Breve consideração sobre a educação no Brasil

Dados do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) mostram que o desempenho dos alunos de quarta e oitava séries do ensino fundamental e da terceira série do ensino médio em Língua Portuguesa e Matemática sofreu uma queda acentuada de 1995 até 1999, estagnando-se desde então num patamar baixo. Adicionalmente, dados comparativos de avaliações internacionais, como os do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), têm mostrado o Brasil sempre nas últimas posições. Sendo a educação escolar um fenômeno multideterminado, é natural que diversas variáveis sejam apontadas como possíveis causas desses resultados vergonhosos. A que vou sugerir não exclui as outras, sendo apenas mais uma possibilidade, embora bastante plausível.
Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) foram publicados em 1996, ano em que o desempenho dos alunos começou a deteriorar. Pode ter sido apenas uma coincidência cronológica, mas tenho notado que um ponto fundamental tem sido deixado de lado nas considerações que tenho visto. O que e como se aprende depende grandemente do que e como se ensina. Os PCNs recomendam que se ensine as crianças a ler a partir de textos inteiros. Ênfase é dada na compreensão, pois os processos psicológicos envolvidos na atribuição de significados são considerados superiores, ao contrário daqueles envolvidos na decodificação do texto, considerados inferiores. A decodificação emergiria naturalmente no processo, não merecendo, atenção especial.

Pesquisas conduzidas com todo o rigor científico mostram que é possível ensinar leitura com compreensão partindo-se de palavras inteiras. As crianças aprendem a ler não só palavras ensinadas diretamente, mas também generalizam essa aprendizagem para a leitura de palavras novas, isto é, compostas a partir da recombinação de sílabas de palavras aprendidas na situação de treino. Por exemplo, uma criança a quem se ensinou ler LOBO e BOCA pode ler corretamente e com compreensão a palavra BOLO, mesmo sem ensino direto. No entanto, o que se nota nessas pesquisas é uma grande variabilidade nos dados de generalização, isto é, algumas crianças generalizam mais do que outras, havendo algumas que simplesmente não generalizam. Se tal variabilidade ocorre quando se ensina a partir de palavras em situação de pesquisa, em que cada criança é ensinada individualmente, o que ocorreria ao se ensinar a partir de textos completos em situação de sala de aula, com dezenas de alunos? Parece que os dados do SAEB e do PISA apontam para a resposta.

Outras pesquisas mostram que quando se lê livros regularmente para as crianças desde tenra idade, o resultado é que elas aprendem a ler com mais facilidade e em menor tempo do que aquelas que não foram expostas a tal procedimento. Famílias de baixa renda têm pouco acesso a livros. É de se imaginar que nessa parcela da população a leitura de livros para crianças por adultos seja mais exceção do que regra. O ensino da leitura a partir de textos integrais pode estar beneficiando crianças que já têm um histórico favorável, mantendo à margem aquelas provenientes de contextos menos privilegiados.

É hora, portanto, de revermos algumas posições que vinculam métodos de ensino e tendências político-ideológicas. Se a idéia era transformar crianças em leitoras de mundo, críticas e reflexivas, capazes de operar transformações na sociedade, o que temos visto é exatamente o oposto. Ademais, a divisão entre processos psicológicos superiores e inferiores, que deveria ser meramente didática, acabou sendo tomada de maneira equivocada e quis-se construir a partir do telhado. Decodificar é uma habilidade necessária, fundamental para o desenvolvimento do bom leitor. Não é um fim, mas o primeiro passo na direção do cidadão que a sociedade está a exigir.

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