Para um novo paradigma – parte XII (final)

(continuação)

A história da física, com suas contínuas surpresas e a crescente velocidade de sua evolução, indica que toda pre­dição sobre o futuro desta disciplina tem grandes probabilidades de ser falsa. Contudo, o nível de com­preensão das dificuldades da mecânica quântica, em particular quanto à sua interpretação, nos permite assegurar que algumas das alternativas apresentadas, ou outras novas que apareçam, se imporão, seja pelo desaparecimento de seus oponentes, seja por novos elementos que as favoreçam. A situação atual não pode eterni­zar-se.

Um dos possíveis cenários do futuro da físi­ca quântica consiste, de acordo com o que vimos, em uma sin­cera e clara adoção do positivismo. O abandono do realismo é doloroso e indesejável filosoficamente, mas devemos reconhecer que é muito eficaz para resolver as dificuldades da teoria quântica. Para muitos esta pos­tura carece de atrativo porque, dito de forma sim­plificada, não apresenta uma solução aos problemas, mas que decreta que os problemas não existem.

De qualquer forma, se isto resulta ser o futuro da física, requerer-se-ão grandes modificações em nossa concepção do mundo. Não é possível que sejamos realistas em todos os aspectos, exceto no que concerne à mecânica quân­tica. Seria necessária uma adoção clara e geral, não somente por parte dos físicos, mas por toda a população, do positivismo com todas as suas conseqüências.

Muitos físicos, satisfeitos de saber que existe certa interpretação "ortodoxa" da mecânica quântica, chamada "de Co­penhague", que resolve certos problemas (que, de qualquer forma, eles não se propõem) ignoram que dita interpre­tação requer a adoção de um contexto filosófico geral. Outros, que podem ser qualificados de pragmáticos ou instrumentalistas, nem sequer se interessam se existe ou não alguma interpretação da mecânica quântica, só a usam como uma receita de bolo.

Infelizmente, estas duas atitudes muito comuns não contribuem, mas se opõem ao progresso científico. Ninguém pode pre­tender, por certo, que todos os físicos abandonem seus problemas para dedicar-se à busca do significado da física quântica, mas sim, que estejam informados e valo­rizem esta busca, que a incentivem e a apóiem nos âmbitos onde se decidem as políticas científicas.

Há um amplo espectro de cenários possíveis para o futuro, filosoficamente opostos ao anterior, ou seja, que não implicam o abandono do realismo. Os argumentos apre­sentados nesta seqüência de doze artigos, de que todos estes cenários devem ter em comum, é a adoção da não-separabili­dade na realidade física. A generalização do conceito de não-separabilidade resulta em que para todo sistema quân­tico existem estados nos quais não é possível considerá-Io como composto por partes individuais e independen­tes. Nesses estados, o sistema forma um todo indivisível (holismo) e qualquer ação em uma de suas partes, por mais separada ou distante que esteja, terá efeitos na to­talidade do sistema. É importante repetir a advertência de que esta assombrosa característica dos sistemas quân­ticos responde a critérios científicos teóricos e experimen­tais rigorosos. Todos estes cenários realistas requerem, então, uma nova concepção da realidade nos sistemas físicos cuja evolução está caracterizada por um valor da ação próxima à Constante de Planck.

Há vários modelos de teorias que respondem à posição realista que não trato aqui. No que foi proposto por D. Bohm, inicialmente se requeria a exis­tência de variáveis ocultas que correspondiam às trajetórias clássicas das partículas. Desenvolvimentos posterio­res não fazem alusão a variáveis ocultas, e consistem em considerar o movimento das partículas como se estas fossem sistemas clássicos, mas submetidas a forças que in­cluem, além das forças conhecidas classicamente, forças derivadas de um "potencial quântico" que se cal­culam a partir do formalismo da mecânica quântica. Estas forças quânticas têm caráter não-local, introduzindo no formalismo explicitamente a não-separabilidade. A teoria de Bohm é particularmente atrativa por ser realista, causal, determinista, não-separável, e ao fazer as mesmas predições que o formalismo convencional da mecânica quântica, não contradiz nenhum resultado experimental.

