O Conceito de Fantasia na teoria freudiana e na obra: “Homem dos Ratos”

Resumo:

O conceito de fantasia na teoria freudiana aconteceu quando Freud ainda fazia seus estudos sobre histeria juntamente com Breuer considerando a fantasia como uma atividade mental muito freqüente nas histéricas, tanto no seu estado de vigília como sob estado hipnótico. Porém, após estes estudos o conceito de fantasia se tornou abrangente comportando várias significações sendo necessária sua definição para maior compreensão da obra psicanalítica e para o sucesso do tratamento analítico.
 
Palavras Chave: Sedução, Fantasia, Neurose, Realidade,

De acordo com Freud (1986) a premissa para os sintomas neuróticos seria a sedução por parte de um adulto numa época remota da infância. Esta teoria, denominada teoria da sedução, pode ser considerada o primeiro modelo de explicação para etiologia das neuroses. Tal modelo, é explicado a partir de duas cenas. Na primeira, a criança sofreria algum tipo de investida sexual por parte do adulto, despertando na mesma algum tipo de excitação, não tendo, porém, nesta idade condições de elaborar estas representações.

Na segunda cena, a partir da puberdade, as lembranças evocadas da infância, começariam a ser experimentadas com desprazer, o que provocaria a ativação do recalcamento mantendo assim a  lembrança da sedução o mais afastada possível da consciência.

A partir desta teoria, em 1897, Freud introduz o conceito de fantasia o qual vai chamar de “fachadas psíquicas”, ou seja, “fachadas” construídas com o principal objetivo de obstruir o caminho às lembranças infantis. Assim, a partir do caminho das fantasias, Freud começou a trabalhar os seus casos de histeria.

As fantasias originárias encontram-se ligadas à observação da relação sexual dos pais, na cena primeira dos pais, ou cena originária. Freud (1909), atribui o nome cenas originárias aos acontecimentos reais, traumatizantes, cuja recordação por vezes é elaborada ou disfarçada por fantasias.

De acordo com o Dicionário de Psicanálise, de Elizabeth Roudinescò, a fantasia é: “Termo utilizado por Sigmund Freud, primeiro no sentido corrente que a língua alemã lhe confere (fantasia ou imaginação), depois como um conceito, a partir de 1897. Correlato da elaboração de real psíquica e abandono da teoria da sedução, designam a vida imaginária do sujeito e a maneira como este representa para si mesma sua história ou a história de suas origens: fala-se então de fantasia originária”. (ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. p 223) 

Segundo Nasio (1980), a fantasia se constitui como aquilo que temos de mais próximo, ou seja, a realidade. Mas a postura se encontra na forma de viventes sexuados (no corpo) e não enquanto ser falante. Em outras palavras, a realidade psíquica é recoberta de fantasia, ou seja, é o nosso modo corporal de tratar o real. O sujeito baseia-se em sua própria estrutura, o suporte imaginário para construir a fantasia. Logo, a fantasia é uma construção imaginária que se dá pela experiência vivida do sujeito.

 “A fantasia é uma ação que se organiza seguindo os contornos do objeto pulsional pela qual o sujeito se precipita, foge para mais adiante. Assustado com a ocorrência, angustiado diante do enigma di desejo do Outro, o sujeito se restabelece com uma imagem que lhe vai servir de apoio. Pois, sendo a fantasia uma construção, não se pode construí-la do nada, são necessários materiais e modelo”. (NASIO, 1980 p. 72). 

A fantasia então, pode ser considerada como experiências que deixaram marcas no inconsciente do sujeito, mas que não ocorreram de verdade. Podem ser consideradas produtos de busca pelo prazer, que combinam verdade e adulteração, algo que se constrói em um furo do pensamento, cuja atividade se constitui pela cena primária, na qual o corpo se encontra fixado em expressões gestuais, ou seja, na realidade.

De acordo com Freud (1907) :
 
“O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito. Dali retrocede a lembrança de uma experiência anterior, na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que representa a realização do desejo”.
( FREUD, 1907. p. 153)
 
Isto sugere que a fantasia, pode ser considerada como algo que perpassa o passado, presente e futuro do sujeito sendo entrelaçados pelo desejo uma vez que permite a liberação ilusória da realidade não satisfeita.

Pommer (1987) também afirma que a fantasia, construída a partir da causa do desejo, não pode ser decifrada mas antes de tudo interpretada a partir da construção de seus possíveis significados.

“A fantasia não é então da mesma natureza do saber inconsciente. Construída a partir da causa do desejo, resultante do ternário edipiano, não é de modo algum literal. Essa dedução acarreta várias conseqüências; uma, menor, permite trazer uma precisão teórica: a letra não é objeto (exceto se confundirmos o inconsciente e o “isso”). A outra importante por sua incidência pratica: se a fantasia não é literal, não é considerável decifrá-la como um sonho que pode ser lido. Não se decifra uma fantasia. Ela não é lida como um rébus ou um hieróglifo. Não se desmonta como um caligrama. Pelo contrário, se constrói no sentido em que seu valor de verdade deve ser autenticado pelo analista, sem qualquer equívoco permaneça a seu respeito. Ela corresponde ao que o analista deve saber contrariamente à letra, cujo funcionamento sempre o surpreenderá”. (POMMIER, 1987 p.81). 

O modo como a fantasia é construída também difere de sua realização. Para o sujeito que se encontra em processo analítico, a possibilidade de agir pode representar um acontecimento aliviante e positivo. O sujeito é assim levado pela tarefa analítica a realizar sua fantasia. O motivo dessa realização é que não aparece nitidamente, o que poderá acarretar a realização de diferentes desejos (que podem ser encaradas pelo sujeito como êxito), o que atribui à fantasia sua forma contraditória.

