Auto-sugestão Consciente por Émile Coué

Transcrevo este ensaio de Émile Coué (1857-1926) para nossa reflexão.

A sugestão, ou antes, a auto-sugestão, é um assunto novo e ao mesmo tempo tão antigo quanto o mundo. É um assunto novo porque, até hoje, foi mal estudado e, portanto, não muito conhecido; é antigo, por datar da aparição do homem na terra. De fato, a auto-sugestão é um instrumento que nasce conosco, e este instrumento, ou melhor, esta força é dotada de um poder inaudito, incalculável, que, conforme as circunstâncias, produz os melhores ou os piores efeitos. O conhecimento desta força é útil a cada um de nós e, particularmente, é indispensável aos médicos, aos psicólogos, aos magistrados, aos advogados e aos educadores da juventude.

Logo que a sabemos pôr em prática, de uma maneira consciente, devemos evitar, em primeiro lugar, provocar nos outros as auto-sugestões malignas, cujas conseqüências podem ser desastrosas; depois provocamos, conscientemente, as auto-sugestões benignas, que levam a saúde mental aos que sofrem de neuroses, aos malogrados em sua existência, vítimas inconscientes de auto-sugestões anteriores, e que conduzem ao bom caminho os espíritos com tendência a seguirem o mal.

O ser consciente e o inconsciente

Para bem compreender os fenômenos da sugestão, ou, mais acertadamente, da auto-sugestão, é preciso saber que há em nós dois indivíduos completamente distintos um do outro. Ambos são inteligentes, mas enquanto um é consciente, o outro é inconsciente. É a razão pela qual a sua existência, geralmente, passe despercebida.

Entretanto, esta existência pode ser facilmente constatada, desde que se tenha o trabalho de examinar certos fenômenos que sobre eles se queira refletir bem, por alguns instantes. Exemplifiquemos:

Todos sabem o que é sonambulismo e que o sonâmbulo levantando-se à noite, sem estar acordado, sai do quarto depois de mudar, ou não, a roupa, desce as escadas, atravessa corredores e, após ter praticado certos atos ou terminado certo serviço, volta ao seu dormitório e deita-se novamente. No dia seguinte, demonstra a maior das admirações por encontrar feito, um trabalho, que na véspera deixara por acabar.

Entretanto, foi ele quem o fez, se bem que o não saiba. A que força obedeceu o seu corpo, senão a uma força inconsciente, ao seu ser inconsciente?

Consideremos, agora, o caso muito freqüente, de um alcoólico atacado de delirium tremens. Como que tomado de um acesso de loucura, ele se apodera de uma arma qualquer, uma faca, um martelo, um machado, e fere, fere furiosamente aqueles que têm a infelicidade de se acharem perto.

Depois de passado o acesso, o indivíduo recobra os sentidos e contempla, horrorizado, a cena de sangue que a sua vista oferece, ignorando ter sido ele mesmo o seu autor. Ainda neste caso, não foi o inconsciente que conduziu esse doente?

Se compararmos o ser consciente ao ser inconsciente, constatamos que, enquanto o consciente é freqüentemente dotado de uma memória muito falha, o inconsciente é, ao contrário, provido de uma memória maravilhosa, impecável, que guarda, sem o sabermos, os menores acontecimentos, os mais insignificantes fatos de nossas vidas.

E, como é ele quem preside o funcionamento de todos os nossos órgãos, por intermédio do cérebro, dá-se um fato, que decerto parecerá paradoxal: se ele julgar que esse ou aquele órgão funciona bem ou mal, ou julgar que sentimos esta ou aquela impressão, este ou aquele órgão, de fato, funciona bem ou mal, ou então, nos sentimos com esta ou aquela impressão.

O inconsciente não preside somente as funções do nosso organismo, preside também o acabamento de todas as nossas ações, quaisquer que sejam elas.

A ele é que chamamos imaginação, e é quem, ao contrário do que se admite, nos faz sempre agir, mesmo e sobretudo contra a nossa vontade, desde que haja antagonismo entre essas duas forças.

Vontade e imaginação

Se abrirmos um dicionário e procurarmos saber o significado da palavra vontade, encontraremos esta definição: "Faculdade de praticar ou não, livremente, algum ato". Aceitaremos esta definição como verdadeira, irrepreensível. Mas não pode haver maior engano, pois esta vontade que reivindicamos com tanta altivez, cede sempre o passo à imaginação. É uma regra absoluta que não padece exceção alguma.

E, para se convencerem, abram os olhos, olhem em torno de si e saibam compreender aquilo que vêem. Hão de ver, então, que o que lhes digo não é uma teoria aérea, produzida por um cérebro doente, mas a simples expressão daquilo que realmente é.

Suponhamos que há no solo uma tábua de 10 metros de comprimento por 25 centímetros de largura. Está claro que todo mundo é capaz de ir de uma ponta a outra dessa tábua, sem pôr o pé fora dela.

Mudemos, porém, as condições da experiência e façamos de conta que essa tábua está colocada à altura das torres de uma catedral. Quem terá, então a coragem de avançar um metro apenas, nessa estreita passagem? São os senhores que me lêem? Não, sem dúvida. Antes de derem dois passos, começarão a tremer e, apesar de todos os esforços de vontade, fatalmente cairão ao solo.

Observem que os senhores têm boa-vontade de avançar; se imaginam que o não podem, ficam na impossibilidade absoluta de fazê-lo.

Se os pedreiros, os carpinteiros são capazes de executar esse ato, é porque eles imaginam que o podem fazer. A vertigem só é causada pela imagem que se nos afigura de que vamos cair; essa imagem se transforma imediatamente em ato, apesar de todos os nossos esforços de vontade, tanto mais depressa quanto mais violentos são esse esforços.

Consideremos uma pessoa atacada de insônia. Se ela não faz esforços para dormir, ficará sossegada no leito. Se, ao contrário, quer dormir, quanto mais se esforça mais agitada fica.

Todos já observaram que, quanto mais a gente procura se lembrar do nome de uma pessoa, que se julga ter esquecido, mais ele foge à lembrança, até o momento em que, mudando-se no espírito a idéia de "não me lembro" pela de "já me lembro", o nome nos vem naturalmente sem o menor esforço.

Aqueles que andam de bicicleta se recordam de que, quando aprendiam a andar, iam pela estrada, segurando-se no guidão, na persuasão de que iriam cair. De repente, enxergando no meio do caminho um cavalo ou, simplesmente uma pedra, procuravam evitar o obstáculo; porém, quanto mais esforços faziam, mais iam em direção a eles.

A quem não aconteceu dar uma gargalhada, uma risada que estalava tanto mais impetuosamente quanto maiores eram os esforços que faziam para contê-la?

Qual era o estado de espírito de cada um, nestas várias circunstâncias? Eu não quero cair, mas não posso impedi-lo; quero dormir, mas não posso; quero lembrar o nome da senhora Tal, mas não posso; quero evitar o obstáculo, mas não posso; quero conter a minha risada, mas não posso.

Como se vê, em cada um desses conflitos é sempre a imaginação que sobrepuja a vontade, sem exceção alguma.

Seguindo a mesma ordem de idéias, não vemos um comandante que se precipita para diante, à frente das suas tropas, e os seus subordinados acompanhá-lo, ao passo que o grito: "salve-se quem puder" determina, quase fatalmente, uma derrota? Por que? Por isto que, no primeiro caso, os homens se persuadem de que devem marchar para a frente, e, no segundo, supõem que estão vencidos e que é preciso fugir para escapar à morte.

Panurge não ignorava o contágio do exemplo, isto é, a ação da imaginação, quando, para vingar-se de um negociante com quem viajava, comprava o seu maior carneiro e o atirava ao mar, convencido, de antemão, de que a carneirada toda o acompanharia, o que, aliás, aconteceu.

Nós, homens, parecemo-nos mais ou menos com os dessa raça lanígera e, a contragosto, seguimos irresistivelmente o exemplo alheio pensando que não podemos fazer de outro modo.

Poderia citar outros mil exemplos, mas receio que uma enumeração dessa ordem se torne enfadonha. Entretanto, não posso deixar em silêncio um fato que põe em evidência o poder enorme da imaginação, ou por outra, do inconsciente na sua luta contra a vontade.

Há ébrios que bem quereriam não mais beber, mas não podem abster-se da bebida alcoólica. Indaguem deles, e responderão, com toda a sinceridade, que desejariam ser abstêmios, que lhes aborrece a bebida, mas que são irresistivelmente impelidos a beber, apesar de sua vontade, apesar de saberem o mal que isso lhes faz.

Assim, também, certos criminosos cometem delitos, contra a vontade, e quando se pergunta por que agiram dessa maneira, respondem:

"Não pude conter-me, aquilo me dava ímpetos, era mais forte do que eu".

O ébrio e o criminoso dizem a verdade; eles são forçados a fazer o que fazem, pela simples razão de cuidarem que não se podem conter.

Assim, nós que somos orgulhosos da nossa vontade, que acreditamos fazer, livremente, aquilo que fazemos, não passamos, na realidade de pobres bonecos, dos quais a nossa imaginação empunha todos os fios. Não deixaremos de ser esses bonecos, enquanto não a soubermos dirigir.

Sugestão e auto-sugestão

De acordo com o que precede, pudemos comparar a imaginação a uma correnteza que arrasta, fatalmente, o infeliz que se deixa apanhar por ela, apesar de sua vontade de alcançar a margem. Esta correnteza parece invencível; todavia a pessoa sabendo fazê-lo, a desviará do seu curso, conduzi-la-á a uma usina e aí transformará a sua força em movimento, em calor, em eletricidade.

Se esta comparação não lhes parece suficiente, comparemos a imaginação a um cavalo selvagem que não tem cabresto, nem rédea. Que pode fazer o cavaleiro que o monta, senão deixar-se levar aonde o cavalo o quiser conduzir? E, se o cavalo se enfurece, como muitas vezes sucede, é num fosso que vai terminar a corrida. Se o cavaleiro põe a rédea nesse cavalo, os papéis mudam. Não é mais ele que vai aonde o cavalo quer, e sim o cavalo que segue o caminho que o cavaleiro deseja.

Agora, que já explicamos a força enorme do ser inconsciente ou imaginativo, vou lhes mostrar que este ser, considerado como indomável, pode ser tão facilmente domado quanto uma correnteza ou um cavalo selvagem.

Mas, antes de prosseguir, é necessário definir, cuidadosamente, duas palavras freqüentemente empregadas sem que sejam bem compreendidas. São as palavras sugestão e auto-sugestão.

O que é, então, a sugestão? Pode-se defini-la: "a ação de impor uma idéia ao cérebro de outra pessoa".

Esta ação existe, realmente?

Propriamente falando, não. A sugestão, por si mesma, não existe, ela não existe e não pode existir senão sob a condição de se transformar, no indivíduo, em auto-sugestão. E esta palavra assim se define: "implantação de uma idéia em si mesmo por si mesmo".

Podem sugerir alguma coisa a alguém; se o inconsciente deste não aceitou esta sugestão, se ele não a digeriu, por assim dizer, a fim de transformá-la, em auto-sugestão, ela não produz nenhum efeito.

Acontece-me, algumas vezes, sugerir qualquer coisa mais ou menos banal a pessoas ordinariamente muito obedientes, e minha sugestão falhar.

A razão disto é que o inconsciente dessas pessoas se recusou a aceitar a minha sugestão e não a transformou em auto-sugestão.

Emprego da auto-sugestão

Volto ao ponto onde dizia que podemos domar e dirigir a nossa imaginação, como se doma uma correnteza ou um cavalo bravo. Para tal, basta saber, primeiramente, que isso é possível (o que quase todo mundo ignora), e, em seguida, conhecer o meio. Pois bem, esse meio é muito simples; é aquele que sem o querermos, sem o sabermos, de maneira absolutamente inconsciente de nossa parte, empregamos todos os dias desde que viemos ao mundo, mas que, infelizmente para nós, empregamos quase sempre mal, para nosso maior dano. Este meio é a auto-sugestão.

Enquanto, habitualmente, a gente se auto-sugestiona inconscientemente, seria bastante auto-sugestionar-se conscientemente, cujo processo consiste nisto: "primeiro meditar convenientemente sobre as coisas que devem ser o objeto da auto-sugestão e, conforme esta responda sim ou não, repetir muitas vezes, sem pensar noutra coisa: "Isto acontece ou isto não acontece; isto vai ser ou isto não vai ser etc., etc., e, se o inconsciente aceita esta sugestão, se ele se auto-sugestiona, veremos nisso as coisas se realizarem ponto por ponto.

Assim entendida, a auto-sugestão não é outra coisa senão o hipnotismo tal como o compreendo e o defino por estas simples palavras: influência sobre o ser psíquico e o ser físico do homem.

Ora, esta ação é inegável e, sem voltar aos exemplos precedentes, citarei ainda alguns outros.

Se alguém se persuadir de que pode fazer alguma coisa qualquer, contanto que ela seja possível, esse alguém a fará ainda que seja difícil fazê-la. Se, ao contrário, as pessoas crêem que não podem fazer a coisa mais simples do mundo, torna-se para elas impossível fazê-la, e, nesta ordem, os montinhos de areia que as toupeiras erguem são, para essas pessoas, como intransponíveis montanhas.

Tal é o caso dos ansiosos que, acreditando-se incapazes do menor esforço, freqüentemente se encontram na impossibilidade de dar alguns passos apenas, logo se sentindo extremamente cansados. E estes menos ansiosos, quando se esforçam para sair de sua tristeza, mais e mais nela se entranham, à semelhança daquele que se atola e se afunda no pântano, tanto mais depressa quanto maiores são os esforços que faz para se salvar.

