Ino

A morte de Penteu não foi a última desgraça que se abateu sobre a casa de Cadmo. Juno ainda detestava toda a família e resolveu voltar seu ódio para a filha de Cadmo, Ino, que se orgulhava de seus filhos, do marido, Atamas, e, princi­palmente, do novo deus, Baco, o qual ela ajudara a criar depois da morte da mãe deste.

Juno odiava-a e invejava-a. Recordava-se de como Baco, filho de seu marido e outra mulher, conseguira transformar os marujos em golfinhos e fazer com que Agave matasse o próprio filho. "Afinal", disse ela consigo, "não há outra coisa que eu possa fazer além de ficar-me lamentando e tendo inveja? Não sou também poderosa? Baco mostrou-me o que devo fazer. Mostrou com bastante clareza, por meio da morte de Penteu, o poder da loucura. Por que também Ino não pode ser levada à demência?"

Assim refletindo resolveu recorrer ao mundo dos espectros e pedir ajuda às Fúrias.

Existe uma estrada em declive sombreada por tétricos teixos. Ela conduz, em meio a profundo silêncio, ao reino abaixo da terra. Lá, a vagarosa corrente do Estige exala sua bruma úmida, e por essa estrada os espectros daqueles que acabaram de morrer descem até suas moradas. Chegam a uma vasta e lúgubre planície, com pouca claridade e fria como gelo; e ali os espíritos procuram o caminho que leva à cidade abomi­nável e ao palácio do sinistro Plutão, Rei dos Mortos. Essa cidade possui mil entradas e portões abertos por todos os lados. Como o mar recebe todos os rios da terra, esse lugar recebe os espíritos de todos os mortos. É bastante espaçoso para poder conter nações inteiras, e quando as multidões ali penetram nem são notadas. Lá os transparentes espectros exangues, sem carne ou ossos, vagueiam de um lado para o outro. Alguns adejam pelas praças, outros passam o tempo no palácio do Rei da região dos mortos, enquanto que outros se ocupam em imitar o modo como costumavam viver na terra.

Tão grande era o ódio de Juno, que ela deixou sua casa no céu e desceu ao medonho local. Assim que ela pisou no limiar da região, esta gemeu sob o peso de seu corpo sagrado, e o cão de guarda com três cabeças, Cérbero, ergueu as cabeças e latiu pela tripla mandíbula. Juno chamou pelas Fúrias, que eram Filhas das Trevas, deusas terríveis e implacáveis. Estavam sentadas à frente dos diamantinos portões fechados dos cárceres do Inferno, e afastavam para trás da cabeça as serpentes negras que tinham por cabelos. Puseram-se de pé ao reconhecerem Juno por entre o denso nevoeiro. Essa prisão é chamada Local de Perversidade, e ali são punidos os grandes pecadores. O gi­gante Tícios ali se encontrava, com seu corpo descomunal esten­dido ao longo de nove acres. Abutres devoravam-lhe constante­mente a carne, que sempre tornava acrescer. Certa vez ele vio­lentara Latona, mãe de Febo e Diana. Havia, também, Tântalo, que enganara os deuses. Estava sempre com sede, com água bem próximo aos lábios mas sem conseguir alcançá-Ia, e com árvores frutíferas pendendo em volta da cabeça, as quais desapareciam toda a vez que estendia as mãos para apanhar um fruto. Também estava ali Sísifo, cujo castigo era rolar eternamente uma enorme pedra até o cume de uma montanha. Sempre que ela chegava em cima, tornava a rolar até a base e ele come­çava tudo de novo. Ixíon, que se atrevera a atacar a própria Juno, girava permanentemente em uma roda. Havia, ainda, as cinqüenta Belides, filhas de um rei do Egito, que haviam assas­sinado os maridos. Estavam condenadas a carregar água em cântaros de um lugar a outro, mas a tarefa jamais era com­pletada, pois a água sempre escorria dos cântaros no meio do caminho.

Juno fitou todos esses criminosos, especialmente Ixíon, com olhar furioso. Depois olhou para Sísifo, que tinha sido irmão do marido de Ino, Atamas.

– Por que terá esse irmão – disse ela – de sofrer torturas perpétuas, enquanto Atamas e sua esposa, que me desprezam, vivem felizes em um palácio opulento?

Em seguida contou às Fúrias por que fora ali e o que de­sejava – que era a ruína completa da casa de Cadmo e que Atamas devia enlouquecer. Quando terminou, a Fúria Tisífone abanou a cabeça grisalha e afastou para trás as serpentes que lhe caíam pela testa.

– Não há necessidade de dizer mais – declarou ela. – O seu desejo será satisfeito. Agora saia deste reino sem amor e retorne ao ar mais puro do Céu.

Satisfeita com seu sucesso, Juno regressou e, ao entrar no Céu, Íris, a deusa do arco-íris, espargiu água sobre ela para purificá-Ia.

Entrementes, a terrível Tisífone agarrou apressadamente um archote que fora embebido em sangue. Vestiu uma túnica, também molhada de sangue, e amarrou à cintura uma cobra que se retorcia. Depois deixou as regiões infernais, seguindo em sua companhia a Aflição, o Terror e a Loucura com lábios trêmulos. Ao chegar à casa de Atamas, dizem que até as ombreiras da porta estremeceram com sua presença e empa­lideceram. O Sol desapareceu do céu. Ante aquela visão apa­vorante, Ino e Atamas tentaram fugir aterrorizados. Mas a horrível Fúria postou-se à entrada e impediu-os de escapar.

