Perversão – Estudando o tema

Falaremos nesse nesse texto a respeito da perversão hoje, e de algumas modificações e esclarecimentos que se fazem necessários.
Sabemos que Freud fazia três fundamentais diferenciações para os quadros em psicopatologia psicanalítica: a primeira as neuroses de transferência ou neuroses propriamente ditas; as neuroses narcísicas ou narcisistas, conhecidas como as psicoses e as perversões, tendo como característica essas últimas o desvio quanto o objetivo sexual e de objeto, resultando na impossibilidade da vivência da genitalidade propriamente dita.

Objetivo Sexual

Objetivo sexual "normal" – união dos órgãos genitais que conduz ao alívio de tensão sexual e uma extinção temporária do instinto (pulsão) sexual. No curso psicossexual normal se encontram rudimentos perversos nas chamadas carícias preliminares.
Indo adiante nessa questão encontraremos:

Interdição (Em Lacan)

Dupla
1º Tempo    ————       2º Tempo  ———-3º Tempo
Célula Narcísica  ->Separação -> sujeito psíquico
Quando não se completa a passagem pela fase, teríamos:

1º  Tempo – Posição Psicótica
2º  Tempo – Posição Perversa
3º  Tempo – Posição Neurótica

Ao estudar as perversões temos que estar atentos a delicadeza da linha que separa a a patologia de uma moralidade normalizadora. Nesses aspectos a psicanálise deverá estar sempre atenta, como fazemos questão de ressaltar sempre aqui, à sua vocação para a rebeldia, para romper com os aspectos por demais exigentes dos mecanismos sociais e que levam na verdade à própria estruturação do adoecimento psíquico. Um caso bastante evidente é o da homossexualidade que foi primeiro estudado por Freud no aspecto de inversão de objeto e mais adiante essa tese foi abandonada por ele, em prol de sua tese sobre a bissexualidade constitucional. E, muito embora tenha feito isso ainda durante o desenvolvimento de sua obra, ainda hoje persistem leituras muito equivocadas, que se respaldam em uma concepção de Édipo que foi banida, já por Freud, da teoria psicanalítica. Hoje a escolha homoafetiva não poderá mais ser encarada como perversão, sequer como patologia, segundo inclusive orientações da Organização Mundial da Saúde(OMS).

“A palavra perversão deriva do verbo latino pervertere e significa tornar-se perverso, corromper, desmoralizar, depravar. Seu emprego não é privilégio da psicanálise. Tem origem datada em 1444 quando utilizado no sentido de retornar ou reverter, ganhando cedo a acepção de “deplorável”, algo desprezível. No século XIX, a sexologia fez o emprego desse vocábulo como desvio sexual. A psiquiatria francesa sacramentou seu uso enquanto sinônimo de anomalia ou aberrações, prevalecendo a partir do século XX como ilustrativo de certos comportamentos sexuais”. (A)

Freud tratará o tema como algo que não mais se atém à sexualidade em seus objetivos e busca de objeto para realização da descarga. A partir dele esse conceito irá se ampliar, e depois também muito, através dos postulados de Jacques Lacan que confere ao termo uma abrangência já vislumbrada em Freud, mas que não estaria colocada da forma como será vista a partir de seus estudos. Encontraremos em Freud:

“… os fatos nos mostram quanto de cada fase anterior persiste junto a configurações subseqüentes e depois delas, e obtém uma representação permanente na economia libidinal e no caráter da pessoa” (Freud, 1933 – Conf.XXXII, p.125).

Essa passagem já deixa a brecha para aquilo que se configurará para Lacan enquanto o uso do termo perversão, algo que abrange o modo de funcionamento total do sujeito, considerando aí os traços de caráter e a maneira como estabelece seus vínculos.Fairbain também colocará a ênfase nas relações de objeto, em uma leitura de toda subjetividade perversa.
Laplanche e Pontalis em seu “Vocabulário da Psicanálise” conceituarão:

“Diz-se que existe perversão quando o orgasmo é obtido com outros objetos sexuais(pedofilia, bestialidade etc), ou por outras zonas corporais(coito anal, por exemplo) e quando o orgasmo é subordinado de forma imperiosa a certas condições extrínsecas(feitichismo, escoptofilia e exibicionismo, sado-masoquismo); estas podem proporcionar, por si sós, o prazer sexual.

De forma mais englobante, designa-se por perversão o conjunto do comportamento psicossexual que acompanha tais atipias na obtenção do prazer sexual”

“Em Freud encontramos a palavra perversão pela primeira vez em 1905, em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, nos quais o sentido apresentado é de aberração, inversão sexual. Aparece novamente em:

– 1917 “Conferência XXI: O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais”;

– 1919 “Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais”

– 1923 “A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade”;

– 1924 “A dissolução do Complexo de Édipo”;

– 1927 “Fetichismo” no qual a recusa (Verleugnung) frente à castração se materializa.