Do mesmo modo, basta pensar que uma dor vai passar, para sentir que realmente esta dor desaparece, pouco a pouco, e, inversamente, é bastante pensar que se sofre para que imediatamente se sinta chegar o sofrimento.

Conheço certas pessoas que prognosticam que, determinado dia, vão sentir dor de cabeça, predizendo em que circunstâncias, e, de fato, no dia assinalado, circunstâncias anunciadas, sentem essa dor de cabeça. Essas pessoas mesmas causam o seu mal, assim como outras se curam a si próprias pela auto-sugestão consciente.

Sei que, geralmente, a gente passa por sonhadores, diante de pessoas, quando se ousa emitir idéias que não estão habituadas a ouvir. Pois bem, arriscando-me a passar por tais, dir-lhes-ei que, se certas pessoas são, psíquica e fisicamente doentes, é porque imaginam estar doentes, seja mentalmente, seja fisicamente; se algumas pessoas são paralíticas, sem terem lesão alguma, é que imaginam estar paralíticas, e é entre estas pessoas que se dão as curas mais extraordinárias.

Se alguns são felizes ou infelizes, é porque imaginam ser felizes ou infelizes, porquanto entre duas pessoas colocadas exatamente nas mesmas condições, uma pode se julgar perfeitamente feliz e a outra absolutamente infeliz.

A ansiedade, a gagueira, as fobias, a cleptomania, certas paralisias etc., não são outra coisa senão o resultado da ação do inconsciente sobre o ser físico ou mental.

Mas, se o nosso inconsciente é a fonte de muitos de nossos males, também pode trazer a cura das nossas doenças psíquicas e físicas. Ele pode, não somente reparar o mal que nos fez, como também curar as doenças reais, tão grande é a sua ação sobre o nosso organismo.

Isole-se uma pessoa em um quarto, sente-se numa poltrona, feche os olhos para evitar distração e pense unicamente durante alguns instantes: "Tal coisa está para desaparecer", "tal coisa vai acontecer".

Se, foi, realmente, feita a auto-sugestão, isto é, se seu inconsciente aceitou a sua idéia, com grande admiração sua verá realizar-se aquilo em que havia pensado. (Note-se que as idéias auto-sugestionadas têm a propriedade de existir em nós sem o sabermos, de cuja existência só podemos ter conhecimento pelos efeitos que essas idéias produzem). Mas, sobretudo, e esta recomendação é essencial, a vontade não deve intervir na prática da auto-sugestão; porque, se ela não está de acordo com a imaginação, se a gente pensa: "quero que tal coisa aconteça", e a imaginação diz: "tu queres, mas isso não sucederá", não somente não se consegue o que se quer, mas ainda se obtém exatamente o contrário.

Esta observação é capital, e explica por que os resultados são tão pouco satisfatórios quando, no tratamento das afecções mentais, se fazem esforços para reeducar a vontade. É a imaginação que é preciso educar, pois, graças à delicada divergência entre esta e aquela, o meu método teve sucesso onde outros, e não poucos fracassaram.

Das numerosas experiências que faço, diariamente, desde há muitos anos, observadas por mim, com atencioso cuidado, pude tirar as condições que se seguem e que resumi em forma de lei:

1.º – Quando a vontade e a imaginação estão em luta, é sempre a imaginação a vencedora, sem exceção alguma;

2.º – No conflito entre a vontade e a imaginação, a força da imaginação está na razão direta do quadrado da vontade;

3.º – Quando a vontade e a imaginação estão de acordo, uma não se ajusta à outra, mas uma se multiplica pela outra;

4.º – A imaginação pode ser governada.

(As expressões "na razão direta do quadrado da vontade" e "se multiplicam" não são rigorosamente exatas. São simplesmente imagens destinadas a fazer compreender o meu pensamento.)

Consoante o que acabo de dizer parece que ninguém deveria jamais ter adoecido. Isto é verdade. Toda doença, quase sem exceção, pode ceder à auto-sugestão, por mais ousada e inverossímil que possa parecer a minha afirmação. Não digo, cede sempre, digo pode ceder, o que é diferente.

Mas para fazer com que as pessoas pratiquem a auto-sugestão consciente, é preciso ensinar-lhes como fazê-lo, do mesmo modo que se faz para lhes ensinar a ler ou escrever, ou para que elas aprendam música etc.

A auto-sugestão é um instrumento que trazemos conosco ao nascer e com o qual brincamos inconscientemente toda a nossa vida, como um menino brinca com seu maracá. Mas é um instrumento perigoso; pode ferir, matar mesmo, se o manejarem imprudentemente, inconscientemente. Ao contrário, salva quando o souberem empregar de maneira consciente. Pode-se dizer dele o que da língua dizia Esopo: "É a melhor e, ao mesmo tempo, a pior coisa do mundo".

Vou explicar-lhes, agora, como se pode fazer para que todo mundo experimente a ação benéfica da auto-sugestão, aplicada de um modo consciente.

Dizendo "todo mundo", exagero um pouco, porque há duas classes de pessoas nas quais é difícil provocar a auto-sugestão consciente:

1.º – Os deficientes, incapazes de compreender o se lhes diz;

2.º – As pessoas que não querem aprender.

Como ensinar ao indivíduo a auto-sugestionar-se

O princípio deste método se resume, pouco mais ou menos, nestas palavras: Só se pode pensar em uma coisa de cada vez, isto é, duas idéias podem se justapor, mas não se podem sobrepor em nosso espírito.

Todo pensamento que preocupa inteiramente o nosso espírito, torna-se verdadeiro para nós e possui uma tendência para transformar-se em ato.

Portanto, se conseguirmos fazer crer a um doente que vai acabar seu sofrimento, este de fato desaparecerá; a um cleptômano que não furtará mais, ele não mais furtará etc.

Modo de fazer a sugestão consciente

Diz-se ao indivíduo: "Sente-se e feche os olhos. Não quero tentar fazê-lo dormir. É inútil. Peço que feche os olhos, simplesmente para que a sua atenção não seja desviada para os objetos que lhe dão na vista. Agora, diga bem direito, que todas as palavras que vou pronunciar vão fixar-se no seu cérebro, imprimir-se, gravar-se, incrustar-se nele; que é preciso que elas fiquem sempre fixadas, impressas, incrustadas e que, sem o senhor querer e sem o saber, de uma maneira completamente inconsciente de sua parte, o seu organismo e o senhor mesmo deverão obedecer-lhes. Digo-lhe, em primeiro lugar, que diariamente, três vezes por dia, de manhã, ao meio dia e à noite, à hora das refeições, o senhor terá fome, isto é, sentirá esta sensação agradável que faz pensar e dizer: "Oh! Vou comer com prazer!"

Com efeito, comerá com prazer, sem, entretanto, comer demais. Comerá moderadamente e o suficiente para deixá-lo no peso ideal. Terá, porém, cuidado de mastigar demoradamente os seus alimentos, para transformá-los em uma pasta bem mole, antes de engolir. Nestas condições, fará bem a digestão, e não sentirá nem no estômago, nem nos intestinos, nenhum sofrimento, nenhum incômodo e dor nenhuma qualquer que seja a sua natureza. A assimilação se fará bem e o seu organismo aproveitará todos os seus alimentos, para produzir sangue, músculo, força, energia, numa palavra: VIDA.

"Visto que a digestão vai ser bem feita, a função da excreção dar-se-á normalmente".

"Ademais, todas as noites, a partir do momento em que quiser dormir, até ao momento em que desejar levantar-se, na manhã seguinte, dormirá um sono profundo, calmo, tranqüilo, durante o qual não terá pesadelos, e quando acordar, sentir-se-á com saúde, todo alegre e bem disposto".

"De outro lado, se lhe acontece, por vezes, estar triste, pensativo, ter aborrecimentos, ter pensamentos tétricos, de agora em diante não acontecerá mais. Em vez de ficar triste, melancólico, em vez de ter angústias, aborrecimentos, idéias tristes, vai ter alegria, muita alegria, sem motivo algum, talvez, mas tê-la-á, como lhe poderia acontecer ter tristezas sem motivos. Direi mais: mesmo que tenha motivos verdadeiros, motivos reais para se aborrecer e ter tristezas, não se aborrecerá, nem terá tristezas".

"Se lhe acontece, às vezes, ter gestos de impaciência, ou de raiva, estes gestos não os terá mais. Ao contrário, há de ser sempre paciente, sempre senhor de si mesmo, e as coisas que o aborreciam, provocavam, irritavam, doravante o deixarão absolutamente indiferente e calmo, muito calmo".

"Se algumas vezes é assaltado, perseguido, dominado por idéias más, que lhe são prejudiciais, e por temores, medos, fobias, tentações, rancores, sei que tudo isso se afasta, pouco a pouco dos olhos da sua imaginação, e parece desfazer-se, perder-se numa nuvem longínqua. Como um sonho que desaparece ao acordar assim ir-se-ão todas as imagens vãs".

"Digo-lhe mais que todos os seus órgãos funcionam bem: o coração bate normalmente e a circulação do sangue se faz como deve ser; os pulmões funcionam bem; o estômago, os intestinos, o fígado, a vesícula biliar, os rins, a bexiga, nada têm de anormal. Se, dentre eles, algum presentemente funciona com anormalidade, esta anomalia desaparecerá aos poucos, cada dia, de sorte que, brevemente, desaparecerá por completo, voltando esse órgão a funcionar normalmente".

"Além disso, se existe alguma lesão num deles, irá cicatrizando dia a dia, sarando com rapidez." (A propósito, devo dizer que não é preciso saber qual o órgão afetado, para curá-lo. Sob a influência da auto-sugestão: "todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor", o Inconsciente exerce a sua ação sobre esse órgão, que ele mesmo não sabe distinguir).

"Acrescento ainda isto, que é uma coisa extremamente importante: se até o presente se sentiu com certa desconfiança em si, digo-lhe que esta desconfiança desaparece aos poucos para, ao contrário, se transformar em confiança em si mesmo, fundada nesta força de um poder incalculável que existe em cada um de nós. Esta confiança é absolutamente indispensável ao ser humano. Sem a confiança em si mesmo, jamais se obtém coisa alguma, ao passo que com ela, pode-se conseguir tudo. (No domínio das coisas razoáveis, bem entendido). Tenha, pois, confiança em si mesmo, que se convencerá de que é capaz de fazer não somente bem, mas ainda com perfeição, todas as coisas que deseja fazer, sob a condição de que sejam razoáveis e também tudo aquilo que seja de seu dever".

"Portanto, quando desejar fazer alguma coisa razoável, quando tiver de fazer uma coisa que é de seu dever fazer, pense bem que esta coisa é fácil de fazer. As palavras difícil, impossível, não posso, está acima das minhas forças, não posso evitar, devem ser canceladas do seu vocabulário. Elas não existem em nossa língua. Existem, sim, as palavras: é fácil e eu posso. Considerando a coisa fácil de fazer, ela se torna fácil, ao passo que para outros parece difícil. O senhor a faz depressa e bem, sem se cansar, porque a faz sem esforço. Se, porém, a considerasse difícil ou impossível de fazer, ela o seria unicamente porque assim a considerou".

"Por fim, sei que tanto no ponto de vista mental como no físico, o senhor goza de boa saúde, melhor do que a que até hoje pôde gozar. Agora vou contar até "três", e quando eu disser "três", o senhor abrirá os olhos, saindo do estado em que se encontra, bem tranqüilamente, sem entorpecimentos, sem fadigas de espécie alguma, mas, ao contrário, sentindo-se forte, alerta, disposto, com vigor, cheio de vida. Além disso, sentir-se-á alegre, bem alegre e bem de saúde em todos os pontos de vista. Um, dois, três".

Como se deve praticar a auto-sugestão consciente

Todas as manhãs, ao acordar, e todas as noites, logo ao deitar, fechar os olhos e, sem fixar a atenção ao que se diz, proferir em voz bastante alta, a fim de ouvir as próprias palavras, esta frase, repetindo-a vinte vezes, tendo para isso um cordão com vinte nós: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor". Como as palavras "sob todos os pontos de vista" abrangem tudo, é inútil fazer auto-sugestão para determinados casos.

Esta auto-sugestão deve ser feita da maneira mais simples, mais infantil, mais maquinal possível, portanto, sem o menor esforço. Numa palavra, a fórmula deve ser repetida no tom em que se rezam as ladainhas.

Assim, consegue-se introduzi-la mecanicamente no inconsciente, pelo ouvido e, logo que nele penetra, ela age. A pessoa deve seguir esse método durante toda vida, porquanto é não só curativo como também preventivo.

Ademais, cada vez que, durante o dia ou durante a noite, se tem um sofrimento físico ou psíquico, a gente deve apegar-se imediatamente a si mesma, no propósito de não contribuir conscientemente para esse mal, e para fazê-lo desaparecer. A pessoa deve-se isolar o máximo possível, fechar os olhos e, passando a mão pela fronte ou pelo local dolorido, conforme se trate de uma dor psíquica ou física, repetir rapidamente estas palavras: "isto passa, isto passa etc., etc.", durante o tempo que for preciso.

Com um pouco de hábito, consegue-se fazer desaparecer a dor, no espaço de 20 a 25 segundos. Deve-se repetir isso a cada vez que for necessário.

Portanto, é fácil desempenhar o papel de sugestionador. Não será um mestre que ordena, mas um amigo, um guia que conduz, passo a passo, o enfermo no caminho da cura. Como todas essas sugestões se dão no interesse do cliente o inconsciente deste as procura assimilar e transformá-las em auto-sugestões. Quando se dá a auto-sugestão, a cura se realiza com mais ou menos rapidez.

