Macarrão instantâneo, pílulas e células

O que busca o ser humano? Resumidamente, pode-se dizer que o ser humano quer ser feliz, o que se traduz, quase sempre, em evitar a dor e a tristeza. Evitar o sofrimento nos dias atuais virou uma obrigação. É quase uma ordem na sociedade pós-moderna: Sê Feliz!
O que busca o ser humano? Resumidamente, pode-se dizer que o ser humano quer ser feliz, o que se traduz, quase sempre, em evitar a dor e a tristeza. Evitar o sofrimento nos dias atuais virou uma obrigação. É quase uma ordem na sociedade pós-moderna: Sê Feliz! Busca-se a felicidade fácil e rápida (pra ontem), a felicidade instantânea, em apenas alguns minutos.

Embora essa busca seja legítima, a forma, ou caminho, nem sempre é. E, o que é pior, o objetivo não é alcançado. Evitar sofrimento a qualquer custo leva a um entorpecimento para que a dor não seja sentida, para que a dor da própria cura, de um conflito por exemplo, seja evitada.

É comum ouvir de pacientes coisas como “quero dormir e quando acordar tudo estará resolvido” ou “amanhã quero ser outra pessoa”. Até certo ponto é saudável evitar a dor, o desprazer. Mas felizmente não há como evitar a dor de viver. Viver sem dor ou sofrimento, sem angústias e crises existenciais, só se a pessoa estiver “confortavelmente sedada” – quase morta.

Da ordem de ser feliz surge uma desenfreada caçada em busca de soluções mágicas. Numa mistura caótica de psicofármacos, auto-ajuda, esoterismo e muita charlatanice, aparecem propagandas de felicidade instantânea. A psicanalista Elizabeth Roudinesco, em seu livro Por que a Psicanálise?, fala sobre os aspectos regressivos que inclinam o homem à práticas ditas alternativas: uma ilusão de cura, onde imagens idealizadas de prazer e alegria são chamadas para esconder o conflito psíquico, provocador de angústia.

Isso não quer dizer, e que fique bem claro, que viver é sofrer e só. Viver também é sofrer. Se evitamos a dor corremos o risco de evitar também o prazer. Corremos o risco de vivermos entorpecidos…

Deixando de lado as práticas esotéricas, não científicas, ilegais e também a já (ainda bem!) fora de moda auto-ajuda, sobra ao caçador da felicidade perdida – o tesouro perdido – a promessa de uma pílula da felicidade, respaldada pela medicina tradicional e autorizada pelos órgãos oficiais de saúde. Mas será que os remédios do corpo servem para a alma?

Poderá um anti-depressivo acabar com a angústia de morte do ser humano? Embora seja louvável seu efeito sobre o sintoma melancólico, a pílula da felicidade não combate a inevitável sina de morte do homem. Não impede que este seja abandonado pelo cônjuge amado nem que ele questione, em algum momento de sua vida, a existência de Deus.

Não nego a validade das teorias que conjugam corpo e mente na tentativa de entender o comportamento humano, principalmente se pensarmos na maneira pela qual um influencia o outro na determinação/criação de características psicológicas e sintomas físicos. Mas não creio ser possível dizer que uma pura lógica químico-biológica possa ser responsável pela subjetividade humana com suas fantasias, desejos e tragédias intrínsecas.

Isso seria um assassinato da chamada alma humana. Seria como dizer que as taxas hormonais e o DNA fizeram de Paul McCartney um grande compositor. Leonardo Da Vinci e Freud também seriam apenas um amontoado de células. Seus grandes feitos se reduziriam a uma mera combinação de dados. Nada que um computador bem programado e tecnologicamente avançado não pudesse realizar.

Quero crer que há algo mais que moléculas, hormônios e enzimas. É obvio, e desnecessário dizer, que essas moléculas, hormônios e enzimas têm seu papel fundamental no desenvolvimento e manutenção do corpo do ser humano e que podem influenciar seu comportamento, mas, definitivamente, isso não é tudo.

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