O Sociodrama Construtivista na Educação Preventiva da Relação Familiar

Resumo

O presente trabalho teve como objetivo apresentar preventivamente e de maneira reflexiva como os pais podem melhorar o processo na educação de filhos e nas alternativas mais saudáveis de contato e equilíbrio entre eles, através da percepção e da relação mútua e como essa relação é vista por ambos e transformada. Esse trabalho foi realizado numa instituição escolar, conveniada com o governo do Estado do Tocantins. Participaram 127 pessoas entre homens e mulheres com faixa-etária entre 20 a 60 anos, sendo pais, avós, responsáveis, cuidadores e professores. O instrumento de trabalho utilizado foi o Sociodrama Construtivista. Nos resultados pudemos averiguar os fatos e perceber quais fatores que mais angustiam os pais com relação à educação de filhos, bem como o fortalecimento do grupo a cada encontro.

Palavras-chaves: educação de filhos, prevenção, reflexão, sociodrama Construtivista

Falar de educação de filhos, nos dias atuais, tornou-se um desafio para os pais, pois se percebe que eles encontram muitos problemas quando se coloca a dificuldade em manter uma educação e aprendizados saudáveis, sem conflitos, sem agressões tendo uma postura mais confiante nessa relação.

Muitos pesquisadores apresentam em seus estudos como a educação de filhos pode acontecer sem que seja um processo doloroso e complexo para os pais, mas devemos levar em consideração que cada caso na educação de filhos depende do contexto em que a família está inserida e como se deu o seu processo de construção no âmbito educacional; e como a família nuclear desenvolveu seu mecanismo de perceber as dificuldades de lidar com situações diversas no cotidiano dentro do processo de conhecimento familiar.

A importância do processo de aprendizagem de pais e filhos está voltada para as questões sociais, culturais, econômicas e como se dá o relacionamento destes dentro de um sistema que há uma inter-relação.

Muito as famílias têm a aprender com as suas famílias de origem que estão pautadas dentro de um contexto histórico e cultural as quais sofrem uma transformação geração após geração, em que encontram arraigados valores, condutas, mitos, ritos, conservas, lealdades e segredos entre elas. A família pode ser vista como um sistema. Esse sistema é composto por um conjunto de partes que interagem sobre si e são organizados entre si e possuem um objetivo e finalidade. Num sistema, cada membro afeta o outro e é afetado por ele, passando a se manter e ser mantido. (Coll & cls., 1999).

Nos trabalhos de Bárbara Rogoff (1993), com famílias percebe-se que na nossa cultura as famílias adaptam-se às crianças; e em culturas mais primitivas as crianças que se adaptam aos costumes culturais de seus pais e a toda a sociedade em que está inserida.

Assim o processo de educação de filhos se torna mais claro e com resultados positivos se pais começassem a trazê-los para seus modelos e comportamentos e não os filhos moldarem seus pais a seus próprios comportamentos e estilos.

“As famílias são compostas por diversos subsistemas (casal; filhos), entre os quais existem alguns limites mais ou menos flexíveis. Uma situação adequada é aquela em que a existência e a percepção do sistema familiar como um todo não é incompatível com a autonomia dos seus subsistemas. Ao contrário, tanto as famílias muito desligadas com as excessivamente aglutinadas podem gerar conflitos e dificuldades.” (Coll & cls., 1999. p. 158).

As famílias são classificadas em: origem, nuclear e extensa. As famílias de origem são aquelas onde se originou todo um modelo de estrutura familiar, remontada dentro de padrões intergeracionais.

A família nuclear é aquela formada pelos pais e filhos e as famílias extensas são aquelas formadas por mais de um núcleo conjugal. (Coll, 1999).

Esses padrões familiares sofrem transformações, pois as famílias atingiram vários padrões de estruturas como a presença mais permanente dos avós, casais homossexuais, pais separados que constituem outras famílias, entre outros. As famílias também passam por suas crises como separação dos cônjuges, perdas de membros queridos, mudança de cidade, crises financeiras que podem abalar toda uma estrutura do sistema familiar.

O seguinte trabalho teve como objetivo apresentar preventivamente e de modo reflexivo como os pais podem melhorar o processo na educação de filhos e como possuem alternativas mais saudáveis de contato e equilíbrio entre eles, através da percepção de um desenvolvimento em que haja uma relação mútua e como essa relação é vista por ambos e pode ser transformada. Também ajudar aos pais e todas as pessoas envolvidas no processo de constituição familiar a rever a educação de filhos dentro de uma concepção sistêmica, em que possamos perceber todo o processo histórico, social, cultural da construção familiar e a busca da identidade de seus membros.

Mônica Mcgoldrick (2003) nos mostra que precisamos desenvolver perspectivas sobre a nossa identidade em três níveis:

1. Nossa singularidade enquanto indivíduos.

2. Nossas várias identidades de grupo que nos proporcionam uma sensação de “lar” que definem quem somos em relação aos outros.

3. Nossa parceria comum com todo o outro ser humano, sem a qual certamente pereceremos.

A execução do trabalho ocorreu através de encontros semanais, na instituição escolar Centro Educacional Fé e Alegria – Paroquial Bernardo Sayão, escola religiosa conveniada com a prefeitura municipal de Gurupi, Tocantins, com pais de alunos, num período de duas horas aproximadamente. Em cada reunião eram trabalhados temas diversificados escolhidos pelos próprios pais.

Utilizamos como método de trabalho o Sociodrama Construtivista de Zampieri (1996).

O Sociodrama é um método criado por Jacob Levy Moreno (1892-1974), em que os grupos participam de dramatizações atemporais, ou seja, as pessoas podem atuar fora de seu tempo. Esse método é composto por algumas etapas como: aquecimento inespecífico, aquecimento específico, dramatização, comentários e fechamento.

