O discurso político atual e a retórica de Bruto e de Marco Antonio, após o assassinato de Júlio César, na tragédia de Shakespeare.

Os sucessivos escândalos políticos divulgados pela mídia no Brasil em pleno século XXI, envolvendo representantes eleitos pelo povo em complexos esquemas de vantagens ilícitas, levam a sociedade a manter na pauta de discussão medidas necessárias para precaver-se, bem como punir esse tipo de violência. Entretanto, a esmagadora maioria da população brasileira não tem alcance intelectual para entender os complexos esquemas montados por organizações políticas criminosas. Não são raras as pesquisas acerca da dificuldade da população em compreender as denúncias apontadas pela mídia. O povo abomina, em virtude dos destaques nas manchetes que salientam palavras e expressões, como por exemplo, corrupção, suborno, e desvio de dinheiro. Todavia não consegue compreender a gravidade dos crimes perpetrados pelos eleitos, cuja repercussão no cotidiano dos cidadãos assume um evidente caráter de graves proporções à medida que amplia as condições propícias para o incremento da violência praticada pelos que agem ao arrepio da lei e permanecem impunes.

Observa-se, nos escândalos políticos amplamente divulgados, que os acusados buscam a mídia para negar terminantemente a prática de delitos. Deixam de oferecer explicações aos cidadãos e, quando convocados por seus pares a responder indagações de interesse público, conseguem liminares no Judiciário, com o fim de limitar seus comentários de modo a minimizar os prejuízos políticos. Desafiam a apresentação de provas materiais que os envolvam diretamente aos crimes denunciados. Vertem discursos com uma verborragia inigualável, esbravejam contra seus acusadores e se dizem injustiçados. Quando próximos à cassação, alguns renunciam, com o fim de buscar guarida num novo mandato, cujo poder confere-lhes o foro privilegiado e outros benefícios. Nesse sentido, a história tem inúmeros registros acerca do emprego da persuasão pela linguagem, com o fim de amenizar crimes praticados ou até aproveitar-se desses crimes para a promoção pessoal. Assim, parece-me possível recorrer à tragédia Júlio César de Willian Shakespeare, publicada pela primeira vez em 1623, com o fim de compreender melhor algumas idéias sobre esse caráter de discurso político.

O momento escolhido na tragédia de Shakespeare, que desperta atenção por se observar uma nítida relação com a retórica nos escândalos políticos, diz respeito aos discursos proferidos após o assassinato de Júlio César. Mais atuais do que nunca, observa-se a eloqüência destituída de qualquer compromisso com a potencialização da vida humana. Nesse sentido, Shakespeare nos brinda com duas versões acerca do assassinato de Júlio César. Uma de Bruto e outra de Marco Antonio. Bruto justifica ao povo sua adaga no corpo da vítima em virtude de seu amor por Roma, amor esse muito maior do que possuía por César. Afirma que o ambicioso César pretendia a escravidão do povo e sua morte foi o preço para os cidadãos viverem em liberdade.

Após os aplausos e a gratidão demonstrada pelos cidadãos, retira-se Bruto. Marco Antonio assume a tribuna, com uma postura bem diferente, apesar da promessa assumida explicitamente ao seu antecessor de que nada faria para comprometê-lo, inclusive afirma reconhecer sabedoria nas palavras de Bruto. Dessa maneira, Marco Antonio declara que o amor de César a Roma era sincero, e que o povo era favorecido por esse amor, tanto que a vítima havia deixado em testamento setenta e cinco dracmas a cada cidadão romano. No seu discurso, refere-se aos assassinos como homens honrados que cometeram uma injustiça contra César.

Após, Marco Antonio passa a analisar nas vestes retiradas do cadáver de César as perfurações deixadas pelas adagas, constituindo-se assim, imagens poderosas que incitavam o povo a revolta. A verificação do sangue vertido em cada rasgo, produzido pela lâmina de cada senador mencionado nominalmente, aprofundava a revolta contra os criminosos. As imagens eram habilmente empregadas por Marco Antonio: herança em dinheiro, roupas perfuradas por adagas, sangue e morte. Era a realidade tangível, visível, colorida com sangue, que atordoa pela sensação de dor causada pelas perfurações, bem como pelo dinheiro deixado a um povo que o desejava. Como se isto não bastasse, Marco Antonio destaca sua condição de homem do povo e comenta sobre seu sofrimento pessoal, conseguindo assim, identificar-se com os cidadãos romanos e distanciar-se de seus opositores. Bruto e Cássio, na versão de Marco Antônio, eram ingratos às benesses de César à população de Roma. Por esse motivo constituíam-se nos principais artífices dos sofrimentos que adviriam com a morte do grande líder e, desse modo, insuflava os cidadãos a uma revolta contra os senadores assassinos. Essas posições assumidas por Bruto e Marco Antônio deixa evidente a convocação da plebe convidada a decidir sobre a responsabilidade pelo crime. Os momentos de silêncio entrecortados pelas falas de alguns cidadãos, decididos a expressar seus comentários, seriam instantes de um povo extasiado, transformado em massa maleável consoante o poderoso discurso de homens iludidos pela concupiscência.