– 1940 “A divisão do ego no processo de defesa” (A)

Poderemos falar que a perversão nega e atua enquanto a neurose recalca, ou ainda como está posto, que ela renega. Freud a partir do referencial edipiano, colocará a perversão como decorrente de uma forma específica de lidar com a castração, diferente da repressão, que é a denegação ou recusa (Verleugnung) (Telles, S.).

“Laplanche tem se referido à presença do outro em cada sujeito desde as origens da psique, aspecto desenvolvido na sua teoria da sedução originária. Nesta linha de pensamento Freud já tinha assinalado a presença do Superego dos pais na construção do Superego de cada sujeito”. (B)

No estudo das perversões veremos que esse superego se mantém de maneira flácida, corrigindo sempre a leitura do real por suas próprias definições, essas também sempre instáveis e negando no vínculo os aspectos que envolvem o Outro em sua dinâmica. O objeto é tomado nessa dinâmica perversa como descaracterizado de qualquer característica, vontade ou existência de um desejo ou subjetividade. É como se o perverso olhasse sempre para um espelho, percebe uma presença e empresta a ela todas as suas características e peculiaridades, serve apenas a um fim, sua gratificação, e dentro dessa estará sempre inclusa a questão do controle sobre o objeto. Talvez em todas as variações que possamos pensar em termos de perversões, veremos na verdade um jogo de poder, de submetimento desse objeto como uma busca, mesmo que apresente formas diferentes de operar essa dinâmica. O objeto será buscado com o fim de consumí-lo, extingui-lo e iniciar nova busca dentro de sua noção de gratificação ininterrupta. O perverso ataca como forma de amor, em verdade atacará suas partes cindidas onde precisa do acting para saber de si. Sabemos que ao falar de perversão não poderemos supor uma alteridade.

“É perverso todo ato que fere a ética do outro, aniquilando-o”. (C)
Muito embora se proponha sempre uma diferenciação entre os termos perversidade e perversão, sabemos que em toda atuação perversa encontraremos um componente de perversidade, pela própria meta destrutiva que caracteriza o gozo perverso.
"O exercício do poder pressupõe uma onipotência absoluta de quem a realiza e de quem a ele se submete e nele acredita" .(Birman)

No desenvolvimento esse sujeito ficaria preso a interrogação de ser ou não ser o falo e dessa forma construirá uma estratégia para evitar a castração, isso caracterizaria o manejo perverso. Para muitos sujeitos perversos isso incluirá uma impossibilidade de realização do ato genital da sexualidade, como foi colocado aqui anteriormente, tanto em seu objetivo quanto em seu objeto. Verleugnung, recusa é o mecanismo que sustentará a estrutura perversa, não pode reconhecer a castração e, se não é capaz de reconhecer a diferença anatômica entre os sexos, não será possível essa inscrição.

Vemos portanto como em Freud o conceito de perversão está inscrito no objetivo e objeto. “Uma grande mudança deste conceito foi feita por Fairbairn, que afirmou que a libido (ou seja, a pulsão) está à procura não apenas de “satisfazer sua meta” e sim está à “procura de um objeto”, e as zonas erógenas não são meras determinantes das metas libidinais e sim canais mediadores de procura do objeto”(Telles, S. [link D]).

Toda essa temática estaria centrada na dinâmica familiar e na relação com a mãe dentro da leitura da passagem pela conflitiva edipiana.

“…uma análise suficientemente profunda da situação edípica revela invariavelmente que essa se erige ao redor das figuras de uma mãe interna excitante e de uma mãe interna rejeitante(pág. 97)”(…) “Portanto, podemos enfocar uma etiologia das perversões concebida em termos de uma psicologia de relações de objeto”(pág. 96)(…) “O que é necessário reconhecer antes de tudo é, segundo creio, que as tendências sexuais perversas não são só excrecências desafortunadas que de certa forma misteriosa chegam a aderir a uma personalidade que em outros aspectos é normal, e sim elementos integrantes da própria estrutura da personalidade.(pág 230)(Fairbairn)

Fica como crítica a obra acima citada a inclusão da homossexualidade no estudo, que como dissemos antes, hoje não é mais catalogada como perversão ou patologia, mas pensamos que a questão das relações totais para as quais o autor aponta, são importantes no estudo e entendimento das estruturas perversas.