Zampieri (1996) propõe que o Sociodrama é um método que objetiva a subjetividade, que o ser passa a atuar de forma espontânea e fazer a ação, ao mesmo tempo em que ele experiencia a ação passa a ser experimentador dela, tanto o ser quanto o grupo tornam-se sujeitos passíveis da observação e mensuração dos atos, através da sua espontaneidade.

Segundo os estudos de Zampieri (1996), o Sociodrama Construtivista permite que busquemos uma subjetivação de uma realidade objetiva, por meio da simbolização e da captação do que Moreno chamou de processos co-conscientes e co-inconscientes desenvolvidos nas relações grupais.

Ainda de acordo com a autora supracitada o grupo apresenta uma entidade em si, onde tem sua própria estrutura social, aonde os processos individuais vêm à tona, sem perder sua autonomia. Para Moreno (1872-1974), homem nasce e vive em grupo, por conseguinte é neste grupo que ele adoece, assim é no contexto de sua realidade que deve ser tratado.

O grupo possui um objetivo relacional, que leva um processo inter-relacional grupal, onde favorece um momento catártico no grupo que todos os seus membros são favorecidos, as relações existentes no passado, as conservas culturais entre outros, são postas, surgem o co-inconsciente do coletivo. Para Zampieri (1996) este processo realizado por uma microrrealidade detectada nas relações do grupo, faz-nos ter a compreensão de uma macrorrealidade.

O grupo bem como a família tem sido ao longo de décadas alvo de estudos, para que possamos compreender a sistemática das relações familiares e seu desenvolvimento ao longo do processo evolutivo histórico, social e cultural.

Desde tempos passados, há a preocupação de retratar a família e como se dá a sua constituição. Na Idade Média muitos artistas procuraram retratar a família através de pinturas e daí por diante. Percebe-se a evolução dessas dentro de um contexto histórico-social da família. (Ariès, 1975).

A família, neste período medieval, passa por várias ascensões e declínios como: a indivisão dos bens, as quais os filhos não podiam obter adiantamento da herança, a mulher passa a ser vista como inferior e incapacitada e a instituição do pátrio poder.

“Enquanto se enfraqueciam os laços da linhagem, a autoridade do marido dentro de casa tornava-se maior e a mulher e os filhos se submetiam a ele mais estritamente. Esse movimento duplo, na medida em que foi o produto inconsciente e espontâneo do costume, manifesta sem dúvida uma mudança nos hábitos e nas condições sociais… Passara a atribuir a família o valor que outrora possuía a linhagem”. (Ariès, 1975. p.214).

Phillippe Ariès (1975), em seus estudos sobre a História Social da Família e da Criança, relata que na realidade, a família é o primeiro refúgio em que o indivíduo ameaçado se protege durante os períodos de enfraquecimento do Estado. Mas assim que as instituições políticas lhe oferecem garantias suficientes, ele se esquiva da opressão da família e os laços de sangue se afrouxam. (Duby, apud Ariès, 1975).

O Estado e as razões sociais produzem na constituição familiar mudanças que definem todo o seu processo de evolução e como os seus membros vão consolidar juntamente com o desenvolvimento político – social e os laços sangüíneos e afetivos que juntamente vão traçar modificações significativas.

De acordo com Lasch (1991) citado nos estudos de Mello (2002), nos dias atuais, o Estado não controla apenas o corpo do indivíduo, mas toda a parcela do seu espírito que é passível de ser ocupada, não apenas a sua vida exterior, mas também a vida íntima, não apenas a esfera pública, mas até os cantos mais obscuros da vida privada, que antes eram inacessíveis à dominação política.

Na Idade Moderna, a família toma uma conotação diferente: os filhos passam a serem vistos e assistidos pelas famílias num contexto educacional e afetivo, a preocupação com a criança torna-se mais presente, não apenas em uma esfera de aprendizado prático para a vida, mas também sob uma visão pedagógica e a criança torna-se mais próxima de seus pais.

Diferentemente de tempos passados em que à família não alimentava o relacionamento com as crianças de sentimentalidades, mas toda a educação era vista como uma conquista social e do Estado. Com a chegada da família moderna quase que simultaneamente junto da escola, o sentimentalismo começa a ter um espaço maior nas famílias. Muitas questões ainda precisavam ser ajustadas e trabalhadas, mas já se conseguia perceber avanços como a escolarização dos filhos. Essa escolarização não afetou uma camada da população, segundo os estudos de Ariès (1975), que diferenciou a educação entre os meninos e as meninas. De acordo com ele, as meninas, com exceção de algumas, eram educadas em casa, ou também na casa de outras pessoas ou parentes vizinhos. No caso dos meninos, a escolarização atendeu primeiramente as classes médias e a alta nobreza que se manteve fiel à antiga aprendizagem.

Ariès (1975) ressalta em seus estudos sobre a família que podemos imaginar uma família moderna; sem amor, mas as preocupações com a criança estão nelas enraizadas.

McGoldrick (2003), em seus estudos nos diz que uma dificuldade que enfrentamos na terapia familiar e na sociedade norte-americana como um todo é a definição de “família”.

”… a nossa definição de família vem de uma estrutura como sendo o pai e a mãe fundamental para o desenvolvimento da criança e isso tem sido um eufemismo para descrever uma mãe que está eternamente à mão de todos, tanto emocional quanto fisicamente, e um pai distante, provedor de dinheiro”. (McGoldrick, 2003, p. 4).

Ainda nos estudos de McGoldrick (2003), faz-se necessário considerar o papel das governantas, babás, criadas, avós, professores e outros mentores, que fazem parte da educação da criança. Precisamos cuidar de toda a estrutura familiar e da comunidade para criar nossos filhos.

A constituição familiar vem ao longo da história galgando seu espaço. São percebidos inúmeros avanços e retrocessos na sua edificação, sempre procuram formas de se ajustar junto à evolução histórico-social que permita desenvolver-se numa construção sistêmica para que se possa ser uma instituição moral, espiritual, voltada para um processo de educação e aprendizado.