Baseado na filosofia de Espinosa (1991) é possível afirmar que o domínio exercido pelas imagens faz com que o homem tenha a ilusão de estar seguro, quando na verdade está submetido à linguagem persuasiva do outro. O discurso de Bruto busca carrear a culpa do crime à própria vitima das adagas. Bruto justifica-se qualificando César como ambicioso, cujo comportamento ensejou dos senadores as ações perpetradas. Entretanto, a estruturação da argumentação de Bruto – escravidão, ambição e liberdade –, referem-se ao campo das idéias, distantes das imagens empregadas por seu adversário. Marco Antonio, além de empregar imagens compreensíveis aos cidadãos romanos, assume o papel de vítima, ao lado do povo. Seu desejo era também livrar-se daqueles que eram inimigos declarados de César. Dessa forma, consegue fragilizar a condição dos senadores Bruto e Cássio, com o fim de alçar o poder, na condição de fiel e legítimo herdeiro político de Júlio César. Tanto na tragédia escrita por William Shakespeare, quanto no presente momento da sociedade brasileira há distorções produzidas consoante o interesse de políticos denunciados. O povo de maneira geral não reage. Há momentos de silêncio dos que sofrem, reféns dos interesses de homens ambiciosos que empregam a eloqüência para persuadi-los. Alguns cidadãos ou políticos que sabem como agir não encontram condições e apoio para provocar mudanças. Outros se mantêm reféns das condições de oportunidade que vislumbram para chegarem ao sucesso, pois as coisas que amam parecem estar ao alcance. A sua razão reafirma essa proximidade e possibilidade de se chegar lá. Pelos seus desejos e apetites não satisfeitos submetem-se às condições desse jogo, cujo prêmio constitui-se num elevado padrão de vida, e como motivação para participar surgem poderosas superstições presentes nas promessas de um futuro melhor, cujas paixões são despertadas pela mídia. Prosseguem assim no curso da história, sem consciência de que servem a interesses contrários a potencialização de suas vidas, isso porque escolheram a prisão, presumindo-a liberdade. Vivem incessantes buscas por adaptações e por novas maneiras de compreender a sociedade industrial, baseada em homens e mulheres com alto padrão de vida que reforçam essa idéia de personificação do sucesso, freqüentemente divulgados na mídia por meio de imagens sedutoras. Espinosa (1991) destaca em sua obra como a imaginação opera com idéias inadequadas, e que a superação da imagem por outra imagem torna a compreensão do mundo fragmentada. Associando isso à razão do homem civilizado, nota-se o quanto se aprofunda a possibilidade de estabelecer relações, favorecendo a persuasão pela linguagem.

Depreende-se a partir da filosofia de Espinosa, que a modernidade tornou o homem refém do poder da imagem e da razão. A certeza que possui é justificada pela linguagem, cuja estrutura faz com que veja os modelos difundidos como verdades, deixando de lado a busca pelas idéias adequadas que trariam a liberdade e a alegria à medida que a intuição intelectual propiciaria conhecer a essência e as relações intrínsecas das coisas. Na vasta publicidade do paradigma do sucesso no mundo ocidental, vemos homens e mulheres dormentes, ou consoante o grau de comprometimento, semimortos. Obrigam-se à exposição com fundamento no padrão de vida, como bem sucedidos, num fetichismo sem limites, exibicionista. O contexto que escolheram viver torna-os cegos diante das condições humanas mais precárias, e, quando se deparam com a miséria, muitos elaboram discursos em que se posicionam como indignados, porém engessados diante a possibilidade de agir. Nessa perspectiva, o discurso de políticos brasileiros envolvidos em escândalos está distante da potencialização da vida. A ascensão desses representantes está afinada com o sonho do sucesso na sociedade industrial. Seu discurso, ora assemelha-se ao de Bruto: distante do povo nos escândalos; ora parece-se com o de Marco Antonio: nas campanhas. A sina dos cidadãos e dos eleitos que depositam plena confiança nesse modelo é o compromisso com a decepção. Verem derrotados os seus sonhos à medida que o tempo passa, e são destruídos os efêmeros objetos de seus desejos. Contudo, as mudanças reclamadas amiúde vão assumindo a cada momento um caráter de necessidade que se impõe lentamente a partir de cada sujeito disposto a agir, e não somente testemunhar e indignar-se com os escândalos políticos.

Referências bibliográficas

ESPINOSA, Baruch de. Pensamentos Metafísicos, Tratado da Correção do Intelecto, Ética. Tradução de Marilena de Souza Chauí Berlinck. 5ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

NUNES, Carlos Alberto. Willian Shakespeare: Antônio e Cleópatra, Júlio César, tragédias. São Paulo: Ediouro, s/d.

One Response to O discurso político atual e a retórica de Bruto e de Marco Antonio, após o assassinato de Júlio César, na tragédia de Shakespeare.

  1. Julio Cesar Alberton 19 de Abril de 2016 at 19:46 #

    Artigo Interessante.