Ela estendeu os braços cobertos de víboras e abanou a cabeça que silvava com as cobras a lhe caírem em espirais pelos ombros e peito, expelindo veneno com suas línguas tremulantes. Reti­rou duas dessas serpentes e arremessou-as em Atamas e Ino. Elas deslizaram por seus corpos sem mordê-Ios, porém desti­lando veneno em seus cérebros. Então, a Fúria agarrou o archote e girou-o em volta da cabeça até irromper uma labareda ensurdecedora. Sua tarefa estava realizada e a vitória era com­pleta. Regressou ao Inferno e desatou a serpente presa à túnica.

Imediatamente Atamas, agora louco furioso, gritou no meio do palácio:

– Vinde, meus amigos, espalhai as redes aqui nesta floresta! Acabei de ver uma leoa com dois filhotes!

Em seguida, desvairado, correu atrás da esposa como se ela fosse uma fera selvagem. Arrancou-lhe dos braços seu fi­lhinho Learco que sorria para ele e lhe estendia as mãos, ati­rando o bebê ao chão. Ino, também tresloucada, ou por causa da Fúria, ou pelo que o marido fizera, soltou um grito lanci­nante e ergueu nos braços o filhinho, Melicertes. Com os ca­belos flutuando às costas e berrando o nome de Baco, saiu em disparada da casa. Ao ouvi-Ia gritar, Juno deu uma risada.

– Teu filho adotivo, Baco – disse ela -, não irá ser-te muito útil agora.

Havia um penhasco que se projetava sobre o mar. Sua base fora toda escavada pelas ondas, de forma que a água en­capelava-se bem debaixo dele. Seu topo elevava-se imensamente acima do mar profundo. Em seu desvario Ino subiu ao ponto mais alto do cume e, sem temor, atirou-se com a criança ao oceano. A água espumou e embranqueceu no ponto em que caiu.

Vênus, contudo, apiedou-se do imerecido sofrimento de sua neta e suplicou ao seu tio Netuno, rei do mar:

– Ó, Netuno, que governais as águas, cujo poder só é inferior ao de Júpiter, meu pedido é pretensioso, mas, por favor, concedei-o. Tende compaixão por esses amigos meus! O mar me deve alguma coisa, já que nas profundezas do oceano eu nasci da espuma, e é o que significa meu nome grego, Afrodite.

Netuno atendeu à sua súplica e transformou Ino e a criança em criaturas divinas. O menino tornou-se um deus do mar, Palaemon, e a mãe, a deusa, Lencotoe.

Cadmo, todavia, não tinha meios de saber que a filha e o neto haviam-se transformado em deuses do mar. Mortificado por todos os fatos terríveis que tinham acontecido aos seus, abandonou a cidade que fundara, como se a má sorte fosse do lugar e não sua. Partiu em companhia da esposa e por fim chegou às fronteiras de Ilíria. Ali, ainda pesarosos, comentavam os infortúnios que se abateram sobre a família. Cadmo estava dizendo:

– Desconfio que a serpente, que eu matei com minha lança e de cujos dentes nasceu uma legião de homens, era uma serpente sagrada. Talvez os deuses estejam-se vingando de minha família por causa daquela serpente, de modo que rogo que também eu seja transformado em uma serpente e tenha um corpo longo e coleante estirado no solo.

Enquanto falava, foi exatamente o que começou a acon­tecer-lhe. Caiu de rosto no chão; as pernas formaram uma única, que se alongou terminando em uma cauda pontuda. Os braços ainda permaneciam, e, com lágrimas a rolarem pelas faces ainda humanas, estendeu os braços para a esposa.

– Aproxima-te, minha pobre esposa! – exclamou. ­

Vem, enquanto ainda existe alguma coisa de mim. Toca em mim, segura minha mão, enquanto tenho mão, antes que eu me transforme inteiramente em cobra!

Ele desejava continuar falando, porém de repente des­cobriu que a língua se tornara bifurcada, e que não conseguia pronunciar as palavras. Sempre que tentava dizer alguma coisa tristonha, fazia um som sibilante. Era a única voz que possuía.

A esposa bateu no peito e gritou:

– Ó, fica, Cadmo! Volta a ser tu mesmo! Oh, que está acontecendo? Onde estão os teus pés, as tuas mãos, os teus ombros e teu rosto? Ó, agora tudo desapareceu. Ó, deuses, por que não me transformais também em uma serpente?

Enquanto ela falava, ele lambeu o rosto da esposa e chegou naturalmente ao busto, como se conhecesse o local, enrolando-se em volta do pescoço dela em um abraço. Todos que presenciaram a cena ficaram aterrados; ela suspendeu o pes­coço reluzente de cobra e subitamente viram-se ali duas ser­pentes com os anéis entrelaçados. Sem demora foram des­lizando ocultar-se em uma floresta próxima. Até hoje elas não temem os homens, nem os mordem. Recordam-se do que eram antes, e são serpentes mansas e pacíficas.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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