No que se refere à educação de filhos Castello (2006), em sua tese de mestrado, coloca-nos de forma bem transparente a constituição da educação de filhos desde o século XVI e remonta a história dessa educação até a sociedade contemporânea entre os séculos XV e XXI e como os filhos apresentaram características bem distintas em cada fase.

Para nós, é interessante focarmos na família contemporânea, segundo as pesquisas levantadas por Castello (2006), o qual cita Carvalho (2005), que mostra a família na seguinte conjectura: nuclear, matrifocais e ampliadas.

Os filhos na família nuclear podem ser biológicos ou adotivos.

Os filhos de famílias matrifocais são criados pelas mães e podem ser de uma união com um companheiro ocasional ou permanente.

As famílias ampliadas os filhos podem também ser biológicos ou adotivos e morar outros membros junto com a família (sobrinhos, avós, netos).

Castello (2006.) descreve em seus estudos que: “Percebemos na atualidade que a relação pais/filhos mudou bastante e saiu dos padrões preestabelecidos para critérios muito abrangentes de negociações. As situações ligadas a direitos e deveres das pessoas dentro do núcleo familiar estão cada vez mais sendo substituídas por situações de negociações, onde os dois lados precisam ser coerentes. Os filhos buscam cada vez mais a independência e autonomia, situações estas que são vistas pelos pais com desconforto e insegurança”. (p.39).

Nas questões pautadas no limite na relação pais e filhos, Gottman (1997), em seus estudos sobre inteligência emocional na educação de filhos, percebeu que se pais usarem emocionalmente a sua inteligência para educar e limitar os comportamentos insatisfatórios nos filhos terá resultados significativos. Para isso, Gottman descreveu cinco etapas em seu trabalho de pais preparadores emocionais:

1. Os pais percebem a emoção dos filhos;

2. Reconhece na emoção uma oportunidade de intimidade ou aprendizado;

3. Ouve com empatia;

4. Ajudam a criança a encontrar as palavras para identificar a emoção que ela está sentindo;

5. Impõem limites ao mesmo tempo em que exploram estratégias para a solução do problema em questão.

Segundo Minuchin (2003), a família é um grupo natural que através dos tempos tem desenvolvido padrões de interação. Esses padrões constituem a estrutura familiar, que por sua vez governa o funcionamento dos membros da família, delinea sua gama de comportamento e facilita sua interação. A questão do limite na educação de filhos vai além de colocar ou impor regras pré-estabelecidas no sistema hierárquico familiar, mas está intimamente ligado com a questão da percepção do outro e o lugar em que ele ocupa naquele grupo familiar ou no sistema familiar, é necessário antes de tudo aprender limitar nossos espaços para que possamos ensinar ao outro.

As dificuldades básicas encontradas na educação de filhos, na contemporaneidade, estão diretamente ligadas ao diálogo entre pais e filhos.

Gardner (1995), em seus estudos descreve-nos que dialogar é contar experiências, é segredar o que está oculto no coração, é penetrar além da cortina dos comportamentos e desenvolver a inteligência interpessoal.

Para que a família mantenha um diálogo requer que esta aprenda a estimular o seu papel educativo em casa (jogos, conversas, clima de confiança que permita formular dúvidas e perguntas, apresentar conflitos, entre outros), além de dar suporte à função educativa da escola e de outros contextos em que os filhos participam (Coll, 1999).

Nos estudos de Golleman (1995), a emoção é um fator essencial para a manutenção de um diálogo, é importante não ignorar qualquer tipo de sentimento, não ter um comportamento laissez-faire e não deixar de respeitar o que a criança ou o adolescente realmente sente.

Outro fator relevante para a educação preventiva na relação familiar é pautado em cima dos valores, presentes em nossa sociedade.

Valores acontecem tanto por imitação e internalização de avaliações alheias e de valores desde a mais tenra infância, como por experiência própria do indivíduo, gradual, negativa e positiva e em parte condicionada, vivendo com outros indivíduos, com coisas e objetos. A formação de valores é uma parte essencial da socialização. (Dorsch, 2001).

Várias definições foram dadas para se pensar valores em nossa sociedade e algumas definições foram mais diretivas com relação à fé, ao amor, à saúde, família, obediência e honestidade. Para que as famílias resgatem seus valores de uma maneira satisfatória, faz-se necessário conhecer a importância, analisar o conjunto de valores, fazer uma reflexão diária e manter todas as ações no cotidiano. (Castello, 2006).

Os valores estão presentes e se tornam distintos na educação de filhos nos dias atuais, os pais modernos mantém um padrão diferenciado daqueles vivenciados em suas experiências enquanto filhos.

No artigo de Teixeira & Risi (10/2006), as terapeutas de família falam das mudanças da parentalidade até os dias atuais e como os pais vêm vivenciando estas experiências na construção enquanto pais e filhos. A família foi conceitualizada como um sistema social, formado por indivíduos relacionados por laços de afeto, e lealdade, comprometidos a permanecer unidos através de anos.

O último aspecto citado nos leva a ter uma relação e inter-relação de seus membros, pelo menos por três gerações.

Para os pais:

1. Não existem conselhos bem intencionados das pessoas próximas, livros, artigos, ou uma infinidade de recursos para buscar ajuda;

2. Cuidar, educar e proteger são papéis que cabem aos pais exercer, bem como proteger os filhos e prepará-los para o ingresso em uma sociedade;

3. Dedicação, palavra mestra para um bom resultado na educação;

4. Pais que trabalham, procurem entre si uma organização para passar um tempo com os filhos, durante suas folgas.

5. Respeito, integridade, honestidade ajudam no bem-estar físico, mental e social dos filhos;

6. Trata-se de um processo relacional de crescimento entre pais e filhos, os pais irão aprender a ser pais com seus filhos e os filhos irão aprender a ser filhos com seus pais.

