Leitura de fruição: família e escola propiciando condições para a criança fazer suas escolhas.

Dentre os conceitos acerca da leitura de fruição parece-me adequado compreendê-la como uma “[…] leitura que se realiza pelo desejo, pela espontaneidade, pela ausência de controles e satisfações devidas […]” (Corrêa, 2003, p.73).  Para se chegar a esse ponto podemos presumir um longo percurso propiciado por condições objetivas (livros) e as que envolvam família e escola. Podemos verificar casos em que esses leitores surgem em condições adversas, entretanto, não se justifica focar a exceção como resposta a uma ausência de ações necessárias para viabilizar a autonomia do leitor. Portanto, não se constitui uma preocupação no presente trabalho. Assim, para deixar claro o que se pretende, o objetivo deste artigo é elaborar uma reflexão sobre a possibilidade de favorecer o desenvolvimento da competência do leitor para realizar a leitura de fruição.
Nessa perspectiva, torna-se viável aduzir os comentários de alguns alunos acerca de suas escolas. Há escolas, cujos professores escolhem uma obra de seu interesse e obrigam seus alunos à leitura, às vezes, durante as férias. Essa experiência além de desagradável pode ser marcante para o aluno, principalmente quando são realizadas provas sobre o que foi apropriado. Isso pode ser agravado, quando o hábito da leitura está ausente do lar e, portanto, o aluno está sendo forçado a realizar uma tarefa que não o atrai. Desse modo, essas obras são lidas rapidamente nos últimos dias de férias sob ameaça dos pais ou podem se tornar livros “esquecidos” até o retorno às aulas. Para que a leitura não se transforme em tormento, devem ser observados alguns aspectos, e nessa perspectiva a escola pode colaborar e muito. Uma questão importante refere-se à construção de um percurso, em que o professor procure saber qual leitura interessa a seus alunos e como escolher livros do interesse deles. Deve-se, portanto, partir do pressuposto de que o ato de ler deve ser prazeroso. Nesse contexto, cabe ao educador observar o aluno, estar atento ao percurso de cada um. Entretanto, sabemos também, o quão dramático seria pensar em atribuir somente ao professor de língua portuguesa ou de literatura esse encargo. A leitura de fruição deve constituir-se num projeto envolvendo a escola e as famílias dos alunos. 

Muitas famílias não desenvolveram o hábito da leitura no lar. É justamente nesse ponto que a escola pode focar seu projeto. Conforme Leontiev (s.d.) o sujeito aprende com o outro mais experiente. Pelo fato das “[…] relações da criança com o mundo circundante serem mediatizadas pelas suas relações com os homens é que ela entra em comunicação prática e verbal com eles.” (p.341) Portanto, se o hábito da leitura no lar não foi apropriado pela família não adiantam apenas recomendações para realizar essa atividade. Temos que criar as condições para viabilizar a leitura no lar.  A Psicologia Sócio-histórica entende que o desenvolvimento humano ocorre durante toda a vida. O trabalho de Lúria (1990), um de seus principais teóricos, comenta extensamente sobre a necessidade de condições materiais e sociais para que ocorram mudanças no desenvolvimento cognitivo dos sujeitos. Portanto, quando mencionamos a possibilidade de contribuir para a família realizar a atividade de leitura no lar, isso significa a construção de um projeto com o fim de viabilizar aos pais o desempenho do papel de leitores, bem como compartilhar a leitura com seus filhos. Essa aprendizagem tem implicações sociais. “Leontiev (s.d.) esclarece que temos que inserir na análise dessas implicações sociais um pressuposto importante da Psicologia Sócio-histórica: a mediação. Conforme o mesmo autor e obra, o grupo social imediato é aquele com o qual a criança estabelece comunicação, que tem influência sobre ela. Nesse aspecto, cabe lembrar que o desenvolvimento da criança terá sua dinâmica consoante os gestos, as propostas de atividade e a linguagem empregada por esse grupo ao estabelecer suas relações com a criança.” (Palma Filho, 2007, p.114).

Assim, a escola ao pensar na atividade de leitura de fruição pelos seus alunos deve também envolver a família.  Isso se justifica haja vista uma preocupação na atualidade com a leitura, principalmente em decorrência de estatísticas acerca da baixa qualidade da formação do aluno brasileiro no tocante a leitura. Quando são apurados resultados estatísticos do baixo rendimento de alunos, surgem inúmeras propostas que nem sempre conseguem melhorar os índices. É possível observar isso ao longo das décadas. Estamos falando das inúmeras campanhas visando à leitura, entretanto algumas questões deveriam ser abordadas: será que o valor atribuído à leitura, por quem distribui os livros encontra uma coincidência de importância daquele que os recebe? Ao se solicitar que os pais leiam com seus filhos, será que a história pessoal dos pais viabiliza a realização dessa atividade no lar?  Encontramos assim uma questão de suma importância: como foi construído o percurso do leitor?  Se é que foi construído. Comentar uma experiência pode ser muito esclarecedor. Uma pessoa que conheço entrou em uma livraria, escolheu cuidadosamente um livro adequado à idade de uma criança de dez anos e seguiu inúmeras recomendações para presenteá-la. Pensou como seria enriquecedor para aquela criança elaborar suas primeiras reflexões sobre a vida etc. Seria algo marcante e inesquecível. Porém, notou para sua decepção pessoal que a obra escolhida ficou de lado e um sorriso discreto do aniversariante revelou-lhe a decepção com o presente. Ao discutirmos sobre o assunto, surgiram algumas questões. Primeira, a criança pode não se interessar pelo que foi selecionado pelo adulto: cada sujeito tem seu próprio gosto. Assim, o presente foi escolhido sem se saber sobre as preferências de quem foi presenteado. Isso por si só garante a rejeição. Além disso, temos algumas indagações: será que a criança tem em sua história pessoal a leitura como fruição? Será que a leitura não se constitui para ela somente um meio para superar obstáculos (provas, trabalhos etc.)?             

