iatrogênese social e da simulação. Martin & Bammer, (1997). Nessas abordagens afirma-se que as LER/DORT são, na verdade, simulações, que se caracterizam, na maior parte das vezes, como artifícios utilizados pelos empregados no conflito social com seus patrões, no contexto do trabalho, tendo em vista benefícios relacionados ao salário, autonomia, ritmo de produção etc.  Segundo Verthein & Minayo-Gomes, (2000), a dor não segue curso linear e não tem estágios definidos. Ela depende de interações entre a percepção do sintoma, suas interpretações, expressão e os comportamentos de defesa. Neste contexto os “fatores culturais e sociais devem ser considerados. A sensação dolorosa é acompanhada de reações cognitivas e emocionais, podendo explicar o comportamento do indivíduo”. Na evolução do quadro clínico, em relação ao estabelecimento da sintomatologia, com base no desenvolvimento da dor e da capacidade funcional do paciente, pode-se estabelecer graus que variam do I ao IV. O nível I corresponderia a uma sensação de peso e desconforto do membro afetado, com caráter ocasional, enquanto o nível IV corresponderia a uma dor forte e um sofrimento intenso, com manifestação de edema persistente e aparente deformidade. Para Assunção & Almeida, (2003) o tratamento ideal é considerado como resultante da colaboração de diversos profissionais (psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, enfermeiros, acupunturistas, assistentes sociais, médicos e ergonomistas), ou seja, de uma equipe multidisciplinar, que deve responsabilizar-se pela avaliação de cada um dos casos atendidos e pela definição de um procedimento terapêutico individualizado correspondente. 

Merlo et al., (2001), esta equipe deve orientar e informar o paciente acerca de sua condição e contexto, visando uma participação ativa deste no processo de recuperação; propiciar emancipação e autonomia do paciente em relação ao tratamento adequado a sua sintomatologia; discutir as repercussões das LER/DORT no seu cotidiano familiar e social; possibilitar a ressignificação da doença, seus determinantes e suas conseqüências, diminuindo a ansiedade, angústia e depressão do cotidiano; aumentar gradativamente a capacidade laboral e possibilitar o seu retorno ao trabalho. As atividades a serem desenvolvidas e que englobariam esses objetivos, incluem a terapia corporal, fisioterapia, acupuntura, grupos de informação e aconselhamento, grupos terapêuticos, tratamento medicamentoso etc.  

O trabalho como promoção de saúde

Grisci e Lazzarotto (1998) vêm dizendo que por longo tempo, a Psicologia não se preocupou com a relação entre saúde e trabalho, como se isso fosse um objeto alheio a ela. Seu enfoque era dado à maximização da produção e à qualidade dos produtos em detrimento do interesse pelo trabalho e pela fala dos trabalhadores. Nardi, (1997), diz que os estudos sobre saúde do trabalhador incluem diferentes disciplinas, como Medicina, Sociologia, epidemiologia, Engenharia, Psicologia, etc, que, aliadas ao saber do trabalhador sobre seu ambiente de trabalho e suas vivências das situações de desgaste e reprodução, estabelecem uma nova forma de compreensão das relações entre saúde e trabalho, o que no momento presente se faz muito importante não só apenas para o trabalhador como também para as empresas que os contrata.Jacques, (1999), avalia a Psicologia do trabalho, a partir da aproximação com a Psicologia social crítica, trazendo então a possibilidade de novos significados para a atuação, como, por exemplo, o olhar sobre a saúde dos trabalhadores, o que nos remete também a saúde das empresas. Tittoni (1997), dentro da saúde do trabalhador, relaciona os estudos sobre saúde mental e trabalho como a contribuição da Psicologia para aquele campo. A noção de saúde mental e trabalho pode ser definida como a inter-relação entre os processos saúde-doença, cuja dinâmica se inscreve nos fenômenos mentais, mesmo que a natureza seja social.

A própria noção de "identidade de trabalhador" é percebida como traço que sustenta outros elementos da identidade psicológica. Tittoni (1994) nos traz significativas contribuições para uma compreensão mais ampla acerca da análise de como esses trabalhadores vivenciam sua atividade, suas relações pessoais e hierárquicas, o ambiente de trabalho e outros elementos que compõem o cotidiano do trabalho. As vivências procuram expressar a forma como os trabalhadores percebem as experiências concretas do mundo do trabalho, considerando a especificidade que o constitui.Nardi, Tittoni e Bernardes (1997) contribuem com esse ponto de vista asseverando que o campo da subjetividade e trabalho redimensiona duas formas clássicas de análise: uma que prioriza as determinações macrossociais sobre a ação dos trabalhadores; outra, de cunho psicológico, individualizante. Fonseca (apud Nardi, Tittoni e Bernardes, 1997) fala em "modos de subjetivação", representando a forma como o sujeito se relaciona com a regra com a qual se vê obrigado a cumprir e também a forma como se reconhece ligado a essa obrigação. Encontramos ainda a seguinte contribuição em Nardi, Tittoni e Bernardes (1997, p.241).

