Plantão Psicológico

Resumo:

Este artigo busca averiguar a validade do plantão psicológico enquanto uma modalidade de atendimento psicológico, a luz dos conceitos da abordagem centrada na pessoa, bem como analisar seus procedimentos, modo de funcionamento e, finalmente, seus resultados.

Introdução:

A sociedade contemporânea está em constante transformação. Hoje encontramos uma sociedade imediatista, com padrões de rotina ligada à rapidez, ‘fast-food’, eficiência e dinamismo. As novas demandas sociais exigem do trabalho do psicólogo novas atuações profissionais, a fim de acompanhar e dar conta dessa tendência.

O Plantão Psicológico surge como uma modalidade alternativa de atendimento psicológico, de caráter breve e individual que visa, em uma ou até quatro sessões, orientar e auxiliar na resolução de dificuldades focadas em questões emergenciais e que nem sempre precisam de acompanhamento prolongado.  
    
“É um tipo de intervenção psicológica, que acolhe a pessoa no exato momento de sua necessidade, ajudando-a a lidar melhor com seus recursos e limites, ‘na medida em que [o plantonista] se coloca disponível a acolher a experiência do cliente em determinada situação, ao invés de enfocar  o seu problema… A expressão plantão está associada a certo tipo de serviço, exercido por profissionais que se mantêm à disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem, em períodos de tempo previamente determinados e ininterruptos.” (MAHFOUD,  In Rosenberg 1987, pp.75-83.)

MAHFOUD (1987) descreve este tipo de trabalho como uma forma de atender uma gama bastante ampla de demandas, pois o foco é definido a partir do referencial do cliente, pelo acolhimento da sua experiência. O profissional responde ao cliente no momento presente da situação do encontro. O trabalho do psicólogo consiste em facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo e de suas possibilidades, estabelecendo a sua forma de enfrentar a problemática.

Devido ao seu caráter imediato de atendimento, muitos imaginam que o Plantão destina-se a atender somente pessoas em crises emocionais agudas e quadros psiquiátricos graves. No entanto, a proposta não é de “um serviço para emergências psiquiátricas, mas sim uma escuta imediata, recebendo a pessoa no momento da dificuldade, sem que necessariamente a intensidade desta dificuldade tivesse atingido um ponto crítico que representasse ameaça iminente à sua integridade ou a de outros” (ROSEENTHAL, p. 19, 1999).

O Plantão Psicológico não tem a pretensão de que uma única sessão seja capaz de resolver sérios problemas emocionais ou promover resultados reconstitutivos da personalidade. Para estes casos, o cliente é encaminhado para uma terapia contínua. Porém, muitos efeitos podem surgir de um encontro focado na solicitação do cliente, onde tanto o terapeuta como o paciente, estejam por inteiro e acreditando na tendência ao desenvolvimento.

A idéia central desta modalidade de atendimento é oferecer a pessoa que o procura a possibilidade de ser acolhida e ouvida. A partir desta escuta, questões emergentes poderão ser trabalhadas. Qualquer questão que venha a incomodar o cliente é uma questão importante. “Ouvir pode sugerir uma atitude passiva, mas não é. Ouvir implica acompanhar, estar atento, presente. Presença inteira”. (ROSENTHAL, in Mahfoud, p. 27, 1999)

Sobre esta escuta Rogers diz: “Constato (…) que ouvir traz conseqüências. Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras, mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Elas se sentem aliviadas(…) Tornam-se mais abertas ao processo de mudança”. (ROGERS, p. 6, 1983).

A abordagem centrada no cliente

A abordagem centrada no cliente tem como alicerce a confiança básica na pessoa. Segundo Rogers, a grande crença na capacidade do indivíduo é assim, enunciada: “O ser humano tem a capacidade, latente ou manifesta, de compreender-se a si mesmo e de resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessária ao funcionamento adequado (Rogers &Kinget, 1977, p. 39)”.

Todavia para que esta potencialidade logre a sua atualização, é necessário um clima de calor humano, desprovido de ameaças ou desafios à imagem que a pessoa faz de si mesma.

A abordagem depende da tendência para a atualização, que está presente em qualquer organismo vivo – tendência para crescer, para desenvolver, para realizar seus potenciais completamente. Esta maneira de ser confia na fluidez diretiva e construtiva do ser humano, em direção a um desenvolvimento mais complexo e completo.  É esta fluidez direcional que nós desejamos liberar no paciente durante a psicoterapia.

O indivíduo tem, dentro de si mesmo, vastos recursos para auto compreensão, que possibilitam alterar seus conceitos sobre si mesmo, sobre suas atitudes e seus comportamentos auto dirigidos. No entanto, esses recursos podem ser liberados somente se um clima definido de atitudes psicológicas facilitativas puder ser provido. 