A prática da auto-sugestão não dispensa o tratamento médico, mas é um precioso auxiliar para o doente e para o médico.

Superioridade do método

Este método dá, absolutamente, maravilhosos resultados.

Efetivamente, procedendo-se como aconselho, não se falhará nunca, a não ser com as espécies de pessoas que falei atrás e que, felizmente, representam pequena parcela do povo.

Se, ao contrário, se experimenta agir da primeira vez sobre o paciente, sem explicações, poder-se-á obter resultado, mas somente sobre pessoas extremamente sensíveis. Estas, porém, existem em pequeno número.

Outrora, parecendo-me que a sugestão não podia agir bem senão durante o sono, procurava sempre fazer dormir o meu paciente; mas, tendo constatado que isto era dispensável deixei de fazê-lo para poupar ao paciente o temor que sente, quase sempre, quando lhe dizemos que o vamos fazer dormir, temor este que, muitas vezes, sem que ele o queira, faz resistir ao sono. Se, ao contrário, lhe dissermos que não queremos fazê-lo adormecer, porque isso é absolutamente inútil, ganhamos-lhe a confiança e ele houve o que lhe dizemos, sem receio algum, sem nenhuma segunda intenção, acontecendo, freqüentemente, quando não à primeira vez, pelo monótono da voz, ficar cheio de admiração por ter adormecido.

Se entre os senhores há incrédulos, e sei que os há, dir-lhes-ei, simplesmente, que venham ter comigo para verem e se convencerem, à vista dos fatos.

Não pensem, entretanto, que seja necessário agir da maneira que acabo de expor, para empregar a sugestão e determinar a auto-sugestão.

Pode-se fazer a sugestão em pessoas sem elas o saberem, e sem preparação alguma. Se um clínico, por exemplo, que, pela sua autoridade profissional, já tem força sugestiva sobre o cliente, lhe diz que nada pode fazer por ele, porque a sua moléstia é incurável, provoca no espírito do paciente uma auto-sugestão que lhe poderá ter conseqüências bem funestas. Se, ao contrário, lhe diz que a doença é realmente grave, mas que com tratamento, tempo e paciência virá a cura, algumas ou muitas vezes mesmo, poderá conseguir resultados que lhe causarão admiração.

Outro exemplo: se um clínico, depois de haver examinado seu cliente, passa-lhe uma receita e lhe entrega sem explicação alguma, os remédios prescritos têm pouca probabilidade de produzir efeito. Mas, se explica ao doente se este ou aquele remédio deve ser tomado em tais e tais condições e que produzirão tais e tais efeitos, quase sempre se verificam os resultados preditos.

Se, entre os que me lêem, há clínicos, peço que não me julguem seu inimigo, pois, ao contrário, sou seu melhor amigo. De uma parte, desejaria ver no programa das faculdades de medicina e psicologia, o estudo teórico e prático da sugestão, para maior benefício dos doentes e dos próprios clínicos; de outra parte, espero que, cada vez que um doente vá procurar um profissional, este lhe receite um ou mais remédios, mesmo que não sejam necessários. Com efeito, o doente, quando procura o clínico, quer que ele lhe indique o remédio que o porá bom. Ignora, as mais das vezes, que é a higiene e o regime que atuam e a isto liga pouca importância. O que lhe é necessário é um remédio.

Parece-me, portanto, que o clínico deve sempre receitar remédios ao seu enfermo e, quando possível, evitar as receitas de remédios especializados, dos quais se fazem grandes reclamos, e que, na maior parte, só valem pelo efeito da propaganda.

Ação da sugestão

Para bem se compreender o papel da sugestão ou da auto-sugestão, basta saber que o inconsciente é o "dirigente mor de todas as nossas funções". Façamos-lhe crer que tal órgão que não funciona bem, deverá funcionar bem. Instantaneamente o inconsciente lhe ordena e o órgão, obedecendo submissamente, inicia a recuperação de sua função normal, imediatamente.

Isto nos dá o direito de explicar, de uma maneira simples e clara como, pela sugestão, pode-se suster as hemorragias, debelar a prisão de ventre, extinguir os fibromas, curar as paralisias, as lesões tuberculosas, as feridas varicosas etc.

Tomo, como exemplo, um caso de hemorragia dentária, que pude observar. Uma mocinha, a quem ajudei a curar-se de uma asma que lhe durou oito anos, me disse um dia que queria extrair um dente. Sabendo-a muito sensível, ofereci-me para mandar arrancar o dente, sem dor. Naturalmente, ela aceitou com prazer, e marcamos a hora com o dentista.

No dia combinado, fomos ao seu consultório. Colocando-me em frente à moça, disse-lhe: "A senhorita não sente nada, a senhorita não sente nada etc. …". E, enquanto continuava a minha sugestão, fiz sinal ao dentista. Um momento depois, o dente estava arrancado sem que a senhorita D. tivesse sentido qualquer dor. Como freqüentemente acontece, sobreveio uma hemorragia. Ao invés de aplicar um hemostático qualquer, disse ao dentista que iria experimentar a sugestão, sem saber de antemão o que resultaria. Então, pedi à senhorita D. que me olhasse e sugeri-lhe que, dentro de dois minutos, a hemorragia cederia, por si mesma; e ficamos aguardando o resultado. A jovem expeliu ainda alguma saliva sanguinolenta e mais nada. Disse-lhe que abrisse a boca, olhamos e constatamos que o sangue coagulara na cavidade dentária.

Como explicar este fenômeno? Muito simplesmente: sob a influência da idéia "a hemorragia deve parar", o inconsciente transmitiu, às pequenas artérias e pequenas veias, ordem para não deixar escapar sangue, e elas, com brandura, se foram contraindo naturalmente, como o fariam artificialmente, ao contato de um hemostático como, por exemplo, a adrenalina.

É raciocinando do mesmo modo, que nos é dado compreender como pode desaparecer um fibroma. O inconsciente, aceitando a idéia "o fibroma deve desaparecer", o cérebro ordena às artérias que o nutrem, que se contraiam; elas se contraem, recusam o seu auxílio, não alimentam mais o fibroma e este, privado daquele alimento, morre, seca, reabsorve-se e desaparece.

Emprego da auto-sugestão na cura dos transtornos mentais e das anomalias inatas ou adquiridas

A ansiedade, tão comum nos nossos dias, geralmente cede à sugestão praticada, freqüentemente, do modo como exponho. Tive a felicidade de contribuir para a cura de numerosos ansiosos, para os quais falharam todos os tratamentos. Um deles até passara um mês num estabelecimento especial, sem conseguir melhorar. Em seis semanas, ficou completamente bom e sente-se, agora, o homem mais feliz do mundo, após ter se considerado o mais infeliz. E nunca mais recairá na sua moléstia, porque lhe ensinei a aplicar, a si próprio a auto-sugestão consciente, e ele a sabe fazer maravilhosamente.

Mas, se a auto-sugestão é útil no tratamento dos transtornos mentais e físicos, quantos serviços ainda maiores não podem prestar à sociedade, transformando em pessoas honestas as crianças que povoam as casas de correção e que de lá saem para entrar mais fundo no crime?

Não me digam que isto é impossível. É possível e posso fornecer-lhes a prova.


O que digo

Já expliquei a minha teoria da auto-sugestão consciente e também a aplicação do meu método. Com certeza, as minhas explicações foram claras, porquanto muitas pessoas, somente com a leitura dessa apostila, conseguiram curar-se de moléstias, muitas vezes graves, de que não puderam melhorar fazendo outro qualquer tratamento.

Entretanto, para me fazer melhor compreender, resolvi apresentar minhas idéias de outra forma, ainda mais clara. Foi por isso que reuni, nesta parte, tudo o que disse no curso das minhas conferências, dando as razões que me levaram a aconselhar a prática da auto-sugestão, da maneira como indico.

Ademais, as considerações que faço sobre o inconsciente permitem a fácil compreensão do mecanismo pelo qual ele atinge os seus fins.

Os homens foram sempre, em todos os tempos, amantes das coisas misteriosas e sobrenaturais. Quando assistem a um fato, com o qual não estão familiarizados, e não o compreendem, atribuem-no logo a uma causa sobrenatural, até o momento em que descobrem a lei que o determinou.

Houve, e ainda há, desde os tempos mais remotos, pessoas que curavam, ou antes, pseudo-médicos que, por meio de gestos e imposições das mãos, com palavras e cerimônias mais ou menos impressionantes, muitas vezes conseguiam curas instantâneas, causando aos assistentes uma espécie de admiração entusiástica ou temerosa, porque tais fatos, para certas pessoas, eram obras do Espírito maligno.

Na Grécia antiga, enfermos costurados dentro duma pele de animal recém-morto, passavam a noite nos degraus do templo de Atenéia e, muitas vezes amanheciam curados.

Com a imposição das mãos, apenas, os reis de França faziam desaparecer as escrófulas. A celha de Mesmer extinguia os males daqueles que seguravam uma das correntes nela mergulhada; e o zuavo Jacó obtinha resultados inegáveis, com a suposta projeção do seu fluido. Atualmente, as associações Christian Science e Novo Pensamento têm conseguido resultados idênticos, pelos processos magnéticos, pelo hipnotismo etc.

Essas curas, para a maioria das pessoas, são cheias de mistérios, e derivam de uma força particular da qual são dotados aqueles que as operam, quando as devemos atribuir a uma força inteiramente natural, obedecendo a leis, de que mais adiante trataremos.

Não quero que me tomem, como muitas vezes acontece, por uma pessoa que cura doentes, um operador de milagres, que tem à sua disposição todas as forças ocultas e tudo pode, mesmo e principalmente o impossível.

Para vos dar apenas uma idéia do juízo que de mim fazem certas pessoas, citar-vos-ei alguns pedidos, que me são feitos com muita freqüência.

Certa ocasião escreveu-me uma senhora, dizendo: "Senhor, meu marido não pode mais suportar-me. Poderia o senhor conseguir torná-lo mais paciente?" Outra me escreveu o seguinte: "Senhor, meu filho arranjou uma amizade má. Poderia o senhor descobrir um meio de desfazê-la?" Uma terceira dirigiu-me uma carta, nestes termos imperativos: "Senhor, estou doente, curai-me! (sem assinatura)".

Outra, ainda, comunica-me que uma vizinha rogou praga sobre a sua casa, e me pede para conjurar essa maldição. Enfim, diz-me a última: "Meu senhorio quer aumentar o aluguel. Poderia o senhor impedi-lo?"

Pois bem, se, dentre vocês, alguns me querem dar a honra de considerar-me capaz de realizar coisas tais como essas que me foram solicitadas, rogo-lhes que abandonem tal suposição, por ser inteiramente falsa. Não somente não curo, nem faço milagres, como também não sou feiticeiro, nem tenho o poder especial de que me supõem dotado.

Sou, apenas, um homem, se o quiserem um homem capaz, mas um homem como os outros homens, cuja função não é de curar, mas, simplesmente, a de ensinar às pessoas o que elas podem fazer, a fim de se ajudarem a si próprias, a fim de elas mesmas, conseguirem suas melhorias e se curar por si mesmas, se a cura for possível.

Lavo as mãos, quanto aos resultados que possam obter. O benefício do sucesso, assim como a responsabilidade do insucesso, fica a cargo dessas pessoas, porquanto um e outro dependem, exclusivamente, delas.

Devo ser comparado ao professor que ensina aos seus alunos as matérias necessárias para se submeterem ao exame, que lhes permitirão obter o grau de bacharel, mas que não poderá fazer por eles esse exame.

Por dois motivos devem acreditar no que lhes digo: O primeiro é que lhes falo a verdade; o segundo é que o seu interesse exige que me acredite.

Suponhamos, um instante, que eu tenha o dom de curar. Embora duvidando, admito que por estar em minha presença, eu tenha certa influência sobre você. Mas, por outro lado, deve admitir que, quando me tiver deixado, quando se achar na rua, ou de volta a Londres, a Nova Iorque, a Chicago, não poderei ter mais essa influência. Se você adoecer, então, sentir-se-á perdido.

De minha parte, diminuo a sua personalidade, deixo crer que depende de mim e não de si mesmo.

Se, ao contrário, demonstro-lhe que o poder que me atribui não está em mim, mas em si, e lhes ensino como aproveitá-lo, terá a possibilidade de utilizá-lo e de conseguir, por si mesmo, a melhoria ou a cura, em qualquer parte do mundo, onde se encontrar.

Nesse caso, aumento a sua personalidade, visto que lhes ensino a depender de si mesmos, e não de outra pessoa.

Contudo, não me acredita ainda.

A maioria de vocês responderá. "É inútil insistir. É graças à sua influência que nós nos curamos". Como acontece, então, que me venham, às mãos, quase todos os dias, cartas de pessoas, que nunca vi, agradecendo-me por se terem curado somente em observar os conselhos que dou. Melhor será saber o que elas dizem:

Primeira carta: Tive a grande felicidade de receber a sua carta de 13 de maio, e as apostilas que a acompanharam, as quais achei muito interessantes.

Há cerca de quarenta anos, um médico aconselhou-me operar as varizes da perna ou, pelo menos, usar meias elásticas. Desde há seis meses, entretanto, que ponho em prática o seu método, e noto que elas já desapareceram. Considerando-se os meus setenta anos de idade, esse resultado não é mau.

É verdade que, quando comecei a pôr em prática os seus conselhos, não contava com esse efeito. Ademais, sinto-me capaz de jogar as minhas duas partidas de golfe, diariamente.

W. J. …, Sydney (Austrália)

Segunda carta: Prosseguem os maravilhosos resultados produzidos pelo seu método. Estou convencido de que não poderia ser de outro modo.