O campo da subjetividade e trabalho constrói-se no tensionamento entre dicotomias indivíduo-coletivo e objetivo-subjetivo, buscando ampliar análises sociais que enfatizam as determinações sociohistóricas para a dimensão da cultura e da ética, por exemplo. O autor parte do princípio de que o modo de organização do trabalho pode interferir no funcionamento psíquico. Por exemplo, a divisão de tarefas e o modo operatório trazem desinteresse às pessoas. O sofrimento psíquico é objeto de estudo da psicopatologia do trabalho. O sofrimento implica um estado de luta do sujeito contra as forças que o empurram em direção à doença mental. O trabalho, então, funciona, nesse caso, como um mediador de saúde. Gui (2002) investiga, a partir do referencial de Dejours, as fontes de sofrimento e prazer em profissionais de recursos humanos de uma empresa pública no País. Esses se caracterizam por lidarem com questões críticas relativas ao bem-estar das pessoas no trabalho. Eles vivenciam problemas específicos de sua posição na empresa, tais como conflitos entre seus valores pessoais e os da organização, e os medos e ansiedades originados por um pensar que pode ir a sentido contrário às concepções da empresa. Agregam-se a esses embates as decisões que precisam ser tomadas e implementadas e que afetam a vida de outros, ainda, que tais profissionais reconhecem sua responsabilidade em lidar com o humano na empresa e vivenciam certo sofrimento ligado à impotência desse papel.

Dejours (1993) afirma que executar uma tarefa sem envolvimento material ou afetivo exige esforço de vontade que em outras circunstâncias é suportado pelo jogo da motivação e do desejo. A vivência depressiva em relação ao trabalho e a si mesmo alimenta-se da sensação de adormecimento intelectual, de esclerose mental, de paralisia da fantasia e da imaginação; na verdade, marca de alguma forma o triunfo do condicionamento em relação ao comportamento produtivo e criativo. Para esse pensador, no que diz respeito à relação do homem com o conteúdo significativo do trabalho, é possível considerar, esquematicamente, dois componentes: o conteúdo significativo em relação ao sujeito, e o conteúdo, significativo podem-se assim dizer, em relação ao objeto. Quando o progresso e o avanço dessa relação são bloqueados por algum motivo ou circunstância, observa-se a incidência do sofrimento. Todavia, quando as ações no trabalho são criativas, possibilitam a modificação do sofrimento, contribuindo para uma estruturação positiva da identidade, aumentando a resistência da pessoa às várias formas de desequilíbrios psíquicos e corporais. Dessa forma, o trabalho pode ser o mediador entre a saúde e a doença e o sofrimento, criador ou patogênico. Dejours (1994) distingue dois tipos de sofrimento: o sofrimento criador e o sofrimento patogênico. Este último surge quando todas as possibilidades de transformação, aperfeiçoamento e gestão da forma de organizar o trabalho já foram tentadas, ou melhor, quando somente pressões fixas, rígidas, repetitivas e frustrantes, configuram uma sensação generalizada de incapacidade.

Considerações finais

Buscou-se priorizar nesse artigo o entendimento da psicologia do trabalho, bem como o impacto decorrente da forma de arranjo do trabalho tem influenciado na forma de configuração das organizações, porém também sobre a personalidade do indivíduo, podendo o choque entre a estrutura organizacional e a psicofísica do trabalhador levar ao seu adoecimento. Verificou-se que a forma de trabalho instituída vem resultando em uma perda de poder do trabalhador sobre seu trabalho e do significado saudável do mesmo, de modo que o trabalho passou a constituir uma fonte de sofrimento para o indivíduo e de deterioração de sua qualidade de vida e o surgimento de novas patologias, dentre as quais sobressai o fenômeno do estresse.  Por ser o sofrimento humano, inevitável, o mesmo tem raízes na história singular de todo sujeito e repercute no ambiente de trabalho. A compreensão que os profissionais de gestão de pessoas possuem a respeito do sofrimento humano nas organizações influi nas concepções, atitudes e decisões por eles tomadas e na maneira como lidam com as pessoas nas organizações de trabalho. Por outro lado, oferece o suporte ideológico às estratégias e às ações da área de gestão de pessoas. Quando, por alguma razão, ocorre uma dissonância, surge o conflito de valores e o sofrimento humano.  Abordamos também problemas psicopatológicos como LER/DORt influenciados pelo trabalho, pois na relação entre o trabalho e saúde do trabalhador, pode-se verificar que o trabalho nem sempre aparece como fonte de doença ou de infelicidade, pois, muitas vezes o mesmo é operador de saúde e de prazer. Entretanto, uma coisa é certa: o trabalho nunca é neutro em relação à saúde.

O trabalho tem um papel fundamental na vida do indivíduo permitindo a construção de identidade, de subjetividade e integração na vida social. Assim, dependendo da forma em que o trabalho é organizado e executado pelo trabalhador, podem ser gerados efeitos negativos, dentre os quais estão situações que podem levá-lo ao adoecimento e à morte.  Em relação à promoção de saúde do trabalhador, faz-se importante uma atenção aos diversos aspectos considerados no artigo, pois as mudanças que devem ser produzidas pelas novas políticas de gestão de pessoas, dentre outros fatores devem: buscar a adaptação dos indivíduos à nova realidade sem provocar mudanças drásticas; encontrar medidas que assegurem a paz social e organizacional; perseguir a lucratividade sem fazer uso de tratamento desumano; diminuir os impactos da alienação humana como causa primeira de distúrbios mentais; não coibir repressivamente os mecanismos de defesa nos trabalhadores.  Então as novas políticas de gestão de pessoas devem falar de participação, iniciativa, inovação, maior liberdade do indivíduo, respeito, dignidade, confiança, franqueza, intimidade e transparência. Mas também falar de conformidade às normas, de consenso, adesão aos projetos da empresa. Desse modo, existe um desafio aos psicólogos nas organizações: atuar com equilíbrio, promovendo o bem-estar a motivação para o desempenho do trabalho, a auto-estima do indivíduo, a valorização do ser, a qualidade de vida, a integração entre os fatores humanos, sem deixar de lado os objetivos da organização e os bons resultados de produção.

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