7. Processo de Relação de ensino-aprendizagem. Os pais atuais tendem a buscar ajuda e inspiração na geração anterior mais próxima, que é a dos seus próprios pais;

O contexto de toda uma geração mudou. Se os pais atuais esquecem estas experiências vividas como filhos, a tendência será de repetir o que seus pais fizeram. A difícil arte, nos dias atuais, é atualizar o modelo dos nossos pais e incrementá-lo com uma grande dose de criatividade. (Teixeira & Risi, 2006).

Para os pais lidar com o sentimento de perda dos filhos e o sofrimento que causa a todo o sistema familiar muitas das vezes leva os pais a se sentirem perdidos na orientação e acolhida aos filhos. Castello (2006), em sua Dissertação de Mestrado “A desconstrução e reconstrução dos modelos parentais intergeracionais através do Sociodrama Construtivista”, faz uma colocação sobre perdas na infância e adolescência e decorre em seu texto o seguinte:

“… quando se fala em perdas no contexto infantil ou na adolescência, pode-se falar de uma forma abrangente, desde perda da própria infância de amiguinhos da pré-escola, do ensino fundamental, de um animal de estimação, de uma babá muito afeiçoada, até a perda de um ente querido. É importante que o homem comece a refletir a morte desde pequenino, pois é um fenômeno que faz parte da vida e finaliza um processo de fechamento do ciclo vital e é importante que a morte seja passada para as crianças de uma maneira saudável sem traumas”. (p.110).

Em seus estudos, Kubler-Ross (1987), descreve a morte em cinco estágios: negação, raiva, barganha, sentimento de perda e na última, aceitação.

O importante nas questões de perdas são preparar as crianças para que essas tenham enfrentamento nas situações difíceis, cabe aos pais dar o preparo aos seus filhos de uma forma lenta, acompanhando o desenvolvimento natural desses, percebendo nesse processo as perdas que os filhos experienciam na vida, apoiando naquilo que for necessário, a fim de elaborar os seus aspectos emocionais.

Os avós exercem um papel singular na educação de seus netos e na vida de seus filhos, atualmente não podemos desconsiderar a atuação dos avós na esfera familiar e a contribuição que estes oferecem. Na pesquisa realizada na UnB (11/2006), teve como intuito investigar as redes de apoio que as mães possuem durante a chegada dos filhos, apontaram que os avós são um dos responsáveis principais por esse apoio.

Nesta pesquisa pode-se averiguar que as convivências dos avós podem ser benéficas. Esses se encontram presentes na vida dos netos e a companhia faz com que ambos não se sintam sozinhos. De acordo com a orientadora da pesquisa Dassen (2006), a interferência dos avós pode ser negativa quando começam a dar muitos palpites na educação dos netos, cria-se, uma discussão até mesmo entre o casal.

Segundo Maldonado (2004), “nem sempre mães e avós vão concordar em tudo, podem ocorrer pontos de vista diferentes o que não chega a ser nenhuma incompatibilidade insuperável, a saída seria sentar e discutir uma terceira opção”. Para Maldonado (2004), os cuidados entre avós e netos podem acontecer de diversas maneiras, desde pequenos encontros, cuidados voluntários (que não apresentam limitações para cuidar dos netos) e cuidados involuntários (quando assumem a responsabilidade perante os netos, até mesmo com base nas leis).

A pesquisadora Maíra da UnB (11/2006), verifica que o sofrimento dos avós que se vêem na responsabilidade de criar seus netos é muito maior do que idosos que sofrem de depressão ou stress, pois teriam que atuar como pais e seria muito melhor se atuassem apenas como avós. A afetividade entre avós e netos é muito importante para um bom relacionamento entre as gerações e marca a vida das crianças com lembranças, histórias, fazendo assim parte de uma construção da identidade infantil até a idade adulta.

A sexualidade infantil é um caso muito complicado para os pais, quando estes devem começar a falar com seus filhos sobre a curiosidade que os cercam e de que maneira, para muitos pais sexualidade é um tema tabu, que em muitos casos deve ser evitado falar sobre o assunto com seus filhos. Freud em seus estudos (1906-1908) sobre as teorias sexuais das crianças, descreve que elas se desenvolvem ao longo de suas vidas, através da evolução psicossexual. Neste estudo Freud relata três fontes sobre as teorias sexuais das crianças, sendo que a primeira deixa claro que os adultos não atribuem muito interesse ao processo de desenvolvimento sexual infantil, não lhe atribui nenhuma atividade sexual. A segunda teoria Freudiana nos dá o entendimento de que os bebês se desenvolvem no corpo da mãe, e isso só pode ocorrer através de um caminho à passagem anal, logo as crianças associam que os pais também podem ter a capacidade procriadora devido à passagem pelo ânus.

A terceira teoria surge quando as crianças testemunham acidentalmente uma relação sexual de seus pais. A criança vê no coito uma agressividade causada pelo seu pai para com sua mãe. “Uma questão difícil é determinar até que ponto se deve supor que as observações aqui relatadas a respeito de algumas crianças sejam verdade para todas as crianças. As pressões da educação e a variável intensidade do instinto sexual certamente permitem grandes variações individuais no comportamento sexual das crianças, e, sobretudo influenciam a época do aparecimento do interesse sexual da criança. Por esse motivo não dividi minha apresentação do material de acordo com os sucessivos períodos da infância, mas reuni numa única exposição fatos que ocorrem ou mais cedo ou mais tarde em cada criança. Estou convicto de que nenhuma criança — pelo menos nenhuma que seja mentalmente normal e menos ainda as bem dotadas intelectualmente — pode evitar o interesse pelos problemas do sexo nos anos anteriores à puberdade”. (Freud, 1908. v.IX, edição eletrônica ). Nos estudos de Castello (2006), essa faz uma citação interessante sobre a sexualidade infantil:

