Associação Brasileira de Ensino de Psicologia e Análise Experimental do Comportamento

A Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) é uma entidade de âmbito nacional, que tem a sua natureza institucional voltada para a reflexão, o desenvolvimento e o aprimoramento da formação em Psicologia no Brasil. A ABEP compreende que a formação em Psicologia deve estar comprometida com a realidade social do país vinculado a ética e ao exercício da cidadania[1].
A Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP) tem como objetivos principais:

a) Cooperar com o desenvolvimento do ensino da Psicologia, coordenando informações e coligindo dados sobre o mercado de trabalho, sobre experiências educacionais de formação em Psicologia, sobre aplicações do conhecimento da Psicologia que possam auxiliar na solução de problemas nacionais e outras informações necessárias e importantes para a qualificação dos cursos de formação em Psicologia [2];

b) Articular as ações relativas à formação em Psicologia, promovendo o intercâmbio com entidades governamentais e não governamentais, com os profissionais e com os estudantes de Psicologia do país e do exterior[3];

c) Promover integração ou colaborar com outras entidades interessadas nos programas de ensino de Psicologia, podendo filiar-se a organismos internacionais que tenham objetivos conexos ou similares[4];

d) Celebrar convênios, acordos, contratos ou ajustes com entidades públicas ou privadas, nacionais ou não, para a realização de seus objetivos[5].
 
A ABEP é considerada por muitos hoje em dia uma das entidades de maior influência e importância da Psicologia brasileira superando em muito a importância de várias entidades profissionais e acadêmicas que existem no universo da nossa psicologia, afinal ela é “o espaço de expressão criado para discutir, legitimar e defender a formação em Psicologia”[6].
 
Com quase 10 anos de existência a ABEP envolve-se/envolveu-se em grandes e trabalhosas campanhas para a melhoria da formação dos profissionais de Psicologia:
 
a) Publica relatórios de gestão;

b) Incentiva a construção de núcleos estaduais e locais para expandir e concretizar suas ações;

c) Utiliza seu site para servir de veículo rápido de divulgação sobre pontos de vista em debate sobre temas especiais para a comunidade da Psicologia;

d) Informa periodicamente como está ajudando a modificar a realidade da formação do Psicólogo brasileiro através de boletins virtuais;

e) Premia as melhores monografias dos cursos de graduação de Psicologia;

f) Realiza pesquisa a respeito da realidade da formação do Psicólogo brasileiro;

g) Estimula a discussão a respeito de temas como EAD e Psicologia, ensino de Psicologia em outros cursos de graduação, formação do Psicólogo para o SUS, ensino da Psicologia no Ensino Médio, Psicologia e Reforma Universitária…;

h) Publica a relação de todos os cursos de graduação e de especialização na nossa área e mantém esse banco de dados atualizado;

i) Emite relatórios e pareceres a respeito de temas ligados á formação do Psicólogo.
 
Através de muito trabalho a ABEP procura estimular a melhoria das condições de formação do Psicólogo brasileiro. Tarefa árdua, nobre e necessária que muitas vezes não encontra ressonância nas coordenações de Psicologia e nem entre os graduandos.
 
No primeiro número do “Jornal do Federal” – boletim publicado pelo Conselho Federal de Psicologia – do ano corrente Roberta Azzi – Presidente da ABEP – se posiciona de maneira muito enfática e ética a respeito de algumas questões que devemos levar em consideração e que são importantíssimas para o preparo – ou falta de preparo – do Psicólogo brasileiro.
 
A presidente reconhece que a “implantação das Diretrizes Curriculares (DC) ainda não é tema resolvido e consensual”[7]; que os cursos de Psicologia ainda não conseguem formar profissionais comprometidos com a transformação social; que houve uma explosão do número de vagas de Psicologia nos cursos de IES privadas; que a Psicologia como profissão continua presa “a uma possibilidade de ação, a das psicoterapias”[8]. Mais adiante no seu texto Azzi afirma que “os desafios inerentes a essa tarefa [implantação das diretrizes curriculares nacionais para a Psicologia] apontam alguns caminhos necessários e nem sempre fáceis. Inicialmente seria fundamental romper com as barreiras que ainda insistem em dividir a psicologia (tanto como ciência como profissão) […] A adesão quase clerical ás teorias Psicológicas consideradas adversárias entre si, também contribuem para dificultar a implantação das DC […] [assim também como] a adesão irrestrita ás teorias e a cristalização de áreas de aplicação, se materializam a constroem verdadeiras muralhas que impedem as mudanças e conseqüentemente as DC”[9].
 
