O Saci-Pererê e a Sombra da Criança Interior

A triste verdade é que a vida humana consiste em um complexo
de opostos inseparáveis – nascimento e morte, felicidade e miséria,
bem e mal – e nem estamos certos de que um prevalecerá sobre o
outro, de que a alegria derrotará a dor e de que o bem superará
o mal. A vida foi, e sempre será um campo de batalha e, se assim
não fosse, a existência chegaria ao fim.                                                             
                                                            Carl Jung

Em meio aos estudos da teoria de Jung e do folclore brasileiro, duas figuras se delineiam paralelamente; a figuração do saci-pererê surge imediatamente associada ao conceito da sombra junguiana (ambas as representações um tanto malquistas). Mais precisamente, essa entidade mítica do folclore nacional mostra-se como sombra específica da criança interior. 

Sabemos que à medida que os seres humanos se desenvolvem, identificam-se com as características ideais de personalidade vigentes tidas como modelos padrões (as quais, logicamente, são encorajadas pelo ambiente sócio-cultural), e, assim, vamos formando o que se chama de sombra, nela soterrando aqueles elementos e particularidades que não consideramos adequados a nossa auto-imagem.           

O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se juntos, elaborando-se a partir das mesmas experiências de vida. Todos os sentimentos e capacidades rejeitados pelo ego exilam-se na sombra, contribuindo para o poder oculto do lado escuro da natureza humana. Igualmente, a criança é educada de um jeito específico que vai corresponder a regras, valores e sistemas com os quais ela começa a se adaptar, ficando moldada pelos mesmos.

Às vezes, essa moldagem aparece em tal extensão, que ela acaba não tendo mais ligação com aqueles talentos pessoais e aspectos de seu ser que não são valorizados ou não se encaixam na estrutura dessas expectativas externas, ficando perdidos para a pessoa.           

Dessa maneira, desvendar a sombra dentro do que chamamos de processo para a individualidade junguiana (ou desenterrar tudo aquilo que não gostaríamos de encarar e o ego consciente recusa-se a admitir), é uma das parcelas do trabalho terapêutico que mais sofre rejeições por parte de muitos sujeitos em terapia, os quais necessitam vivenciar o paradoxo de que todo o lixo apodrecido é também o fertilizante, como bem nos alerta James Hilmann (ZWEIG; ABRAMS, 1999, p. 265).             

Quanto a resgatar a criança interna, entre outros significados, esta tarefa favorece a identificação do entusiasmo de viver, da renovação, da espontaneidade, do deslumbramento da criança no adulto e da energia criativa. É certo que, quando os adultos excluem essa parte, perdem a individuação, pois, segundo Jung, essa criança interior é um símbolo da totalidade da psique. Ela nos acena do âmago, forçando-nos a sair do mundo antigo e familiar, dando um passo adiante para ingressar no novo, pois está sempre vindo a ser, solicitando atenção constante. A voz da criança é essencial ao processo de tornar-se um indivíduo real, ou ser único.            

O arquétipo da criança não representa dentro de nós somente vivências do passado, mas, também, as experiências do agora, de acordo com JUNG: "… [o arquétipo da criança] não é só um vestígio, mas um sistema funcionando no presente e cuja finalidade é compensar ou corrigir, de maneira significativa, a inevitável unilateralidade e extravagância da mente consciente". (ABRAMS, 1999,p.33).            

Pelos mesmos motivos que escolheríamos não termos de lidar com a sombra e preferiríamos não confrontá-la, o saci ocasiona certo desconforto dentro do elenco das personagens que compõem o nosso folclore, sendo apresentado, em inúmeras versões da sua lenda, como ente malévolo que deve ser evitado.            

De forma que, ignorando que o crescimento deve incluir todos os aspectos de nosso ser enquanto indivíduos e não só os permitidos pelos valores sociais e coletivos; manipulados pelo convívio social, pelas exigências do meio e pela ditadura das aparências; e, optando por ignorar nossos lados mais negativos e indesejados, é muito mais comum e apropriado elegermos claras e meigas figuras como as fadas e os elementais, do que o sombrio e astuto saci.                                             

A alegoria do pretinho endiabrado nunca foi bem aceita entre nós, pois designa uma espécie de sombra da criança interior, que, de maneira oposta, deve ser sempre lembrada e mantida, idealmente, como clara e muitíssimo bem educada, promovendo a alegria e a esperança de qualquer família, e nunca protagonizando seus óbvios e inevitáveis problemas.   

O fato de ser representado com uma perna só já indica, de pronto, o avesso daquilo que se prefere para nossa criança: duas pernas perfeitas e ágeis, que o impulsionem sempre à frente, distante de um caminhar claudicante e insatisfatório de alguém que, eternamente perneta, por certo não possui os atributos necessários à boa estampa e não está fadado ao sucesso. Temos que lembrar também que as narrativas envolvendo o saci acontecem sempre durante a noite, na escuridão desconhecida do mundo exterior, horário terminantemente proibido às crianças porque essas necessitam, contrariamente, aproveitar bem o dia, iluminado e clarividente.            

