O luto na Maternidade.

Introdução

Quanto mais avançamos na ciência, mais tememos e negamos a realidade da morte. Se já não é possível rejeitar a morte, podemos tentar dominá-la pelo desafio. Com novas técnicas e conquistas científicas, os homens se tornaram capazes de desenvolver drogas e tratamentos cada vez mais eficazes. Avança a ciência, aumentam as expectativas de cura, sucesso e felicidade . A Obstetrícia também evoluiu. Técnicas cada vez mais precisas são utilizadas para o acompanhamento da gestação e do feto. Se por um lado, é possível antecipar o sexo do bebê e seu tamanho aproximado, também tornou-se possível diagnosticar malformações fetais antes mesmo que o bebê se desenvolva por completo. Do ponto de vista psicológico, o homem tem que se defender contra o sofrimento , a dor, o medo da morte, a incapacidade de prevê-la, e precaver-se contra ela.

Nós, como profissionais de saúde, temos que capacitar-nos para encarar a doença fatal e a morte.

Se isto constitui um problema em nossa vida particular, se a morte é encarada como muita dificuldade, jamais chegaremos a afrontá-la com calma ao ajudar um paciente

Luto: definição

Segundo Freud, luto pode ser definido como: “…reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.

 … O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra um estado de espírito penoso, perda de interesse pelo mundo externo – na medida em que este não evoca esse alguém -, perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor ( o que significa substituí-lo ) e o afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele.” (1)

O luto é um processo. Ele tem início com a perda em questão e tem seu tempo de elaboração. Para cada pessoa ele adquire uma forma diferente, de acordo com sua vivência e preparação para as perdas. Para uns, pode ser vivido com ansiedade e para outros pode ser demorado, lento. Como Freud traz, não se trata de uma doença que deve ser medicada: é um sentimento que, como tal, deve ser vivido e sentido até que se desgaste.

A Mãe e o Luto na Maternidade

A gravidez é um período de transição que envolve a necessidade de reestruturação e reajustamento. Trata-se de mudanças físicas e emocionais profundas que para cada mãe adquire um sentido diferente. Toda gravidez é única, exclusiva. Na Maternidade também nos deparamos com experiências de perdas, difíceis de serem entendidas. A mulher está gerando uma vida. Se prepara para isso! Quando um recém-nascido morre, o fim chega muito próximo ao princípio. Não há tempo suficiente para compreender-se o que está acontecendo. A vida é tomada, impiedosamente, pela morte. É a máxima contradição.

Com um natimorto, a mãe deve lidar com um vazio tanto interno quanto externo. Quando uma criança nasce morta, não existe nada. Está sendo registrado na mente um nascimento e uma morte. Está gravado os dois, ao mesmo tempo. O bebê não está lá, fala-se do funeral não do batizado.

A morte é a frustração de todos os desejos, devaneios e fantasias desta mulher e ainda, a impossibilidade de aplicar sua capacidade materna. O bebê dos seus sonhos torna-se uma imagem, um “bebê-fantasma”, um ser que não está vivo em carne e osso, mas vivo em pensamento e emoção.

Durante a gestação, o organismo da mãe se preparou para aleitar e cuidar do recém-nascido. Nada disso será utilizado. As mamas devem ser cuidadas para secar o leite. O puerpério será apenas fisiológico. Logo o corpo da mãe deverá se adaptar a nova condição de não-mãe.

É importante que os profissionais que estão assistindo à mãe enlutada percebam que a angústia é necessária e faz parte do processo de elaboração.

As mães devem falar sem hesitação sobre o que lhes assusta. O falar é terapêutico, evidencia que ela não está sozinha. Muitas vezes elas falam as mesmas coisas, perguntam repetidamente sobre tudo. Noutras, calam-se e nada querem saber. Devemos respeitá-las e procurar entender que o sofrimento é delas, nós apenas estamos presentes nesse momento tão doloroso. Estar presente: esta é nossa maior colaboração.

Ouvir sem consolar, sem tentar minimizar o sofrimento. Fazê-la perceber que alguém as entende e está em sintonia com a sua dor, pois sair do hospital sem carregar o seu bebê, é sair perdendo muito mais do que se pode imaginar. A perda continua pela vida toda, porém mais elaborada. Serão necessários meses, anos, para que a mente e a memória consigam entender o que o coração nunca esquece.

Não me deixe rezar por proteção contra os perigos, mas pelo destemor em enfrentá-los.
Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas pela coragem de vencê-la.
Não me deixe procurar aliados na batalha da vida, mas a minha própria força.
Não me deixe suplicar com temor aflito para ser salvo, mas para esperar paciência para merecer liberdade.
Não me permita ser covarde, sentindo sua clemência apenas no meu êxito, mas deixe sentir a força de sua mão quando eu cair. Tagore ( Poeta e escritor indiano)

Referência Bibliográfica

1) FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Rio de Janeiro: Standard, Vol.XIV , 1917

2) KÜBLER-Ross, E. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1991

3) NASIO, J.D. O livro da dor e do amor. Rio de Janeiro: Jorge Z. Editora, 1997

4) KLAUS, M.H., e KENNELL, J.H. Pais/bebê: a formação do apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

5) VÄISÄNEM, Luna. O pesar da família e o processo de recuperação quando o bebê morre. Texto, Internet, 2002.

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