Leremos hoje a perversão bem mais a partir dessa concepção de objeto onde o outro é tratado narcisicamente e portanto ignorado em sua subjetividade e inclui nesse manejo perverso o intenso desejo de ferir seu objeto.
Para quem sofre a ação perversa, fica a sensação:

"… a angústia por mais evanescente que seja aparece cada vez que o sujeito, por mais insensivelmente que isso ocorra, está desligado de sua existência, e onde, por pouco que seja, ele se percebe como estando a ponto de ser retomado em algo, que vocês poderão chamar, segundo as ocasiões, imagem do outro, tentação, em suma, esse momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está e um tempo em que ele vai ver algo no qual não poderá jamais se reconhecer. É isso a angústia”. (Lacan em 1956-57, no Seminário 4, A Relação de Objeto)

Hoje pensa-se a respeito do manejo perverso que: “É preciso enfatizar que o perverso está submetido a uma lei especial, que o obriga a gozar permanentemente”(D). E esse gozo pressupõe um uso público, precisa ser reconhecido pelo outro, como forma de reafirmar a inexistência da castração. Ser impedido de atuar é algo com que o perverso não pode lidar, utilizando todos os meios para evitar tal impedimento.

Pensaríamos então que o que está marcado para o manejo perverso é bem mais do que a sua sexualidade e sim sua subjetividade, marcando assim toda sua relação com seu meio circundante.

“ Entender a perversão como uma patologia das relações objetais não é muito diferente de entendê-la como decorrente do mecanismo da recusa, pois este leva a dificuldades de ver o objeto de forma não narcísica”(D).

Alguns autores defenderão que a perversão estaria muito próxima à psicose e seria uma maneira de evitá-la, essa proximidade estaria posta pela marcante relação narcisista com o objeto(Telles, S.)

Na atualidade, frente a toda demanda criada pela lógica do consumo, nos parece que falar de perversão seja algo bastante pontual. Relações onde o outro não conta, onde a lógica do consumo extrapola toda questão ética que deveria trazer atrelada a si. Ficam as relações marcadas pelo uso narcisista e a necessidade de controle sobre o objeto. Há uma lógica institucional presente e fortemente marcada, ameaçadora em nossa estrutura social, ela se apresenta desde seu uso na macro-política e se fará presente também na lógica molecular das relações contemporâneas.

Muitos acreditam não poder a psicanálise tratar do perverso em análise, embora outros tantos acreditem nesse possibilidade, lidando todo tempo com o temor exarcebado que eles trariam quanto a enlouquecer pela vivência na relação analítica e o entendimento da sua realidade interna e externa.

Mecanismos perversos permeiam hoje muito do institucional, apresentam-se como traços de muitos fenômenos do cotidiano, pela operação da denegação(Mannoni).
A perversão hoje é discutida em variados aspectos, inclusive em sua capacidade nos borderlines chamados de pesados (Nahman).

“O borderline ferido em seu narcisismo sente-se impotente e dissocia sua onipotência. Esta, porém, vai reaparecer logo adiante, sendo então este o momento em que a impotência é colocada numa gaveta, não influindo no impulso de onipotência.”(Nahman – link E)

Está presente em todas as abordagens sobre o discurso contemporâneo, assunto mais do que atual portanto. Como ela marca e como se apresentará nas relações dentro da atualidade é algo que devemos, com certeza, concentrar um pouco nossos estudos psicanalíticos. Essa onipotência perversa atuada de dentro do institucional, daquilo que marca e molda as relações presentes na cultura da chamada pós-modernidade. Entender isso talvez seja começar a “desenlaçar” os pesados mecanismos de adoecimento que marcam o sujeito em sua busca de vínculos com o mundo externo hoje.

O que haverá de perverso nessa tendência a não deixar a angústia surgir frente aos conflitos existenciais ou a tendência da psicofarmacologia em abolir a depressão do contexto humano? Será que essas leituras se atravessariam em algum momento? Fica a questão para pensarmos. Muitos teóricos já o fazem há algum tempo.

Bibliografia indicada para estudo:

ANDRÉ, Serge. A impostura perversa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 312 p.

BIRMAN, Joel. A racionalidade do tempo nos impasses do sujeito, p. 11-26. In O tempo do gozo e a gozação, de HELSINGER, Luis Alberto, 1996, p. 19.

BLEICHMAR, Hugo. Introdução ao estudo das perversões – Teoria do Édipo em Freud e Lacan. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988

FREUD, S. Conferência XXI: O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais (1917). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XVI.

________. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões
sexuais (1919). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XVII.

________. A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade (1923). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XIX.

________. A dissolução do complexo de Édipo (1924). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XIX.

________. A divisão do ego no processo de defesa (1940). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.XXIII.

________. Conferência XXXII – Ansiedade e vida pulsional (1933). ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.XXII, p.125.

________. Fetichismo. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XXI.

KUSNETZOFF, Juan Carlos. Introdução a psicopatología psicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982

FAIRBAIRN, W. Ronald D. – Estudos Psicanalíticos da Personalidade

Links:
A – http://www.cbp.org.br/artigo17.htm

B – http://www.estadosgerais.org/historia/63-eclosao_dos_vinculos.shtml

C – http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372004000100009&lng=pt&nrm=is

D –
http://www.polbr.med.br/arquivo/psi0703.htm

E – http://www.saude.inf.br/nahman/borderlineidentificacao.pdf#search=%22Nahman%20Armony%22

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

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