Mães ou madrastas?

A Modernidade pode ser considerada um movimento de rupturas importantes na história da humanidade ao possibilitar que o homem passasse a tomar mais consciência de si. Nasce uma era viva e efervescente e uma aposta em um ideal de felicidade que seria conquistado com a razão e com o progresso da ciência. Da Revolução Francesa emergia um ideário iluminista de homens em pé de igualdade, sem os antigos privilégios  das divisões de classes.Mas ainda levariam muitas décadas para que as mulheres superassem a desigualdade moral e cultural a que eram expostas.Consideradas mais fracas e mais sensíveis  que os homens,seu acesso à razão e à inteligência era visto com reservas, já que poderia  torná-las viris o que prejudicaria sua função maior de procriação. Além disso, a sexualidade feminina trazia a marca medieval de excessos e orgias assustadores perseguidos pela Inquisição. 
Quase como uma compensação pelos embates que se travavam em volta de  tal “natureza” feminina o foco da sociedade moderna  se deslocou  para seu papel sublime de mãe e fez  emergir o instinto maternal. Na era burguesa  a mulher-mãe ganha todas as atenções e a reverência da sociedade e o amor materno é promovido a um espaço jamais conquistado anteriormente na história da humanidade. O corpo e o coração materno passam a ser o paraíso originário e da mulher depende toda a educação e o futuro dos homens. O ocidente passa a cultuar a imagem da Virgem Maria e seu filho como símbolos da maternidade. Tal idealização da figura da mãe ajuda a incrementar a figura mitológica da “sagrada família” moderna.

As mães em suas famílias passam a constituir um modelo ideal fechado: basta se casar e ter filhos para a mulher se despojar de sua humanidade, receber o cetro e a coroa e desfrutar de seus poderes maternos. Freud foi um dos pensadores que ajudaram a esclarecer esta ingênua e romântica crença ao possibilitar que a mulher pudesse fugir deste único destino e desvendar os desajustes desta estrutura familiar. Ao se confrontar com a dimensão inconsciente do funcionamento humano ele apontou a divisão de nossa subjetividade e revelou a vinculação íntima entre civilização e barbárie, progresso e sofrimento, liberdade e infelicidade. Vivemos em um permanente conflito entre nossos desejos sexuais e agressivos e a repressão necessária a estes para o convívio social. Produzimos cultura em um esforço permanente de dominar a natureza e regular nossas relações. Nossos sonhos, desejos e fantasias não têm nenhum compromisso com verdades históricas ou com leis instituídas.

A lei da cultura é um grande pacto de um toma-lá dá-cá, em que nos comprometemos a reprimir nossos estranhos desejos para nos tornarmos sócios de uma sociedade humana. Não existem desejos “naturais” humanos: eles nascem a partir de uma complexa trama de violências, tristezas, ciúmes e anseios amorosos vividos na infância, precisam buscar às duras penas um destino extra familiar e submeterem-se por meio de compromissos e renúncias às regras civilizatórias.Mas são principalmente nossos sintomas quem revelam  a ilusão de uma organização subjetiva humana coesa e razoável: em geral  negamos uma parte importante e reprimida de nós mesmos que é colocada fora em figuras que criamos e utilizamos para seguir carregando o que não podemos suportar em nós.

Os contos de fadas e a literatura infantil são exemplos interessantes desta divisão insistente. Criamos figuras do Bem e do Mal que ocupam lugares diferentes para que nossas crianças possam vir a se identificar somente com fadas, princesas meigas e generosas ou príncipes heróis e justos. É assim que a figura das madrastas más, perversas e ciumentas, sempre às voltas com o desejo de expulsar os seus ou as suas enteadas para finalmente poderem ter a exclusividade de seu homem, são apenas projeções de nossos desejos inconfessáveis. É entre estes dois mitos, a mãe sublime e a madrasta má, que nós mulheres podemos compor uma maternidade possível.

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