“Quando se aborda o tema da sexualidade infantil, um aspecto interessante começa a surgir, proveniente dos tabus que rodeiam os pais no momento de educar os filhos. Inicialmente os mesmos têm a sensação de estar falando de crianças que têm o desejo sexual latente em suas cabeças e em seus corações. É importante para os pais saber que, desde que nascem as crianças são seres sexuados. Sua sexualidade desenvolve-se da mesma maneira que o andar, o falar ou o pensamento. A realidade nos mostra que as crianças, atualmente, estão mais espertas, querem sabe mais, querem conversar, enfim, querem viver a sua sexualidade de forma intensa. Estes são sinais da evolução.” (Castello 2006. p. 97). Falar sobre sexualidade para crianças e adolescentes ainda é uma tabu em nossa sociedade, muitas são as questões que pais enfrentam para se tratar desse assunto: o próprio modo como que foram criados, a repressão sexual feita pelos adultos enquanto eram crianças e a não vivencia da própria sexualidade de uma forma saudável colaboram para que haja uma barreira na comunicação sobre esse tema que é essencial na evolução e constituição da espécie humana, somos seres sexuados. As drogas tem se tornado para as famílias um pesadelo, os pais sabem do mal que elas causam e da fragilidade em que são expostos diante do que não se pode controlar.

Zampieri (1996), em seu livro “Sociodrama Construtivista da Aids: método, de construção grupal na educação preventiva da Síndrome da imunodeficiência adquirida”, faz uma menção relevante com relação às drogas: “A socialização do conhecimento entre os usuários orienta as experiências, ensina como reconhecer seus efeitos, desenvolvem estratégias para evitar as chamadas “bad trips”- viagens alucinógenas ruins- e as overdoses. Os efeitos subjetivos de uma droga não se restringem ao seu caráter farmacológico. São uma mistura de sensações fisiológicas, psíquicas, crenças e representações reconhecidas pelo sujeito e pelo grupo como o “barato”, a sensação boa. O fator psicológico e o contexto sociocultural são fundamentais na habilidade de controlar as experiências com as drogas – o equilíbrio entre o consumo e os cuidados mínimos para preservar a saúde. O contexto social possibilita o desenvolvimento de regras, valores e padrões estilizados de comportamento ou rituais sociais que servem como um reforço e símbolo das escalas de valores adotados. Sabemos que as sociedades humanas, ao longo de sua história, associaram o uso de drogas e os ritos, por meio das quais elas controlavam seu consumo, bem como suas experiências subjetivas. A sociedade moderna vem recentemente abandonando os rituais tradicionais e sagrados”. (p.82). Em seu trabalho Zampieri (1996), faz uma referência aos estudos de Martine Xiberras (1989), em que descreve duas práticas ao consumo de drogas: as práticas leves e pesadas. A primeira prática é caracterizada pela moderação do consumo e formas leves, nos modos de absorção. A segunda apresentada pela violência das doses, freqüência e modos fortes de absorção. A primeira forma de uso está associada à criatividade e ao imaginário, acontecem nas relações sociais, à segunda está relacionada à obtenção de prazer e minimização da dor e são marcadas por viagens alucinógenas agressivas e depressivas. De acordo com Castello (2006), a família ocupa um lugar fundamental no processo de tratamento e regaste do indivíduo. O diálogo, a obtenção da informação, conhecimento e observação na conduta e atitudes dos filhos são fatores essenciais para a prevenção da drogadição entre nossas crianças e adolescentes de hoje e a família é uma sistema presente em todo o processo de ajuda e prevenção das drogas.

Método

Após ser realizado toda uma leitura de cunho introdutório e esclarecedor sobre os aspectos do processo educacional de filhos e a constituição familiar, que teve início o Projeto: “Educação de filhos – Reflexão e Prevenção dentro de uma visão sociodramático construtivista”. Através do método de trabalho, começamos a ter ferramentas e dados para o desenvolvimento e do que realmente pretendíamos atingir neste trabalho.

O Sociodrama Construtivista, método criado por Zampieri (1996), foi um instrumento essencial para a realização deste trabalho. O método sociodramático foi desenvolvido por etapas chamadas de aquecimento, dramatização e comentários. Para Zampieri (1996), o enfoque do Sociodrama está centrado na identidade comum, o drama coletivo, busca a subjetivação de uma realidade objetiva, por meio de processos co-conscientes e co-inconscientes na visão moreniana. O Sociodrama objetiva a subjetividade, vê o homem como um ser social, onde este ser através da ação passa a ser observado e mensurado e através desta ação conduz a realidade objetiva do grupo, há uma relação de experimentação e participação, aonde os sujeitos se tornam observadores participantes. Na fase de aquecimento, o diretor apresenta sua metodologia de trabalho ao grupo e utiliza técnicas de aquecimento grupal, chamado de aquecimento inespecífico. A seguir vem o aquecimento específico que é a preparação do grupo, em que ocorre o surgimento dos papéis sociais.

A fase de dramatização se processa a partir do surgimento dos conflitos interculturais vivenciados pelo grupo, assim ocorre à catarse coletiva. Após este momento o grupo volta aos seus papéis reais não mais representa o cenário dramático. A fase de comentários aponta para um compartilhar das vivências ocorridas e a realidade objetiva do grupo. (Zampieri, 1996).

Sujeito

Os sujeitos participantes foram os pais, avós cuidadores, responsáveis pelas crianças, freqüentadores do “Centro Educacional Fé e Alegria Paroquial Bernardo Sayão, escola religiosa conveniada com governo do Estado do Tocantins, no município de Gurupi – TO”. Participaram das atividades aproximadamente 127 pessoas nos nove encontros, entre casados, solteiros, união estável e viúvos, provenientes de classe média, idades de 20 a 60 anos.

Procedimento

Inicialmente contatamos todos os participantes através de convites os quais eram informadas do local, a hora e data da realização do trabalho com o tema a ser apresentado.