Deve se lembrar que comecei a notar esse efeito, no espaço de tempo decorrido depois de uma semana a um mês e meio. Naturalmente, terá o prazer de reler que eu sofria de faringite, de insônia, de enterite e, para servir de companhia a esse lindo trio, uma grande depressão psíquica. Lembro-lhe, ainda, que obtive esses resultados, apenas com estudo do seu método, sem jamais tê-lo visto, nem assistido a nenhum trabalho de sugestão.

Atualmente, para me conservar num bom caminho, basta-me repetir, sem esforço, à tarde, de noite e pela manhã, a sua famosa fórmula. É simples. Fiz duas pessoas interessarem-se pelo método, sendo uma delas o médico que me tratou da última crise de enterite. Ele está admirado da mudança que se efetuou em mim, e intenciona ir assistir aos seus trabalhos.

Melhor ainda fiz, auxiliando minha mãe a curar-se de um reumatismo, no verão passado, quando veio para junto de mim.

Minha pobre mãe se arrastava, mancando de uma perna, muito inchada do joelho ao tornozelo. Meia hora de palestra sobre a existência do inconsciente e seu prodigioso poder, a experiência das mãos cruzadas e minha afirmação de que ela ia andar com facilidade, foi o suficiente.

Conforme eu havia previsto, caminhou bem, correu e, desde então, não mais coxeou. Uma semana depois, o edema já estava bem diminuído.

Restava-lhe ainda outra ferida, uma crista bem grande na arcada superciliar direita, em conseqüência de uma mordida de mosquito, há seis ou sete anos. Várias pomadas, receitadas pelo médico, não lhe impediram o desenvolvimento. Da minha parte, fiz algumas sugestões e ela mesma se fez outras. No espaço de cinco semanas, tudo desapareceu, sem deixar vestígio de espécie alguma.

Eis aí, quanto se pode fazer em benefício próprio e no de outros, quando a gente compreende, perfeitamente, o método.

Terceira carta: Devo ao seu método a sorte de encontrar-me, finalmente, livre das enxaquecas, que me atormentavam, há vinte anos, para as quais havia tentado vários tratamentos e consultado inúmeros médicos, não só em França como no estrangeiro.

S. A. …, Atenas

Por estes bem numerosos casos, pode-se concluir que não se trata de uma ação pessoal de minha parte. A influência, que tenho sobre vocês, é o que chamo uma força virtual, existindo, apenas, no seu espírito. Minha influência é tão somente aquela que cada um de vocês me concedeu.

Admitamos, por um momento, que eu tenha uma força qualquer e que esta força medida, digamos, no dinamômetro, representasse 100; minha força, sobre cada um de vocês, portanto, seria 100.

Será, realmente, isso mesmo? Absolutamente, não.

Exerci uma influência 0 sobre um, uma influência 10 sobre outro e, sobre outros mais, uma influência 100, 200, 1.000, até mesmo um milhão, e mais ainda, consoante a idéia que cada pessoa fizer dessa influência.

Como se pode ver na realidade ela não existe; é apenas, o produto da imaginação de cada um.

Compreenderá melhor, com um exemplo. Suponhamos que esteja passeando por uma avenida, em companhia de um amigo; tira um cigarro da cigarreira e, ao querer acendê-lo, verifica que nem você nem seu amigo têm fósforos. Daí passa um senhor, fumando, tranqüilamente, um charuto. Aproxima-se dele e lhe pede fogo. O cavalheiro, muito gentilmente, apresenta a ponta acesa do charuto, na qual acende o cigarro. Ao voltar para junto do seu amigo, este lhe diz:

"Sabe quem é aquele senhor?" "Não, por que?" Pois bem, é o rei de…" "Não é possível" Mas é possível tanto quanto exato.

Agora que sabe quem é esse cavalheiro, porventura iria, novamente, pedir-lhe fogo? Não! Não me atreverei mais. Por que? Porque essa pessoa tem agora, sobre você, uma influência que, anteriormente, não tinha, derivada não dela, propriamente, mas tão somente do seu título e de sua posição social. Portanto, você mesmo criou essa influência, sem se aperceber.

Que é preciso, então, fazer para melhorar e curar-se a si mesmo?

Para isto, basta apenas, aprender a utilizar, bem e conscientemente, um instrumento que cada um de nós possui desde o nascimento, usa-o desde logo e continua usando-o toda a vida, sem o saber, até o momento de expirar. Este instrumento não é outra coisa senão a auto-sugestão, que se pode definir assim: é a ação de impor a si mesmo uma idéia no espírito.

Sucede-nos com a auto-sugestão, o mesmo que ao escritor, com relação à prosa. Ele admirou-se muito, quando, depois de ultrapassar os cinqüenta anos de idade, o seu professor de francês lhe disse que já fazia prosa quando começava a balbuciar estas palavras: "Papá, mamã", e que ainda o fazia quando dizia: "Linda marquesa, os vossos olhos me fazem morrer de amor".

O mesmo acontece consigo, quando lhes afirmo que pratica a auto-sugestão, desde o dia do seu nascimento e haverá de praticá-la até o seu derradeiro momento.

Para mostrar-lhes que não sou exagerado, vou dar um exemplo de um caso que, certamente, se terá passado com algum de vocês.

Suponhamos tratar-se de uma criança recém-nascida, que repousa no berço. De repente, ouvem-se uns pequenos gritos e uma das pessoas presentes, o pai, se está em casa, imediatamente, corre para a criança e a toma nos braços. Se ela não está realmente doente, ao fim de alguns instantes deixa de chorar e, novamente, a deitam no berço. Ela, porém, recomeça a chorar. Tiram-na mais uma vez e de novo se cala. Tornam a deitá-la e os gritos recomeçam. Não sei se concorda comigo, mas penso não errar dizendo que essa criança procura auto-sugestionar seus pais ou, por outra, procura enganá-los, como se diria em linguagem mais corrente.

Se efetivamente, os pais imaginam que é preciso pegar a criança, cada vez que ela chora, a fim de evitar o choro, fazem-no em conseqüência da auto-sugestão. Assim, eles se condenam a passar quinze ou dezoito meses da sua vida, com a criança nos braços, durante uma boa parte das noites; ao passo que no seu berço, ela estaria melhor, assim como os pais o estariam na cama. E a criança, por sua vez, diz consigo mesma, na linguagem que ignoramos, mas que ela compreende, perfeitamente: "Cada vez que quiser que papá ou mamã me tire do berço, basta chorar." E chora.

Se, ao contrário, deixarem-na chorar durante quinze minutos, meia hora ou mais ainda, ela, vendo que não surte efeito o choro, diz consigo, na sua linguagenzinha: "Oh! Não vale a pena chorar." E cala-se.

Como vê, desde o primeiro dia da nossa existência, começamos a sugestionar e a auto-sugestionar; e fazemo-lo noite e dia, até à hora de morrer. Nossos sonhos são auto-sugestões produzidas pelo inconsciente, como também tudo o que dizemos, tudo o que fazemos, durante o dia é determinado pelas auto-sugestões inconscientes, que só o deixarão de ser no dia em que as soubermos tornar conscientes.

A auto-sugestão é um instrumento perigoso

Entretanto, é bom saber que a auto-sugestão é um instrumento perigoso, mesmo muitíssimo perigoso. É a melhor e ao mesmo tempo, a pior coisa do mundo, consoante for bem ou mal aplicada. Quando bem empregada, dá sempre bons resultados, por vezes tão surpreendentes, que, erradamente, os temos na conta de milagres; quando mal empregada, infalivelmente dá maus resultados, muitas vezes de tal modo consideráveis, que se tornam verdadeiros desastres, não só no ponto de vista físico como no ponto de vista mental.

Mas, o que nos acontece, se se fizer uso de um instrumento perigoso, com o qual nunca lidamos? Às vezes, muito raramente, por absoluto acaso, servimo-nos dele, acertadamente; mais freqüentemente usamo-lo mal, ferindo-nos mais ou menos gravemente. A mesma coisa se verifica com a auto-sugestão. Se, porém, conseguirmos familiarizar-nos com tal instrumento, imediatamente ele deixa de ser perigoso para nós.

Portanto, em que consiste o perigo de uma coisa? Na ignorância em que nos achamos desse perigo. Uma vez que o conhecemos, ele desaparece, por isso que o evitamos.

Pois bem, o meu papel é o de ensinar-lhes a empregar bem e conscientemente este instrumento perigoso por vocês inconscientemente usado até agora, isto é, muito poucas vezes bem quase sempre mal.

Antes de dar os conselhos, devo lhes expor os princípios sobre os quais baseei o meu método, porquanto, ao contrário do que julgam certos indivíduos, que não querem compreender, este método não é nem empírico, nem infantil, mas sim, científico, porque se apóia em bases científicas e, ao mesmo tempo, baseado nas observações dos fatos.

O primeiro princípio pode ser enunciado deste modo: toda idéia que se forma no espírito, boa ou má, não somente tende a realizar-se, mas se torna ainda, para nós, uma realidade, dentro do limite do possível. Em outros termos, se a idéia é viável, ela se realiza. Se a idéia não é realizável, naturalmente não se realizará, porquanto não podemos realizar o irrealizável. Além disso, não devemos permitir-nos ter semelhantes idéias.

Suponhamos, por exemplo, que alguém tenha uma perna amputada e imagine que ela vá renascer. Subentende-se que essa perna não se renovará mais e disto temos absoluta certeza, porque é uma coisa inteiramente fora do possível.

Mas, se um indivíduo sente dores numa parte qualquer do seu corpo; se algum de seus órgãos funcionam mais ou menos imperfeitamente; se ele tem idéias tristes, pensamentos tenebrosos, lembranças obsessivas, receios, pavores, fobias, e fazendo a auto-sugestão, as dores vão pouco a pouco desaparecendo, os órgãos, de melhoria em melhoria, vão recuperando as funções normais e, igualmente, aos poucos, as idéias tristes, os pensamentos tenebrosos, as lembranças obsessivas, os

receios, os pavores, as fobias também se vão acabando, é porque essas realizações estão no domínio da possibilidade.

Assim, a idéia do sono provoca o sono, da mesma forma que a idéia da insônia produz a insônia. Como podemos, realmente, definir a pessoa que dorme à noite? A pessoa que dorme à noite é aquela que sabe que é para dormir que a gente se deita na cama. E a pessoa que não dorme à noite, que sofre de insônia habitual? A pessoa que sofre de insônia habitual é aquela que sabe que não é para dormir que a gente se deita, e que por isso não dorme mesmo. Efetivamente, todas as noites, olhando para a cama, ela pensa que vai passar, deitada nela, uma noite tão desagradável como a anterior. Assim pensando, todas às vezes, as noites, para ela, se sucedem e se assemelham, contrariamente aos dias que, segundo diz o provérbio, sucedem-se, mas não se parecem.

A idéia da crise da asma determina essa crise. Por exemplo: um asmático acorda de manhã, absolutamente satisfeito e disposto. Passou uma noite magnífica, sem ter tido necessidade de queimar, como de costume, o pó X, nem fumar cigarros Z. Como no seu quarto há pouca claridade, vai à janela e corre a cortina. Então avista, através da vidraça, uma cerração espessa como as de Londres. A expressão do seu rosto logo se transforma, a respiração foge e uma terrível crise de asma se manifesta.

Foi porventura, propriamente, a cerração que determinou esta crise? Não.

A cerração já existia, havia muito tempo, sem que causasse nenhum efeito. A crise irrompeu, somente, depois que o doente a viu, pois que, convém saber, todo asmático que se respeita há de ter a sua crise nas ocasiões de nevoeiro.

A idéia de crise emocional determina essa crise. Creio mesmo poder dizer, sem receio de errar, que à parte os epilépticos (e ainda assim), as pessoas sujeitas a convulsões só as tiveram uma verdadeira, isto é, a primeira. Todas as demais foram ocasionadas por elas próprias.

Eis como explico isso, e creio que a verdade está comigo: A primeira crise é sempre determinada por um choque físico ou mental.

Passada essa primeira crise, o doente diz infalivelmente: "Contanto que isto não me volte mais." Não sei se terá feito esta observação: cada vez que uma pessoa diz: "contanto que…", com relação a um assunto que lhe diz respeito, consegue, justamente, o contrário daquilo que deseja. Se, por exemplo, diz: "Contanto que eu durma bem esta noite, pode ter certeza de que passarei uma noite em claro. Embora lá fora esteja gelando, será obrigado a sair. Se pensa lá consigo: "Contanto que eu não caia", antes de dar quarenta passos cairá em cheio ao solo".

Nestas condições, a crise, fatalmente, se reproduzirá. Se a pessoa guarda o número de dias decorridos entre a primeira e a segunda crise, digamos uns quinze dias, dirá consigo mesma, passada esta última crise: "Contanto que isso não se repita nestes quinze dias!" No fim de quinze dias a crise reaparece, e assim, automaticamente, se repetirá duas vezes por mês, até a morte do enfermo, salvo se um acontecimento qualquer vier modificar o curso das coisas.

Se ela não guardar o número de dias que transcorrem entre as duas crises, ao terminar a segunda, dirá consigo: "Contanto que isso não se reproduza!" Naturalmente, a crise se repetirá em época não determinada: um dia, dois, uma semana, um mês depois, ou mais ainda. Em suma, essa pessoa tem uma espécie de espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça, a qual algumas vezes cai, contrariamente ao que se dava com a antiga, que se conservava, prudentemente, suspensa sobre a cabeça daquele a quem ameaçava, sem nunca se desprender.