Segundo Rosa in Kahhale, (2002), Carl Rogers – (1902-1987) desenvolveu uma teoria a partir, principalmente, de sua experiência clínica. Seu trabalho questiona a autoridade do terapeuta e a suposta falta de consciência do cliente no processo terapêutico. Rogers defende que cada pessoa possui uma tendência para atualizar as capacidades e potencialidades do eu.  Sustenta, ainda, uma visão otimista e positiva da natureza humana. Concebe as pessoas como sendo capazes de crescimento, mudança e desenvolvimento pessoal.

Sua principal contribuição concentra-se na proposta de terapia desenvolvida a partir destas concepções de homem: a terapia centrada no cliente. O indivíduo não é, portanto, um organismo passivo a ser manipulado, ao contrário, é ele quem assume a direção necessária.

Para Rogers, (1952) in Fadiman e Frager, (1986), o indivíduo tem dentro de si a capacidade, ao menos latente, de compreender os fatores de sua vida que lhe causam infelicidade e dor, além de organizar-se de forma a superar tais fatores. 

Em sua teoria, Rogers concebe ainda, que a auto-atualização só é possível através de uma relação de cumplicidade entre duas pessoas. Assume que o conhecimento também o é, tendo caráter individual.

Para o desenvolvimento de conhecimento, a qualidade do encontro entre duas pessoas é fundamental, e para tal, deve haver congruência, empatia, consideração positiva, consideração incondicional e a percepção por parte do outro.

Como congruência, refere-se ao fato de ser genuíno, real ou congruente. Quanto mais o terapeuta é ele mesmo na relação, sem colocar nenhuma capa profissional ou fachada pessoal, maior é a probabilidade que o cliente tem de crescer e mudar de uma maneira construtiva. É ser também acessível a ambos os sujeitos da relação os sentimentos vivenciados, tornando-os possíveis de serem comunicados.

Por empatia, como sendo a percepção do mundo e dos sentimentos do outro como se fossem seus. O terapeuta sente acuradamente os sentimentos e significados pessoais que são vivenciados pelo cliente, sejam estes sentimentos conscientes ou, não, e comunica esta atitude de aceitação e entendimento ao mesmo.

Considerar positivamente o outro implica acreditar que cada um tem ou está em busca de sua própria rota e que esta é a sua preferida. Não há uma melhor rota para ele, senão essa, pois essa é sua e apenas sua e, como tal, é única.
 

Descrição do Estágio:

Os atendimentos de plantão fizeram parte dos estágios do 10° semestre e pudemos realizá-lo tanto na Delegacia da Mulher, quanto na própria clínica-escola da UNIP.   

Na Delegacia da Mulher foi feito um rodízio de estagiários de acordo com a disponibilidade de salas que o local oferecia. Cada estagiário cumpria duas horas por semana, onde estávamos disponíveis para o atendimento.

O plantão foi uma experiência enriquecedora para nossa prática profissional. Principalmente pelo dinamismo desta modalidade de atendimento, em que a cada atendimento uma nova demanda surgia e um novo caso a ser estudado, isso fez com que nossa bagagem profissional e teórica se estendesse.  Foi nele também que conseguimos compreender a real dimensão da psicologia e a prática foi vivida intensamente.  Podemos encontrar uma motivação maior para buscar, até teoricamente, as fontes que podem nos ajudar a compreender melhor os fenômenos profundos que ocorrem numa relação entre duas pessoas e entre uma pessoa e o seu mundo.

Análise:

O Plantão Psicológico foi concebido baseado na Abordagem de Carl Rogers, Centrada na Pessoa, que como o próprio nome diz, enfatiza como o cliente se utiliza de sua capacidade em superar adversidades e delas resultar em crescimento pessoal. A Abordagem Centrada na Pessoa acredita que o indivíduo é capaz de aprimorar sua potencialidade inerente em recursos para uma existência plenamente satisfatória. Após reconhecermos nossas necessidades e estabelecermos um processo de satisfação destas podemos considerar que tomamos consciência de nossas vontades e delas fazemos uso. Para exemplificarmos isso escolhemos uma música , intitulada Epitáfio, cantada pelo grupo Titãs: “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o Sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer. Queria ter aceitado as pessoas como elas são. Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração. O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o Sol se pôr. Devia ter me importado menos com problemas pequenos; ter morrido de amor. Queria ter aceitado a vida como ela é. A cada um cabe a alegria e a tristeza que vier. O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído…” Vejam como esta citação transmite a realidade vivida por todos nós, a difícil tarefa de aceitar e acatar nossos desejos e vontades e colocá-las em prática.