Como princípio, a leitura de uma obra deve estar associada ao prazer de ler. Assim como a aprendizagem deve estar associada ao prazer de aprender. Todavia, nesse prisma, nossa sociedade busca um sentido prático que desloca a aprendizagem para uma abordagem pragmática, garantidora dos esforços com o fim de o aluno chegar ao sucesso profissional. Estimula-se a leitura para o que se julga importante no mundo capitalista: resumos de obras literárias para o vestibular e livros para aprender a responder questões de provas, ou realizar trabalhos na escola. Leitura e escrita destinadas à comunicação na web.  Cabe, também, elaborar uma reflexão sobre a importância da leitura de fruição, associada à aprendizagem. Isso significa empenhar-se por compreender o que se pretende para os educandos. Ao se aspirar uma contribuição para que eles ingressem no caminho da qualidade de vida, torna-se necessário oferecer-lhes oportunidades para que transitem em direção à autonomia, aprendendo gradativamente a fazer escolhas, e isso também implica saber selecionar um livro de seu interesse para realizar a leitura de fruição. Hoje o mercado de livros possui uma extensa variedade de títulos e torna-se necessário desenvolver a competência do leitor para ele fazer suas escolhas.

Isso não significa excluir o que se estabelece como necessário com vista a uma formação profissional, mas deslocar o sentido de obrigatoriedade da leitura para o desejo de querer saber mais pelos caminhos da leitura de fruição. Descortina-se nesse sentido todo um universo de novas perspectivas para se pensar e criar, num mundo recheado de exigências profissionais.  Em um projeto relativo à construção de uma biblioteca para uma Instituição na Grande São Paulo, com uma população de baixa renda, ficou evidente a importância da família para propiciar a leitura de fruição. Um grupo de alunos participou da construção de um espaço para leitura. Discutimos sobre a importância da leitura, quais livros iriam integrar a biblioteca, como organizar, como cuidar dos livros e como realizar o controle do que foi levado/devolvido. Os alunos levaram livros durante o processo e, ao final, pintaram as estantes de madeira e acomodaram as obras. Após um ano de projeto, na última avaliação, constatamos o quanto seria importante envolver a família, pois dentre 45 alunos que participaram do projeto, somente 10 freqüentavam a biblioteca com assiduidade semanal. Portanto, ficou claro que a família é de fundamental importância para desenvolver o hábito de leitura. Os pais podem oferecer uma importante contribuição quando realizam a leitura de um livro com seus filhos. Além da possibilidade de ensino e aprendizagem, temos a dimensão das relações interpessoais, do desenvolvimento da capacidade de interpretação, da criatividade, do raciocínio, entre outras. O que desperta minha atenção é empregar a leitura como estratégia para mudar a qualidade dessas relações.  Para esse fim, não basta ler para o outro. É necessário que os filhos participem da leitura e, portanto, deve-se buscar os interesses deles e selecionar livros a partir daí. Essa experiência de observar o outro e fazer uma reflexão que busque compreendê-lo pode ser muito significativa, e irá contribuir para os filhos promoverem a escolha de livros, por si sós. É uma experiência gratificante observar um filho entrar numa livraria ou biblioteca e escolher um livro, simplesmente pelo prazer de ler. Consoante Solé (1996) a leitura de fruição “[…] é uma questão pessoal, que só pode estar sujeita a si mesma […] É  fundamental que o leitor possa ir elaborando critérios próprios para selecionar os textos que lê, assim como para avaliá-los e criticá-los.” (p.97). Tanto a escola, quanto a família podem contribuir para essa autonomia. Ela é construída ao longo do tempo, cabendo aos pais uma especial colaboração, envolvendo principalmente a qualidade das relações interpessoais dentro do lar e à escola atenta ao aluno no seu contexto.  

Referências Bibliográficas

CORRÊA, Hércules Tolêdo. Adolescentes leitores: eles ainda existem. In: PAIVA, Aparecida; MARTINS, Aracy; PAULINO, Graça; VERSIANI, Zélia. Literatura e Letramento: espaços, suportes e interface o jogo do livro. Belo Horizonte: Autêntica/CEALE/FaE/UFMG, 2003.

LEONTIEV, Alexis N. O Desenvolvimento do Psiquismo. São Paulo: Moraes, s.d. 

LÚRIA, Alexander R. Desenvolvimento Cognitivo: seus fundamentos Culturais e Sociais. São Paulo: Ícone, 1990.

PALMA FILHO, João. Mães leitoras para filhos com deficiência mental: uma intervenção  fundamentada na Psicologia Sócio-histórica. Dissertação de Mestrado. UNIMARCO. São Paulo: 2007. 162p. 

SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura. Tradução: Cláudia Schilling. 6. ed.  Porto Alegre: ArtMed, 1998. 

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