Levando em consideração que “o método de trabalho da ABEP é a interlocução e o embate respeitoso de idéias”[10] – método, aliás, ótimo para a geração de idéias, mas insuficiente para a implantação das mesmas – questiono: qual o papel dos Analistas Experimentais do Comportamento nessa tarefa de implantação das diretrizes curriculares nacionais, de auxílio na união da ciência e profissão psicológicas e do rompimento de barreiras, muros e muralhas que separam as “Psicologias”?
 
O artigo 9º das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia afirma que uma das competências básicas, devem se apoiar nas habilidades de: a)Utilizar o método experimental, de observação e outros métodos de investigação científica.

Já o artigo 19º afirma que o planejamento acadêmico deve assegurar, em termos de carga horária e de planos de estudos, o envolvimento do aluno em atividades, individuais e de equipe, que incluam, entre outros: b) Exercícios em laboratórios de Psicologia; e c) Observação e descrição do comportamento em diferentes contextos.
 
Ricardo Corrêa Martone, em uma entrevista dada á Revista Eletrônica de Psicologia do Instituto de Ensino Superior de Brasília afirma que as atividades didáticas, através de experimentos (alguns com animais), realizadas nos cursos de Psicologia é “Fundamental. [e] Não podemos aplicar uma técnica comportamental com eficácia sem compreendermos muito bem os processos comportamentais subjacentes a ela. Além disso, a análise de contingências em qualquer contexto – clínico, escolar, empresarial, comunitário deve ser rigorosamente realizada, e para isso, atividades como experimentos e pesquisas estão entre as melhores formas de se transformar em um profissional de sucesso e competente. ”[11].Martone responde ainda que mesmo a formação científica contribui muito para a prática psicológica mesmo que ela não seja especificamente a prática de pesquisa: “O desenvolvimento do raciocínio científico e do pensamento lógico são cruciais para o desenvolvimento do trabalho clínico. Durante o processo terapêutico estamos o tempo inteiro formulando hipóteses e testando-as. O nosso laboratório é a vida que o cliente compartilha conosco”[12].
 
O processo de utilização da experimentação didática na construção do conhecimento científico é tão importante que Ana Mayumi Hayashi, Naara Lilian Santiago Porfírio e Leda Rodrigues de Assis Favetta afirmam que ele deveria ser utilizada – e melhor utilizada – já nas séries iniciais do Ensino Fundamental!
 
No seu artigo “A importância da experimentação na construção do conhecimento científico nas séries iniciais do Ensino Fundamental” afirmam que “a importância do trabalho prático é inquestionável na Ciência e deveria ocupar lugar central no seu ensino (SMITH, 1975 apud HAYASHI, PORFÍRIO E FAVETTA). No entanto, o aspecto formativo das atividades práticas experimentais tem sido negligenciado, muitas vezes, ao caráter superficial, mecânico e repetitivo em detrimentos aos aprendizados teórico-práticos que se mostrem dinâmico, processuais e significativo (SILVA & ZANON, 2000 apud HAYASHI, PORFÍRIO E FAVETTA). De acordo com Borges (1997 apud HAYASHI, PORFÍRIO E FAVETTA), os estudantes não são desafiados a explorar, desenvolver e avaliar as suas próprias idéias e que os currículos de ciências não oferecem oportunidades para abordagem de questões acerca da natureza e propósitos da ciência e da investigação científica. A educação em Ciências deve proporcionar aos estudantes a oportunidade de desenvolver capacidades que neles despertem a inquietação diante do desconhecido, buscando explicações lógicas e razoáveis, levando os alunos a desenvolverem posturas críticas, realizar julgamentos e tomar decisões fundamentadas em critérios objetivos, baseados em conhecimentos compartilhados por uma comunidade escolarizada (BIZZO, 1998 apud HAYASHI, PORFÍRIO E FAVETTA).”[13]
 