A idéia de enxaqueca no dia do jantar para o qual foi convidada (refiro-me às senhoras), ou no dia do jantar para o qual convidou alguém, fará você ter enxaqueca no dia exato do convite; não será nem na véspera, nem no dia seguinte, que terá, mas sim, exatamente no dia marcado.

A idéia de gagueira faz a pessoa gaguejar; assim como a idéia do medo determina o medo etc.

Dirá mais, que é bastante pensar: "Estou surdo, estou cego, estou paralítico", para ser surdo, cego ou paralítico. Não quero dizer, naturalmente, que os surdos, os cegos, os paralíticos o sejam por pensarem que o são, mas existe certo número de pessoas que o são, unicamente, porque julgam sê-lo. Com essa casta de gente é que se dão os pseudo-milagres que, freqüentemente, se verificam em minha casa. Se a gente consegue convencer a essa espécie de paralíticos que eles vão andar, observa-se que o surdo ouve, o cego vê e o paralítico anda.

Não são tão raros tais casos, como se poderia imaginar, principalmente em matéria de surdez. Minha experiência, de todos os dias, demonstra-me que a metade das pessoas que não ouvem são surdas por convicção. Dentre centenas de casos, eis alguns deles:

Um dia, uma senhora inglesa vem consultar-me sobre a sua surdez.

Usava um aparelho em cada ouvido e, apesar disso (ou talvez por causa dos aparelhos!), ouvia muito mal. No dia seguinte, volta sem os tais aparelhos, ouvindo muito bem.

Está claro que se trata de um caso absolutamente psíquico. Se houvesse lesões nos ouvidos, seria materialmente impossível que, num dia, se curassem.

De outra feita, uma boa mulher do campo vem procurar-me por sofrer de enfisema. Ao chegar para a quarta sessão, diz-me: "Deu-se comigo uma coisa interessante, senhor Coué: há dezesseis anos que eu não ouvia no ouvido esquerdo, mas, ontem à noite, notei que ouvia deste ouvido tão bem como do outro." E ela continuou ouvindo.

Outro caso: Por ocasião da minha segunda viagem à América, hospedei-me em casa de um dos meus amigos e, à noite, algumas pessoas vieram ver-me. Entre elas estava uma senhora que, desde muitos anos, não ouvia, absolutamente, de um dos ouvidos. Terminada a sessão, que fiz para as pessoas presentes, essa senhora estava ouvindo muito bem.

No dia seguinte, parti de Nova Iorque a fim de fazer uma excursão, que durou cinqüenta e seis dias. De regresso, hospedei-me ainda, em casa do meu amigo e, à noite, as mesmas pessoas vieram de novo falar-me. A dama surda achava-se, naturalmente, entre elas. Fui informado de que, durante os três dias seguintes ao da minha partida, ela ouvira muito bem, mas que, do quarto dia em diante, deixara de ouvir. Assim que me dirigi a ela, novamente começou a ouvir.

De passagem por Florença, no Instituto Britânico, onde eu fazia uma conferência, encontrava-se um jovem inglês que, durante a guerra, fora ferido na cabeça. Desde o dia em que recebeu o ferimento, ficou completamente surdo do ouvido direito. Aproximando-me desse lado, fiz com que tapasse o outro ouvido com o dedo mínimo e gritei bem alto: "Está me ouvindo?" Ele respondeu: "Sim." Afastei-me um pouco e fiz a mesma coisa. Ouviu-me ainda, perfeitamente, a um metro e meio de distância, mais ou menos. Daí para mais a percepção dos sons não era mais nítida.

Recomecei, então, a experiência e, desta vez, só a três metros de distância é que deixou de me ouvir. A terceira experiência foi coroada com um completo sucesso: Ele me ouvia de qualquer distância. Tão admirado ficou com esse resultado, que não parava de repetir, levantando os braços:

"It's extraordinary, it's extraordinary etc.". Esse foi ainda um caso de surdez psíquica, provavelmente, em conseqüência de uma surdez real. É muito provável que a ferida recebida na cabeça haja determinado as lesões que causaram a surdez real. Aos poucos essas lesões sararam e a verdadeira surdez foi, progressivamente, desaparecendo. Entretanto, como o rapaz continuava se julgando surdo, era-o efetivamente. Afinal, a sua verdadeira surdez acabou completamente, ficando, porém, uma surdez psíquica, que lhe durou até o momento em que o encontrei.

Em Nancy, apresentaram-me um caso muito original de cegueira.

Veio à minha casa, sob recomendação de pessoa amiga, uma moça de 25 anos, porque estava completamente cega da vista esquerda, desde a idade de 3 anos. Esse olho não tinha a mínima sensação de sombra, nem de luz.

Imediatamente depois da sessão, essa moça pôde ver.

Naturalmente, todos os presentes viram, nessa cura, tão rápida, a realização de um milagre. Quanto a mim, procurei o segredo desse milagre e encontrei-o, desaparecendo este porque não passava de um pseudo-milagre.

Eis a explicação: A referida moça, na idade de 2 anos, sofreu uma moléstia muito grave no olho esquerdo, curando-se ao fim de um ano. Durante todo esse tempo, conservou uma venda sobre a vista esquerda, que, privada de enxergar pelo espaço de um ano, habituo-se a não ver, e guardou esse hábito até ao momento em que veio procurar-me.

Fiz-lhe a sugestão, dizendo-lhe que as lesões, que porventura tivesse, iriam pouco a pouco desaparecendo enquanto ela iria enxergando cada vez mais e, que uma vez curada dessas lesões, veria perfeitamente bem. Como não havia lesão alguma, viu imediatamente.

Sou levado a crer que, se ela não tivesse me procurado, ficaria completamente cega pela auto-sugestão. Realmente, quando me fez a sua primeira visita, comunicou-me que, no tempo em que estudava piano, quase não podia ver as notas.

Devo dizer mais que essa moça tinha um ligeiro bócio exoftálmico o qual, pelo emprego contínuo da auto-sugestão, desapareceu bem depressa.

Outro caso análogo, e não menos curioso, sucedeu com uma jovem inglesa que, há algum tempo, veio procurar-me. Quando chegou à minha casa, mal enxergava para caminhar. Logo depois da primeira sessão, pôde ver, como aconteceu com a senhorita X., não só o suficiente para dirigir os seus passos, como também o necessário para ler um jornal.

Esse pseudo-milagre explica-se com a mesma facilidade que o anterior. Oito anos antes, essa moça, tendo sofrido uma moléstia nos olhos, procurou um médico especialista. Este, sem dúvida, proferiu algumas palavras imprudentes, que a fizeram pensar que ficaria cega. O resultado desta auto-sugestão não demorou a manifestar-se e, pouco a pouco, a vista da jovem foi enfraquecendo, até o ponto, conforme acabo de vos dizer, de mal poder andar na rua. Uma sugestão idêntica à que fiz no primeiro caso citado, imediatamente operou a cura.

Em Paris, observei um caso muito notável de paralisia. Ao primeiro andar de uma casa, onde eu dava uma sessão, trouxeram-me uma mulher que, havia quinze meses, estava completamente hemiplégica. Era-lhe impossível fazer o menor movimento do lado enfermo. Logo depois da sessão, ela se levantou da cadeira e pôs-se a andar, normalmente, movendo o braço paralítico, como se nunca o tivesse deixado de mover.

É bem fácil a explicação desta cura repentina. Quinze meses antes, essa mulher sofrera, indubitavelmente, um AVC, que lhe causara uma paralisia real. Como acontece, freqüentemente, em tais casos, aos poucos as lesões foram desaparecendo, e, na mesma proporção, a paralisia verdadeira diminuía. Continuando, porém, a doente a pensar: "estou paralítica", permanecia sempre no mesmo estado. Em seguida, como as lesões foram curadas completamente, a paralisia real desapareceu, mas a pessoa, julgando sempre estar paralítica, continuava no mesmo estado em que ficou no dia do acidente.

Desde que não havia mais lesões a curar, a sugestão de que iria desaparecer a paralisia assim que as lesões também desaparecessem, trouxe um resultado súbito.

Eis ainda alguns casos de moléstias incuráveis que obtiveram melhorias em proporções inacreditáveis. O primeiro se deu com a senhora X., de Nova Iorque. Assim que chegou, remeteu-me ela uma carta do seu médico, concebida mais ou menos no seguinte teor: "Caro senhor, meus colegas e eu fizemos todo o possível para que a senhora X. conseguisse melhorar de saúde, pois sofria de Esclerose Múltipla, mas foi em vão. Espero que o senhor seja mais feliz do que nós". Essa senhora entrou em minha casa ajudada do lado esquerdo pelo marido e do lado direito apoiada numa bengala. É inútil dizer que caminhava com a maior dificuldade. No fim de quinze dias, a senhora X. podia atravessar o meu jardim sem auxílio da bengala. Apenas a sua marcha era ainda um pouco dura. Há dois anos que vem se mantendo neste estado.

O segundo caso ocorreu com uma senhora de Haarlem, a quem vi em presença do seu médico. Como no caso precedente, tratava-se de uma Esclerose Múltipla. Quando entrei no quarto dela, encontrei-a estendida num divã, do qual saía somente de noite para deitar-se na cama, de onde muito penosamente, pala manhã, ia para o divã auxiliada por duas pessoas, que a seguravam à direita e à esquerda. Rapidamente, expliquei-lhe o método e obtive, dentro de alguns minutos, que ela caminhasse de um lado para outro, apoiando-se, apenas, no meu indicador direito. Não somente pôde caminhar como também subir e descer uma escada a passos largos.

Algum tempo depois, eu recebia uma carta da mãe dela, informando-me que, no dia imediato de minha visita, a jovem senhora subira, sozinha, ao andar superior da casa, para ver o quarto dos seus filhos, onde, havia onze meses, não ia, e que, no segundo dia, descera à sala de jantar, a fim de fazer a sua refeição, em companhia dos seus pais.

Ao cabo de dois meses, a doente mesma escrevia-me para comunicar-me que continuava melhorando e tinha podido sair e fazer visitas. Mal pude reconhecê-la, este ano, por ocasião da minha segunda viagem à Holanda. À minha chegada, levantou-se para vir-me ao encontro.

Notei que o seu andar poderia ser inteiramente normal, se lhe não tivesse ficado uma pequena dureza nas pernas.

O terceiro caso é de uma ataxia num homem de 50 anos de idade. Com a maior dificuldade subiu, auxiliado pela mulher, os poucos degraus da minha escada. Havia certo tempo que os esfíncteres não funcionavam mais.

A partir da primeira sessão, os esfíncteres recomeçaram a funcionar e, aos poucos, esse homem foi ficando em condições de andar quase normalmente, a ponto de mal poder notar-se que era atáxico.

O último caso também é de ataxia, verificado antes da guerra, em um homem de cerca de 45 anos; tinha o andar habitual dos atáxicos e violentas dores de cabeça, que desapareceram bem depressa.

O andar do doente melhorou rapidamente. Ao cabo de um mês, não precisou mais servir-se da bengala e, algum tempo depois andava, facilmente, à orla de um lago assim como dava, alegremente, um passeio de uma dezena de quilômetros.

Essas melhoras, quase miraculosas, são facilmente explicadas da seguinte maneira: É preciso notar que todo doente tem duas doenças: a doença real, para a qual podemos dar o coeficiente 1, e a doença psíquica, que se enxerta na primeira, e cujo coeficiente varia de 1 a 5, 10 ou mesmo mais.

Digamos, por hipótese, que, nos casos anteriormente narrados, a doença real era representada por 1, e a doença psíquica por 9. Graças à sugestão e à auto-sugestão, a doença psíquica desapareceu mais ou menos depressa, ficando, apenas, a verdadeira moléstia, isto é, um décimo do total.

Qual a conclusão que tiramos desse primeiro princípio?

Ei-la: Se toda idéia, que temos no espírito (quero dizer no inconsciente), se torna para nós uma realidade no domínio da possibilidade e, estando doentes, trazemos no espírito a idéia de cura, esta se torna real no domínio da possibilidade, isto é, se ela é possível, realiza-se; se não é naturalmente, não se realizará. Neste último caso, porém, obter-se-á toda a melhoria humanamente possível de obter, o que já é muito vantajoso, quando a cura com freqüência é considerada sem probabilidade.

Vejamos ainda algumas cartas, que me foram dirigidas, as quais mostram o que é capaz de fazer a auto-sugestão:

Primeira carta: "Há três anos, aproximadamente, eu sofria, freqüentemente, de grandes dores de cabeça, que atribuía à má digestão. No dia em que me sentia atacada, não tomava alimento nenhum, julgando que isso me traria alívio.

Esse modo de proceder resultou, para mim, numa grande fraqueza dos nervos e, durante todo o mês de dezembro de 1924, conheci a ansiedade, com todo o seu horroroso cortejo.

Mas, a partir da primeira semana, em que comecei a por em prática o seu método, a digestão fez-se perfeitamente, e aos poucos, os meus padecimentos emocionais se dissiparam. Considero-me quase curada, desde os primeiro dias de fevereiro."

D…, Roanne

Segunda carta: "… Consegui, eu mesma, curar-me pelo seu método, há quatro anos, de uma endometrite, que, até agora, não reapareceu, pelo que ser-lhe-ei agradecida toda a minha vida. Rogo-vos etc."

V…, Verdun

Terceira carta: "Tomo a liberdade de lhe enviar de longe um bom dia. Sou a pessoa que estava sofrendo de um mal no joelho, havia onze anos, e que não podia quase andar. Faz hoje três semanas que fui à sua casa pela primeira vez.