“Do mesmo modo, uma “realização da fantasia” irá colocar um problema especial. Com efeito, a homogeneização da fantasia e da realidade irá ressaltar o ponto diferencial que separa o sujeito do mundo e garante sua existência, ao mesmo tempo que seu auxílio. Se, por acaso, ele se satisfaz, seu desejo deixa vazio, e uma referencia essencial de sua identidade desaparece, dessa forma, momentaneamente, de uma forma particular de despersonalização que não é a psicose. Pode ser acompanhada de um certo sentimento de irrealidade ou da impressão de que o que ocorre não diz respeito a seu principal ator”
. (POMMIER, 1987, p.113). A fantasia na neurose obsessiva- Caso: Homem dos Ratos  

Na neurose obsessiva o que constitui a fantasia é a cena primária, considerada a cena na qual a criança presencia o coito dos pais. Pode-se considerar a fobia como uma posição subjetiva específica, o que ocorre com o paciente de Freud (1977), no caso Análise de um caso de neurose obsessiva. O homem dos ratos.

Neste caso ilustrativo, um sujeito neurótico obsessivo compulsivo, apresenta-se a Freud com queixas de obsessões que aparecem desde sua infância agravando-se nos últimos tempos. Os principais distúrbios, estavam ligados ao medo de que algo acontecesse a seu pai e a uma dama, por quem ele tinha admiração. No decorrer do tratamento e de fatos relatados pelo paciente, Freud faz alusão desses medos à fantasia com dinheiro e uma fobia com animais (ratos).

“Aquilo que a punição com ratos incitou nele, mais do que qualquer outra coisa, foi o seu erotismo anal, que desempenharia importante papel em sua infância e se mantivera ativo, por muitos anos, por via de uma constante irritação sentida por vermes. Desse modo, os ratos passaram a adquirir o significado de ‘dinheiro’. O paciente deu uma indicação dessa reação reagindo à palavra ‘Ratten’ [‘ratos’] com a associação ‘Raten’ [‘prestações’]. Em seus delírios obsessivos ele inventou uma espécie de dinheiro regular como moeda-rato”. (FREUD, 1909 p. 186).

A partir dos relatos do paciente, Freud descreve que a história contada gira em torno das histórias sexuais infantis precoces na explicação dos genitais femininos em uma governanta, dúvidas acerca da identidade sexual, das perturbações em relação a seu pai, de sentimentos de ambivalência para com o mesmo, de si mesmo e das mulheres.

A construção da fantasia do sujeito gira em torno da relação do paciente com os outros, isto é, a fantasia é inscrita no real. Freud teria circunscrito o objeto rato, ligado tanto à crueldade do castigo aplicado a criminosos, como à crueldade do paciente, já que este estendeu o castigo, por meio da associação, a seu pai e à dama. A crueldade tanto é atribuída ao Outro como é um pensamento do sujeito, que dá um passo no sentido de vir a admití-la como algo que lhe diz respeito, quando tenta relatá-la durante a análise. Com isso, Freud teria tocado algo do real, do gozo da fantasia do sujeito.

Considerando esta fantasia como uma realidade psíquica já constituída antes da análise, foi preciso da nomeação do gozo “rato” a partir da construção da fantasia na análise para inscrever o que até então se manifestava como real.

“Para resumir, a fantasia é, pois, uma encenação do qual o Outro é reduzido a nada, puro objeto a mercê do sujeito, abolido enquanto falante e negado enquanto desejante. Em suma, a encenação da condenação da morte do Outro. Pode-se compreender agora porque uma fantasia, não importa qual, em ultima instância, é uma fantasia de castração”. (NASIO, 1980 p. 76).

A presente obra de Freud gira em torno principalmente da linguagem verbal e das palavras; em torno de frases e atos obsessivos.

Conclui-se que a fantasia pode ser considerada uma síntese integrada de idéias, sentimentos, memória e interpretações onde o que predomina são os elementos afetivos. Ela pode ser pensada como uma satisfação imaginária dos desejos, da libido, devido a seu caráter particular, mas, pode também ser pensada no sentido de falta. O conceito aparece diversas vezes na obra de Freud a partir de diferentes explicações: fantasias conscientes, inconscientes, pré-conscientes, porém todas elas possuem em comum a satisfação substituta da realidade não satisfeita.
Conclui-se também que, ela possui aspectos positivos e negativos podendo ora contribuir para a adaptação do sujeito ora para um desvio da realidade com permanência em um mundo irreal impedindo-o de enfrentar os problemas concretos.

De qualquer forma o que fica de mais importante é que este conceito precisa ser explorado de acordo com o contexto no qual se apresenta pois o sucesso do tratamento analítico também depende da maneira de como o sujeito vai construir e realizar esta fantasia dentro da clinica e de como o analisante irá trabalhar com este processo construção-realização do analisado.
     

Referências Bibliográficas  

NASIO, Juan David. Objeto da Fantasia In: A criança magnífica da psicanálise o conceito de sujeito e objeto na teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1980 p. 64-83.

POMMIER, Gerard. O desenlace de uma análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987 p. 75-148.

FREUD, S. (1977). Análise de um caso de neurose obsessiva. O homem dos ratos. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 10, pp. 157-252). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1909).

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro : J. Zahar, 1998. 874p. p 223.
 
S,FREUD.  “Escritores Criativos e Devaneio”.E.S.B., 1907. Vol 9,p .153
 
S,FREUD. A Etiologia da Histeria in: Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud(ES)Vol.III. Ed.Imago,Rio de Janeiro, 1969.
   

Autoras

Aline Pollyane Batista Soares
Fernanda Cristina de Freitas
Lívia Karolina de Almeida
Marcela Souza
Renata Oliveira Barbosa

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