Via de regra, o pequeno pererê está simbolizado pitando seu inseparável cachimbo, pedindo fumo aos passantes, o que, nem é preciso comentar, é encarado como hodiendo para nossa ingênua criança. Fumar é, principalmente hoje em dia, considerado um péssimo hábito até para adultos e, claro, impraticável para pequeninos saudáveis e ajustados. Por sua vez, o barrete vermelho que o saci usa na cabeça tem o poder de torná-lo invisível, o que o auxilia a praticar suas irregularidades. Em contrapartida, nossa criança foi treinada a nunca desaparecer, em detrimento do sossego de seus familiares, e a tornar todas as suas ocupações e idéias bem visíveis aos olhos daqueles que por ela se responsabilizam.            

Quebrar coisas e esconder objetos são divertimentos para o saci-pererê e, obviamente, classificados como atos típicos de insubordinação por parte da nossa criança exclusiva. Igualmente, fazer as pessoas tropeçarem e trançar crinas de cavalos são atitudes corriqueiras para o saci e, com certeza, indícios de recôndita maldade para a comportada criança singular.            

Até mesmo seu estilo inconfundível de assoviar longa e fortemente é visto como um gesto típico somente em crianças indisciplinadas, que fazem de tudo para chamar a atenção sobre sua existência.                                    

Segundo a maioria das versões, os redemoinhos, fenômenos que produzem grande desequilíbrio por onde rastejam, carregando tudo à sua passagem, em uma onda vertiginosa e confusa, são ocasionados pelos sacis. Contrariamente, à criança intrínseca é ensinado que se deve sempre andar devagar, e, de preferência, com graça, evitando a pressa, sem causar nenhum dano ou estrago em um mundo que ainda não lhe pertence, e, em alguns casos, não pertencerá nunca.            

Até a origem do nome Saci-pererê constituir-se-ia em uma sombra, por assim dizer, pois o devemos às influências indígenas, negras e caboclas, indiscutível parcela da minoria entre nós, europeanamente colonizados e adestrados, que julgamos mais natural existirem Williams e Kellys  do que Janaínas e Ubirajaras.            

Isso sem mencionar o poder mágico de aparecer e desaparecer quando quiser, a seu bel prazer; em noites de lua, o travesso negrinho monta um cavalo e sai campo afora, em desabalada carreira. A criança interior jamais poderia compactuar com tal procedimento, tão intensos seriam a mágoa e o alvoroço provocados entre os seus. Com certeza, vovenciaria culpa eterna por conduta tão impensada e egoísta.            

A metáfora representada por uma das mãos furada e divertir-se jogando objetos para cima, fazendo-os passar por este buraco, identifica o saci, mas seria encarado como o mais límpido e evidente exemplo de chantagem emocional da primitiva criança: as doenças como instrumento para a obtenção dos desejos imediatos e fazer valer suas vontades.                                   

E o fato dos sacis adorarem reunir-se em bandos seria, também, mais uma forma de preocupação que a criança particular teria que evitar ou esconder: afinal, os jovens quando se juntam, normalmente são encarados como ultrapassando todos os limites do aceitável, influenciando-se mutuamente para tudo aquilo que não é devidamente aprovado. Toda reunião em grupos pode cheirar a motim e isso não pode ser incentivado.                                               

Sabe-se que o grande problema do mal é a recusa em admiti-lo, pois aquilo que não enfrentamos de frente surpreende-nos pelas costas.  Cada um de nós comporta um amável Dr.Jekyll, uma persona agradável para o uso cotidiano que, quando menos se esperar, pode transformar-se no implacável Mr.Hyde, um eu recôndito e amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos, bem como talentos não expressos, dons não desenvolvidos e a porção infantil, ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências.            

Só a partir do reconhecimento de que o malévolo vive dentro de nós, podemos fazer as pazes com a sombra, e o saci que habita em cada um poderá, finalmente, relacionar-se às claras conosco, pois teremos rompido a nossa pseudo-inocência, e a hipocrisia de que não temos (todos nós) a imaginação para o mal.            

Dessa forma, ultrapassados esses degraus, poderemos completar a atividade variada e inacabada da infância: perdoando nossos pais e a sociedade, resolvendo antigos traumas e mágoas de infância que se abatem sobre nossa alma e desenvolvendo uma consciência de auto-aceitação.  Por fim, realizar a promessa desta criança especial e eterna que necessita cumprir o seu destino perante os homens e o cosmos, pois, queiramos ou não, a Criança não é só o pai do Homem, é o Pai da pessoa inteira, a parte mais genuína dentro de nós.

Referências bibliográficas 

ABRAMS, Jeremiah (Org.). O reencontro da criança interior. 9. ed. Tradução por Maria Silvia Mourão Neto. São Paulo: Cultrix, 1999.

VON FRANZ, Marie-Louise. Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. Tradução por: Jane Maria Corrêa. São Paulo: Edições Paulinas, 1992. (Coleção Amor e Psique).

ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (Orgs). Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. 9. ed. Tradução por: Merle Scoss.  São Paulo: Cultrix, 1999. 

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