Fez-me andar e ainda mais, correr. Agora corro mais ativamente ainda, pois tive, ontem, a ousadia de ir a Ribeauville e, esta manhã, fui a Saint-Ulrich e voltei. Parece que estou mergulhada num profundo sonho".

J. B. …

O medicamento é um maravilhoso veículo de sugestão

Não quero dizer que deixem de tomar os medicamentos receitados pelos médicos, ou de obedecer ao tratamento por ele ordenado, quando se põe em prática a auto-sugestão por mim aconselhada. Com efeito, acho que, independentemente do valor terapêutico real, que possa ter, o remédio é um maravilhoso veículo de sugestão. Quero mesmo ir além: minha opinião é que o médico presta serviço ao seu doente, receitando-lhe remédios, mesmo que os não julgue necessários, pois que a poção, o pó, a cápsula é que o deve curar, porquanto, em geral, o doente faz pouco caso dos conselhos de higiene que se lhe possam dar.

Acho também que os medicamentos formulados pelo próprio médico exercem mais ação sobre o doente do que os remédios especializados, que muitas vezes, não tem real valor e nos quais o paciente não deposita a mesma confiança que tem naqueles que o médico formula, pessoalmente. Sobretudo, se lhe explica, verbalmente e minuciosamente, o modo de usá-los, o seu efeito será ainda maior.

Portanto, longe de considerar a auto-sugestão e a medicina como rivais, o que, infelizmente, muitas vezes acontece, é preciso, ao contrário, considerá-las boas amigas, que, em vez de serem incompatíveis, devem se dar as mãos, reciprocamente, e se completarem uma a outra. Um dos meus maiores desejos, um dos meus pontos visados, é conseguir a inclusão do estudo obrigatório da sugestão e da auto-sugestão, nos programas das escolas de medicina e psicologia. Não só em França como também no estrangeiro, para maior utilidade da profissão de clínico, que disporá de mais uma arma no combate contra a moléstia e, sobretudo, para o maior bem dos doentes.

A falta desse ensinamento é lamentável, porque, se comparamos cada um de nós com um automóvel, cujo corpo é a carroceria e cujo espírito é o motor, notaremos que nas escolas os estudantes aprendem a cuidar do corpo, isto é, da carroceria, mas ignoram o espírito ou, por outra, o motor. De maneira que, se se verificar um desarranjo no motor e este, por si mesmo, não se consertar, o veículo não poderá mais mover-se.

Se, porém, os estudantes soubessem, igualmente, cuidar do espírito, isto é, do motor, fariam o veículo facilmente pôr-se em marcha.

A imaginação, a primeira faculdade do homem

O segundo princípio, sobre o qual se baseia a minha teoria faz diferenciar o meu de todos os outros métodos, e lhe permite obter resultados rápidos e inesperados, nos casos em que outros tratamentos falharam, durante longos anos. Podemos formulá-lo assim:

"Contrariamente ao que nos ensinam e, portanto, acreditamos, a vontade não é a primeira faculdade do homem, mas, sim, a imaginação."

Efetivamente, toda a vez que se dá conflito entre essa duas faculdades, a imaginação é sempre vencedora; e toda vez que nos encontramos neste estado de espírito, infelizmente, para nós, muito freqüente: "Quero fazer tal coisa, mas não a posso fazer", não somente não fazemos o que queremos, como também fazemos o contrário daquilo que queremos e quanto mais temos vontade, mais fazemos o contrário do que queremos. Tenho certeza de que minha afirmação, para muitos dentre vós, parece mais um paradoxo. Entretanto, a minha idéia não é nova, e, antes de mim, outros a manifestaram, sem, todavia, afirmarem-na tão categoricamente como eu o faço.

São Paulo, por exemplo, disse: "O bem que eu queria fazer não o faço, mas faço o mal que eu não quereria fazer", isto é, "quero fazer o bem, mas faço o mal; quanto mais quero fazer o bem, tanto mais faço o mal."

O poeta Ovídio também anunciou a mesma idéia, por intermédio de uma das personagens que ele pôs em cena, fazendo-a dizer: "Vídeo meliora probaqui, atque deterioro sequor". (Vejo o que de melhor tenho a fazer e experimento fazê-lo, mas faço o contrário.)

Para lhes provar que tenho razão, vou citar alguns exemplos de fatos, muito simples, tirados da vida corrente; os quais vemos todos os dias sem, entretanto, sabermos apreciá-los.

Lembrem de Newton. Um dia, achava-se ele deitado debaixo de uma macieira, na época da maturação. Pensava, dormia ou descansava, pouco importa. O fato é que, de repente, cai-lhe no rosto uma maçã. Ele refletiu sobre esse fenômeno e, das suas reflexões, nasceu a descoberta da gravitação universal.

Certamente, concorda comigo nisso, que a maçã, que caiu sobre o rosto de Newton, não foi a primeira que caiu de uma macieira, desde que existem macieiras sobre a terra. Caíram milhares, milhões, bilhões, e ninguém, até aquele momento, soubera apreciar o fenômeno, isto é, ninguém soube tirar as conseqüências que ele permitia.

A mesma coisa se deu com Denis Papin. Certo dia, aquecia ele os pés na lareira. Pendia da cremalheira uma panela coberta contendo água em ebulição. Papin observava que, de vez em quando, a tampa se erguia, fazendo um ruído crepitante, ao mesmo tempo que um jato de vapor se escapava, sibilando, "Lá dentro há uma força", exclamou ele. E, a esse simples reparo de um observador, é que devemos os navios e locomotivas a vapor.

Efetivamente, é claro que a tampa da panela não foi a primeira que se erguera, quando colocada sobre um vaso contendo água fervente. Não é? Ninguém, tão pouco, soubera apreciar esse fenômeno.

O mesmo acontece com aqueles citados.

Qual o estado de espírito das pessoas nos diferentes casos: Quero dormir, mas não posso; quero lembrar-me do nome da senhora Tal, mas não posso; quero evitar de rir-me, mas não posso; quero deixar de gaguejar, mas não posso; quero dominar o medo, mas não posso" etc. ?

Note que é sempre "não posso", imaginação, que leva vantagem sobre "posso", vontade. Portanto, se a imaginação leva vantagem sobre a vontade, na luta de uma contra a outra, a imaginação é a primeira faculdade do homem, e não a vontade.

Este fato pode parecer sem importância, porque o desconhece: entretanto, a sua importância é enorme. Quando a conhecer e souber aproveitar as conseqüências que ela permite, será capaz de se tornar senhor de si mesmo, física e psiquicamente.

Ademais, é necessário saber que, em cada um de nós, existem dois seres bem distintos um do outro. O primeiro é o ser voluntário e consciente que conhecemos, e que acreditamos ser quem nos dirige.

Realmente, quase todos nós pensamos ser guiados pela nossa vontade, pelo nosso Consciente. Mas, por trás desse primeiro agente, há outro, o Inconsciente, ao qual, pela boa razão de não conhecermos, não dispensamos atenção. Isto é lamentável, porquanto, tanto no ponto de vista físico como no mental, é ele que nos dirige.

Como é sempre bom dar uma prova daquilo que se enuncia, vou provar o que acabo de dizer. Todos nós temos no corpo certo número de órgãos, tais como o coração, o estômago, o fígado, os rins, o baço etc. Quem, de nós, por sua vontade, seria capaz de fazer um desses órgãos funcionar? Entretanto, eles funcionam de modo contínuo, não somente de noite como de dia, enquanto o nosso consciente dorme, porquanto este adormece ao mesmo tempo que o corpo. Se eles funcionam, é necessariamente, sob a influência de uma força. Essa força é o Inconsciente. Pois bem, assim como o Inconsciente preside ao funcionamento do nosso físico, também preside ao do nosso ser mental.

É a seguinte a conclusão a tirar desse segundo princípio: se o nosso Inconsciente é que nos conduz e se aprendemos a dirigi-lo, por seu intermédio aprendemos a nos guiar a nós mesmos.

Para maior clareza, vou apresentar uma comparação.

Consideremos cada um de nós assentado em um carro atrelado a um cavalo e que, ao atrelarem esse animal, hajam esquecido de pôr-lhe as rédeas, mesmo tendo-lhe dado uma chicotada. Naturalmente, põe-se a andar, mas em que direção? Sem dúvida, irá onde quiser; para frente, à direita, à esquerda, para trás, como lhe convier. Como, porém, ele nos conduz na pequena carruagem que vai puxando, há de nos levar onde lhe convier ir. Acontece, quase sempre, arrastar-nos por um caminho cheio de rodeiras, barrancos, tendo à direita e à esquerda uma vala, mais ou menos, grande, profunda e lamacenta, onde encontra meio de nos fazer tombar.

Se conseguirmos pôr as rédeas nesse cavalo, os papéis, imediatamente, mudam. Graças às rédeas, podemos guiá-lo para onde desejamos que ele vá; e, se, desta vez, vamos por um caminho ruim, culpemos a nós mesmos, pois que a direção do cavalo depende, exclusivamente de nós.

Meu papel consiste, unicamente, em mostrar como se colocam as rédeas nesse cavalo, que não as tinha e como, graças a ele, podemos conduzir-nos como desejamos.

É uma coisa muito simples, na verdade, muito simples para ser compreendida à primeira vista. Muitas vezes, acontece-me dizer aos meus ouvintes: Se lhes exponho uma coisa complicada, compreendeis, sem dúvida, muito melhor, ou por outra acreditais compreender melhor; mas esta é tão simples que, ordinariamente, por causa de sua própria simplicidade, se torna difícil de discerni-la.

É chegada a ocasião de fazer algumas experiências destinadas a demonstrar-lhes a veracidade desses princípios. "Peço, portanto, a alguns dentre vocês, que venham aqui perto, a fim de me ajudarem a fazê-las. Observai bem que nestas experiências, não é aquilo que digo o que se realiza, mas sim o que a pessoa tem em mente. Se ela pensa, exatamente, como lhe peço, é isso o que se realiza, mas se pensa o contrário, será o contrário que se realizará. Não uso o hipnotismo, nem faço a sugestão, nem trato de forçar pessoa alguma a fazer uma experiência, mas ensino a fazê-lo, o que é completamente diferente. Em suma, devemos considerar alunos e eu professor, que lhes ensina a fazer, conscientemente, a auto-sugestão que, durante toda a vida, passa fazendo inconscientemente.

Qual o meu intuito mandando-lhes fazer essas experiências?

Simplesmente demonstrar que a idéia que temos em mente se torna uma realidade no domínio da possibilidade e que, desde que haja conflito entre a vontade e a imaginação, é sempre esta que vence.

Portanto, qualquer que seja o resultado da experiência, tenho sempre razão, ainda que pareça estar eu errado. Peço a um dos senhores cruzar as mãos e apertá-las, com energia, o quanto possível, e que pense: "Quero abrir as mãos, mas não posso." Se noto que a pessoa quanto mais tenta abrir as mãos mais ainda as aperta, sei que pensou como deve ser, isto é, "não posso", conforme pedi, e tenho razão.

Se, ao contrário, vejo que ele as abre, é porque pensou "posso" e ainda tenho razão. (Nessa ocasião, faço com várias pessoas a experiência das mãos cruzadas, dos punhos fechados, das mãos comprimidas uma contra a outra etc., e peço-lhes que pensem: "quero abrir as mãos, mas não posso", quero abrir o punho, mas não posso; quero separar as mãos, mas não posso" etc., experiências que quase sempre são bem sucedidas).

Se faço essas experiências negativas, diante de vocês, é para mostrar aquilo que não devem fazer, e o que, todavia, passam uma grande parte da vossa vida fazendo. Todos aqui presentes, com exceção de uma só pessoa (faço sempre exceção de uma pessoa, para que cada um posso dizer consigo: sou eu essa pessoa), todos, pelo menos uma vez por dia, usam uma dessas expressões: difícil, impossível, não posso, está além das minhas forças, não posso me abster de etc.

Se acredita no que digo, não use nunca uma só dessas expressões, porque o seu emprego os faz pensar e, se pensa, o seu pensamento se realiza, de sorte que a coisa mais simples do mundo se torna uma coisa impossível.

Todos vocês, desta feita sem exceção, têm encontrado no seu caminho, vítimas de idêntica auto-sugestão. Todos viram pessoas que não podiam abrir ou fechar a mão, ou que andava com uma perna dura como se fora de pau. Pois bem, asseguro que, sobre cem pessoas que não podem executar o movimento que desejam, oitenta, seguramente, o não podem somente porque pensam que não o podem e, neste estado ficarão toda a vida, se em seu caminho não encontrarem alguém que lhes ensine a pensar: "posso".

Conclusão: Pense sempre "posso" e nunca "não posso".

Aproveitem todos, este conselho: não podem imaginar que poderosa força mental se acha contida nestas duas simples pequenas palavras "eu posso".

E visto que estou dando conselhos, dar-lhes-ei mais um que permitirá realizar muitas coisas sem fadiga.

Ei-lo: Quando tiver de fazer uma coisa, formula logo esta pergunta: é ou não possível? Se a razão responder-lhe não, não tente fazê-la, porque será fatigá-lo inutilmente. Se a razão responder sim, diga imediatamente a si mesmo que é fácil. Que acontecerá então? Se considera essa coisa como fácil, ela se torna, realmente, fácil e, para fazê-la, gastará exatamente a quantidade de forças requerida. Se, por exemplo, for preciso dez unidades de força, não gastará onze.

Se, ao contrário, considerá-la difícil, vinte ou quarenta vezes mais do que na realidade é, em vez de gastar dez unidades de força, como no caso precedente, despenderá cem ou quatrocentas.