É possível que os problemas levantados para a mecâ­nica quântica não tenham solução dentro de um contexto não-relativista e que a teoria definitiva apareça no ângulo superior direito do diagrama velocidade-inação. O limite não-relativista da mesma reproduziria o forma­lismo hoje conhecido da mecânica quântica.

Esta possibi­lidade deve ser levada em conta, apesar de percorrer o ca­minho oposto à via usual que vai "do simples ao difícil". Talvez, ao se pretender desenvolver uma teoria quân­tica não-relativista tenhamos penetrado em um beco sem saída. Possivelmente esta teoria definitiva resolva tam­bém as questões propostas pela teoria das partí­culas elementares, unificando as propriedades "internas" das partículas (massa, carga, spin etc.) com as "exter­nas" (posição, impulso etc.) em uma única teoria. Não exis­tem ainda indícios claros de seu nascimento, mas o gérmen pode estar já na mente de algum teórico.

Uma engenhosa idéia foi apresentada para conciliar o determinismo com a indeterminação que se apresenta na observação experimental de uma PP. Lembremos como exemplo, a medição da projeção vertical do spin de uma partícula no estado caracterizado pelo valor 1/2 na direção horizontal. Segundo o visto, 50% das vezes medimos o spin "para cima" e os 50% res­tantes "para baixo", mas não há forma de predizer de­terministicamente em cada caso individual qual será o re­sultado. Everett, em uma proposta que desafia a mais imaginativa ficção cientifica, propõe que o universo se parte em dois universos inconexos; em um o spin fica "para cima" e em outro "para baixo". Em ambos os universos há um físico que comprova o resultado do experimen­to crendo ser único. Em cada observação ou interação que tenha múltiplas possibilidades de resultado, o universo se multiplicará em tantos casos quantas possibilidades haja de tal forma que em cada um deles se realize uma das possibilidades. Isto leva a uma contínua multiplicação dos universos em números vertiginosos, mas que nun­ca notaremos porque, contrariamente ao que se proporia em um bom livro de ciência ficcional, não existe nenhuma interação entre eles, sendo impossível viajar de um a outro.

Schrödinger fica com um gato vivo em um universo e com um gato morto no outro, mas o primeiro Schrödinger não pode enviar-lhe suas condolências ao se­gundo.

Esta engenhosa idéia resolve os problemas do significado da medição, mas não responde a nenhum critério de verificabilidade. Não pode ser validada nem re­futada, pelo que está mais próxima da poesia que da física.

É errôneo considerar a física e a filosofia como duas disciplinas separadas, autônomas e independentes. Este erro tem longas raízes que se podem rastrear até a diferenciação aristotélica entre física e metafísica. Manifesta-se, no presente, em fatos, tais como, por exemplo, que nos programas de estudos superiores de física, raramente, ou nunca, aparecem cursos de filosofia, e tampouco os estudantes de filosofia acedem a cursos de física.

A história da física e da filosofia mostra claramente que ambas estão ligadas. Toda mudança de paradigma, toda revolução científica não somente produziu novos conhe­cimentos sobre a natureza, novos formalismos ma­temáticos, novos experimentos e novas possibilidades técnicas, senão que, além disso, e fundamentalmente, pro­moveu novas visões da realidade com fortes impli­cações filosóficas. A revolução quântica que começou nas primeiras décadas do século XX causou, com seu formalismo, várias surpresas. As dificuldades em interpre­tar este formalismo sugerem que a revolução quânti­ca ainda não terminou e que a segunda etapa desta poderá produzir mais surpresas que a primeira. A mecâ­nica quântica promete um futuro fascinante.

Nota: Escrevi os originais deste Curso em idioma Espanhol para um Curso que ministrei em Buenos Aires na UBA em 1993. Peço desculpas pelas falhas e lapsos que tenha cometido em minha tradução.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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