Ora, se até nas séries iniciais do Ensino Fundamental já se discute a necessidade da experimentação didática dentro das Ciências Naturais – e a Análise Experimental do Comportamento é uma metodologia de uma Ciência Natural – fica clara a necessidade de valorização desse recurso didático que além de auxiliar o estudante a pensar e agir de forma parcimoniosa, econômica, lógica, racional, objetiva e clara contribui – mesmo que indiretamente – para a unificação entre ciência e profissão psicológicas afinal uma dos maiores problemas na atualidade – combatidos, aliás, por grandes nomes da Ciência universal – Thomas Kuhn, Karl Popper,B.F. Skinner, Richard Dawkins e Steven Pinker – é a ploriferação de pseudociência.

“Tipicamente, as pseudociências falham ao não adotar os critérios da ciência em geral (incluindo o método científico), e podem ser identificadas por uma combinação de uma destas características: ao aceitar verdades sem o suporte de uma evidência experimental; ao aceitar verdades que contradizem resultados experimentais estabelecidos; por deixar de fornecer uma possibilidade experimental de reproduzir os seus resultados; ao aceitar verdades que violam falseabilidade; por violar a Razão de Occam (o princípio da escolha da explicação mais simples quando múltiplas explicações viáveis são possíveis); quanto pior for a escolha, maior será a possibilidade de errar. Pseudociências são distinguíveis de revelações, teologias ou espiritualidade pois elas dizem revelar a verdade do mundo físico por meios científicos (ou seja, muitas normalmente de acordo com o método científico). Sistemas de pensamento que se baseiam em pensamentos de origem ‘divina’ ou ‘inspirados’ não são considerados pseudociência se eles não afirmam serem científicos ou não vão contra a ciência” [14].

Lamentavelmente a Psicologia está repleta de teorias pseudocientíficas  – talvez a maior parte delas estão nessa situação – e a grande questão em torno dessa verdade é saber o que a Associação Brasileira de Ensino de Psicologia poderia fazer para ajudar a resolver esse problema.

Afinal de contas, se a proposta da ABEP é auxiliar na construção de uma “Ciência e uma Profissão” – lema adotado, inclusive pelo Conselho Federal de Psicologia – ela não pode de forma alguma se contradizer e estimular a disseminação de pseudociências no universo do conhecimento psicológico. Seria uma afronta á sociedade e a todos os membros da comunidade psicológica brasileira que realmente estão engajados na construção de uma Psicologia ou Psicologias Científicas.

O que REALMENTE a ABEP está fazendo para ajudar na construção de uma CIÊNCIA psicológica?

Anderson de Moura Lima
Universidade Estadual do Piauí-Floriano
Campus Drª Josefina Demes

[1] Retirado de <http://www.abepsi.org.br/web/default.aspx> em 27/07/2008.

[2] Retirado de <http://www.abepsi.org.br/web/default.aspx> em 27/07/2008.

[3] Retirado de <http://www.abepsi.org.br/web/default.aspx> em 27/07/2008.

[4] Retirado de <http://www.abepsi.org.br/web/default.aspx> em 27/07/2008.

[5] Retirado de <http://www.abepsi.org.br/web/default.aspx> em 27/07/2008.

[6] Retirado de <http://www.abepsi.org.br/web/default.aspx> em 27/07/2008.

[7] CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cuidando do ensino e da formação. Jornal do Federal, ano 21, nº89-maio 2008.

[8] CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cuidando do ensino e da formação. Jornal do Federal, ano 21, nº89-maio 2008.

[9] CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cuidando do ensino e da formação. Jornal do Federal, ano 21, nº89-maio 2008.

[10] CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cuidando do ensino e da formação. Jornal do Federal, ano 21, nº89-maio 2008.

[11]Retirado de http://www.iesb.br/grad/psicologia/RevistaPsi/conteudo/index.cfm?id_area=10&id_conteudo=75 em 28/07/2008.

[12] Retirado de <http://www.iesb.br/grad/psicologia/RevistaPsi/conteudo/index.cfm?id_area=10&id_conteudo=75> em 28/07/2008.

[13] Retirado de <http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/4mostra/pdfs/300.pdf> em 28/07/2008.

[14] Retirado de <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pseudociência> em 28/07/2008.

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