Assim, se considera como difícil tudo aquilo que tem a fazer, depressa chegará à estafa, ao passo que, se considerar o seu trabalho como fácil, à noite não se sentirá cansado, como não o sentiu pela manhã. A propósito, vou citar uma comparação.

Cada um de nós pode ser comparado a um reservatório com uma torneira, na parte superior, destinada a enchê-lo, e outra, de diâmetro um pouco maior, na parte inferior. Se abrirmos as duas torneiras o reservatório ficará completamente vazio. Mas, se tivermos o cuidado de conservar a torneira inferior fechada, pouco a pouco o reservatório ficará cheio e, uma vez repleto, transborda exatamente a quantidade que recebe em excesso, pela torneira superior.

Pois bem, o segredo para a gente não se cansar consiste em conservar fechada a torneira inferior, e só usar a quantidade de força que transborda. Essa quantidade nos será suficiente, se soubermos dispor dela, se a não desperdiçarmos, isto é, se não fizermos esforços desnecessários. Observai que os melhores operários são os que não fazem esforços. O trabalho parece facilmente deslizar entre as suas mãos. Esses operários trabalham muito, seu trabalho é bem feito e, ao fim do dia, não se sentem cansados.

O operário medíocre, pelo contrário, ainda que muitas vezes tenha boa vontade e se esforce, produz muito menos que os primeiros, o seu trabalho não é tão bem feito e, quando soa a hora da saída, sente-se aniquilado de fadiga.

Portanto, trabalhe, sempre, sossegadamente e sem esforço. Imite o boi que parece nada fazer e, entretanto, no fim do dia, tem uma soma de trabalho produzido.

Ponho em prática esse princípio e, graças a isso é que, não obstante os meus sessenta e oito anos de idade, em março e abril de 1925 pude fazer uma excursão de trinta e cinco dias na Suíça, durante a qual visitei trinta e duas cidades, tendo feito centenas de sessões e conferências de cerca de duas horas cada uma.

Você não ignora que o camponês, quando intenciona semear o campo, tem sempre o cuidado de lavrá-lo. Por que? Porque sabe que se se descuidar de tomar essa precaução, algumas sementes, apenas, poderão germinar, ao passo que, estando a terra lavrada, quase todas germinarão.

Faço como o camponês. Considero todos aqueles que me vêm procurar, como sendo campos não cultivados, os quais cultivo dando-lhes as explicações que lhes dei em primeiro lugar e fazendo, em seguida, com cada um, uma das experiências, a que acaba de assistir. Uma só experiência é suficiente, porque, quando se faz uma, podem fazer-se cem. Em tudo, quer no bem, quer no mal, o difícil é dar o primeiro passo.

Tenho a certeza de que, uma vez cultivados, brotará neles a semente e esta eu lanço, dirigindo-lhes as seguintes palavras aproveitáveis a todo o mundo: Vou pedir-lhes para fecharem os olhos ao ouvir o que vou dizer, reabrindo-os somente quando eu avisar: "Feche os olhos e diga, convenientemente, que todas as palavras que vou proferir vão fixar-se na sua mente, gravar-se e incrustar-se nela, que devem nela ficar sempre gravadas, incrustadas e que, sem o querer, sem o saber, de modo inteiramente inconsciente da sua parte, seu organismo e vocês mesmos obedecerão.

Como estas palavras são todas proferidas unicamente no seu interesse, deve aceitá-las, adotá-las e transformá-las em auto-sugestões, que lhes proporcionarão o gozo, no ponto de vista físico como no ponto de vista mental, de uma saúde não só boa, mas ainda excelente, melhor do que esta que até agora têm podido gozar.

Primeiramente, digo-lhes que, a partir deste momento, suas funções físicas executar-se-ão cada vez melhor e, em particular ainda, as funções do tubo digestivo, notavelmente as mais importantes.

Regularmente, pois, três vezes ao dia, de manhã, ao meio-dia e de noite, na ocasião das refeições, sentirá fome. Não quero dizer uma fome bárbara, doentia e aflitiva, que faz a gente sentir necessidade de precipitar-se sobre o alimento, como faz um cão ou um gato sobre a carne. Não, a fome que irá sentir é esta sensação agradável que faz a pessoa pensar e dizer: "Ah! pois vou comer com prazer!" Nestas condições, comerá com prazer, mesmo com enorme satisfação, sem, entretanto, comer demais. Terá, porém, cuidado de mastigar bem os seus alimentos. Insisto, particularmente, neste ponto, porque quase ninguém sabe comer.

Geralmente, a pessoa põe o alimento na boca, dá-lhe duas ou três dentadas, engole-o e pensa ter comido. Não é isso, absolutamente. Comer é pôr o alimento na boca, mastigá-lo muito tempo, lentamente, de maneira que fique transformado numa espécie de pasta mole, que se engole.

Assim, a digestão se fará cada vez melhor; sentirá menos sensação de embaraço, de indisposição, de dor, mesmo que porventura tenha sofrido, algumas vezes, do estômago e dos intestinos.

Se tem o estômago dilatado, notará que a dilatação irá desaparecendo, progressivamente. Aos poucos o seu estômago vai recuperar a força e a elasticidade perdidas e, à proporção que for recuperando essa elasticidade, irá voltando ao seu volume primitivo, e executará, cada vez com mais facilidade, os movimentos necessários para dar passagem nos intestinos aos alimentos nele contidos, melhorando, assim, a digestão estomacal e a intestinal.

Do mesmo modo, se sofre de enterite, haverá de notar que essa enterite irá cedendo; a inflamação intestinal desaparecerá, progressivamente, e as secreções e membranas que expelir irão, gradativamente, diminuindo, até o dia em que desaparecerão completamente, e a cura ter-se-á realizado.

Naturalmente, a digestão sendo bem feita, a assimilação far-se-á igualmente bem; seu organismo aproveitará todos os alimentos que receber; dos quais servirá para produzir sangue, músculo, força, energia, em uma palavra, vida. Portanto, irá ficando, diariamente, cada vez mais forte e cada vez mais robusto. A sensação de fadiga e fraqueza, que porventura sentir, vai desaparecer, pouco a pouco, para dar lugar a uma sensação de força e de robustez que, todos os dias, irá aumentando cada vez mais.

Se, portanto, tem anemia, observe que ela diminui cada dia. Seu sangue se tornará cada vez mais rico, cada vez mais rubro, cada vez mais generoso, retomará mais e mais, as qualidades de sangue de uma pessoa que tem saúde. Assim, a sua anemia desaparecerá, lentamente, levando o séquito de aborrecimentos que ela sempre traz consigo.

Nestas condições, a função excretora também far-se-á cada vez melhor. Insisto mesmo, particularmente, sobre a execução desta função, que é condição sine qua non da boa saúde. Deste modo todas as manhãs, ao levantar, ou vinte minutos bem exatamente depois do seu pequeno almoço, conseguir o resultado desejado, sem ser necessário tomar remédio de espécie alguma, ou de recorrer a qualquer artifício.

Digo mais (isto para as senhoras), que a menstruação deverá reproduzir-se de modo uniforme, de vinte e oito em vinte e oito dias, e não de trinta em trinta dias, como muitas vezes se julga ser. A sua duração é de quatro dias, nem mais nem menos, não sendo nem muito abundante nem muito fraca e, nem antes nem depois, não deve ter incômodos nem nos rins, nem no baixo ventre, nem na cabeça, nem em parte alguma, em resumo, esta função é uma função natural, que se deve, portanto, realizar naturalmente, isto é, sem que de modo algum tenha que sofrer com ela.

Acrescento que, esta noite, amanhã à noite e todas as noites, no momento em que quiser dormir, adormecerá e, até o dia seguinte de manhã, na hora prefixada para despertar, dormirá um sono profundo, calmo, tranqüilo, findo o qual se sentirá inteiramente bem de saúde, inteiramente satisfeito, inteiramente disposto.

Ademais, se se sentir algo tenso, verificará que esse mal, aos poucos, irá desaparecendo e, à proporção que isso for se dando, sentirá uma sensação de calma, de calma muito grande, que se tornará cada vez mais senhor de si mesmo, tanto no ponto de vista físico como no ponto de vista mental, e não consentirá mais em sofrer com tanta freqüência, nem com tanta intensidade, os sintomas mórbidos que, porventura, outrora padeceu.

Enfim e principalmente (isto é essencial a todo mundo) se, até agora, em relação a si mesmos, sentiu alguma desconfiança, a partir deste momento esta desconfiança começa a desaparecer e é substituída pela confiança em si mesmos. Adquira confiança em si mesmos – ouça – adquira confiança em si mesmos, repito, e esta confiança que você obtém lhe dará a certeza de que é capaz de fazer, não somente bem, senão muito bem, tudo o que desejar fazer, com a condição de serem coisas razoáveis, e também tudo aquilo que por dever tenha a fazer.

Portanto, quando desejar fazer uma coisa razoável, obter uma coisa conforme a razão, quando tiver de realizar uma coisa imposta pelo seu dever, tome sempre como base este princípio: que tudo é fácil de fazer, desde que seja possível e que, conseqüentemente, as palavras difícil, impossível, não posso, está acima das minhas forças, não posso deixar de etc." ficam completamente eliminadas do seu vocabulário. Essas palavras não existem na nossa língua, ouvi-me bem, essas palavras não existem na nossa língua. As que existem são: "é fácil" e " eu posso". Com elas realizam-se prodígios. Portanto, desde que seja uma coisa possível, considere-a fácil, porque, nestas condições, ela se torna fácil, ainda mesmo que a outros possa parecer difícil ou impossível. E esta coisa será realizada depressa, como deve ser e também sem fadiga, por isto que a faz sem esforços; ao passo que ela  seria difícil ou impossível se como tal a houvesse considerado.

Às pessoas que sofrem dores, digo: a partir deste momento, sob a influência de auto-sugestão que vos lhes ensinar a praticar, seu inconsciente vai fazer com que a causa determinante destas dores, qualquer que seja a sua denominação, desaparecerá aos poucos, no domínio da possibilidade. Naturalmente, desaparecendo a causa, desaparecem as dores na mesma proporção. E quando esta causa tiver desaparecido completamente, se porventura isso for possível, as próprias dores não se repetirão mais e a cura estará realizada. Se, porém, esta causa for de origem orgânica, só poderá desaparecer progressivamente, e, neste caso, as dores repetir-se-ão de vez em quando. Pois bem, todas as vezes que elas se manifestarem, exijo que as faça desaparecer imediatamente, usando o processo que vou indicar, processo que, todavia, se aplica não somente às penas psíquicas como também aos sofrimentos físicos.

É, pois, a todo mundo que me dirijo nesse momento, e a todos vocês, digo: Quando lhes acontecer, a qualquer de vocês, sentir alguma coisa de que lhes sobrevenha sofrimento físico ou mental, em lugar de mencionar essa coisa, de sofrer por causa dela e de se lamentar, afirme a si mesmo que a fará desaparecer, afirma-o de modo bem simples, mas muito categórico. Diga: Vou fazer isto desaparecer. É simples e, ao mesmo tempo, categórico.

Nessa ocasião, fique a sós (isto não é indispensável, porquanto a gente pode isolar-se, psiquicamente, em qualquer lugar). Estando só, assente-se, feche os olhos e, passando a mão, de leve, sobre a fronte se se trata de um caso mental, repita, muito rapidamente, com os lábios, em voz alta, para que possa ouvir a fórmula; isto passa, isto passa etc." É essencial que pronuncie as palavras: "isto passa, isto passa etc.", bem depressa para que não haja o menor intervalo por onde possa penetrar a idéia contrária, entre duas vezes que as pronunciar. Assim, é obrigado a pensar que isso passa e, como toda idéia que temos em mente torna-se uma realidade para nós, isso passa realmente. Se o mal voltar, expulsai-o novamente, repetindo-o tantas vezes quantas necessárias forem.

Ainda que lhes seja preciso usar esse processo 50, 100, 200 vezes, ou mais, por dia, use-o, trate-o como trata um mosquito que tem a impertinência de pousar sobre o seu rosto. O que faz neste caso? Enxote-o. Se ainda voltar, de novo enxote-o e assim por diante, cada vez que ele lhe importunar. Pois bem, repito, faça o mesmo com o mal. E observará que, quanto mais insistir menos vezes será obrigado a lançar mão desse processo. Se, hoje, o tiver empregado 50 vezes, por exemplo, amanhã não o empregará mais de 48 vezes, no dia seguinte 46, e assim em seguida, de sorte que, algum tempo depois, não o empregará mais, absolutamente, por isso que não se fará sentir a sua necessidade.

Aqueles que são acometidos, perseguidos, possuídos por idéias tristes, idéias lúgubres, idéias obsessivas, por temores, pavores, fobias, a esses digo; "Aos poucos notarão que essas idéias, esses temores, essas fobias vão rareando no seu espírito, vão-se tornando cada vez mais fracas, cada vez menos obstinadas e cada vez mais desprendendo-se de vocês. Expulse-as logo, usando o processo: "Isto passa, isto passa, etc."

Aos ansiosos, digo: "Pouco a pouco, sob influência da auto-sugestão, que vou lhes ensinar, a ansiedade vai diminuir e, com ela, desaparecerão os sintomas que produzia. Mesmo as crises nervosas, se as tem, deve conseguir desembaraçar-se delas, completamente."

De hoje em diante, essas crises não os apanharão mais, como antes acontecia. Cada vez que uma dessas crises estiver em ponto de se manifestar, apresentar-se-ão alguns sintomas que lhes indicarão que a crise está para vir, mas esses sintomas não lhes causarão o menor receio do mundo,

porquanto, ao mesmo tempo que os sentir, ouvirá, no vosso íntimo, uma voz, a minha, que lhes dirá, rápido como um raio: "Não, senhor, não senhora, não senhorita, não terei esta crise; ela desaparece, ela desapareceu." E, antes mesmo de aparecer, a crise terá desaparecido. E, assim, por diante.