Então, vamos transportá-la para o Plantão Psicológico: o cliente em questão traz para a sessão uma necessidade inacabada que lhe aflige e consome sua energia vital, que é a figura, que não pode ser desmembrada de seu fundo, a totalidade do indivíduo. Trabalhamos com as emoções e vontades do cliente naquele momento, aqui e agora, e os desdobramentos que desta situação decorrem. Portanto, o indivíduo encontra-se num momento de desequilíbrio, no qual não percebe alternativas em responder às suas perguntas e neste período vê-se fragilizado pela ausência de fluidez entre sua necessidade (figura) e sua totalidade (fundo). O Plantão Psicológico, através do psicoterapeuta, cria um espaço vivencial no qual o cliente não fala sobre o acontecimento, mas sim revive uma nova experiência que possibilita uma transformação que desperta uma nova visão integradora. Vale ressaltar que o indivíduo, neste momento, encontra-se em crise, isto é, vê-se impossibilitado em reestabelecer sua auto-regulação, percebendo-se incapaz em satisfazer suas vontades e desejos. Para que este processo seja satisfatório, há a necessidade de uma transformação que é mediada pelos ajustamentos criativos que o indivíduo estabelece com seu meio para que suas necessidades sejam sanadas, ou seja, cria-se um processo de ajustamento e reavaliação que possibilita mudanças, fechando, assim, a figura. Todo este movimento é a busca da awareness, ou seja, a percepção, conscientização da necessidade significativa à pessoa, daquilo que lhe faz sentido, se apropriando de sua totalidade e integridade.

Pensando que, vivemos num mundo repleto de inesperados, somos atropelados por mudanças a todo instante. Perda do emprego, separação, competitividade, instabilidade econômica e com isso a necessidade de adaptação. Apesar dessa necessidade de adaptação, muitas vezes buscamos um local confortável, previsível, modelos de atuação “seguros”.  Trabalhar com o plantão nos ensinou a não esperar nada, estar aberto à experiência, confiar nas próprias ferramentas e aprender a adaptá-las e lapidá-las na situação.

Dentro deste panorama de necessidade de adaptação ao novo, ao imprevisto e ao inesperado, é importante entendermos e refletirmos a respeito das emergências, às quais estaremos sujeitos enquanto psicólogos.

Entendendo emergência, como algo que emerge ou situação crítica, as pessoas que procuram plantão estão vivendo questões e problemas que surgiram naquele momento como algo que chegou ao limite e precisa de cuidado, ou ainda estão passando por mudanças drásticas e procuram orientação e o reencontro com seu equilíbrio anterior. Desde rompimentos de namoro até rompimentos com a realidade. Responder a toda a demanda com psicoterapia, nem sempre é viável e aceitável pelas pessoas. O plantão entra, portanto, neste vácuo, onde o que configurará o atendimento ou encontro é o próprio cliente, de acordo com sua necessidade emergencial.

Frente a esta situação, do inesperado e das emergências, nossa atuação será desenhada à partir do próprio cliente, o que não significa passividade do terapeuta, para lidar com este panorama, muito pelo contrário, são necessárias algumas habilidades básicas, ferramentas básicas, como por exemplo: ter disponibilidade para se defrontar com o não planejado e com a possibilidade de que o encontro com o cliente seja único; enfocar a experiência do cliente ao invés do seu problema; empatia; congruência.

Ao recebermos uma pessoa para atendimento, acolhemos sua queixa, oferecendo-lhe uma escuta, pois acreditamos que neste primeiro momento, o simples fato de ser ouvido tem efeitos transformadores, tais como: pessoas olhando mais para si próprias, refletindo suas questões, desabafando velhas mágoas, construindo um viver mais autêntico e ampliando suas possibilidades do vir-a- ser. 

Assim, pudemos comprovar, na prática o “poder transformador da escuta atenciosa, não diretiva, centrada no cliente, confiante na tendência ao desenvolvimento das possibilidades inerentes a pessoa, e na possibilidade dessa tendência ser estimulada, mesmo através de um único encontro com o profissional, desde que este último possa oferecer sua presença inteira, através de sua própria congruência, capacidade de empatia e aceitação incondicional do outro”. (ROSENTHAL, in Mahfoud, p. 16, 1999).

Conclusão / Considerações Finais:

Nossa pesquisa buscou averiguar os nossos questionamentos iniciais com relação ao Plantão, ou seja, qual a validade e a relevância deste tipo de atendimento.
   
Em nossa prática no plantão psicológico, pudemos vivenciar a riqueza peculiar de cada caso, de cada existência que se abria em busca de um crescimento pessoal.
   
Pudemos crescer a medida em que os casos atendidos exigiam de nós um olhar diferenciado, um conhecimento a ser buscado, um silêncio a ser tolerado e raciocínio clínico a ser estimulado.

Pudemos verificar que a teoria só faz sentido quando a prática a comprova e a reafirma como instrumento de compreensão e intervenção terapêutica.
Realizar o plantão foi desafiador, mas também muito enriquecedor.

Nossa experiência nos fez ver e acreditar que o encontro de plantão é verdadeiramente capaz de oferecer acolhimento, promover reflexão e potencializar mudanças significativas nos sujeitos.

Bibliografia

KAHHALE E.M.P. (org.) (2202). São Paulo: A diversidade da psicologia : uma construção teórica / São Paulo: Cortez

MAHFOUD, M. (org). Plantão Psicológico: novos horizontes. São Paulo: Editora: C.I., 1999.

ROGERS, C. Um jeito de ser. São Paulo, EPU, 1983 e 1987.

ROSEMBERG, R. L. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU, 1987.

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