A duração de cada trabalho era de aproximadamente 2 horas, às vezes de acordo com a dinâmica e a produção do grupo se estendia com acréscimo de 30 min. no máximo. Cada encontro era trabalhado temas diferenciados e ao final de cada encontro eram distribuídas mensagens reflexivas relativas ao tema apresentado.

Os temas apresentados foram os seguintes:

1. Educação de filhos;

2. Limite, qual a medida certa?

3. Diálogo entre pais e filhos;

4. Valores na educação de filhos;

5. Ser pai, ser mãe nos dias atuais;

6. Perdas;

7. O papel dos avós na educação dos netos;

8. Sexualidade na infância e adolescência;

9. Drogas.

Resultados

A cada encontro os participantes eram levados a refletir de maneira preventiva como estão se comportando diante da educação de seus filhos, assim percebiam que não existe fórmula ou receita para educar filhos, mas que possam repensar as ações e atitudes na criação de seus filhos. Após cada encontro pudemos avaliar e perceber quais fatores que mais angustiam os pais com relação à educação de seus filhos, e os temas trabalhados também ajudou nesta observação e avaliação, pois são questões que para os pais causam bastante desconforto em assumir tais papéis na relação com seus filhos.

No decorrer do trabalho, pode-se observar o fortalecimento do grupo em que participantes freqüentes auxiliavam os novos participantes.

Os resultados foram obtidos de acordo com os temas trabalhados:

1. Educação de Filhos: O primeiro tema foi específico para que os participantes escolhessem os temas que seriam trabalhados nos próximos encontros de acordo com as necessidades. Alguns participantes deram a sua contribuição e falaram da importância para a educação de filhos. Os temas sugeridos pelos pais foram os seguintes:

Nº Temas:

1. Limites

2. Diálogo

3. Valores

4. Parentalidade nos dias atuais

5. Perdas

6. Educação de netos

7. Sexualidade

8. Drogas

2. Limite, qual a medida certa? Nesse sociodrama, a dificuldade dos pais em estar administrando no dia-a-dia os comportamentos inadequados dos filhos e a hora certa de impor limites e dizer não. Pai permissivo: faz tudo que os filhos querem: “Filha: mamãe, eu quero ir na casa da minha amiga”? Mãe: Não filha. Agora não, está na hora do almoço. É hora de ficar em casa. Filha: Ah. mãe, deixa vai…( e começa a chorar alto) A mãe termina concordando. “Mãe: tá bom, tá bom, pode ir”. (filha: Alice 8anos, mãe: D. Ana 36 anos)

Pai autoritário: não existe diálogo na relação pai e filho, não transmite amor, carinho ou atenção, utiliza a punição castigo, freqüentemente, usa palavras rudes e ásperas para educar: “ Eu te crio para ser gente, e não bicho”.(Paulo, 38anos)

Pai democrático: aquele que quer sempre ajudar o filho: “Tenta compreender o filho, mostra um mundo melhor, sabe ouvir e conversar”. (João, 40 anos)

3. Diálogo entre pais e filhos Pais apresentam dificuldade de ouvir seus filhos e manter uma comunicação saudável; a conversa ocorre através dos gritos. “Como é difícil eu conversar com a minha filha, eu falo ela faz tudo diferente”. (mãe, Mara,30 anos)

“Mas o que você faz é grita.” (amiga, Marta, 28 anos). “É lógico, ela não me ouve, vai dando um nervoso, um nervoso, nervoso eu vou gritando…”. (mãe, Mara, 30anos) “Nós temos dificuldade de ouvir e manter um diálogo com nossos filhos e na escola como professores”. (professora, Izabel, 39 anos).

4. Valores na educação de filhos No Sociodrama Construtivista sobre valores, as palavras/expressões que mais afetaram os participantes foram: valores Palavras/expressões Amor Carinho, coração, amizade, felicidade, paixão, saudade, dignidade, afeto. Saúde Muita tristeza, dor, dignidade, morte, vida, esperança, prevenção, solidariedade, sofrimento. Família Paz, carinho, vida, união, medo, amor, união familiar, vida feliz, casamento, saudade da família. Fé Amor, paz, alegria, união, amizade, religião, renascimento, fé e prosperidade. Senti Deus no meu coração. Honestidade Meu pai desde criança me ensinou a ser honesto e não pegar nada dos outros, hoje, as crianças não sabem mais o que é honestidade, elas pegam as coisas dos outros e acham que não tem nada. (pai, João, 40 anos).

5. Ser pai, ser mãe nos dias atuais. Os pais já buscam maior afetividade, diálogo e compreensão com os filhos e a importância do seu papel na educação, mas se sentem perdidos em como fazer, como comunicar e dialogar de forma saudável e afetiva com os filhos e também a divisão das tarefas entre o casal na hora da educação. “Pais não dão conta de ser pai. Eu cuidei dos meus filhos numa clínica para dependentes químicos, tive que ser pai e mãe ao mesmo tempo e nem por isso abandonei meus filhos”. (pai, Júlio, 38anos) “Ta difícil a conciliação de pai e mãe e dividir as tarefas entre pais e filhos”. (pai, Manoel, 43anos). “A maior causa dos problemas, hoje, é a falta de diálogo e participação entre pais e filhos”. (mãe, Luzia, 50anos). “Temos que participar de tudo na vida dos nossos filhos, sem sufocá-los, sabermos ouvir e estar preparado para o que vamos ouvir e entrar em um acordo”. (pais, Maria e Gerson, 38 e 40 anos).

6. Perdas As pessoas quando falam de suas perdas os sentimentos afloram, a emoção toma conta, há uma necessidade de desabafo e de ser ouvido e compreendido naquele momento, seja qual for à perda. “Quando morreu meu cachorrinho, chorei muito, parecia até uma pessoa que tinha morrido”. (mãe, Alice, 28anos). “As minhas filhas ainda choram a perda do pai, e eu me seguro para não chorar junto, tento ser forte, mas depois eu choro sem elas verem”. (mãe, Maria, Aparecida, 40anos).