Digo-lhes, de um modo geral que, se um ou vários dos seus órgãos funcionam de uma forma, assim, mais ou menos defeituosa, aos poucos, esse, ou esses órgãos voltarão a funcionar melhorando cada vez mais e, pouco a pouco, readquirindo o funcionamento normal, será obtida a cura. Agora, vou contar até três e, quando disser "três", abrirá os olhos, sentir-se-á absolutamente bem, contente e disposto. "Um, dois, três!"

Dita a palavra "três", todos abrem os olhos e olham uns aos outros, em geral, sorrindo.

Terminado, digo aos visitantes: – Agora que contribui com a minha parte, resta a mais importante que é a parte que lhes cabe. Eis aí, portanto, o que têm a fazer durante toda a sua vida, repito – durante toda a sua vida – porque a sugestão, que lhes aconselho a pôr em prática, não deve ser feita apenas um dia, uma semana, um mês ou um ano, é preciso empregá-la durante toda a vida, seguindo, muito fielmente, as instruções que lhes dou, mas, primeiramente, abro um parêntese para fazer compreender melhor.

A princípio, disse-lhes que durante toda a vida passamos a fazer a auto-sugestão inconsciente e nociva quase sempre. Pois bem, fazendo, de manhã e de noite, a auto-sugestão consciente e boa, destruímos o mal que porventura nos tenhamos feito, durante as doze horas que precederam, por meio de sugestão inconsciente e nociva. Em resumo, deve considerar esta sugestão consciente como um meio de alimento psíquico, tão necessário, ou mais, do que o alimento físico de que lhes servi diariamente, muitas vezes até sem apetite, com o pretexto de que, para viver, é preciso comer bem.

As pessoas que gozam boa saúde também devem praticar esta auto-sugestão, que não somente opera sobre as coisas atuais como ainda sobre as futuras; ela impede a vinda do mal, o que é mais fácil do que curá-lo depois de chegado.

Exemplo: Quanto tempo é preciso para quebrar uma perna? Muito pouco, não é? Anda tranqüilamente pelo passeio, pisa numa casca de laranja, escorrega e cai fraturando uma perna, bastou um segundo para produzir este resultado.

Quanto será preciso para reparar esse mal? Com o auxílio mesmo da auto-sugestão, que, certamente apressará a cura, será preciso ficar vários dias de cama. Pois bem, se a perna não se tivesse fraturado, não haveria necessidade de consertá-la. Imagine, pois, que todas as vezes que fizer uma boa auto-sugestão, desviará do seu caminho uma casca de laranja ou de banana, o que, ao físico e no mental, representa uma perna que evita fraturar.

Outra comparação: Por mais rico que alguém seja, pode sempre ficar mais rico ainda. Admitamos, como exemplo, que possua vários milhões de dólares. É, portanto, muito rico, não é? Mas, se lhes dão um ou dois milhões mais, é claro que se tornará mais rico ainda.

Então, se está bem, se possui um grande capital de saúde, praticando a auto-sugestão, que lhes aconselho, aumentará este capital-saúde da mesma forma que os outros aumentam o capital-dinheiro. Fique bem certo que é melhor que assim seja, porque lhes será inútil possuir um enorme capital-dinheiro; se não tiver capital-saúde, não poderá desfrutar o outro.

Enquanto viver, todas as manhãs ao despertar e todas as noites, assim que estiver deitado feche os olhos e repeti vinte vezes, seguidamente, com os lábios e em voz de modo que possa ouvir as palavras que profere, sem tentar fixar a atenção em coisa alguma, contando, maquinalmente, com o auxílio de um cordão munido com vinte nós (dezenove ou vinte e um, porquanto não dou importância ao número vinte) a fórmula seguinte: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor".

Só pode ser proveitoso pensar-se no que se diz, mas isto não é necessário. Com efeito, não é certo que o Inconsciente pense de igual forma, quando pensamos conscientemente numa coisa, por isso que o Consciente e o Inconsciente podem trabalhar ao mesmo tempo, de maneira diferente. Admitamos, por hipótese, que todos vós e eu mesmo estejamos absortos no que vos digo; poderá muito bem suceder um realejo tocar, a cem metros de distância, uma ária que, suponho, nenhum de nós conhecemos. Todos ouvimos essa ária, mas sem apercebermos de que a estamos escutando e, ao sairmos, alguns dentre nós a poderão facilmente cantarolar, todos admirados de cantar uma canção que acreditam nunca terem ouvido.

Que aconteceu? Durante o tempo em que nosso Consciente estava preocupado com o que eu dizia, a ária, mecanicamente, penetrou no nosso Inconsciente, pelo ouvido, e aí se fixou. O mesmo sucede na prática da auto-sugestão. Nosso Consciente poderá estar pensando, não importa em que; se os nossos lábios pronunciarem a fórmula bastante alto, para que a possamos ouvir, ela penetra no Inconsciente, pelo ouvido fixando-se nele, que, então, trabalhará de conformidade com ela.

Outrora, eu recomendava aos doentes que tivessem confiança, que tivessem fé; agora não o recomendo mais. Não quero dizer que a confiança e a fé não tenham alguma serventia; longe disso, porquanto elas podem, por si sós, determinar a cura. Mas não são indispensáveis mais do que a atenção.

Eis uma comparação que lhes permitirá compreender por quê:

Suponhamos que uma pessoa ignore, completamente, o que seja um revólver; coloco-lhe um entre as mãos, dizendo: "tome cuidado, não aperte este pedacinho de ferro (mostro-lhe o gatilho), porque  daria uma explosão, que poderia ser fatal a si mesmo ou a um dos seus vizinhos". Pouco importa que a pessoa me acredite ou deixe de me acreditar: se der ao gatilho, o tiro parte.

O mesmo acontece com a auto-sugestão. Se se dá ao gatilho, e noutros termos, se a pessoa repete a fórmula que aconselho, exatamente como ensino, o tiro parte, isto é, a auto-sugestão se produz e opera.

Quando, pela primeira vez, se ouve a pequena frase: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor", sentirá mais é vontade de rir porque a acha um tanto infantil ou ridícula, se, neste sentido, a julgarmos, pelos resultados que é capaz de oferecer e que, diariamente, oferece. Não obstante, encerra na sua simplicidade, seis palavras de uma importância enorme: "sob todos os pontos de vista". Que quer isso dizer? Isso quer dizer tudo, absolutamente tudo, todas as coisas físicas, todas as coisas em que se pensa, mesmo aquelas em que se não pensa, porque se não pensarmos conscientemente nela, nosso inconsciente se encarrega de pensar por nós.

É, portanto, uma fórmula geral, pois se refere a tudo e, sendo geral, encerra em si todas as fórmulas particulares que cada um acredita necessárias a si próprio, visto que cada qual, no seu egoísmo, pensa assim:

"O meu é um caso especial". Inútil, tudo inteiramente inútil. Como toda fórmula particular está, por definição, contida na fórmula geral: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor", esta fórmula é suficiente em todos os casos, quaisquer que sejam.

Não quero dizer que com ela pode-se curar tudo. Não. Mas pode curar tudo o que é curável e o campo, para isso, é muito vasto.

Insisto, porém, sobre este ponto, porque é capital: esta sugestão deve ser feita o mais possível, de um modo simples, infantil, maquinal e, sobretudo, sem nenhum esforço (é neste ponto que, geralmente, pecam aqueles que, praticando a auto-sugestão, não conseguem os resultados que deveriam conseguir, normalmente. No ardente desejo de se desfazerem dos seus males, empregam, recorrendo à auto-sugestão, uma força, um fervor, uma energia, que, absolutamente, devem evitar).

Devem se lembrar que, no começo, lhes disse que a auto-sugestão é um instrumento. Ora, sabem que os resultados que se obtêm com o uso de um instrumento dependem menos deste do que do modo pelo qual é utilizado. Coloque, por exemplo, um fuzil nas mãos de uma pessoa inexperiente, fazendo-a atirar contra um alvo situado a duzentos metros de distância. Provavelmente, nenhuma bala atingirá a mira. Entregue o mesmo fuzil a outra pessoa, e todas as balas ou quase todas a alcançarão. Por que estes resultados diferentes? Porque a primeira pessoa não sabia usar a arma, ao passo que a outra sabia.

A mesma coisa sucede com a auto-sugestão: dá bons resultados, sendo bem aplicada; do contrário, não. Em uma palavra, esta fórmula deve ser repetida no tom lento e monótono, que se usa para recitar as ladainhas.

Antigamente, eu aconselhava que a pessoa, após ter procurado ficar sossegada, prestasse atenção ao que dissesse. Agora não o recomendo mais, porque observei, como vocês também o farão, que, em geral, quanto mais se quer ficar sem constrangimento, mais contrafeito se fica; quanto mais a gente trata de deter a atenção sobre um ponto, mais tende a desviar-se dele.

Repetindo a fórmula, do modo como aconselho, sem esforço, obterá a atenção e a calma que procura ter sem o conseguir.

Pela repetição, conseguirá, introduzir, mecanicamente, no seu Inconsciente, pelo ouvido, a frase que representa uma idéia:

"Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor".

Pelas explicações que dei e pelas experiências que fiz, vocês tiveram ocasião de notar que, quando implantamos uma idéia na mente, esta idéia se torna uma realidade para nós; logo, se metermos na mente (o Inconsciente) a idéia: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor", necessariamente, todos os dias sob todos os pontos de vista, irão cada vez melhor. Não pode ser de outra forma.

Contudo, se algumas pessoas continuarem a fazer outra sorte de sugestão, como, por exemplo, esta: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez pior etc." (há pessoas que passam a vida fazendo a si mesmas esta sugestão), necessariamente, é fatal, elas irão todos os dias cada vez pior.

Não deverão, porém, culpar nem a mim nem ao meu método, devem sim, culpar-se a si próprias e bater no peito, dizendo: "É minha culpa, é minha máxima culpa".

Permito-me neste final dar um conselho aos pais que desejam corrigir seus filhos, isto é, a todos os pais, aconselho a fazerem a sugestão nos seus filhos, durante o sono destes. Eis como devem proceder:

Todas as noites, assim que a criança tiver adormecido, entrar, vagarosamente, no seu quarto, parar cerca de um metro distante de sua cabeça, e repetir, seguidamente, vinte ou vinte e cinco vezes, em voz baixa, numa espécie de sussurro, a coisa que se desejarem obter dela.

Com perseverança, chega-se muitas vezes a resultados os mais extraordinários, ao passo que outros processos têm falhado. Por exemplo, certos acidentes que são o apanágio da criança de pouca idade, facilmente se curam por esse meio.

Se a criança rói as unhas, chupa o polegar, faz caretas; se é desgastada, preguiçosa, desobediente etc., abandona, mais ou menos, depressa, esses defeitos.

Mas, para isso, como, aliás para tudo, é preciso paciência e perseverança.

Como se deve praticar a auto-sugestão consciente

Todas as manhãs, ao acordar, e todas as noites, logo ao deitar, fechar os olhos e, sem fixar a atenção no que se diz, proferir em voz bastante alta, a fim de ouvir as próprias palavras, esta frase, repetindo-a vinte vezes, tendo para isto um cordão com vinte nós: "Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor."

Como as palavras "sob todos os pontos de vista" abrangem tudo, é inútil fazer a auto-sugestão para casos particulares. Fazer esta auto-sugestão, quanto possível da maneira mais simples, mais infantil, mais maquinal, por conseguinte, sem o menor esforço. Numa palavra, a fórmula deve ser repetida no tom em que se rezam as ladainhas.

Deste modo consegue-se introduzi-la mecanicamente no Inconsciente, pelo ouvido, e, logo que nele penetra, opera.

Seguir este método durante toda a vida, porque não só é preventivo como também curativo.

Ademais, cada vez que, durante o dia ou durante a noite, a gente tem um sofrimento físico ou moral, deve apegar-se imediatamente a si mesma, no propósito de não contribuir conscientemente para esse mal, e, também, para o fazer desaparecer. Depois, deve ficar só o mais possível, fechar os olhos e, passando a mão pela fronte, ou pelo local dolorido, conforme se trate de uma dor psíquica ou física, repetir, rapidamente, com os lábios, estas palavras: "Isto passa, isto passa etc., etc.", durante o tempo necessário. Com um pouco de hábito consegue-se fazer desaparecer as dores, depois de 20 a 25 segundos. Fazer isso toda vez que julgar necessário.

Observações

1. A prática da auto-sugestão não dispensa o tratamento médico, mas é um precioso auxílio tanto para o doente como para o médico.

2. Diariamente, recebo cartas de pessoas que, extensamente, me explicam todos os sintomas dos seus sofrimentos e me perguntam o que devem fazer.

Essas cartas são inúteis.

O meu método sendo geral e, por conseguinte, referindo-se a tudo, não tenho conselhos especiais a dar, quaisquer que sejam os casos.

A única coisa a fazer é, observando, cuidadosamente, o tratamento prescrito pelo médico, seguir, mui exatamente, os conselhos que dou.

Se forem bem seguidos, isto é, evitando-se todo o esforço, obter-se-á tudo o que for humanamente possível obter. Devo acrescentar que, muitas vezes, ignoro até onde vão os limites da possibilidade.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

One Response to Auto-sugestão Consciente por Émile Coué

  1. Terapias Holísticas 2 de Abril de 2015 at 19:05 #

    Perfeito ,muito bem exemplificado! grato! #_#