7. O papel dos avós na educação dos netos Lembrar dos avós remeteu os participantes a um tempo de nostalgia e saudades, mesmo quem não tenha conhecido os avós trazem um retrato na memória. “Eu gostaria muito de ter conhecido minha avó, mais como não tive a oportunidade, imagino ela uma pessoa legal e acolhedora. Acolhendo sempre os netos e talvez os bisnetos, mais ela foi morar com Deus muito cedo apenas nos deixou a expectativa de como ela era. Vovó querida a tua imagem ficou no meu subconsciente sempre imagino como você era”. (platéia, Lívia, 26anos).

8. Sexualidade na infância e adolescência A dificuldade de falar com os filhos sobre a sexualidade, devido à falta de preparo que estes pais tiveram na infância e adolescência. Sexualidade ainda é um tema tabu para os pais da atualidade, as respostas são ainda camufladas. “Masturbação é uma cosquinha que a menina sente”. (mãe, Rita, 38 anos). “Eu nunca conversei sobre sexo com os meus pais”. (mãe, D. Maria, 56 anos).

9. Drogas No tema drogas, várias foram as palavras/expressões que surgiram para amenizar o problema nas famílias, muitos já conseguem falar abertamente com seus filhos sobre o perigo. As palavras/expressões mais usadas foram:

Palavras / expressões

Confiança

Valorização da vida Diálogo

Conselho Prevenção para futuros pontos como a gravidez indesejada

Prevenir para não virar fracassos futuros

Afetividade

Mais amor

Verdade Orientação

Família


Discussão

O trabalho possibilitou verificar as dificuldades que os pais encontram com relação à educação de filhos, os quais muitas das vezes procuram fórmulas para a solução de seus problemas. Nos estudos de Castello (2006), verifica-se que a dificuldade dos pais basicamente está centrada nas questões de direitos e deveres dos seus filhos, esses procuram uma maior independência e autonomia com relação às suas vontades e deixam os pais numa situação desconfortável e insegura com relação aos filhos. Outro fator significativo, nesse trabalho, foi com relação às características de famílias que a nossa sociedade apresenta atualmente, perdemos a família clássica (pai, mãe e filhos), hoje, temos famílias com aspectos bem diferenciados como: casados, solteiros, união estável e viúvos. Apresentam-se em famílias nucleares, matrifocais e ampliadas de acordo com estudos de Carvalho (2005).

Muitos pais vêem à importância na educação de filhos: “Este trabalho é muito importante para que os pais aprendam a lidar com seus filhos”. (mãe, Elizabete, 47anos). Na questão dos limites, a dificuldade dos pais em limitar os comportamentos inadequados dos filhos torna-se difícil, pois nunca sabem a hora de dizer um não ou intervir numa situação problema. Através do Sociodrama Construtivista, método criado por Zampieri (1996), pode-se verificar a dificuldade de limitação dos pais para com seus filhos. Filha: “Mamãe, eu quero ir à casa da minha amiga”.. Mãe: “não filha, agora não, está na hora do almoço, é hora de ficar em casa”.. Filha: “ah. Mãe deixa vai…” (começa a chorar alto). A mãe termina concordando. Mãe: “tá bom, tá bom, pode ir”. (mãe, D.Ana 36 anos, Alice 8anos). Para Minuchin (2003), a família possui padrões que governam a estrutura familiar, bem como o seu funcionamento, delinea sua gama de comportamentos e facilita sua interação. Os padrões de interação são os que regem a estrutura do sistema e funcionamento familiar. A emoção, na hora de colocar limites, nos filhos é fundamental de acordo com os estudos de Gottman (1997), pais que usam emocionalmente a inteligência para impor limites a seus filhos obterão sucesso. “… tentar compreender o filho e mostrar um mundo melhor, saber ouvir, conversar”. (pai, João, 46 anos).

“O diálogo entre pais e filhos tem que ser além da conversa, temos que aprender a escutar os filhos”. (pai, Otacílio, 42anos). “Nós temos dificuldade de ouvir e manter um diálogo com os nossos filhos e na escola como professores.” (professora, Izabel, 39anos). Gardner (1995), em seus estudos, coloca em fator importante para o diálogo entre pais e filhos, fortalecer o convívio familiar através de jogos, conversas, clima de confiança e que esses fatores sejam levados também para as outras esferas da vida do indivíduo, bem como a sua participação nas atividades escolares e educativas dos filhos. Passar valores saudáveis, significativos e de maneira positiva na vida dos filhos têm sido uma tarefa árdua dos pais, devido à perda de valores significativos em que a nossa sociedade se encontra. Os pais buscam os seus pais nas educações anteriores de suas vidas.

“Meu pai desde criança, me ensinou a ser honesto e não pegar nada dos outros, hoje, às crianças não sabem mais o que é honestidade, elas pegam as coisas dos outros e acham que não tem nada”. (pai, João, 40anos ). Atualmente pais procuram respostas para a educação de filhos, neste trabalho ouvi-se o desabafo dos pais. Observamos que todos sabem o que devem fazer, mas não sabem como fazer para serem pais na atualidade. Na fala dos pais, pode-se perceber a constatação de Ariès (1975), de que a imagem da família moderna não há muita representação de amor, mas as preocupações com as crianças estão nelas enraizadas. “Pais não dão conta de ser pai. Eu cuidei de meus filhos numa clínica para dependentes químicos, tive que ser pai e mãe ao mesmo tempo e nem por isso abandonei meus filhos”. (pai, Júlio, 38anos). Segundo Risi e Teixeira (2006), a família apresenta um conceito de sistema sócia, formado por indivíduos relacionados por laços de afetos, lealdades, comprometidos a permanecer unidos através de anos. “Temos que participar de tudo na vida de nossos filhos sem sufocá-los, sabermos ouvir e estar preparados para o que vamos ouvir e entrar em um acordo”. (pais, Maria e Gerson, 38e 40anos). As perdas que a família passa, apresentam-se encaixadas em todo o contexto familiar.

As perdas podem ocorrer das pequenas coisas para as mais significativas, que adquirem na vida do indivíduo uma conotação bastante difíceis, muitas das vezes complexas na hora da família lidar e elaborar. No Sociodrama Construtivista sobre “Perdas necessárias”, pudemos percebe-se o que Castello (2006), em seus estudos, quando descreve as perdas de uma forma abrangente, como a perda de um animal de estimação, as perdas da infância, de uma babá querida e a perda de um ente muito querido”. “Quando morreu meu cachorrinho, chorei muito, parecia até uma pessoa que tinha morrido”.

(Alice, 28 anos). “As minhas filhas ainda choram a perda do pai e eu me seguro para não chorar junto, tento ser forte, mas depois eu choro sem elas verem”. (mãe, Maria Aparecida, 40 anos). Os avós também se mostram participativos na educação de seus netos, algumas falas foram bastante significativas para retratar o papel dos avós na atualidade, como esses entram na educação dos netos e no apoio aos seus filhos. A afetividade entre avós e netos também é um fator significativo, pois marca a vida da criança, as lembranças, o contar histórias; são importantes na relação dos avós com os netos. “… Eu gostava muito da senhora, lembro dos bolos que a senhora fazia para nós e você era muito boa e ensinou muitas coisas boas como caráter, dignidade, honestidade de ser a pessoa que sou hoje”. (neta, Flávia, 23anos). Neste estudo, observa-se também que os avós atendem a necessidade dos filhos através de cuidados voluntários de acordo com os estudos de Maldonado (2004), mas a educação é dos pais. “Os meus netos, eu não educo nada, quem educa é meus filhos”. (avó, D. Justina, 68anos). Segundo Maldonado (2004), mães e avós nem sempre vão concordar em tudo, podem ocorrer pontos divergentes o interessante é chegarem a um acordo. “Em brigas e discussões eu não entro no meio, mas deixo meus filhos resolverem”. (avó, D. Maria 73anos).

A sexualidade é um tabu para os pais dialogarem com seus filhos, muitos são os fatores que não permitem uma comunicação positiva neste aspecto. Muitos estudos comprovaram que “se eu não lido bem com a minha sexualidade, terei dificuldade de falar ou viver a sexualidade”. De acordo com os estudos de Castello (2006), um aspecto interessante provém do tabu dos próprios pais no momento de educar os filhos. “Eu nunca conversei sobre sexo com meus pais”. (platéia, Maria 56 anos). “Aprendi sobre sexo lendo revistas e através de colegas”. (platéia, Roberto, 35 anos). Segundo os estudos de Freud (1908), sobre as teorias sexuais das crianças, o primeiro ponto relata que os adultos não atribuem à criança nenhuma atividade sexual, não apresenta nenhum interesse ao desenvolvimento sexual infantil.
“Eu brincava na rua de balança caixão, e não tinha malícia, hoje se te malícia em tudo”. (Platéia, Ângela, 28anos).

Com relação às drogas, os pais estão cientes do perigo que essas apresentam e do papel importante que eles exercem na orientação dos filhos. “Nós, pais, devemos dar e mostrar responsabilidade e limite da vida mostrando que as drogas e a bebida não fazem ser uma pessoa responsável e de caráter”. (pai, Roberto, 35anos). Castello (2006) nos coloca que a família ocupa um lugar fundamental no processo de tratamento e resgate do indivíduo contra as drogas. “A família é o núcleo central para uma boa formação…”. (pai, Mario, 40 anos). Nos relatos dos pais presentes, sempre demonstraram que a prevenção, o diálogo, a confiança, o afeto, a verdade e o amor, são fatores que auxiliam na prevenção e educação contra as drogas. “Para prevenir as drogas, precisamos dar confiança aos nossos filhos, deixando então espaço para que eles possam nos contar sobre suas vidas, com dúvidas e decisões. Comecemos a depositar confiança agora, enquanto ainda são pequenas crianças”. (platéia, Lauro, 29anos). “Diálogo e acompanhamento são os fatores fundamentais para a prevenção não só das drogas, mas também de tudo e qualquer comportamento indesejável que possa influenciar no desenvolvimento de qualquer indivíduo”. (platéia, Francisca, 36anos).


Considerações finais

Desenvolver este trabalho foi de suma importância para podermos aprimorar e compreender como os pais estão nos dias atuais, e lidam com certas questões que são significativas para a educação de seus filhos. Vive-se em uma sociedade em que sofre constantes modificações de culturas, valores morais, espirituais e de comportamentos propriamente ditos. Perceber as diferenças entre valores antigos e da modernidade; encontram-se os pais que ainda vivem pautados em modelos de intergeracionalidade e como esses afetam a criação de seus filhos. O modo como fomos educados não nos permite mais educar nossos filhos. A maneira como vemos e percebemos o mundo talvez não seja da mesma forma que nossos filhos estão vivenciam. Através do Sociodrama Construtivista de Zampieri (1996), observa-se o fenômeno ocorrer na educação de filhos e como se faz necessária a sistematicidade deste trabalho. Precisamos pensar e repensar as nossas ações, atitudes e comportamentos líquidos nas nossas relações humanas. É interessante questionarmos que mundo queremos para os nossos filhos. Que educação pretendemos oferecer? Finalizo as considerações com as palavras de Anthony Gideens, citado por Bauman (2004). “O relacionamento puro, tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se continua apenas enquanto ambas as partes imaginarem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação”.(p.111). Necessitamos ensinar aos nossos filhos o valor de uma construção sólida nas relações humanas e sentir o contato com o outro, uma das possibilidades que teremos, para que isso aconteça será através de uma educação dos nossos filhos para as futuras gerações que estão por vir.

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